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Mostrando postagens com o rótulo Sophia de Mello Breyner
Porque Porque os outros se mascaram mas tu não Porque os outros usam a virtude Para comprar o que não tem perdão Porque os outros têm medo mas tu não Porque os outros são os túmulos caiados Onde germina calada a podridão. Porque os outros se calam mas tu não. Porque os outros se compram e se vendem E os seus gestos dão sempre dividendo. Porque os outros são hábeis mas tu não. Porque os outros vão à sombra dos abrigos E tu vais de mãos dadas com os perigos. Porque os outros calculam mas tu não. Sophia de Mello Breyner
Ouve: Como tudo é tranquilo e dorme liso; Claras as paredes, o chão brilha, E pintados no vidro da janela O céu, um campo verde, duas árvores. Fecha os olhos e dorme no mais fundo De tudo quanto nunca floresceu. Não toques nada, não olhes, não te lembres. Qualquer passo Faz estalar as mobílias aquecidas Por tantos dias de sol inúteis e compridos. Não te lembres, nem esperes. Não estás no interior dum fruto: Aqui o tempo e o sol nada amadurecem. Sophia de Melo Breyner
Porque os outros se mascaram mas tu não Porque os outros usam a virtude Para comprar o que não tem perdão. Porque os outros têm medo mas tu não. Porque os outros são os túmulos caiados Onde germina calada a podridão. Porque os outros se calam mas tu não. Porque os outros se compram e se vendem E os seus gestos dão sempre dividendo. Porque os outros são hábeis mas tu não. Porque os outros vão à sombra dos abrigos E tu vais de mãos dadas com os perigos. Porque os outros calculam mas tu não. Sophia de Mello Breyner Andresen
Ausência Sophia de Mello Breyner Num deserto sem água Numa noite sem lua Num país sem nome Ou numa terra nua Por maior que seja o desespero Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
Retrato de uma princesa desconhecida Sophia de Mello Breyner Para que ela tivesse um pescoço tão fino Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos Para que a sua espinha fosse tão direita E ela usasse a cabeça tão erguida Com uma tão simples claridade sobre a testa Foram necessárias sucessivas gerações de escravos De corpo dobrado e grossas mãos pacientes Servindo sucessivas gerações de príncipes Ainda um pouco toscos e grosseiros Ávidos cruéis e fraudulentos Foi um intenso desperdiçar de gente Para que ela fosse aquela perfeição Solitária exilada sem destino
Mãos Sophia de Mello Breyner Côncavas de ter Longas de desejo Frescas de abandono Consumidas de espanto Inquietas de tocar e não prender.