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Alugar um filme pornô pode ser mico por Raq Affonso . Você está com o seu pretê em casa no domingo à tarde. E está um tédio. Vocês já viram tudo que está passando na TV, inclusive entrevistas da Hortência nas Olimpíadas e churrasco do pessoal do No Limite no Faustão. Daí você tem uma grande idéia: pegar um filme pornô na locadora! Isso, vocês se vestem e vão todos animadinhos. Só que quando chegam lá descobrem que a sessão de filmes de sacanagem é no andar superior, e você vai ter que subir uma escadinha constrangedora. Todos vão olhar, porque tem uma placa gigante escrito Erótico, apontando pra lá. A saída: mandar seu pretê sozinho. Enquanto isso, você fica disfarçadamente olhando as fitas da sessão Filmes Europeus. Só que isso não adianta de nada, porque quando vocês vão pagar, a ficha é no seu nome. Então você tem que assinar um recibo escrito: Tesão Anal da Mulher Gato! Como pode existir um filme com um nome assim e você ainda estar alugando isso?! Será que fica registrado na sua f...
O beijo, o “xêro” e os seus arredores De Xico Sá. Do cheiro ou simplesmente "xêro", como se diz na lexicografia caseira e no fonema nordestino. Pense numa coisa diferente do beijo. Donde o beijo é simples e universalíssimo. O cheiro é mais para os esquimós e seus narizes gelados, encostam um no outro e cheiram, cheiram nos iglus... Nos modos de macho & modinhas de fêmeas do Nordeste, idem ibdem, o cheiro é mais importante até mesmo do que o beijo na boca. No pescoço, de preferência.No cangote, na seqüência. Aspirar até o pó das almas que escorre feito ouro em Serra Pelada no gogó das existências. Sugar, sugar o cheiro do sabonete barato e genérico de supermercado ou o Lancôme das negas mais ricas.Às vezes nem carece encostar o nariz de Gogol, sempre suspeito, sempre perdido depois do corte epistemológico do barbeiro russo. Basta passar por perto.Como no ônibus.No corredor da repartição,na firma, na fila do banheiro, no bar, no basfond, onde a abelha sentir o bafo de uma ...
"ah, compra um oclão com armação vermelha, tá? Sonhei que vc tinha um assim. Redondão, meio Jackie. E vc estava um arraso com ele". Amiga fodona e hilária. Essa é a Du.
"Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa". Clarice Lispector . Que difícil achar a medida.
O gigante Tati Bernardi Ontem eu ensaquei o Lorenzo, nosso filho que você me deu em uma das nossas milhares de brigas sem fim e sem jeito. Ele me olhou triste, passivo e impotente, assim como eu também olhei para ele e assim como tenho olhado para o mundo. Dei um abraço forte no nosso urso cinza e chorei que nem uma criancinha de cinco anos que sofre porque está com rinite alérgica e tem que tirar os brinquedos de pelúcia do quarto. A realidade acabando com a brincadeira mais uma vez. Depois foi a vez das fotos, eu beijei uma por uma e guardei numa caixa, coloquei a caixa num canto escondido e alto do armário, no mesmo canto escuro e esquecido por onde anda meu coração. Olhei meu lindo vestido novo e pensei o quanto ele era feio porque eu nunca o colocaria para você. Olhei meus sapatos novos e pensei como seria triste usá-los sem nem saber direito para onde ir. Olhei minha velha cara no espelho e tive muita pena do quanto aquele rosto ainda ia esbugalhar os olhos para o teto lembrando ...
Fernando tentando me conquistar novamente. Ganhou, claro. . POESIA NEO-CONCRETA DA DRI Sinapse, Sinopse, Sinepse, Canteiros de luz no japão Caminhos de cor sem sentir Palavras de amor na sarjeta A Dri adora sua lambreta
Os Idiotas Walter Salles . Praia de Lopes Mendes, Ilha Grande, domingo de manhã. Como é uma área de proteção ambiental, não há carros. Chega-se até ali caminhando por uma longa e bem-preservada trilha através da mata atlântica ou pelo mar, de barco. Por causa das férias escolares, há muitas crianças na areia. De repente, o cenário se transforma numa cena de "Apocalypse Now", de Francis Ford Coppola. Um helicóptero dá um rasante na praia. Depois chega outro, e logo mais um terceiro. Ferindo a lei, pousam ao lado da areia, perto de uma pequena igreja construída pelos pescadores da região -uma das únicas edificações da praia. Os passageiros saltam. Você já os viu naquelas revistas que glorificam "celebridades". Caminham pela praia, dão um rápido mergulho, mas não ficam. Logo partem para atazanar uma outra freguesia, não sem antes darem novos rasantes na praia. O negócio não é desaparecer na geografia de um lugar. O negócio é ser visto. Não interessam as tradições do l...
