29.6.11

O amor bom é facinho
Ivan Martins


Há conversas que nunca terminam e dúvidas que jamais desaparecem. Sobre a melhor maneira de iniciar uma relação, por exemplo. Muita gente acredita que aquilo que se ganha com facilidade se perde do mesmo jeito. Acham que as relações que exigem esforço têm mais valor. Mulheres difíceis de conquistar, homens difíceis de manter, namoros que dão trabalho - esses tendem a ser mais importantes e duradouros. Mas será verdade?

Eu suspeito que não. Acho que somos ensinados a subestimar quem gosta de nós. Se a garota na mesa ao lado sorri em nossa direção, começamos a reparar nos seus defeitos. Se a pessoa fosse realmente bacana não me daria bola assim de graça. Se ela não resiste aos meus escassos encantos é uma mulher fácil – e mulheres fáceis não valem nada, certo? O nome disso, damas e cavalheiros, é baixa auto-estima: não entro em clube que me queira como sócio. É engraçado, mas dói. Também somos educados para o sacrifício. Aquilo que ganhamos sem suor não tem valor. Somos uma sociedade de lutadores, não somos? Temos de nos esforçar para obter recompensas. As coisas que realmente valem a pena são obtidas à duras penas. E por aí vai. De tanto ouvir essa conversa - na escola, no esporte, no escritório - levamos seus pressupostos para a vida afetiva. Acabamos acreditando que também no terreno do afeto deveríamos ser capazes de lutar, sofrer e triunfar. Precisamos de conquistas épicas para contar no jantar de domingo. Se for fácil demais, não vale. Amor assim não tem graça, diz um amigo meu. Será mesmo? Minha experiência sugere o contrário. Desde a adolescência, e no transcorrer da vida adulta, todas as mulheres importantes me caíram do céu. A moça que vomitou no meu pé na festa do centro acadêmico e me levou para dormir na sala da casa dela. Casamos. A garota de olhos tristes que eu conheci na porta do cinema e meia hora depois tomava o meu sorvete. Quase casamos? A mulher cujo nome eu perguntei na lanchonete do trabalho e 24 horas depois me chamou para uma festa. A menina do interior que resolveu dançar comigo num impulso. Nenhuma delas foi seduzida, conquistada ou convencida a gostar de mim. Elas tomaram a iniciativa – ou retribuíram sem hesitar a atenção que eu dei a elas. Toda vez que eu insisti com quem não estava interessada deu errado. Toda vez que tentei escalar o muro da indiferença foi inútil. Ou descobri que do outro lado não havia nada. Na minha experiência, amor é um território em que coragem e a iniciativa são premiadas, mas empenho, persistência e determinação nunca trouxeram resultado. Relato essa experiência para discutir uma questão que me parece da maior gravidade: o quanto deveríamos insistir em obter a atenção de uma pessoa que não parece retribuir os nossos sentimos? Quem está emocionalmente disponível lida com esse tipo de dilema o tempo todo. Você conhece a figura, acha bacana, liga uns dias depois e ela não atende e nem liga de volta. O que fazer? Você sai com a pessoa, acha ela o máximo, tenta um segundo encontro e ela reluta em marcar a data. Como proceder a partir daí? Você começou uma relação, está se apaixonando, mas a outra parte, um belo dia, deixa de retornar seus telefonemas. O que se faz? Você está apaixonado ou apaixonada, levou um pé na bunda e mal consegue respirar. É o caso de tentar reconquistar ou seria melhor proteger-se e ajudar o sentimento a morrer? Todas essas situações conduzem à mesma escolha: insistir ou desistir? Quem acha que o amor é um campo de batalha geralmente opta pela insistência. Quem acha que ele é uma ocorrência espontânea tende a escolher a desistência (embora isso pareça feio). Na prática, como não temos 100% de certeza sobre as coisas, e como não nos controlamos 100%, oscilamos entre uma e outra posição, ao sabor das circunstâncias e do tamanho do envolvimento. Mas a maioria de nós, mesmo de forma inconsciente, traça um limite para o quanto se empenhar (ou rastejar) num caso desses. Quem não tem limites sofre além da conta – e frequentemente faz papel de bobo, com resultados pífios. Uma das minhas teorias favoritas é que mesmo que a pessoa ceda a um assédio longo e custoso a relação estará envenenada. Pela simples razão de que ninguém é esnobado por muito tempo ou de forma muito ostensiva sem desenvolver ressentimentos. E ressentimentos não se dissipam. Eles ficam e cobram um preço. Cedo ou tarde a conta chega. E o tipo de personalidade que insiste demais numa conquista pode estar movida por motivos errados: o interesse é pela pessoa ou pela dificuldade? É um caso de amor ou de amor próprio? Ser amado de graça, por outro lado, não tem preço. É a homenagem mais bacana que uma pessoa pode nos fazer. Você está ali, na vida (no trabalho, na balada, nas férias, no churrasco, na casa do amigo) e a pessoa simplesmente gosta de você. Ou você se aproxima com uma conversa fiada e ela recebe esse gesto de braços abertos. O que pode ser melhor do que isso? O que pode ser melhor do que ser gostado por aquilo que se é – sem truques, sem jogos de sedução, sem premeditações? Neste momento eu não consigo me lembrar de nada.
Laerte: "happy end existe, sim / diria até que tá cheio / só que não fica no fim / em geral fica no meio"
Deus é triste.

