29.7.09

O Kléber acabou de fazer um gol e dedicar ao Sorín.

Parece haver vida após a Libertadores.
O Mario diz, irônico, que eu amo tudo e sou uma eterna aniversariante, toda feliz sempre (hahaha!). Não é verdade, Mariozinho. Mas você eu amo mesmo. E Lulu Santos também. Posto então um cara por quem a gente compartilha o amor e que, como você, fica mais legal, mais bonitão, mais talentoso, mais sem jeito, mais sarcástico, mais sumido, mais chato e mais barrigudo a cada ano (você é meio Lulu Santos, Mariozinho, acabei de concluir).
De quebra, escolhi duas músicas que são o máximo. Eu sou muito boa pra você.
Feliz aniversário - da aniversariante.



Tão bem
Ela me encontrou, eu tava por aí, num estado emocional tão ruim - me sentindo muito mal. Perdido, sozinho, errando de bar em bar, procurando não achar. Ela demonstrou tanto prazer de estar em minha companhia que eu experimentei uma sensação que até então não conhecia: de se querer bem, de se querer quem se tem. E ela me faz tão bem, ela me faz tão bem, que eu também quero fazer isso por ela.

Tudo bem
Já não tenho dedos pra contar de quantos barrancos despenquei, e quantas pedras me atiraram ou quantas atirei. Tanta farpa, tanta mentira, tanta falta do que dizer - nem sempre é "so easy" se viver. Hoje eu não consigo mais me lembrar de quantas janelas me atirei e quanto rastro de incompreensão eu já deixei. Tanto bons quanto maus motivos, tantas vezes desilusão... quase nunca a vida é um balão. Mas o teu amor me cura de uma loucura qualquer - é encostar no teu peito, e se isso for algum defeito, por mim, tudo bem.

O amor somente existe pelo tempo de um cigarro. Todo o resto é fingimento.
Eu te amo.

Bruno Cardoso

Já disse de nós.
Já disse de mim.
Já disse do mundo.
Já disse agora,
eu que já disse nunca.
Todo mundo sabe,
eu já disse muito.

Tenho a impressão
que já disse tudo.
E tudo foi tão de repente.


Paulo Leminski

27.7.09

Eu nem te amo
Tati Bernardi

É estranho como sinto saudades quando você vai buscar água. Aqueles segundos que separam o resto das suas canelas se perdendo no corredor com o pulo que você dá na cama.
Aí você volta cheio de pressa em se livrar de mim e eu penso que tudo bem. Você tem pressa até de se livrar de você mesmo. O problema não deve ser eu. E eu nem te amo mesmo. Só fui te visitar porque tenho preguiça de transar com qualquer um e se fico mais de 3 semanas sem sexo começo a arrumar confusão no trânsito.
Sua voz é chata e seu papo então, insuportável. Respiro aliviada e sugo o máximo de você, pra ter a certeza absoluta de que não é você. Não sonhei com você. Não quero passar minha vida ao lado da pessoa mais estranha do mundo. Imagina só ficar grávida de um homem que tem pavor de mulher com enjôo? Imagina só ficar velha ao lado de um homem que tem pavor da vida óbvia, cotidiana e imperfeita? Eu viveria infeliz.
Não é você. E lá vem você me perguntar porque é que estão todos casando, e falar pela trigésima vez que você vai acabar sozinho e não deve nada a ninguém. E lá vem você me olhar apaixonado e, no segundo seguinte, frio. E me falar para eu não sofrer e para eu ir embora e para eu não esperar nada e para eu não desistir de você. E eu me digo que não é você. Porque, se fosse, meu sono seria paz e não vontade de morrer.
Me despeço, já sem aquela dor aterrorizante, das partes de você que mais amo. Ainda que eu nem te ame mesmo. E me despeço das partes da sua casa que eu mais amo. Ainda que nada disso seja amor. E entro no carro já sem chorar. Os últimos três anos chorando por você serviram ao menos para me secar por dentro.
Preciso me aliviar. Mas dou até risada porque acabaram os caminhos. O mundo não suporta mais esse meu não amor por você. Meus amigos espalmam a mão na minha cara e já vão logo adiantando que se eu pronunciar seu nome, eles vão embora sem nem olhar para trás. Remédios só me deixam com um bocejo químico e a boca do estômago triste, mas não tiram você do meu coração. E escrever, que sempre foi a única coisa que adiantava para os dias passarem menos absurdos, já se tornou algo ridículo. Escrever sobre você de novo? De novo? Tenho até vergonha. Nem eu suporto mais gostar de você. E olha que nem gosto.
É como se o mundo inteiro, os ventos, as ondas do mar, os terremotos, as criancinhas peladinhas brincando de construir castelinhos na areia , os carros correndo nas estradas, os cachorrinhos meditando nas gramas de todos os parques do mundo, a chuva, os cartazes de filmes, o passarinho que canta todo dia de manhã na minha janela, a torta de palmito na geladeira, a minha vizinha louca que briga com o gato na falta de um marido, um cara qualquer com quem eu dormi (e todos eles parecem qualquer quando não são você). É como se o mundo inteiro me dissesse: “hei Tati, ninguém agüenta mais esse assunto! Chega!”
E no meio da noite, quando eu decido que estou ótima afinal de contas tenho uma vida incrível e nem amava mesmo você, eu me lembro de umas coisas de mil anos e começo a amar você de um jeito que, infelizmente, não se parece em nada com pouco amor e não se parece em nada com algo prestes a acabar.
Lembro de você me dando mostarda de café da manhã na primeira vez que dormi na sua casa, de você com os olhos disfarçando uma lágrima porque a minha cachorra buscou a bolinha e era só uma desculpa para eu fechar a porta antes dela voltar. Lembro de você querendo fugir de um museu na Itália porque tantos dias longe de casa te deram uma espécie de bobeira e você achava que estava sufocando. Lembro da sua jaqueta com um sol nas costas e do seu cabelo espetado igual ao sol, do cheiro que você tem bem no centro da nuca, do gosto amargo de menino que tem pressa de tomar banho que você tem bem no fundo da orelha. Lembro de você olhando a bunda da minha amiga e logo depois me dando um abraço forte e dizendo “cadê mesmo aquela revista que tem um texto lindo seu?”. E lembro da primeira vez que eu te vi e te achei meio feio, vesgo, estranho. Até que você me suspendeu no ar por razão nenhuma eu tive certeza que meu filho nasceria um pouco feio, vesgo e estranho.
E então, no meio da noite, enquanto eu penso tudo isso, eu pergunto ao mundo todo que não agüenta mais esse assunto. Ao mar, às criancinhas peladas, aos cartazes de filmes, ao passarinho, à vizinha, aos cachorrinhos em meditação, à torta, aos carros, à qualquer um...eu pergunto: por que é que vocês todos estão tão cinza? Por que é que vocês não me ajudam? Por que é que todos vocês também ficam tão tristes quando ele vai embora? Por que é que todos vocês também morrem quando ele vai embora? Por que é que todos vocês também amam ele?
Hora de amor
Miguel Torga

