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Um anjo vem todas as noites: senta-se ao pé de mim, e passa sobre meu coração a asa mansa, como se fosse meu melhor amigo. Esse fantasma que chega e me abraça (asas cobrindo a ferida do flanco) é todo o amor que resta entre ti e mim, e está comigo. Lya Luft
A Frase L. F. Veríssimo O melhor texto de publicidade que eu já vi era assim: uma foto colorida de uma garrafa de uísque Chivas Regal e, embaixo, uma única frase: "O Chivas Regal dos uísques”. O anúncio é americano. Em algum anuário de propaganda, desses que a gente folheia nas agências em busca de idéias originais na esperança de que o cliente não tenha o mesmo anuário, deve aparecer o nome do autor do texto. No dia em que eu descobrir quem é, mando um telegrama com uma única palavra. Um palavrão. Que tanto pode expressar surpresa quanto admiração, inveja, submissão ou raiva. No meu caso, significará tudo ao mesmo tempo. "Palavrão PT Segue carta explosiva PT Abraços." Duvido que o autor da frase receba o telegrama. O cara que escreveu um anúncio assim não recebe mais telegramas. Não atende nem mais a porta. Não se mexe da cadeira. Não lê mais nada, não vê televisão e fala somente o indispensável. Passa o dia sentado, de pernas cruzadas, com o olhar perdido. Alimenta-se ...
Camadas Leila Míccolis Ser livre não é manter-se intocável, sem entregas, nem se dar também, às cegas, a tudo o que nos agrade. Ser livre é viver a idade que sente o nosso querer, é viver conforme a vida é sobretudo viver. E viver é mergulhar pra emergir com o submerso, ampliando,a cada dia, os limites do universo.
Escolher J. Cabral de Melo Neto é sempre tarefa difícil. Amo, amo, amo. Olha aí um dos meus preferidos: A educação pela pedra João Cabral de Melo Neto Uma educação pela pedra: por lições; para aprender da pedra, frequentá-la; captar sua voz inenfática, impessoal (pela de dicção ela começa as aulas). A lição de moral, sua resistência fria ao que flui e a fluir, a ser maleada; a de poética, sua carnadura concreta; a de economia, seu adensar-se compacta; lições da pedra (de fora para dentro, cartilha muda), para quem soletrá-la. Outra educação pela pedra: no Sertão (de dentro para fora, e pré-didática). No Sertão a pedra não sabe lecionar, e se lecionasse, não ensinaria nada; lá não se aprende a pedra; lá a pedra, uma pedra de nascença, entranha a alma.
De tanto te pensar, me veio a ilusão. A mesma ilusão Da égua que sorve a água pensando sorver a lua. De te pensar me deito nas aguadas E acredito luzir e estar atada Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas. De te sonhar, tenho nada, Mas acredito em mim o ouro e o mundo. De te amar, possuída de ossos e abismos Acredito ter carne e vadiar Ao redor dos teus cismos. De nunca te tocar Tocando os outros Acredito ter mãos, acredito ter boca Quando só tenho patas e focinho. De muito desejar altura e eternidade Me vem a fantasia de que Existo e Sou. Quando sou nada: égua fantasmagórica Sorvendo a lua n'água. Hilda Hilst
Indiferença Guilherme de Almeida Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto. E assim fazemos, como se com isto, pudéssemos varrer nosso passado. Passo esquecido de te olhar, coitado! Vais, coitada, esquecida de que existo. Como se nunca me tivesses visto, como se eu sempre não te houvesse amado Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos, se quando passo, teu olhar me alcança se meus olhos te alcançam quando vais. Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos. Volta-nos sempre a pálida lembrança. Daqueles tempos que não voltam mais!
Ambiciosa Florbela Espanca Para aqueles fantasmas que passaram, Vagabundos a quem jurei amar, Nunca os meus braços lânguidos traçaram O voo dum gesto para os alcançar ... Se as minhas mãos em garra se cravaram Sobre um amor em sangue a palpitar ... - Quantas panteras bárbaras mataram Só pelo raro gosto de matar ! Minh’ alma é como a pedra funerária Erguida na montanha solitária Interrogando a vibração dos céus ! O amor dum homem ? - Terra tão pisada, Gota de chuva ao vento baloiçada ... Um homem ? - Quando eu sonho o amor de um Deus ! ...
Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é a sombra De árvores alheias. A realidade Sempre é mais ou menos Do que nós queremos. Só nós somos sempre Iguais a nós-próprios. Suave é viver só. Grande e nobre é sempre Viver simplesmente. Deixa a dor nas aras Como ex-voto aos deuses. Vê de longe a vida. Nunca a interrogues. Ela nada pode Dizer-te. A resposta Está além dos deuses. Mas serenamente Imita o Olimpo No teu coração. Os deuses são deuses Porque não se pensam. (Ricardo Reis, 1-7-1916)
Fernando Pessoa (1934) A ciência, a ciência, a ciência... Ah, como tudo é nulo e vão! A pobreza da inteligência Ante a riqueza da emoção! Aquela mulher que trabalha Como uma santa em sacrifício, Com quanto esforço dado ralha! Contra o pensar, que é o meu vício! A ciência! Como é pobre e nada! Rico é o que alma dá e tem. [...]
