31.12.05

Feliz Ano Novo (escrito em 1996, mas atemporal)
Arnaldo Jabor

O ano de ver através do vidro o eclipse do sol contra a neblina pela janela da infância, o ano de ver as primeiras imagens de minha mãe, que era uma Greta Garbo linda com ombros altos e cabelo de coque "bomba atômica" e lábios vermelhos, o ano da coqueluche em que meu pai me levou de avião até 4.000 metros para curar a tosse entre nuvens, o ano de temer o quarto onde meus pais conceberiam minha irmã, o ano de olhar árvores, bichos e gente como se eu morasse fora do mundo (mistério que até hoje dura), o ano do medo de levar porrada nas ruas da infância,.o ano das pernas das mulheres, colunas altas e distantes (até hoje), o ano dos fantasmas do fundo do corredor, o ano do cachorro atropelado, o ano dos meninos se comendo de solidão, o ano de ficar olhando o vento no quintal, o ano dos formigueiros, o ano do sarampo e sua lâmpada vermelha, o ano da catapora, o ano da luz azul do quarto da pneumonia de minha irmã, o ano da cabeça quebrada, o ano da cara quebrada, o ano de entender o porquê dos miseráveis do morro da Mangueira perto de minha casa, o ano de ver o primeiro filme de minha vida, o "Ladrão de Bagdá", e ficar sonhando com as coxas da odalisca no tapete voador, o ano dos balões no céu, o ano do Mercury "grená" de meu pai brilhando na luz da rua, o ano do cuspe, o ano da porrada na esquina, o ano dos palavrões, o ano da "merda" e da "puta que pariu", o ano da inveja, o ano da bicicleta, o ano da primeira namorada que me tratava como nada, o ano de temer a Deus e de contar meus crimes aos padres negros de quem eu beijava a mão, o ano em que um padre me deu um beijo na boca e eu fugi com pânico na alma, o ano do Porcolino, do Pernalonga, o ano do Hortelino Trocaletra, das mil e uma noites, o ano da mula-sem-cabeça e do mendigo que dava mijo para a mãe, o ano da camisa-de-vênus boiando na beira da praia, o ano do negro comendo a empregada no quarto de passar roupa, o ano da febre, o ano da violência dos colegas de colégio, o ano dos padres jesuítas sofrendo de solidão nas clausuras e o ano das lâmpadas tristes das noites do colégio, o ano das velas de cera na igreja, o ano dos paramentos, o ano do coroinha sem fé, o ano do covarde, o ano do perigo de ser currado nos fundos do colégio, o ano do soco na cara do mais forte e do sangue no nariz do valentão, o ano da descoberta do orgulho, o ano do Tarzan, o ano do Super-Homem, o ano da porra, o ano da punheta de esguicho que ia até o teto de ladrilho por causa da primeira mulher de biquíni na praia, o ano da punheta pela empregada de peitos grandes e que deixava quase tudo, o ano da dor nos rins, o ano de entrar no porão com a menina, o ano de sentir o gosto de cuspe da menina, o ano de sentir o cheiro do entrepernas da menina e ficar com aquele cheiro até hoje, o ano da primeira mulher e, antes da primeira mulher, o ano da descoberta da literatura e de Rimbaud e o ano de ficar escrevendo o dia inteiro numa febre de descobrir qualquer coisa que ainda acho que vou achar, o ano agora sim, da primeira mulher, uma aeromoça louca da Panair que parecia uma odalisca caída do céu, o ano do meu corpo e do corpo da mulher, o ano das lágrimas quentes, o ano da solidão, o ano das pernas cruzadas dos primeiros puteiros visitados, o ano do Mangue, da indescritível visão do Mangue que só Segall conheceu, com as mil mulheres tremendo a língua para fora e de calça e sutiã nas calçadas, o ano dos bordéis antigos da luz mortiça, o ano das coxas, dos peitos, o ano cabeludo, o ano oleoso, o ano das peles, o ano dos vasos de louça, o ano de nada entender, o ano da gonorréia, o ano de Thereza e de comer o primeiro amor e de flutuar de paixão a um palmo das calçadas de Copacabana, o ano da lua dourada, do sol vermelho, o ano de Ipanema, de Leila Diniz, o ano dos gritos da mulher amada no colchão sujo e esfiapado que era um aparelho do Partido Comunista numa noite de chuva, o ano do amor e da revolução, as duas coisas se confundindo ("serão as bombas ou meu coração batendo?" diria o Bogart em "Casablanca"), o ano da UNE pegando fogo, o ano dos exilados, o ano de Corisco, o ano de Tom e Vinicius, o ano do "Carcará", o ano do cinema novo da noite negra do Ato 5, o ano que não terminou, o ano da boca fechada, o ano da boca no cano de descarga, o ano do nervo do dente exposto na boca do torturado, o ano das unhas arrancadas, o ano dos gritos, o ano dos guerrilheiros suicidas, o ano de cortar a barriga com a faca de bambu, o ano de cortar os pulsos com gilete enferrujada, o ano das cabeças muito loucas, o ano de viver perigosamente, o ano da mescalina e do ácido, o ano das pernas e dos braços virando cobras na "bad trip" da beira da praia, o ano das ondas vermelhas e céus tangerina, o ano de Copacabana virando gelatina colorida, o ano de Janis Joplin de porre comigo num puteiro baiano cantando ponto de candomblé, o ano da esperança nova, o ano de Nelson Rodrigues, de Darlene Glória, o ano das filhas nascendo dentro de um buraco estrelado, o ano da esperança de sentido, o ano da inocência, o ano da ingenuidade, o ano do leite, o ano do ventre molhado, o ano dos quartos escuros, o ano da vida, o ano do sol, o ano do jambo vermelho, o ano das formigas, o ano das bonecas, o ano do olho furado, o ano de ficar louco, o ano do corno, o ano do babaca, o ano de comer mulher, o ano de chorar, o ano de aprender a viver de novo, o ano do "vamos ver", o ano do "que será o amanhã?", o ano do cachorro, o ano da vaca louca, o ano da cachorra no ar, o ano da beira do abismo, o ano da volta à democracia, o ano do não, o ano do sim, o ano de Collor, o ano do Itamar, o ano da hiperinflação, o ano da inflação zero, o ano dos Mamonas, o ano dos caruarus, o ano dos carajás, o ano dos genovevas, o ano dos cachorros quentes explodindo, o ano dos desacontecimentos, o ano dos cabelos brancos, o ano do último vôo livre de minha mãe. 1996, o ano da expectativa, o ano dos adiamentos, o ano da esperança, o ano que ainda não começou e acaba hoje. 1996, o ano que vai começar em 97, feliz ano novo...