Vem.
Adormece encostada a este braço
Mais débil do que o teu.
Entrega te despida
Nas mãos dum homem solitário
Que a maldição não deixa
Que possa nem sequer lutar por ti.
Vem,
Sem que eu te chame, ou te prometa a vida.
E sente que ninguém,
No descampado deste mundo, tem
A alma mais guardada e protegida
Luz versus luz
Paulo Leminski

de ilusão em ilusão
até a desilusão
é um passo sem solução
um abraço
um abismo
um soluço
adeus a tudo que é bom

quem parece são não é
e os que não parecem são
Nic, por email. Lindo, como sempre.

Elegia
Guimarães Rosa

Teu sorriso se abriu como uma anêmona
entre as covinhas do rosto infantil.
Estavas de pijama verde,
nas almofadas verdes,
os pezinhos nus, as pernas cruzadas,
pequenina,
como um ídolo de jade
que teve por modelo uma princesa anamita.
Tuas mãos sorriam,
teus olhos sorriam,
o liso dos teus cabelos pretos sorria,
e mesmo me sorriste,
e foi a única vez...

26.7.09



Pro dia nascer feliz
Cazuza

Todo dia a insônia me convence que o céu faz tudo ficar infinito
e que a solidão é pretensão de quem fica escondido, fazendo fita.
Todo dia tem a hora da sessão coruja, só entende quem namora... agora vão'bora.
Estamos bem por um triz pro dia nascer feliz, o mundo inteiro acordar e a gente dormir.

Todo dia é dia e tudo em nome do amor, essa é a vida que eu quis.
Procurando vaga uma hora aqui, a outra ali, no vai e vem dos teus quadris.
Nadando contra a corrente só pra exercitar todo o músculo que sente.
Me dê de presente o teu bis, pro dia nascer feliz, o mundo inteiro acordar e a gente dormir.

24.7.09

Dica da Romina. Adorei.

Brincadeira séria

Faz de conta: você acordou, ligou para o salão e marcou um horário. Na hora do almoço, foi lá e pediu: Corta bem curto. O cabeleireiro não acreditou no que ouvia. Afinal, seus quase cinquenta centímetros de cabelo sempre foram, na sua cabeça (literalmente), uma espécie de atestado da sua feminilidade. Mas agora eles teriam de ser curtos. Para que suas ideias ficassem longas. Ele colocou a mão um pouco abaixo do seu ombro: Mais ou menos aqui? Você segurou a mão dele, levou-a na altura da sua orelha, e disse: Tosa.

