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Fetichismo Guilherme de Almeida Sou fetichista, adoro tudo que é teu: a página marcada de um livro; o sono de veludo da tua lânguida almofada; um cravo esplêndido e vermelho que morre; a vida singular que tu puseste em cada espelho, ao sortilégio de um olhar; aquele acorde, aquela escala que do teu piano andou suspensa na ressonância desta sala; a tua lâmpada; a presença imperativa de um perfume: o teu chapéu... - tudo afinal que vem de ti, que te resume, tem seu prestígio emocional! E este contato voluptuoso com tanta coisa evocativa é tão sensual, tão delicioso para minha alma sensitiva, que espero, cheio de ansiedade, cada momento em que te vais, e chego mesmo a ter vontade de que não voltes nunca mais!
Convite triste Carlos Drummond de Andrade Meu amigo, vamos sofrer, vamos beber, vamos ler jornal, vamos dizer que a vida é ruim, meu amigo, vamos sofrer. Vamos fazer um poema ou qualquer outra besteira. Fitar por exemplo uma estrela por muito tempo, muito tempo e dar um suspiro fundo ou qualquer outra besteira. Vamos beber uísque, vamos beber cerveja preta e barata, beber, gritar e morrer, ou, quem sabe? beber, apenas. Vamos xingar a mulher, que está envenenando a vida com seus olhos e suas mãos e o corpo que tem dois seios e tem um umbigo também. Meu amigo, vamos xingar o corpo e tudo que é dele e que nunca será alma. Meu amigo, vamos cantar, vamos chorar de mansinho e ouvir muita vitrola, depois embriagados vamos beber mais outros sequestros (o olhar obsceno e a mão idiota) depois vomitar e cair e dormir.
Penetrália Olavo Bilac Falei tanto de amor!...de galanteio, Vaidade e brinco, passatempo e graça, Ou desejo fugaz, que brilha e passa No relâmpago breve com que veio... O verdadeiro amor, honra e desgraça, Gozo ou suplício, no íntimo fechei-o: Nunca o entreguei ao público recreio, Nunca o expus indiscreto ao sol da praça. Não proclamei os nomes, que baixinho, Rezava... E ainda hoje, tímido, mergulho Em funda sombra o meu melhor carinho. Quando amo, amo e deliro sem barulho: E quando sofro, calo-me e definho Na ventura infeliz do meu orgulho.
Insônia Paulo Mendes Campos A lâmpada acesa enxerga a noite toda apagada. A chuva conta nos canos a história das telhas velhas. O soalho e os móveis conversam nos cantos, aos estalidos. Meu pulso soma dez tocos de cigarro no cinzeiro. Teu nome tem só seis letras. Li três livros de uma vez.
No coração talvez José Saramago No coração, talvez, ou diga antes: Uma ferida rasgada de navalha, Por onde vai a vida, tão mal gasta. Na total consciência nos retalha. O desejar, o querer, o não bastar, Enganada procura da razão Que o acaso de sermos justifique, Eis o que dói, talvez no coração.
Hilda Hilst A minha Casa é guardiã do meu corpo E protetora de todas as minhas ardências E transmuta em palavra Paixão e veemência E minha boca se faz fonte de prata Ainda que eu grite à Casa que só existo Para sorver a água da tua boca. A minha Casa, Dionísio, te lamenta E manda que eu te pergunte assim de frente: A uma mulher que canta ensolarada E que é sonora, múltipla e argonauta Por que recusas amor e permanência?
O “interesse público” é reduzido à curiosidade sobre as vidas privadas de figuras públicas e a arte da vida pública é reduzida à exposição pública de questões privadas e a confissões de sentimentos privados (quanto mais íntimos, melhor). BAUMAN, "Modernidade líquida", p. 46.
Variações em tom menor Eugenio de Andrade Para jardim te queria. Te queria para gume ou o frio das espadas. Te queria para lume. Para orvalho te queria sobre as horas transtornadas. Para a boca te queria. Te queria para entrar e partir pela cintura. Para barco te queria. Te queria para ser canção breve, chama pura.
Do desejo Hilda Hilst I Porque há desejo em mim, é tudo cintilância. Antes, o cotidiano era um pensar alturas Buscando Aquele Outro decantado Surdo à minha humana ladradura. Visgo e suor, pois nunca se faziam. Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo Tomas-me o corpo. E que descanso me dás Depois das lidas. Sonhei penhascos Quando havia o jardim aqui ao lado, Pensei subidas onde não havia rastros. Extasiada, fodo contigo Ao invés de ganir diante do Nada. II Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras. Que desenhos e rictus na tua cara. Como os frisos veementes dos tapetes antigos. Que sombrio te tornas se repito O sinuoso caminho que persigo: um desejo Sem dono, um adorar-te vívido mas livre. E que escura me faço se abocanhas de mim Palavras e resíduos. Me vêm fomes Agonias de grande espessuras, embaçadas luas Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te. Cordura. Crueldade. III Colada à tua boca a minha desordem. O meu vasto querer. O incompossível se fazendo ordem. Colada a tua boca, mas descom...