Álvaro de Campos (1935) Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas. As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas. Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas. Quem me dera no tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas. A verdade é que hoje As minhas memórias Dessas cartas de amor É que são Ridículas. (Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas).
Alberto Caeiro (...) Assim tudo o que existe, simplesmente existe. O resto é uma espécie de sono que temos, Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.
Grude Elisa Lucinda As noites que não são contigo eu não exatamente durmo, eu rolo. Você não há não há desenrolar de coxas, colchas e entremeios. Não há dobrar de joelhos se não para rezar. Então semeio uma concórdia de lençóis uma não solidão de cafunés nos cangotes uma não masturbação. Adormeço Você é o cheiro que ficou de nós eu respiro pós dos sonhos eu latejo eu planejo eu oro. As noites que não são contigo, eu não exatamente durmo, eu enrolo.
Canção Cecília Meireles Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; - depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar Minhas mãos ainda estão molhadas do azul das ondas entreabertas, e a cor que escorre de meus dedos colore as areias desertas. O vento vem vindo de longe, a noite se curva de frio; debaixo da água vai morrendo meu sonho, dentro de um navio... Chorarei quanto for preciso, para fazer com que o mar cresça, e o meu navio chegue ao fundo e o meu sonho desapareça. Depois, tudo estará perfeito; praia lisa, águas ordenadas, meus olhos secos como pedras e as minhas duas mãos quebradas.
Circulou naqueles e-mail enjoados como se fosse do Drummond, mas é do Arthur da Távola. Acho alguns trechos bem chatinhos, mas resolvi publicar aqui os que acho mais legais. . Ter ou não ter namorado Arthur da Távola Quem não tem namorado é alguém que tirou férias de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, de saliva, de lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiriu, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida, ou bandoleira; basta um olhar de compreensão ou mesmo aflição. Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, e dois ...
Retrato Arthur da Távola A dolorosa e lenta refeição do velho. Sopas e papas insepultas voracidade morta l assa obrigação de alimentar. Saliva é cuspe o cuspe é baba na dócil refeição do velho. A lentidão exasperante de quem come para não morrer e morrerá porém. Só. A dolorosa e benta refeição do velho. A carne insulta-lhe a indecisão do dente, dor e cansaço no deglutir. Tudo é torpor ou gole na fome sem sabor da refeição do velho.
Balada dos Casais Affonso Romano de Sant’Anna Os casais são tão iguais, por isto se casam e anunciam nos jornais. Os casais são tão iguais, por isto se beijam fazem filhos, se separam prometendo não se casarem jamais. Os casais são tão iguais que além de trocar fraldas, tirar fotos, acabam se tornando avós e pais. Os casais são tão iguais que se amam e se insultam e se matam na realidade e nos filmes policiais. Os casais são tão iguais que embora jurem um ao outro amor eterno sempre querem mais.
Adélia Prado As galinhas com susto abrem o bico E param daquele jeito imóvel - ia dizer imoral - as barbelas e as cristas envermelhadas, só as artérias palpitando no pescoço. Uma mulher espantada com sexo : mas gostando muito.
Amor Feinho Adélia Prado Eu quero amor feinho. Amor feinho não olha um pro outro. Uma vez encontrado, é igual fé, não teologa mais. Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo e filhos tem os quantos haja. Tudo que não fala, faz. Planta beijo de três cores ao redor da casa e saudade roxa e branca, da comum e da dobrada. Amor feinho é bom porque não fica velho. Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é: eu sou homem você é mulher. Amor feinho não tem ilusão, o que ele tem é esperança: eu quero amor feinho.
Lá fora Ana C. Cesar há um amor que entra de férias. Há um embaçamento de minhas agulhas nítidas diante dessa boca bisca de mulher. Há um placar visível em altas horas, pela persiana deste hotel, fatal, que diz: fiado, só depois de amanhã e olhe lá onde a minha lâmina cortante, sofrendo de súbita cegueira noturna, pendura a conta e não corta mais, suspendendo seu pêndulo de Nietzsche ou Poe por um nada que pisca e tira folga e sai afiado para a rua como um ato falho deixando as chaves soltas em cima do balcão.
Diário de Bugrinha (Excertos) 22.1.1925 - O nome de um passarinho que vive no cisco é joão­ninguém. Ele parece com Bernardo. 23.2 - Lagartixas têm odor verde. 2.3 - Formiga é um ser tão pequeno que não agüenta nem neblina. Bernardo me ensinou: Para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas. Achei fácil. 2.3 - Quem ama exerce Deus — a mãe disse. Uma açucena me ama. Uma açucena exerce Deus? 2.3 - Eu queria crescer pra passarinho... 5.3 - A voz de meu avô arfa. Estava com um livro debaixo dos olhos. Vô! o livro está de cabeça pra baixo. Estou deslendo. 5.6 - O frio se encolheu nos passarinhos. Ó noite congelada de jacintos! Eu estou transida de pétalas. 7.8 - O pai trouxe do campo um filhote de urubu. Ele é branco e já fede. 12.8 - As garças descem nos brejos que nem brisas. Todas as manhãs. 10.9 - Um sapo feneceu 3 borboletas de uma vez atrás de casa. Ele fazia uma estultícia? 13.9 - A mãe bateu no Mano Preto. Falou que eu não apanhava porque não dei moti...