22.12.05

Mais uma sobre as duas melhores coisas do mundo: a mulher e o garçom
De Xico Sá.

Numa mesa de bar, claro.
Se não, não teria graça. Eu nem contaria.
Confesso que bebi.
Deus deveria parar o cronômetro, como um juiz de basquete, quando a vida não tivesse como locações a cama ou o boteco.
Mas nada é tão justo assim nesse mundo. Sabemos.
Numa mesa de bar. Exterior, calçada, noite.
A nega indaga:
“Por que será que garçom só decora nome de homem?”
A nega é mulher de amigo, Jotabê Medeiros, compadre torcedor do glorioso Santos Futebol Clube.
De mulher de amigo também não sei sequer o batismo, o sagrado nome. Vê se pode uma coisa dessas!
Garçom só decora nome de homem?
Arrisco uma tese, PhD de botequim que me prezo. Com ajuda da amiga Ana Weiss, linda mulher do lado.
O bar é minha UFPE, minha universidade católica, meu doutorado da USP, minha filosofia, minha cachaça, minha cátedra, minha nota de rodapé, minha escolástica... Meu bar, meu mar...
Desde o “Robertão 70”, onde eu bebia no Recife ao som do Rei e sob as vistas do sósia-proprietário, grande homem.
Desde o bode, o arco e a lira, naquele bar do Espinheiro, mesmas plagas, na companhia do lírico-mor, saudoso amigo Jaci Bezerra.
A tese, sem mais torresmos mentais: ora, homem confia e trata bem o garçom, faz favor.
O garçom é o cúmplice, o ombro amigo, o divã que anda e traz o Freud, o Reich engarrafado. No tempo em que se fazia mais sexo, o chique era Reich, lembram?
Mulher contesta o garçom.
Mulher é que confere as contas.
Mulher é Procon, homem é fraude e festa.
Mulher acha que o garçom é aquele quarto árbitro que sempre levanta a placa do acréscimo, na beirada do campo, pedindo mais tempo, mais uma saideira.
Seu garçom faça o favor!
Mulher é uma praga. E como amo.
Mulher mata mais do que coração e varíola. Ainda morro disso, seu Evaldo, garçom-proprietário daquele bode da Encruzilhada, onde monto no White Horse e discuto Blow-Up, o filme, com Luciana Araújo, Hilton Lacerda e Dolores.
A vida é 90% inspiração e 10% garçom.
Garçom é a encarnação do anjo da guarda dos machos.
Garçom mantém o respeito e guarda a sete chaves o batismo das nossas melhores costelas.
Num bar, a simples pronúncia do nome de uma mulher já é o maior dos pecados. Ele sabe.
E se for mulher dos outros, meu Deus, cem anos de inferno.
Não há a menor réstia de machismo, minhas queridas, nessa elipse de gravata borboleta. Não é falha. O garçom não vos chama pelo nome por excesso de zelo, omissão sagrada, amém.
Garçom não é dez, é 100%, garçom está acima de homem e mulher, garçom é a ONU da existência, mais uma, faz favor, e pergunta aí ao freguês de lado de quanto o meu time apanhou!