Depois você passou naquela loja onde tem uns vestidos moderninhos e coloridos. Você entrou e pediu aquele cor de laranja com borboletas, muito mais curto do que os que você costuma usar. Aproveitou e pediu a sapatilha da vitrine. Arrancou o seu terninho bege, sua camisa branca e seu escarpim marrom. Deixou tudo por lá mesmo, no provador. E quando a vendedora perguntou o que fazer com aquilo, você disse: Queima.

Quando você retornou ao trabalho, uma hora depois do horário de costume, com aquele vestidinho e com os cabelos daquele jeito, a roda em torno de você foi se formando. Uns, animadíssimos. Outros, nem tanto. Alguns reprovaram. Como as coisas já não andavam muito bem por ali, sua chefe lhe chamou no final do dia para conversar, e avisou que as coisas não poderiam continuar daquele jeito, ou ela teria que substituir você. E você disse:Substitui.

Saindo de lá deu vontade de jantar naquele bistrô aonde você acha que só deveria ir no dia do seu aniversário ou outra data importante. Você mal encostou seu carro e já veio o dono da rua, dizendo que eram dez pratas para parar ali. E, como você não deu bola, o homem começou aquela conversinha surrada dizendo, na entrelinha da entrelinha, que um eventual não-pagamento antecipado incorreria em riscos indesejáveis na pintura do seu bólido. Você pegou o celular, digitou três números, mostrou o visor para o homem e, já com o dedo na tecla “ligar”, disse: Risca.

Faz de conta que você chegou em casa e sua filha de dezessete anos estava na sala com o namorado. Você teve que contar de novo a história daquele vestido e daquele cabelo e, como chovia, sua filha sondou se o rapaz poderia dormir ali. E, enquanto jogava no lixo aquela agendinha que você só usava no trabalho, você disse: Pode.

Quando se deitou para dormir, aquele anjo que costuma vir conversar com você antes do sono se empoleirou na cabeceira da sua cama. Elogiou o cabelo, o vestido, a decisão no trabalho, o presente de não-aniversário, o chega-pra-lá no dono da rua, a atitude com a filha. Só por curiosidade, perguntou que bicho havia mordido você. E você, se ajeitando no travesseiro e já desligando o abajur, disse: Nenhum.

No dia seguinte, vendo que eram dez da manhã e você ainda não havia se levantado, sua filha entrou no quarto, vocês conversaram e no final ela perguntou como é que vocês viveriam dali para frente. Com certa ironia, ela arriscou dizer que com as bolsas e os badulaques que você produzia e vendia nos finais de semana é que não seria. E você disse: Sim.

À tarde, você procurou o dono daquele galpão que você havia visto para alugar, perfeito para uma oficina, e fez uma oferta. O homem coçou a cabeça, pediu um pouquinho mais, e você disse: Fechado.

À noitinha, você foi até a casa dos seus avós, assim, de surpresa. E, de surpresa, você os beijou. E quando eles perguntaram o que era aquilo, você disse: Amor.

Faz de conta que foi assim. Faz de conta que foi desse jeito que você virou a mesa. Que resolveu não perder mais tempo, fazer o que gosta e ser do jeito que você, só você, acha que fica mais bonita.

Faz de conta que você morreu. E que alguém lhe deu a oportunidade de voltar para um terceiro tempo.

Então. Agora vai lá e faz tudo de verdade.

Errei pela primeira vez quando me pediu a palavra amor, e eu neguei. Mentindo e blefando no jogo de não conceder poderes excessivos, quando o único jogo acertado seria não jogar: neguei e errei. Todo atento para não errar, errava cada vez mais.

Caio Fernando Abreu.

23.7.09

Do Twitter da minha irmã:

minha avó de 88 anos, megaultra diabética, tentando negociar com a enfermeira: "A sra. quer Coca Zero?" "Não, eu troco por abóbora".



No Chile com a Caroli

A Caroli é linda, delicada, uma boneca, racional, obediente, meiga, comportada - ou seja, ela é totalmente diferente de mim. Apesar disso, ou talvez por isso, é uma das mulheres que eu mais amo na vida. Voltamos ontem do Chile. Alguns dos melhores momentos de uma história de amor que já dura doze anos.


Logo depois do pouso, o ônibus do aeroporto esperando na pista para levar os passageiros até o terminal.
Caroli: "nossa, OUTRO ônibus de aeroporto. Eu odeio esses ônibus. Não é bem um medo, eu não tenho medo de andar em ônibus dentro do aeroporto. Mas eu odeio eles".