O que eu aprendi com os meus ex namorados Nina Lemos, do site 02 Neurônio "É passado." Depois que ele falou isso, com aquela frieza macha que a gente bem conhece, decidi que a dor pode ser um pouco presente. Mas ele é passado mesmo. Então, comecei a lembrar o que eu aprendi com os meus ex namorados. Aprendi muitas coisas. Com o primeiro, aprendi a andar de moto, na garupa, claro. E a me preocupar com homem drogado. Sim, era o primeiro! Com um deles, aprendi coisas sobre bicicleta, ele era biker fanático. Até vi um vídeo sobre bicicleta. E fingi que gostei por um tempo. (...) Com um ex namorado muito do passado aprendi a gostar de REM (isso foi realmente uma coisa boa) e a ser a outra (isso foi realmente uma coisa ruim). Mas ele também me ensinou muitas coisas sobre o rock de Brasília. Dois deles fizeram músicas para mim e eu virei musa. Dois deles me pediram em casamento. Com um eu aceitei. Um deles fez fotos lindas minhas pelada. Um deles me ajudou a mudar os móveis da minh...
"Amo o funk, mas acho que algumas coisas deixam a mulher muito vulgar. Se você paga motel para o seu namorado, tudo bem, mas não precisa gritar. A mulher, quando quis a independência, era pra ser realmente independente. Em vez disso, virou homem e ficou tão bruta quanto ele. Ninguém gosta de cabra-macho-sim-senhor. Faltou no funk uma pequena dose de elegância. Por que a mulher brasileira é muito elegante, olha aí a Gisele Bündchen. Tenho certeza de que ela não sai por aí de shortinho enfiado na bunda. Amo essas meninas do funk, adoraria falar isso pra elas, mas quem quer me ouvir? Pra elas, isso tudo pode ser um balde de merda. Mas eu já vivi bastante. Tomei muita porrada, fui mãe nove vezes". . Elza Soares, Revista TPM.
Ontem eu morri De Milly Lacombe Três coisas me deixam em pânico: a idéia de que eu um dia vou morrer, a idéia de que aqueles que eu amo um dia vão morrer e, acima de uma e da outra, a possibilidade real de topar com uma barata em algum canto da casa. Quanto à barata, não há o que fazer a não ser selecionar as companhias de vida eliminando do convívio aquelas incapazes de matá-las. Não existe, para mim, amor que resista à falta de disposição para tascar o chinelo no diabólico inseto (e, na sequência, me mostrar o cadáver – exigência que surgiu depois de ter sido enganada várias vezes). Mas, para tentar driblar esse paranóico medo de morrer não pude contar com a ajuda de terceiros. Fui então obrigada a desenvolver uma técnica que depois de um tempo se mostrou invejável: me convenci de que jamais morrerei. É muito simples, na verdade. Basta acreditar que a morte não existe e que, mesmo que alguns de seus entes queridos aparentemente já tenham sido supreendidos por ela, isso jamais aconte...
"Entrei no teu blog quando estava procurando um poema da Elisa Lucinda no google. Não achei o poema, mas achei um outro lugar de mim. Eu não sabia o quanto eu podia ser outra pessoa. Agora caminho os teus passos e as palavras e não palavras com que tu sem saber me narras. Adorei absolutamente tudo o que já li aqui, mesmo o que não gostei". . Se me permite, Nin, seja você quem for: roubei seu comentário porque queria um post para a sua delicadeza.
Em busca da civilidade (im)possível por Nina Lemos, do blog "02 Neurônio" Três semanas sem vê-lo depois que o mundo desabou sobre nós. Voltei a viver e a gostar da minha vida. Acordo bem. ELE não é a primeira coisa em que penso quando acordo. Aquele top fofo que comprei na Fashion House não me lembra ele. Me lembra apenas que eu gosto da roupa. Coloco sem culpa, para ser elogiada por outros homens, não por ele, que elogiou - um dos últimos elogios enquanto o mundo desabava sobre nós. Minhas calcinhas bonitas não me lembram mais ele. Nem a rua dele, nem nada. Recuperei-me. Recito "as coisas não precisam de você". É isso mesmo. Não precisam. Ele deixa um recado na secretária. Eu não ouço. Olha só, não ouvi porque não estava esperando. Mas ligo para ele. Temos conversa extremamente civilizada e carinhosa, agora, depois que o mundo desabou sobre nós. E agora, enquanto escrevo, ele acaba de entrar no MSN. É verdade. Pontada de dor no coração. Perdi o ritmo. Isso porque ...