16.12.05

De que lado você fica?
De Leo Jaime.

www.blonicas.zip.net

Vamos supor que em sua rua tenha um supermercado e que você faça suas compras lá, regularmente. Já cumprimenta os funcionários, conhece as prateleiras, sabe que o preço não é o melhor mas como é próximo e tem bons produtos é um cliente fiel. Fiel até ser surpreendido com a notícia, espalhada aos quatro cantos do planeta, de que o gerente da loja resolveu tocar fogo em uma família de mendigos que tinha se mudado para a marquise do supermercado dias atrás. Pois é, todo mundo dormindo ele chega, sorrateiro, joga gasolina nos cobertores e ateia fogo, fazendo um churrasco daquela família que, aos olhos de todos, exibia sua miséria ali, de forma inconveniente, incomodando os usuários e espantando a freguesia. Isso mesmo, você não era a favor daquela família residir na frente daquela loja mas ficou horrorizado, com justiça, com a medida escabrosa que o seu gerente arranjou pra resolver o assunto.
Qual sua atitude? Espera que a lei seja cumprida e nunca mais volta no supermercado? Provavelmente. Mas, afinal, o erro foi do gerente ou da empresa? Será que a empresa merece perder o cliente por ter tido um gerente maluco que tomou uma atitude criminosa por conta própria? Você pode nem querer saber. Mais provável é o supermercado predileto da vizinhança fechar as portas vendendo a loja para uma grande rede. O consumidor costuma ser radical nestes casos. Ainda mais quando é um caso desta gravidade, envolvendo assassinatos de crianças de forma tão hedionda.
Nada na história acima parece irregular, nem mesmo o exagero que parece ser culpar o CNPJ de uma empresa por um erro pontual e imprevisível de um funcionário. Vamos agora transferir a mesma situação para a realidade carioca e tentar compreender um dilema que lá se estabelece e que aqui será exposto.
São muitos os entorpecentes, a maioria deles liberada e fabricada por laboratórios confiáveis ou fábricas vigiadas e controladas pelo serviço de saúde pública. Álcool incluído, em suas milhares de formulações.
Vamos, porém, admitir que o seu favorito, o que você gosta de usar, não esteja na lista. Digamos que você prefere ficar mutcho loco com algum bagulho fabricado por pessoas honestíssimas e muito criteriosas com relação a métodos de higiene e controle de qualidade. Que este seu bagulho costuma ser transportado com muito carinho por pessoas igualmente ciosas, muitas vezes em suas cavidades mais íntimas, e que estes portadores tenham por hábito acrescentar com generosidade substâncias que visam enriquecer o mesmo bagulho, tão sagradas que a este ato se dá o nome de batismo. Diante de tudo o que aí se apresenta é naturalíssimo que você tenha a mais cega confiança no produto e em quem o serve. Eu compreendo: o bagulho não tem a função de alterar o estado de consciência? Quem disse que é pra melhor? Quem sou eu pra julgar? Vá lá! Você tem a maior confiança no seu vapor e na origem do bagulho "dubão" que ele costuma trazer em sua casa. Ou é você que passa no barraco dele pra buscar? O que importa?
Ai acontece a surpresa: aquele pessoal de índole sem jaça está com todas as digitais impressas na autoria de um crime bárbaro. O cara que vende seu bagulho é funcionário de uma boca que mandou queimar um ônibus com todos os passageiros dentro vivos, incluindo criancinhas. Não me pergunte o porquê de achar que o fato de ter criancinhas faz este churrasco humano mais bestial.
Eu apenas reservo-me ao direito de achar que crianças de dois anos, viajando com a mamãe de ônibus, são menos hábeis para lutar pela própria vida diante da surpresa terrorista desta natureza.
Pois é. O seu gerente mandou tostar o ônibus sem permitir que ninguém saísse de dentro. Um colega do cara que você recebe em sua sala ficou lá, impedindo que o pessoal escapasse à morte horrorosa. Um ou mais. Vai ver ele mesmo estava lá. E agora? Você deixa de comprar bagulho com ele e vai comprar com aquele pessoal que assou o jornalista com os pneus em volta do corpo?
Talvez você prefira tentar compreender que todo mundo perde mesmo a cabeça um dia e que, pô, os traficantes são muito perseguidos: qualquer um faria a mesma coisa se estivesse no lugar deles. É provavelmente você vai indagar, em meio ao consumo de uma presença dada pelo seu vapor, que ele passou da conta desta vez mas que não deixa de ser um cara super gente fina. E que o bagulho dele é bom e não vem malhado.
A sociedade do Rio tem feito suas escolhas. Tem que fazer. Em todas as cidades grandes, corrompidas pelo crime organizado, a escolha é proposta cotidianamente: de que lado você fica?
Com tanto jeito de alterar seus estados de consciência sem comprar nada de bandido você vai continuar fazendo questão do bagulho produzido pelos criminosos? Já lhe ocorreu que os lugares em que há maior injustiça social no planeta sejam exatamente os grandes centros de produção e escoamento de drogas? Seu traficante queima criancinhas vivas e você continua comprando bagulho dele como se nada houvesse? Você compreende? Acha um absurdo, mas nem por isso vai deixar de ficar doidão do mesmo alucinógeno ilícito?
Neste caso, caro leitor, só posso dizer uma coisa: tomara que o próximo bebê assado por um destes animais seja filho seu e não de alguém que, como eu, sabe muito bem de que lado está. Do outro.
Não dou um centavo em mão de bandido. Não alimento a corrupção.