***

No saguão do aeroporto, esperando todos os que iam com o transfer do hotel chegarem pra gente poder ir embora.
O guia: "vou levar essa turma aqui e vocês duas esperam a próxima".
Caroli: "é. A gente vai no ônibus que só tem jovem".

***

O guia, falando portunhol: "los ladrones daqui podem até não andar armados, mas são espertos. Cuidado com as bolsas de vocês".
Minutos depois de um longo silêncio, Caroli: "nossa, que bom que los ladrones aqui não andam armados".

***

Na loja do posto de gasolina.
Eu: "não sei que chocolate eu levo. Não conheço nenhum".
Caroli: "leva esse aqui. É excelente".
Eu: "você conhece?".
Caroli: "não, não. Mas tá escrito aqui no papel dele: excellence".

***
Na estrada para Valparaíso.
Caroli: "não entendi muito esse GPS. Acho que tem alguma coisa errada. Aqui diz que se a gente ficar parada aqui, a gente chega lá por volta de seis horas da tarde".

***

No banheiro da vinícola que visitamos.
Caroli: "meu deus, que água fria! A água desse país deve vir direto da Cordilheira dos Andes pra nossa torneira".

***

No parque Santa Lucía, no alto de uma espécie de castelo cheio de pisos diferentes.
Caroli: "Dri, vai pra lá, naquele piso ali, mais baixo, pra eu tirar uma foto".
Eu: "Caroli, tem certeza? Ali só tem homem, tá lotado, eu vou ficar fazendo pose lá do lado deles?".
Caroli: "vai, é rapidinho".
Eu, voltando do tal piso, depois de ficar paradinha e com um sorriso congelado por vários minutos, cercada de homens desconhecidos, atrapalhando a passagem de um monte de gente, enquanto ela buscava calmamente o melhor ângulo: "deixa eu ver se a foto pelo menos ficou boa".
Caroli: "olha, na verdade não saiu muito você... é, não saiu você. O ângulo não tava ficando bom! Se bem que tem você aqui no cantinho, olha! Esse pontinho branco, tá vendo?".

***

Caroli, já de volta ao Brasil, por email: "Babs [ela me chama de Babita porque não conhece nenhuma Bárbara e queria ter uma amiga com esse apelido], espero que a gente ainda faça muitas outras viagens até a gente ficar bem velhinha".

Ana Caroli dirigindo seu primeiro filme. Ela me mata de orgulho (e de rir também, em breve posto as pérolas que ouvi na nossa viagem. Aguardem).

Fatal
Adélia Prado

Os moços tão bonitos me doem,
impertinentes como limões novos.
Eu pareço uma atriz em decadência,
mas, como sei disso, o que sou
é uma mulher com um radar poderoso.
Por isso, quando eles não me vêem
como se dissessem: acomoda-te no teu galho,
eu penso: bonitos como potros. Não me servem.
Vou esperar que ganhem indecisão. E espero.
Quando cuidam que não,
estão todos no meu bolso.

22.7.09

Soma de malogros noves fora tudo

Thiago de Mello

Com o desperdício de cores,

selo o fim dos meus amores.

Amor pode ser começo

de si mesmo a cada instante.

Fico no fim que mereço.

Sei que perdi: me apostei

inteiro. Mas aprendi

que não dependo (e ninguém)

só de mim para me dar.

É repartido que posso

vir um dia a merecer

a flama ardendo serena,

que resolve a diferença

entre viver e morrer.

Sei que perdi. Mas ganhei.

17.7.09

Amo-te e é triste não poder deixar de amar-te sem estar triste.

Alvaro de Campos

Neve, pra esfriar a cabeça. Vinho, pra esquentar o coração.
Porque eu juro que eu estou merecendo - e precisando.
Santiago, Chile, de amanhã a quarta-feira.
Não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?

em "Os sobreviventes", Caio Fernando Abreu.

16.7.09

Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas

detêm a mão ansiosa: Devagar.

Cada pétala ou sépala seja lentamente

acariciada, céu; e a vista pouse,

beijo abstrato, antes do beijo ritual,

na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.


Carlos Drummond de Andrade

Saudades em BH. Bonito demais.

Noturno de Chopin

Pedro Nava

Eu fico todo bestificado olhando a lua
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin

Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim...
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...

Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.

Os olhos de você, amor...

O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor...)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.