Domingo descobri que Deus é triste
pela semana afora e além do tempo.

A solidão de Deus é incomparável.
Deus não está diante de Deus.
Está sempre em si mesmo e cobre tudo
tristinfinitamente.

A tristeza de Deus é como Deus: eterna.

Deus criou triste.
Outra fonte não tem a tristeza do homem.

Carlos Drummond de Andrade

28.6.11

Como disse a minha irmã, "é a gente. E todas as outras mulheres geniais e imbecis". 


Você tem o direito de não amar uma mulher
Tati Bernardi


Um belo dia, uma amiga fala de mim para esse senhor. Algo como “a Tati é legal”. Esse senhor me manda uma mensagem pelo Facebook dizendo ser muito amigo da amiga em comum e, simpático, elogia meus textos. Poxa, é um senhor simpático, amigo de uma amiga, interessado pelo meu trabalho, não vou ser escrota e não aceitá-lo em meu Facebook. Esse senhor me convida para jantar. Veja, gosto de rapazes da minha idade ou de senhores que se parecem com rapazes da minha idade. Esse senhor é careca e velho. Não quero nada com ele. Digo “Poxa, vamos deixar para ano que vem… caso seja bissexto” com simpatia na primeira, na segunda e na terceira vezes. Na quarta, mando um “Não quero jantar com você”. Ele então me escreve uma longa mensagem na qual me chama de:
1) metida,
2) arrogante,
3) nojenta,
4) escrota.
Deleto esse senhor do meu Facebook. E me recordo dos últimos 200 rapazes que se comportaram igualmente psicopatas e ridículos ao receber um “Não, obrigada” de minha pessoa. Penso em escrever um texto detonando essas espécies abomináveis que não sabem perder. Mas eis que me recordo de também fazer parte do grupo “paulistanos-publicitários-infantilizados-problemáticos” que não sabem perder. Estamos aos montes por aí — nos barzinhos modernetes da pesada, ganhando dinheiro para vender historinhas de merda que fazem os bancos emocionarem donas de casa, viajando a Paris pra passar só três dias apenas porque deu em nossas telhas. Somos fracos, imbecis, endividados e viciados em remédio pra dormir. Em agosto do ano passado, conheci esse rapaz lindo. Depois de um mês e quatro dias, ele me chutou. Com dignidade: me levou para jantar e discursou sobre sua incapacidade de amar — ainda mais uma mulher maravilhosa e incrível como eu. Também fui digna. Somente ouvi tudo e fui pra casa.Desde então, porém, ao encontrá-lo em festas, reuniões ou redes sociais, sempre dou um jeito de comunicá-lo sobre sua ignorância em não me querer. Se não me queria, para que dizer todas aquelas coisas fofas? Se não me queria, por que tantas juras de amor e conchinhas e quentinhos e trocas e momentos lindos? E isso e aquilo e mais um pouco. Hoje em dia, ele, com razão, muda de calçada ao me ver. Não tem nada mais deprê do que cobrar sentimentos do outro. Dá mesmo raiva quando alguém não gosta da gente, mas querer que a pessoa também sinta raiva de si mesma por não gostar da gente é doença. O desgraçado tem o direito de não gostar de mim, assim como tenho o direito de não curtir o tio careca. No entanto, no fundo, bem no fundo, uma vozinha grita: “Direito o cacete! Não sou uma tia careca. Sou legal, bonita!” E quase tenho de me controlar pra não largar este texto na metade e ligar pra dizer que o desgraçado é:
1) metido,
2) arrogante,
3) nojento,
4) escroto.
Com tantas evoluções espirituais, científicas, psiquiátricas, físicas e econômicas, só ficamos mais egocêntricos e infelizes. A verdade é:
1) tio careca, você é um babaca de pensar que eu tenho a obrigação de gostar de você;
2) rapaz que me deu um fora em agosto do ano passado, você é um babaca por não gostar de mim;
3) pelo menos na babaquice, fazemos um belo triângulo amoroso.

