25.12.06

Post de amor em homenagem a um casal que eu adoro e que agora usa alianças.
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A 2
De Nelson Botter.

Ele acorda. Ela acorda. E a corda não arrebenta. Pode puxar, ela há de agüentar. Mais um dia, mais um mês, mais um ano, mais uma vida. Uma vida a dois, regada de dificuldades, mas que lhes proporciona colheitas espetaculares. Aprenderam os truques de um bom plantio. Nada sabem, é claro, mas sabem. Doeu aprender, mas como ele disse a uma querida leitora essa semana: "a dor é necessária", ainda mais quando o assunto é amor, que é quase um masoquismo, vai ver até é... vai ver e verá. Basta observar, estúpido cupido, as coisas boas da vida são sempre ligadas à dor, pois procuramos o gozo contínuo, a satisfação da insatisfação latente. E isso dói, como dói. Quem disse foi o velho do charuto, aquele da Rua Berggasse 19, nada tenho com isso e não aceito reclamações.
Uma vida a dois dói muito, e não são todos que suportam a dor, não senhor, alguns preferem sofrer em outra freguesia, cansam de assoprar o corte, resolvem lamber as feridas e seguem em frente, pois lá tem mais gente. Digo ainda: ninguém é obrigado a agüentar tanta dor, seja em que nível for. A corda arrebenta. Plac! Não há departamento de atendimento ao cliente que resolva. Para falar abobrinhas tecle 1, para choramingar tecle 2, para quebrar o pau tecle 3 ou permaneça na linha para falar com um de nossos novos divorciados.
Ele custou a aprender, ela também, tanta cabeçada, suturas por todos os lados, mas resolveram – apesar de todo o medo – encarar o desafio, numa era em que as relações estão ameaçadas pela alta demanda, pelo dinamismo que a superficialidade do mundo ‘ponto com’ nos oferece, pois são muitos os perigos que o poetinha de Moraes já via nessa vida e nas que virão. Mas havia tantas estrelas naquela noite, tudo escrito lá, no mapa desenhado sobre a cabeça deles, o frio beijava-lhes a pele e os astros morriam de inveja de tanta dor, ou melhor, tanto amor. As trevas não mais existiam, Neruda. Fiquemos juntos, disseram, e assim o fizeram.
E a dor faz jorrar o sangue, todos os dias, mas é preciso estancar a ferida com a ponta da faca incandescente, cauterização just-in-time, que traz o alívio, o gozo. Ele quer gozar nela, ela quer gozar nele, eles querem gozar no mundo, mas o mundo não quer gozar neles. Entretanto, se deixam levar pela dor, isso é amar, é ousar um salto no escuro, é confiar seu destino a mais do que apenas você, é permitir que a tampa feche a panela, é escolher um cúmplice para as piores e melhores horas, é sentir de verdade a razão de se viver por viver.
Dói, mas passa, por isso quem é feliz com essa dor recomenda. Quem não é feliz com essa dor tem inveja de quem é. Os mais bem resolvidos, que preferem convictos uma outra dor, a da solidão, no fundo querem morrer mergulhados na dor maior. E quem prefere fugir de todas as dores não sofre, mas também não goza. A pele vira látex, perde-se tanto do tanto, Byron, meu lorde.
Vá, leve adiante essa que talvez seja a maior das perversões, a prisão que liberta, a indefectível filosofia na alcova, o que nos torna rijos e pulsantes. Viva a dor de viver a dois e viva duas vezes mais. É um gozo só...
Homens da minha vida
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O cartão de Natal que me fez chorar foi o que meu pai deu pro Fer:
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"Fernando,
Pra ser família não é preciso nascer na família, é preciso conquistar um lugar. Isso você tem feito.
Parabéns pelas realizações, feliz Natal e um excelente 2007".
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Meus pais sempre receberam as pessoas na nossa casa e nas nossas vidas - deles, minha, dos meus irmãos - como se todos os dias fossem Natal: mesa posta, luzes acesas e um bom papo.
Não saberia pedir mais do que eu tenho.

19.12.06

Lar ou ímpar
Aldir Blanc - Pasquim n. 419 - 8 a 14/07/77

Singela homenagem ao divórcio, ao desquite, ao colt, ao serrote e demais formas de separação.

A mulher da gente
não quer ser a mulher
que a gente tinha.
Quer ser “nova a cada instante”.
Bonito, né?
E como aporrinha!

Mas não há de ser nada.
Tem troço mais chato,
mais fora-de-moda
do que mulher que não incomoda?

A boa mulher deve azucrinar.
Deve fazer perguntas sem resposta,
bater portas,
achar a sogra uma josta
e discutir assuntos que variem
desde a nova taxa cambial
ao próprio ciclo menstrual
passando pelo resultado do bicho
E, bem no meio de uma frase do marido,
dizer que o papo ta um lixo.
Deve querer emagrecer ou engordar,
deve exigir permanecer ou se mudar
e recusar fazer o trivial
pra experimentar – mal – nova receita.
O lema é “nunca se dar por satisfeita”.
Um exemplo, gostosa leitorinha:
a mulher feliz, realizada,
deve, por incrível que pareça,
sentir palpitação, dor de cabeça
e, repentinamente, ir se deitar.
Agora, tem o seguinte: na orgia
não tem mulher que chegue
aos pés daquela
que padeça suave hipocondria.
Mas deve ser sutilmente estimulada
para que, depois, somando o ar mais sonso
a uma expressão tensa, dramática,
Jure pela mãe (dela) que não! Que não queria!
Feito as violentadas de “O Dia”
ou da “Luta Democrática”.

Sacaram?
A mulher que é mulher
tem que criar culpa, remorso,
arrependimento na besta do marido.
Aliás, todo marido,
por mais malandro, por mais vivido,
deve ser uma besta, doce besta
como o lar.
O lar – vocês sabem!
É um lugar de estar
e de não estar.
É um templo... um recesso sacrossanto...
um lupanar...
É o repouso do guerreiro,
é o berço do herói
é... é... é... de lascar!
Mas, sendo aconchegante, deve dar,
como qualquer atual democracia,
sensação de falsa liberdade,
a ponto do marido declarar:
- O lar é meu segundo bar!
E em qualquer um dos dois, se embriagar.
Esses porres acontecem
porque toda vida, em parte, é ímpar.

Boa sorte com seu par, meu nego.
Eu? Eu quero é sossego.
Lar ou ímpar?
Um pouquinho por dentro desse jogo
atiro fora os palitinhos, as moedas e os medos
e constato: vão-se os anéis e os dedos.
O lar, gente boa, é a maior zona.
Na purrinha conjugal
pede bem quem pede lona.
Impressionista
Adélia Prado

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

15.12.06

DVDs do Chico Buarque. Todos, em uma caixa linda com fotos, textos...

Chegando em casa, não conseguia ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei mais ainda indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, e achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei!
Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.

Clarice Lispector.

10.12.06

Poema de Natal
Vinícius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e sermos lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre os túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não se esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos imensamente.

6.12.06

A serenata
Adélia Prado

Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mãos incríveis tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobro o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia, os cabelos entristecidos, a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem, de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos - só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

5.12.06

Soneto do gato morto
Vinicius de Moraes

Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.