15.7.09

O mundo que venci deu-me um amor
Mário Faustino

O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em campos de vitória...
Todas as namoradas que eu já tive
Vinícius de Moraes

Todas as namoradas que eu já tive
Estão noivas
Uma só dentre todas não está noiva
Casou-se.
Nenhuma se lembra mais de mim
As que tiveram meus beijos evitam meus olhos
As que tiveram minha afeição riem mal de mim
E beijam furtivamente os noivos nos cinemas e nas praias
Todas têm meus sonetos de amor
Com promessas ardentes de constâncias e fidelidade
Todas têm meu retrato
O retrato do menino risonho que eu já fui
Com todas eu gastei algumas horas do dia
E algumas horas da noite
Todas estão noivíssimas
E são apenas meninas sem juízo fazendo o que querem
Dando aos namorados anteriores a satisfação social do noivado
E exibindo o noivo bonito aos olhos das moças sem namorado.

Algumas eu amei sinceramente
Sem grandes palavras mas com olhares francos
Olhares que eu estudava nos bondes com outras
Para fazê-los ainda mais verdadeiros
Com outras me diverti
Passeando horas e horas braço com braço
Com palavras grandes e pequenos olhares
A todas eu feri inconscientemente
As que eu beijei e as que eu não beijei
As que eu beijei porque um dia não quis beijar
As que eu não beijei porque um dia quis beijar.

Vi-as fugirem todas de mim
E me vi fugindo de todas elas
Vejo-as agora aqui e ali ontem e hoje
A casada, com um filho
As noivas, com brilhos maternais nos olhos
Futuros infelizes para o mundo
Vejo-me por momentos pai de família comprando brinquedos
E a satisfação de estar só é tão grande
Que no fundo eu estimo sinceramente todas essas meninas
Que estão noivas e serão muito felizes
E a que está casada e não é feliz mas faz que é

E me estimo mais, ainda, a mim próprio

Que estou só, feliz e só, com os meus amigos e com a minha boemia discreta.

Pelo tri do Cruzeiro

Juca Kfouri

O CRUZEIRO joga nesta quarta-feira aquela que pode ser a segunda partida mais importante de sua temporada neste 2009.

Porque, se tudo der certo, a mais importante deverá ser disputada na decisão do Mundial de Clubes da Fifa.

Mundial que o time celeste ainda não tem, embora já tenha duas Libertadores, a primeira vencida com um belo time, em 1976, em três inesquecíveis jogos com o River Plate.

A segunda, em 1997, já não foi com nenhum time dos sonhos, porque futebol é assim mesmo.

O grande Cruzeiro de todos os tempos, aquele de Tostão e Dirceu Lopes, não ganhou a Libertadores.

Duas Libertadores da América também têm, no país, o Santos e o Grêmio, mas três só o São Paulo.

Que nesta quarta-feira num Mineirão lotado e, sobretudo, solidário, o espírito de Raul Plassmann e Dida permaneça inspirando os milagres de Fábio.

Que Jairzinho ilumine Wagner; que Joãozinho encarne em Ramires e que Marquinhos Paraná tenha a assistência de Nelinho, assim como Palhinha se faça presente na cabeça de Kléber.

Porque Adílson Batista sabe o suficiente de seus antecessores campeões sul-americanos, dois senhores técnicos, Zezé Moreira e Paulo Autuori, e está à altura deles.

Uma vitória cruzeirense e o time estrelado já será o time do ano no Brasil, independentemente do que vier a acontecer de hoje para frente.

O argentino Estudiantes merece todo o respeito do mundo, mas o Cruzeiro é melhor.



14.7.09

Do site www.thingsmyboyfriendsays.com. Não é atualizado há muito tempo, mas eu adoro o que está lá. E eu devia ter um blog desses.

While snuggling:
me: Who loves you?
e: Megatron

***
E's financial planning.
"You shouldn't buy me things. Save your money for unicorn rides or whatever it is girls spend money on."

***
Birthday.
me: It's my birthday soon. You'd better get me something pretty.
e: I'll get ME something pretty, and you can play with it.

***
Prelude to a spidering.
me: I'm going to throw that giant spider on you.
e: Don't. It'll all end in tears.
me: Whose?
e: Mine.

***
Bunny rabbits.
e: I'd get a bunny if they weren't so stupid.
me: They're brilliant!
e: They chew extenstion cords!
me: So do you!
e: Yeah, but for me it's a religious obligation.
me: What religion is that?
e: I'm not allowed to tell outsiders.
me: How do you know I'm not a member?
e: Obviously, you'd be chewing extension cords.