Poema Manoel de Barros A poesia está guardada nas palavras - é tudo que eu sei. Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexões com a realidade. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado e chorei. Sou fraco para elogios.
José Saramago Parece que a coisa vai bem encaminhada. O presidente dos Estados Unidos, que não se chama Messias, mas Barack Obama, assinou ontem uma lei denominada de Equidade ou Igualdade Social. A “responsável” directa deste documento foi uma mulher, uma trabalhadora que, tendo descoberto que havia levado toda a vida a ganhar menos exactamente por ser mulher, apresentou queixa contra a empresa e ganhou o pleito. Como numa prova desportiva de estafetas, esta mulher branca, chamada Lilly Ledbetter, passou o testemunho ao corredor seguinte, um negro com nome muçulmano, 44º. presidente da nação norte-americana. De repente, o mundo parece-me mais limpo, mais prometedor. Por favor, não me roubem esta esperança.
Guardar Antônio Cícero Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela. Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro Do que um pássaro sem vôos. Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema: Para guardá-lo: Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: Guarde o que quer que guarda um poema: Por isso o lance de um poema: Por guardar-se o que se quer guardar.
O texto da Marcela está aqui porque é fofo e porque eu também acho medo bom. Paralisa num primeiro momento, mas depois que é domesticado faz a gente voar. Uma cama no altinho Marcela Dantés eu sempre tive medo de altura. mas é um medo meio estranho, que faz o coração acelerar quando alguém chega muito perto de uma janela. mas que não me impede de pular de bungee jump. é um medo que congela o meu sangue quando eu olho pra baixo em uma escada. mas que não lembra de aparecer na hora de viajar de avião. demorei, mas aprendi que medo é uma coisa saudável. pode ser doído, mas acaba que empurra a gente pra frente, né? dava pra fazer disso uma filosofia de vida. e dormir no alto já é um bom começo.
1. VICIADA em Friends, a série. Nem sabia o que era, mas resolvi entender. Idiota, sem conteúdo, com um humor ridiculamente fácil e piadas bestas - ou seja, divertidíssimo. 2. DEVORANDO a biografia do Freud para preparar minhas aulas. Subitamente orgulhosa de viver disso, da psicanálise, sabendo o quanto foi pesado (sempre é) ter um desejo tão decidido. . Friends e Freud. Minhas férias não poderiam ter sido melhores.
"Falo directamente à secretária de Estado. Deixe o apelido Clinton, que já se parece muito a um casaco coçado e com os cotovelos rotos, recupere o seu apelido, Rodham, que suponho ser de seu pai. Se ele ainda é vivo, já pensou no orgulho que sentiria? Seja uma boa filha, dê essa alegria à família. E, de caminho, a todas as mulheres que consideram que a obrigação de levar o apelido do marido foi e continua a ser uma forma mais, e não a menos importante, de diminuição de identidade pessoal e de acentuar a submissão que sempre se esperou da mulher". José Saramago, em seu blog . Não tem como não ler.
Ai, o amor jamais foi um sonho. O amor, eu bem sei, já provei, é um veneno medonho. É por isso que se há de entender que o amor não é um ócio. E compreender que o amor não é um vício, o amor é sacrifício, o amor é sacerdócio. . Chico Buarque, "Viver do amor". Versão da peça "Ópera do malandro" (há uma outra versão, feita para o filme).
Atrás dos olhos das meninas sérias Ana Cristina Cesar Mas poderei dizer-vos que elas ousam? Ou vão, por injunções muito mais sérias, lustrar pecados que jamais repousam?
... e no fim das contas, nossos dramas cotidianos não chegam nem a ser dramas, e são mais cotidianos, mais corriqueiros, mais desimportantes do que a gente consegue ver num primeiro momento. Alguns dariam mesmo é uma boa comédia.
É hoje. Obama José Saramago A Martin Luther King mataram-no. Quarenta mil polícias velam em Washington para que hoje não suceda o mesmo a Barack Obama. Não sucederá, digo, como se na minha mão estivesse o poder de esconjurar as piores desgraças. Seria como matar duas vezes o mesmo sonho. Talvez todos sejamos crentes desta nova fé política que irrompeu em Estados Unidos como um tsunami benévolo que tudo vai levar adiante separando o trigo do joio e a palha do grão, talvez afinal continuemos a acreditar em milagres, em algo que venha de fora para salvar-nos no último instante, entre outras coisas, desse outro tsunami que está arrasando o mundo. Camus dizia que se alguém quisesse ser reconhecido bastar-lhe-ia dizer quem é. Não sou tão optimista, pois, em minha opinião, a maior dificuldade está precisamente na indagação de quem somos, nos modos e nos meios para o alcançar. Porém, fosse por simples casualidade, fosse de caso pensado, Obama, nos seus múltiplos discursos e entrevistas, disse ...