15.6.11

Pronto pra dormir, debaixo da minha cama.
‎"Hoje é o dia...vai o que vai, fica o que fica. Semana que vem talvez seja noite....mas é isso, tem dia que é noite".


Era só a resposta da Aline a um post no Facebook dela. Mas eu achei que era poesia
Bem vinda, Maria. Desde que eu soube que você viria, a minha vida ficou muito, muito mais feliz (e olha que, na época, a minha vida estava precisando muito ficar mais feliz!). Por isso e pelos pais que você tem, eu já te amo assim: demais.

13.6.11



Em algum momento, tudo isso vai passar. Você vai estar pronto pra entregar seu coração pra outra pessoa, mesmo correndo o risco de parti-lo em mil pedaços novamente... porque o amor sempre vale a pena.

12.6.11

À minha querida mamã
Fernando Pessoa


Eis-me aqui em Portugal,
Nas terras onde eu nasci,
Por muito que goste delas,
Ainda gosto mais de ti.


26 de julho de 1895 (ele tinha sete anos!)

11.6.11

Fabrício Carpinejar





Todo mundo que começa a namorar não sabe ao certo que namora.

O início é confuso, entremeado de hesitações e receios e pudores e reservas e uma fileira de sinônimos sofisticados para medo.

Puro medo.

O casal demora a oficializar aquilo que já é público. Não quer melindrar sua companhia, muito menos oferecer motivos para receber um fora adiantado.

Eles se preservam do convívio para não caírem em tentação, recusam bares e festas para conservar o segredo. Estão loucos para contar aos amigos, mas temem que a fofoca estrague a notícia. Há a crença de que alegria espalhada se transforme em inveja.

Eu não sofro mais desse mal. Detectei a encruzilhada, o exato momento em que o namoro vira à esquerda e não tem mais volta.

É quando um dos dois telefona para não conversar. Para não dizer nada, coisa com coisa.

Suportar o laconismo amoroso é uma das torturas mais angustiantes da existência.

Acompanhe meu raciocínio.

No meio do serviço, ela liga. Por ansiedade, você atende ao primeiro toque. Espera que ela fale oi. Mas não. Ela espaça a voz como se fosse uma amante, uma sequestradora, alguém que não protegeu as teclas e acessou seu número por engano. Dá para escovar os dentes até surgir um tremido par de vogais.

Ela não lhe procurou em função de alguma novidade, para dar um recado, testar a temperatura ou planejar um encontro. Suspenda a objetividade, o mundo físico, a matemática, as operações de trigonometria.

Sua futura namorada ligou para suspirar. Compreenda que ela ligou para que você testemunhe o que ela está sentindo, como uma criança que coloca o fone em direção ao mar e jura que a os pais alcançam o barulho das ondas.

Ahhhhh é o som fundador de um papo que não vai acontecer. O telefonema corresponde à sonoplastia da saudade. Prepare-se para variações de um mesmo tema.

— Como você está?
— Meio estranho…
— Eu também…
— Mas é um estranho bom.
— Um estranho feliz.

Um repete o outro, num misto de fragilidade e receio. É um diálogo que medita sobre vazio. Durante trechos inteiros, nenhum fala. Uma conversa exemplar e inédita em que os dois somente escutam. Uma troca de respiros, jogo de vento, intercâmbio de palpitações.

Assim como ela discou sem motivo, o pior vem agora, não há como desligar sem ofender. Depois de quinze minutos de ausência absoluta de som, chega a hora de seguir a vida.

— Você desliga, eu não consigo.
— Não, você desliga, eu não consigo.
— Não, você!
— Você!
— Você!

O amor é uma grande coragem cheia de pequenas covardias.
Veio antes da "Banda mais bonita da cidade".
Lindeza de video, de música, de letra.

"Queria me enjoar de você".

para desentristecer o meu coração tão só
basta eu encontrar você no caminho.

8.6.11

Ternura
Menotti del Picchia

Se eu te dissesse o meu amor...
(Olha o mar como é vasto! Ouve o mar como geme!)

Se eu te dissesse o meu amor!
(É meu braço que treme ou teu braço que treme?)

Se eu te dissesse o meu amor?
(Olha como o céu esplende! Olha como o sol aquece!)

Se eu te dissesse o meu amor...

Mas teu corpo estremece... A minha alma estremece
como se eu te dissesse
o meu amor...

1.6.11

Chama e fumo


Amor - chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...


Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor - chama, e, depois, fumaça...


Tanto ele queima! e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...


Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor - chama, e, depois, fumaça...


A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...


Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor - chama, e, depois, fumaça...


Portanto, mal se satisfaça
(Como te poderei dizer?...)
O fumo vem, a chama passa...


A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas...tem de ser...
Amor?...- chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa.


Manuel Bandeira