***
Low and lazy.
me: Your fly is open.
e: I'M ADVERTISING

***
Random.
me: What do you think famous dogs eat?
e: Smaller dogs.

***
Wish.
e: Are there any cans of coke left?
me: No, I drank the last one but maybe the store's still open ... *looks at clock* No, BUT IT'S 11:11! MAKE A WISH!
e: i wish for a can of coke.
Minha irmã, por email, pra mim e pro Fer:
Eu e Tom nos conhecemos hoje e já nos amamos.
Estou horrorizada por vocês deixarem um menino tão doce e bonito ficar no frio a noite inteira. Que maldade! Começo aqui meu protesto "Deixe O Tom Dormir Na Cozinha ou No Quartinho De Computador". Sério. Não consigo pensar em outra coisa, tá frio até aqui em casa. O coitado fica sozinho um tempão, no gelo no quintal.
Que maldade.... DEIXA O TOM ENTRAR!!!

Resposta do Fer:
Tom sobre Tom

O Tom é lindo
E vem, originalmente, do Canadá
Naqueles cantos, folhas caem com os ventos
Temperaturas caem como folhas, lá

O Tom é grande
Quebra objetos
Come coisas
Solta pelo
Espalha dejetos

Amigos, amigos,
Cachorros à parte,
O Tom no quintal,
Netinho estandarte.

***

Perguntei pro Fer o que queria dizer o final.
Ele: "amor, é poesia. Se fosse fácil, seria prosa".
Mariana Clark e suas aventuras aeronáuticas, que sempre me arrancam as maiores gargalhadas (ela tem pavor de avião). Mari, Mari...

- Boa tarde - entrego a carteira de identidade - gostaria de escolher um assento.
- Sim senhora. Um minuto, senhora - o funcionário da GOL me diz.
- Pois não - olhando para os lados. Será que só eu estou nervosa?
- Bem, senhora, o único assento disponível é na fileira 9. Sem ser esse, só depois da fileira 22. Os assentos do número 10 ao 21 estão bloqueados.
- Estão o que? - cara de espanto.
- Bloqueados, senhora - com a cara blasé - para a estabilização da aeronave.
(Não, não, não. Hein?)
- Como assim para a estabilização da aeronave? - a minha criança de 7 anos pergunta.
- É porque o vôo está vazio - cara blasé - e se todo mundo ficar na frente o avião empina.
(Não, não, não. Hein?)
- E..e..e..empina? - cara de pânico.
- Sim, na hora do pouso. E causa acidente - sombrancelha levantada.
- Moço do céu. Me vê aí a fileira 9. E não marca ninguem, ouviu bem, ninguém no meio. Não vamos empinar o avião, hein.
- Não vamos, senhora. Fique tranquila.
Dom de se iludir
Nina Lemos (02 neurônio)

“Não, ele não respondeu”, falava a menina pelo telefone. Sim, ela estava em outra casa, mas eu ouvi o diálogo porque ela falava muito alto. E também, claro, porque eu adoro escutar conversas dos outros, não nego. A amiga do outro lado do telefone (como eu sei que era amiga? Que homem participaria de um diálogo desses?) deve ter falado: “que filho da puta”.

Sim, ele não tinha respondido um e-mail. E com certeza ele era um pretendente. Sorri. Até que escutei a teoria da moça: “eu acho ótimo que ele não tenha respondido. Isso é um bom sinal! Ruim mesmo seria se ele me respondesse me dando um fora!”

Atenção para a maravilha desse pensamento feminino: alguém não responder a um email é uma coisa BOA. Ser ignorada é melhor do que levar um bom fora. Sim, Freud já ensinou, o contrário do amor é a INDIFERENÇA. Não o ódio. Tem indiferença maior do que não responder a um email? Mas a vizinha carioca achou que isso era uma coisa boa. E eu simpatizei imensamente com ela. Realmente, quando a gente quer, é capaz de acreditar em qualquer coisa. Ou não. Talvez eu tenha perdido essa capacidade com os anos. Pior para mim.

10.7.09

Sambando na lama de sapato branco, glorioso,
um grande artista tem que estar feliz...
... sambando na lama e salvando o verniz.

Cantando no toró, Chico Buarque (essa música é sensacional. E me lembra o Mario).
Dois e dois: quatro
Ferreira Gullar

Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena.

Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena

como é azul o oceano
e a lagoa, serena

como um tempo de alegria
por trás do terror me acena

e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.

9.7.09

Voltas para casa
Ferreira Gullar

Depois de um dia inteiro de trabalho
voltas para casa, cansado.
Já é noite em teu bairro e as mocinhas
de calças compridas desceram para a porta
após o jantar.
Os namorados vão ao cinema.
As empregadas surgem das entradas de serviço.
Caminhas na calçada escura.

Consumiste o dia numa sala fechada,
lidando com papéis e números.
Telefonaste, escreveste,
irritações e simpatias surgiram e desapareceram
no fluir dessas horas. E caminhas,
agora, vazio,
como se nada acontecera.

