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Mostrando postagens com o rótulo Thiago de Mello
Poema perto do fim A morte é indolor. O que dói nela é o nada que a vida faz do amor. Sopro a flauta encantada e não dá nenhum som. Levo uma pena leve de não ter sido bom. E no coração, neve. Thiago de Mello
As ensinanças da dúvida Thiago de Mello Tive um chão (mas já faz tempo) todo feito de certezas tão duras como lajedos. Agora (o tempo é que o fez) tenho um caminho de barro umedecido de dúvidas. Mas nele (devagar vou) me cresce funda a certeza de que vale a pena o amor.
Ainda não é o fim Thiago de Mello Escondo o medo e avanço. Devagar. Ainda não é o fim. É bom andar, mesmo de pernas bambas. Entre os álamos, no vento anoitecido, ouço de novo (com os mesmos ouvidos que escutaram “Mata aqui mesmo?”) um riso de menina. Estou quase canção, não vou morrer agora, de mim mesmo, mal livrado de recente e total morte de fogo. A vida me reclama: a moça nua me chama da janela, e nunca mais me lembrarei sequer dos olhos dela. Posso seguir andando como um homem entre rosas e pombos e cabelos que em prazo certo me devolverão ao sonho que me queima o coração. Muito perdi, mas amo o que sobrou. Alguma dor, pungindo cristalina, alguma estrela, um rosto de campina. Com o que sobrou, avanço, devagar. Se avançar é saber, lâmina ardendo na flor do cerebelo, porque foi que a alegria, a alegria começando a se abrir, de repente teve fim. Mas que avançar no chão ferido seja também saber o que fazer de mim.
Como um rio Thiago de Mello Ser capaz, como um rio que leva sozinho a canoa que se cansa, de servir de caminho para a esperança. E de lavar do límpido a mágoa da mancha, como o rio que leva, e lava. Crescer para entregar na distância calada um poder de canção, como o rio decifra o segredo do chão. Se tempo é de descer, reter o dom da força sem deixar de seguir. E até mesmo sumir, para, subterrâneo, aprender a voltar e cumprir, no seu curso, o ofício de amar. Como um rio, aceitar essas súbitas ondas de águas impuras que afloram a escondida verdade nas funduras. Como um rio, que nasce de outros, saber seguir, junto com outros sendo e noutros se prolongando e construir o encontro com as águas grandes do oceano sem fim. Mudar em movimento, mas sem deixar de ser o mesmo ser que muda. Como um rio.
Soma de malogros noves fora tudo Thiago de Mello Com o desperdício de cores, selo o fim dos meus amores. Amor pode ser começo de si mesmo a cada instante. Fico no fim que mereço. Sei que perdi: me apostei inteiro. Mas aprendi que não dependo (e ninguém) só de mim para me dar. É repartido que posso vir um dia a merecer a flama ardendo serena, que resolve a diferença entre viver e morrer. Sei que perdi. Mas ganhei.
Poema concreto Thiago de Mello O que tu tens e queres saber (porque te dói) não tem nome. Só tem (mas vazio) o lugar que abriu em tua vida a sua própria falta. A dor que te dói pelo avesso, perdida nos teus escuros, é como alguém que come não o pão, mas a fome. Sofres de não saber o que tens e falta num lugar que nem sabes, mas que é tua vida, quem sabe é teu amor. O que tu tens, não tens.