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Mostrando postagens com o rótulo Guimarães Rosa
"Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total". Tem Lacan pra estudar, mas G. Rosa não tá deixando.
"[...] Tio Terêz o levara à beira da mata, ia tirar taquaras. [...]  - Miguilim, este feixinho está muito pesado para você?.  - Tio Terêz, está não. Se a gente puder ir devagarinho como precisa, e ninguém não gritar com a gente para ir depressa demais, então eu acho que nunca que é pesado". Guimarães Rosa, "Manuelzão e Miguilim".
“Chegando na encruzilhada eu tive de resolver: Para a esquerda fui, contigo.  Coração soube escolher!”  (Guimarães Rosa, em "Sagarana").
Gargalhada Guimarães Rosa Quando me disseste que não mais me amavas, e que ias partir, dura, precisa, bela e inabalável, com a impassibilidade de um executor, dilatou-se em mim o pavor das cavernas vazias... Mas olhei-te bem nos olhos, belos como o veludo das lagartas verdes, e porque já houvesse lágrimas nos meus olhos, tive pena de ti, de mim, de todos, e me ri da inutilidade das torturas predestinadas, guardadas para nós, desde a treva das épocas, quando a inexperiência dos Deuses ainda não criara o mundo...
Nic, por email. Lindo, como sempre. Elegia Guimarães Rosa Teu sorriso se abriu como uma anêmona entre as covinhas do rosto infantil. Estavas de pijama verde, nas almofadas verdes, os pezinhos nus, as pernas cruzadas, pequenina, como um ídolo de jade que teve por modelo uma princesa anamita. Tuas mãos sorriam, teus olhos sorriam, o liso dos teus cabelos pretos sorria, e mesmo me sorriste, e foi a única vez...
Roxo Guimarães Rosa Deixa que o levem, agora, que a mulher cristã da sala já quer ir embora... Ela desceu dos teus olhos de choro, magnética e profunda, como um rastro de ametistas mortas... Passou pelas olheiras fundas, pousou nos ramalhetes de saudades, tocou nas fitas das coroas, longas como equimoses... E agora, vê: vai passeando, de leve, pelos lábios, pelo rosto, pelo corpo, pelos dedos, duros do teu esposo morto... Ela quer ir embora... Deixa que o levem, agora...
No segundo ou terceiro dia em que conversei com o Mario, ele me deu este texto. Tirou xerox pra mim e tudo mais, num desses rompantes de delicadeza nos quais ele se mostra a pessoa mais amável do planeta (pra logo depois voltar a se fingir de ogro, claro). Ele nem vai se lembrar, mas depois disso o texto passou a ser dele, assim como muitas outras coisas que a gente adora e divide.  Então, pro Mario, que anda meio tristinho, Guimarães Rosa: A menina de lá Guimarães Rosa Sua casa ficava para trás da serra do Mim, quase no meio de um brejo de água limpa, lugar chamado o Temor-de-Deus. O Pai, pequeno sitiante, lidava com vacas e arroz; a Mãe, urucuiana, nunca tirava o terço da mão, mesmo quando matando galinhas ou passando descompostura em alguém. E ela, menininha, por nome Maria, Nhinhinha dita, nascera já muito para miúda, cabeçudota e com olhos enormes. Não que parecesse olhar ou enxergar de propósito. Parava quieta, não queria bruxas de pano, brinquedo nenhum, sempre sentadinha onde s...
Impaciência Guimarães Rosa (duas variações sobre o mesmo tema) I Eu queria dormir longamente... (um sono só...) Para esperar assim o divino momento que eu pressinto, em que hás de ser minha... Mas... e se essa hora não devesse chegar nunca?... Se o tempo, como as outras cousas todas, te separa de mim?!... Então... ah! então eu gostaria que o meu sono, friíssimo e sem sonhos (um sono só...) não tivesse mais fim... II Se eu pudesse correr pelo tempo afora, vertiginosamente, futuro adiante, saltando tantas horas tediosas, vazias de ti, e voar assim até o momento de todos os momentos, em que hás de ser minha!... Mas... e se esse minuto faltar nas areias de todas as ampulhetas?... E se tudo fosse inútil: a máquina de Wells, as botas de sete léguas do Gigante?!... Então... ah!, então eu gostaria de desviver para trás, dia por dia, para parar só naquele instante, e nele ficar, eternamente, prisioneiro... (Tu sabes, aquele instante em que sorrias e me fizeste chorar...)
Ri muito desta parte ontem à noite: . "(...) Mas eu tinha até ali agarrado uma esperança. Tinha ouvido dizer que, quando canoa vira, fica boiando, e é bastante a gente se apoiar nela, encostar um dedo que seja, para se ter tenência, a constância de não afundar, e aí ir seguindo, até sobre se sair no seco. Eu disse isso. E o canoeiro me contradisse: - 'Esta é das que afundam inteiras. É canoa de peroba. Canoa de peroba e de pau-d'óleo não sobrenadam...' Me deu uma tontura. O ódio que eu quis: ah, tantas canoas no porto, boas canoas boiantes, de faveira ou tamboril, de imburana, vinhático ou cedro, e a gente tinha escolhido aquela... Até fosse crime, fabricar dessas, de madeira burra! (...)". . João Guimarães Rosa, "Grande sertão: veredas"