De fato, nada te acontece, exceto
talvez o estranho que te pisa o pé no elevador
e se desculpa.
Desde quando
tua vida parou? Falas dos desastres,
dos crimes, dos adultérios,
mas são leituras de jornal. Fremes
ao pensar em certo filme que viste: a vida,
a vida é bela!

A vida é bela
mas não a tua. Não a de Pedro,
de Antônio, de Jorge, de Júlio,
de Lúcia, de Míriam, de Luísa...

Às vezes pensas
com nostalgia
nos anos de guerra,
o horizonte de pólvora,
o cabrito. Mas a guerra
agora é outra. Caminhas.

Tua casa está ali. A janela
acesa no terceiro andar. As crianças
ainda não dormiram.
Terá o mundo de ser para elas
este logro? Não será
teu dever mudá-lo?

Apertas o botão da cigarra.
Amanhã ainda não será outra dia
.

O que ouviu os meus versos disse-me: "Que tem isso de novo?

Todos sabem que uma flor é uma flor e uma árvore é uma árvore.

Mas eu respondi, nem todos, (?...)

Porque todos amam as flores por serem belas, e eu sou diferente

E todos amam as árvores por serem verdes e darem sombra, mas eu não.

Eu amo as flores por serem flores, diretamente.

Eu amo as árvores por serem árvores, sem o meu pensamento.

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

Efeito Libertadores
Cruzeiro vai perder pro Atlético no domingo.
E vai ser lindo mesmo assim.
Eu sou dois. E aceitamos que você empregue o seu amor em nós.

Os dois
Manoel de Barros

Eu sou dois seres.
O primeiro é fruto do amor de João e Alice.
O segundo é letral:
É fruto de uma natureza que pensa por imagens.
Como diria Paul Valery,
O primeiro está aqui de unha, roupa, chapéu
e vaidades.
O segundo está aqui em letras, sílabas, vaidades
frases.
E aceitamos que você empregue o seu amor em nós.

8.7.09

Bilhete com endereço
Mário Quintana

Mas onde já se ouviu falar
num amor á distância,
Num tele-amor ?!
Num amor de longe…
Eu sonho é um amor pertinho
Um amor juntinho...
E, depois,
Esse calor humano é uma coisa
Que todos - até os executivos - têm.
É algo que acaba se perdendo no ar,
No vento
No frio que agora faz…
Escuta!
O que eu quero,
O que eu amo,
O que eu desejo em ti

É teu calor animal!…
É duro ter coração mole
Alice Ruiz

Por favor
não me aperte tanto assim
tenha cuidado, pega leve
olha onde pisa
isso é meu coração
meu ganha-pão
instrumento de trabalho,
meio de vida, profissão
meu arroz com feijão
meu passaporte
para qualquer parte
para qualquer arte
não machuque esse meu coração
preciso dele
para me levar a Marte
sem sair do chão
não me aperte
não machuque
tome cuidado
eu vivo disso
poesia, sonhos
e outras canções
sem emoção
morro de fome
sinto muito
mas não há nada
que eu possa fazer
sem coração

Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante.
Que mais quero?

Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)

Pro Fer. Porque eu te amo. E porque ver você chegando no fim do dia é estar em casa (havia me esquecido do quanto isso é verdade).

Reverência

Flora Figueiredo

Se não fosse você, eu andaria
a caminho do nada,
pra lugar nenhum.

Eu erraria por entre vagas abertas,
sobre páginas incertas
de um pobre verso comum.

Se não fosse você, eu perderia
a noção do sol e do vento,
de todo e qualquer elemento
que me induzisse à beleza.

Se não fosse você, eu ficaria presa
na trama dos desafetos,
dos amores incompletos
que o mundo encaixa nos cantos.

Se não fosse você, triste seria
e a memória por certo contaria
minha historia na pobreza de um clichê.
.....e eu certamente me demitiria
dos ternos devaneios da poesia.
Que seria de mim, se não fosse você?

Roxo
Guimarães Rosa

Deixa que o levem, agora,
que a mulher cristã da sala
já quer ir embora...
Ela desceu dos teus olhos de choro,
magnética e profunda, como um rastro
de ametistas mortas...
Passou pelas olheiras fundas,
pousou nos ramalhetes de saudades,
tocou nas fitas das coroas, longas
como equimoses...
E agora, vê: vai passeando,
de leve, pelos lábios, pelo rosto,
pelo corpo,
pelos dedos, duros do teu esposo morto...
Ela quer ir embora...
Deixa que o levem, agora...

Subversiva

Ferreira Gullar

A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça
E promete incendiar o país.

Um poema?
Mário Quintana

No mundo não há nada mais triste do que uma boneca morta...
Talvez porque sua mãezinha tenha morrido de parto!
Ou encontrar um vestido de noiva numa casa de penhores
ou começar cheio de rimas quando se escreve em prosa
Ou não encontrar rimas quando se escreve em versos
(Também, quem me mandou escrever clássico?!)
Bendita seja a Isadora Duncan que inventou o verso livre da dança!
Só não sei,
Mesmo,
o que eu queria dizer com tudo isso...
Viuvita
Mário de Andrade

Ela era mesmo bonita, muito moça
Esperando autobonde sozinha na esquina.
Todos os homens a encaravam sem respeito, desejando.

Vai, pra se livrar de tanta amolação
Ela fez esse gesto de moça que arranca chapéu,
Só pra mostrar a defesa que tinha no dedo, uma aliança.
A moça esqueceu que tinha duas alianças no dedo...
Por causa disso os homens se aproximaram mais.

6.7.09

Carta para você
Xico Sá

Nada sofreu um baque tão grande com a internet como a carta de amor. Falo da missiva de punho próprio, selada na língua, carimbada, que segue no bico do pombo-correio ou é entregue pelo bravo homem de amarelo, o velho mr. Postman da canção dos Beatles, esse grande homem, o carteiro, sempre enxotado pelos cães e recebido pelo sorriso das moças que sentem saudades dos mancebos que saíram para comprar cigarro.
(...)
Amigo, no tempo em que os homens lambiam selos, sabiam adular também as moças de um jeito mais bonito e delicado, se é que você me entende.
A Romina passa por aqui sempre, super delicada na hora de deixar um comentário ou de enviar coisas legais. Esse foi ela que me mandou. Adoro a tristeza da Florbela Espanca.
Beijos pra noiva mais noiva dos últimos tempos!

Amiga
Florbela Espanca

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!...Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei prá minha boca!...

5.7.09

Ganhei de presente. Nic, adoro ter você por perto pra trocar Bandeiras, Lispectors, Drummonds. Obrigada, sempre.

Madrigal muito fácil
Manuel Bandeira

Quando de longe te vi,
Quando de longe te via,
Gostei logo bem de ti.
Como é bonita! eu dizia.

Mas por enganar aquilo
Que dentro de mim senti,
Que dentro de mim sentia,
Pensei de mim para mim
Que a distância é que fazia
Me pareceres assim.

Não era a distância não!
Pois chegou aquele dia
Em que te apertei a mão
Sem saber o que dizia.
E vi que eras mais bonita
Do que para o meu sossego
A distância te fazia.

Quanto mais de perto, mais
Bonita, era o que eu dizia!
E desde então imagino
Que mais linda te acharia,
Mais fresca, mais desejável
Mais tudo enfim, se algum dia
- Dia ou noite que marcasses -
Se algum dia me deixasses
Te ver de mais perto ainda!
Assim eu vejo a vida
Cora Coralina

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.
Amor imperfeito
Cassiano Ricardo

A perfeição
é um momento,
por demais claro.
Como repeti-la,
sem enfaro?

A perfeição,
se possuída
a todo instante
se faz rainha
suicida.

Quem já mediu
o perfeito,
rosa de prata,
mas em sua
medida exata?

Nada existe
sem o defeito
que lhe dá graça.
Só amo a graça
do imperfeito.

O perfeito
quando existe
tem o defeito
de ser triste.
(Lácrima Cristi)
A disfunção
Manoel de Barros

Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de a menos.
Sendo que o mais justo seria o de ter um parafuso trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa disfunção lírica.
1 - Aceitação da inércia para dar movimento às palavras.
2 - Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 - Percepção de contiguidades anômalas entre verbos e substantivos.
4 - Gostar de fazer casamentos incestuosos entre palavras.
5 - Amor por seres desimportantes tanto como pelas coisas desimportantes.
6 - Mania de dar formato de canto às asperezas de uma pedra.
7 - Mania de comparecer aos próprios desencontros.
Essas disfunções líricas acabam por dar mais importância aos passarinhos do que aos senadores.

A lucidez perigosa

Clarice Lispector

Estou sentindo uma clareza tão grande

que me anula como pessoa atual e comum:

é uma lucidez vazia, como explicar?

Assim como um cálculo matemático perfeito

do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer

vendo claramente o vazio.

E nem entendo aquilo que entendo:

pois estou infinitamente maior que eu mesma,

e não me alcanço.

Além do que:

que faço dessa lucidez?

Sei também que esta minha lucidez

pode-se tornar o inferno humano

- já me aconteceu antes.

Pois sei que

- em termos de nossa diária

e permanente acomodação

resignada à irrealidade -

essa clareza de realidade

é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,

porque ela não me serve para viver os dias.

Ajudai-me a de novo consistir

dos modos possíveis.

Eu consisto,

eu consisto,

amém.