O último carinho do mundo De Tati Bernardi. O amor com hora para acabar é o único que me interessa, é o único que sei amar, é até onde posso ir. Imagine que um avião cheio de mágoas e crianças envelhecidas pela dor vai bater no seu mundinho perfeito e estratégico e fazer explodir pelos ares o que você acreditava que era uma vidinha feliz e romântica. Já eram ombros largos, já era porta-retrato de sorrisos endurecidos pra sempre, já era o seu ódio pela imperfeição. Por isso, antes de dormir hoje, imagine que, no meio da noite, aquele cara de todos os dias, que já lhe causou alguma emoção mas agora se concentra apenas em roncar, vai se levantar de farda e marchar para uma inexistência de honra e se perder num tempo distante. Sei lá, acho que tô lendo Herman Hesse demais e estou com a temática guerra na cabeça, mas imagine qualquer outra coisa, então: que ele vai espirrar e a força do espirro será tão forte que ele vai se despedaçar em moléculas pelo universo e adeus olhos grandes e boca ...
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O tempo ainda é a melhor coisa que inventaram. . Choque térmico Martha Medeiros Uma pessoa fica duas horas jogando frescobol na beira da praia sob um sol africano: 38 graus. Terminada a partida, joga as raquetes para o alto e corre para um mar de temperatura siberiana, bem ao gosto dos pingüins. Resultado: choque térmico. Você não precisa fazer a experiência: quem já teve um grande amor e perdeu de um dia para o outro sabe como é. Você passa meses, talvez anos ao lado de alguém que aquece suas noites, que a faz queimar, derreter. Não é um forno de microondas: é seu namorado, que não precisa apertar botão nenhum para fazê-la arder, basta tocar no seu braço e temos um incêndio no quarteirão. Tudo é quente entre vocês: os olhares, os beijos e o resto, principalmente o resto. Vocês são pólvora, querosene, gasolina. Altamente inflamáveis. Imagine anos e anos nesse fogaréu, até que um dia ele telefona e diz que conheceu outra pessoa, que continua a gostar de você, mas como amiga. Choque térm...
A dor que dói mais Martha Medeiros Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade. Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Doem essas saudades todas. Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o escritório e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro...
As melhores e as piores coisas do mundo Martha Medeiros As melhores: banho escaldante, livro bom, acordar às seis da manhã e lembrar que é domingo, o dentista não encontrar nada para fazer na sua boca a não ser passar flúor. As piores: banheiro de avião, missa de sétimo dia, ir numa loja, adorar um casaco, ter dinheiro para comprá-lo mas como bom mão-de-vaca não comprá-lo, aí chegar em casa e descobrir que não tem um único casaco decente no armário e então voltar na loja no dia seguinte e descobrir que mudou a coleção e ontem era o último dia com descontos de 50% sobre o preço da etiqueta. As melhores: a pessoa que você está a fim também está a fim de você, qualquer episódio de Os Normais, sua tia que sempre lhe deu presentes criativos (como aquele colete de bolinhas de madeira para colocar no banco do carro) resolveu dar dinheiro esse ano. As piores: ler jornal no vento, faltar luz quando você está no elevador saindo para um compromisso para o qual já está atrasado, pisar em algo mele...
Rilke, “Cartas a um jovem poeta”. . (...) Não se deve deixar enganar em sua solidão, por existir algo em si que deseja sair dela. Justamente tal desejo, se dele se servir tranqüila e sossegadamente como de um instrumento, há de ajudá-lo a estender a sua solidão sobre um vasto território. Os homens, com o auxílio das convenções, resolveram tudo facilmente e pelo lado mais fácil da facilidade; mas é claro que nós devemos agarrar-nos ao difícil. Tudo o que é vivo se agarra a ele, tudo na natureza cresce e se defende segundo a sua maneira de ser; e faz-se coisa própria nascida de si mesma e procura sê-lo a qualquer preço e contra qualquer resistência. Sabemos pouca coisa, mas que temos de nos agarrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom estar só, porque a solidão é difícil. O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita. Amar também é bom: porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi...