29.9.04

Entre vista 1 e 2 (ou aquilo que ainda não me perguntaram) (fragmentos)
Elisa Lucinda

- que o homem que habita o meu desejo e o lado mais nobre de minha cama-alma é o mesmo do meu sonho;
- que estou muito acostumada comigo. E quase não brigamos;
- que gosto de luta mas não gosto de briga;
- que todos os beijos na boca são únicos;
- que se eu passar mais de 24 horas num lugarejo com amor, viro nativa, avó, parteira e vizinha;
- que ajo como se fosse viver eternamente e morrer amanhã;
- que sou chegada num trovão e a porção de delicadezas que pode causar sobre um poema.
- que o medo é um defeito físico. Paralisa.

Era uma menina que gostava de inventar uma explicação para cada coisa - explicação é uma frase que se acha mais importante do que a palavra. Ela achava o mundo do lado de fora um pouquinho complicado. Se cada um simplificasse as coisas, o mundo podia ser mais fácil, ela pensava. Então tentava simplificar o mundo dentro da sua cabeça - simplificar é quando em vez de pensar em 4/8 a pessoa pensa logo em 1/2. Um meio, quando é escrito em números, sempre quer dizer "metade". Mas quando é escrito em letras, pode também querer dizer "um jeito".
Existem vários jeitos de entender o mundo. Ela tentava explicar de um jeito que ele ficasse mais bonito. Essa menina pensa que é filósofa, as pessoas falavam - filósofo é quem, em vez de ver televisão, prefere ficar pensando pensamentos. De tanto que a menina explicava, as pessoas às vezes se irritavam (irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio de seu peito) e terminavam indo embora, deixando a menina lá, explicando, sozinha.
Solidão é uma ilha com saudade de barco. Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue. Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo. Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer "eu deixo" é pouco. Pouco é menos da metade. Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.
Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro de sua cabeça.
Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.
Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair de seu pensamento.
Ainda é quando a vontade está no meio do caminho. Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele. Cismar é quando o desejo quer aquilo apesar de tudo. Apesar é uma dificuldade que não é grande o suficiente. Dificuldade é a parte que vem antes do sucesso. Sucesso é quando você faz o que sabe fazer só que todo mundo percebe.
Antes é uma lagarta que ainda não virou borboleta.
Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que devia querer outra coisa.
Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.
Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.
Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.
Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente.
Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.
Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja.
Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.
Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento. Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado. Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes. Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração. Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é fevereiro. Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma. Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros. Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho. Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia. Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas geralmente não podia. Perdão é quando o Natal acontece em maio, por exemplo. Exemplo é quando a explicação não vai direto ao assunto. Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo. Beijo é um carimbo que serve pra mostrar que a gente gosta daquilo. Gostar é quando acontece uma festa de aniversário no seu peito.
Amor é um gostar que não diminui de um aniversário pro outro. Não. Amor é um exagero... Também não. É um desadoro... Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?
Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina.

"Mania de explicação", de Adriana Falcão.

28.9.04

O olimpo da mulheres prendadas
Jô Hallack (www.02neuronio.com.br)

Tudo começou com um bolo de cenoura. Ficou ótimo, porém, com jeito de solado. Suas amigas e sua mãe lhe garantiram que bolo de cenoura sempre fica com jeito de solado. E você resolveu ir além. Com um objetivo definido: chegar ao olimpo das pessoas prendadas. Seres humanos elevados que sabem fazer até o trivial.
E por que isso? Porque você surtou e quer ser do lar.
Acontece nas melhores famílias. Você, oprimida por ter que fazer jornada dupla de trabalho - isto é, trabalhar na sua firma e trabalhar na sua casa... oprimida por ter que ser inteligente, criativa, empreendedora e conquistar o mundo (oprimida por você mesma, bom dizer) - resolve escapar pelos fundos. E aprender a cozinhar. E não vale aquelas picaretagens refinadas não! Sim, você sabe até fazer atum com coscouz marroquino. Mas a mulherzinha que grita dentro de você diz que você tem que ser uma cozinheira ordinária. No melhor dos sentidos. E fazer feijão-com-arroz. E não vale também o arroz sete cereais!
O bolo de chocolate é o segundo obstáculo e você se saiu muito bem. E sua vida passa a girar em torno do bolo. Você vai até a cozinha ver se o bolo está no lugar que você o deixou. Oferece o bolo às visitas. E se sente a própria Sebastiana Quebra Galho.
Até arrumar um novo desafio. Estrogonofe. A verdade é que fica meio ruim. O gosto é bom, mas o aspecto é meio estranho. E você deu o golpe baixo ao trocar as batatas sautée por batata palha pronta. Mas todos - você e seu pretê, que tem como obrigação elogiar - comem. E ele até repete!!!
Neste dia, você pensa em ir além. Rumo à glória. No futuro, você poderá até oferecer às visitas carne assada - daquelas que você tem que amarrar um barbante por algum motivo enigmático.

(...) Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. (...)
Clarice Lispector
Samba-canção
Ana Cristina Cesar


Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
era comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz...

Teu corpo seja brasa
Alice Ruiz


teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo

um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo

Verdade
Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em metades diferentes uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era totalmente bela. E carecia optar.
Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
"Deve-se apresentar ao sujeito o seu próprio dito, o mesmo que dizer 'coma o que disse', pois não se come apenas livros como no Apocalipse de São João; também se come as próprias palavras em análise, ainda que não sejam um prato saboroso".

Miller, "Diagnóstico e localização subjetiva". In: Lacan Elucidado.

26.9.04

Não se ama duas vezes a mesma mulher.
Machado de Assis
Aceitação
Cecília Meirelles

É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
E sentir passar as estrelas
Do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.
É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceano
E assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,
Que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
O sinal de uma eterna esperança.
Não me interessam nem mais as estrelas, nem as formas do mar, nem tu.
Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
Não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.

24.9.04

Sabe o que é melhor que ser bandalho ou galinha? Amar. O amor é a verdadeira sacanagem.
Tom Jobim
Pronominais
Oswald de Andrade

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

23.9.04

"A posição ética tradicional, metafísica, política, que permitia às pessoas orientar seu pensamento, está em falta. O excesso se tornou a norma".
Charles Melman, psicanalista. Revista Isto É, 22/09/04.
Conseguir correr 15 minutos ininterruptos me deu a sensação de ser uma pessoa melhor.
Emergência
Mário Quintana

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
Os teus pés
Pablo Neruda

Quando não posso contemplar teu rosto, contemplo os teus pés.Teus pés de osso arqueado, teus pequenos pés duros. Eu sei que te sustentam e que teu doce peso sobre eles se ergue. Tua cintura e teus seios, a duplicada púrpura dos teus mamilos, a caixa dos teus olhos que há pouco levantaram vôo, a larga boca de fruta, tua rubra cabeleira, pequena torre minha. Mas se amo os teus pés é só porque andaram sobre a terra e sobre o vento e sobre a água, até me encontrarem.
Se
Paulo Leminski

se

nem
for
terra

se

trans
for
mar

Aos apaixonados
Rubem Alves


Dedico esta crônica aos apaixonados, mesmo sabendo que servirá para nada: é inútil falar aos apaixonados. Os apaixonados só ouvem poemas e canções. A paixão, experiência insuperável de prazer e alegria, pelo fato mesmo de ser uma experiência insuperável de prazer e alegria, coloca o apaixonado fora dos limites da razão. Todo apaixonado é tolo. Pode ser que ele escute a fala da razão. Escuta mas não acredita. Diz ele: "o meu caso é diferente!" Tolo mesmo é quem tenta argumentar com os apaixonados.
Começa, pois, assim, minha inútil meditação com um verso terrível de T. S. Eliot. Ele está rezando. Ele sabe que somente Deus tem poder para lidar com a loucura da paixão. Ele reza assim: livra-me da dor da paixão não satisfeita e da dor muito maior da paixão satisfeita.
Todo mundo sabe que paixão não satisfeita dói. Mas poucos sabem que a paixão só existe se não for satisfeita. A paixão é fome. Ela só floresce na ausência do objeto amado. Mais precisamente, ela vive da ausência do objeto amado. Não se trata de ausência física, o objeto amado distante, longe. A dor da ausência física tem o nome de saudade.
Saudade tem cura. A saudade é curada quando o seu objeto volta. A dor da paixão é diferente. Não tem cura. A saudade do objeto amado, mesmo quando ele está presente, é o perfume característico da paixão. Cassiano Ricardo sabia disso e escreveu. "Por que tenho saudade / de você, no retrato, ainda que o mais recente? / E por que um simples retrato /mais que você, me comove, se você mesma está presente?" (...).
Toco sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas se encontram e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Júlio Cortazar, “O jogo da amarelinha”.
Teu nome
Vinícius de Moraes

Teu nome, Maria Lúcia
Tem qualquer coisa que afaga
Como uma lua macia
Brilhando à flor de uma vaga.
Parece um mar que marulha
De manso sobre uma praia
Tem o palor que irradia
A estrela quando desmaia.
É um doce nome de filha
É um belo nome de amada
Lembra um pedaço de ilha
Surgindo de madrugada.
Tem um cheirinho de murta
E é suave como a pelúcia
É acorde que nunca finda
É coisa por demais linda
Teu nome, Maria Lúcia...

22.9.04

Late Ilusão
Elisa Lucinda

Em noite de lua cheia
geme ao meu lado o meu cão
acabado de chegar
late ilusões ao meu ouvido
e meu sentido
diz que ele veio pra ficar
Mas a vida passa e vira
páginas da folhinha
o que era cheia e domingo
foi minguando em segundas e terças
e meu homem, minha besta
voltou novo e repetido
como se fosse ficar até sexta
três dias de ele chegando de madrugada
três dias de ele nadando na minha água
Conversas de homem e mulher
beijo na boca
tirar a roupa
novos latidos de ilusão no meu duvido
meu homem partiu na derradeira manhã
todo agradecido
dos momentos de amor que uivou comigo
eu fiquei lua sozinha no céu com aquela saudade amarela
e ele na terra cantando latindo partindo
uivando pra ela.

20.9.04

O gato e o pássaro
Jacques Prevért

Uma cidade escuta desolada
O canto de um pássaro ferido
É o único pássaro da cidade
E foi o único gato da cidade
Que o devorou pela metade
E o pássaro pára de cantar
O gato pára de ronronar
E de lamber o focinho
E a cidade prepara para o pássaro
Maravilhosos funerais
E o gato que foi convidado
Segue o caixãozinho de palha
Em que deitado está o pássaro morto
Levado por uma menina
Que não pára de chorar
Se soubesse que você ia sofrer tanto
Lhe diz o gato
Teria comido ele todinho
E depois teria te dito
Que tinha visto ele voar
Voar até o fim do mundo
Lá onde o longe é tão longe
Que de lá não se volta mais
Que você teria sofrido menos
Sentiria apenas tristeza e saudades
Não se deve deixar as coisas pela metade.

Tecendo a manhã
João Cabral de Melo Neto

I
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

II
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

19.9.04

Esse é um blog apaixonado, ainda que meio mal-humorado às vezes.
Tarde - LXIX
Pablo Neruda

Talvez não ser é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e pelos tijolos,

sem essa luz que levas na mão
que talvez outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,

sem que sejas, enfim, sem que viesses
brusca, incitante, conhecer a minha vida,
rajada de roseira, trigo do vento,

e desde então sou porque tu és,
e desde então és, sou e somos,
e por amor serei, serás, seremos.

18.9.04

"Você não entende porque a gente chora diante da beleza? A resposta é simples. Ao contemplar a beleza, a alma faz uma súplica de eternidade. Tudo o que a gente ama a gente deseja que permaneça para sempre. Mas tudo o que a gente ama existe sob a marca do tempo. Tudo é efêmero. Efêmero é o por do sol, efêmera é a canção, efêmero é o abraço, efêmera é a casa construída para o resto da vida. A gente chora diante da beleza porque a beleza é uma metáfora da própria vida."

Rubem Alves (embora eu não goste de Rubem Alves.)
Viagem
Miguel Torga

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura
O que importa é partir, não é chegar.

P.S.: Não nos curamos nunca de nosso inconsciente. Na teoria é lindo, poético. Na prática é uma merda. "Então você quer dizer que você faz tudo, e nunca é o suficiente?". Não, eu não queria dizer isso. Mas eu disse, agora eu que me vire.
Um Beijo
Vinícius de Moraes

Um minuto o nosso beijo / Um só minuto; no entanto
Nesse minuto de beijo / Quantos segundos de espanto!
Quantas mães e esposas loucas / Pelo drama de um momento
Quantos milhares de bocas / Uivando de sofrimento!
Quantas crianças nascendo / Para morrer em seguida
Quanta carne se rompendo / Quanta morte pela vida!
Quantos adeuses efêmeros / Tornados o último adeus
Quantas tíbias, quantos fêmures / Quanta loucura de Deus!
Que mundo de mal-amadas / Com as esperanças perdidas
Que cardume de afogadas / Que pomar de suicidas!
Que mar de entranhas correndo / De corpos desfalecidos
Que choque de trens horrendo / Quantos mortos e feridos!
Que dízima de doentes / Recebendo a extrema-unção
Quanto sangue derramado / Dentro do meu coração!
Quanto cadáver sozinho / Em mesa de necrotério
Quanta morte sem carinho / Quanto canhenho funéreo!
Que plantel de prisioneiros / Tendo as unhas arrancadas
Quantos beijos derradeiros / Quantos mortos nas estradas!
Que safra de uxoricidas / A bala, a punhal, a mão
Quantas mulheres batidas / Quantos dentes pelo chão!
Que monte de nascituros /Atirados nos baldios
Quantos fetos nos monturos / Quanta placenta nos rios!
Quantos mortos pela frente / Quantos mortos à traição
Quantos mortos de repente / Quantos mortos sem razão!
Quanto câncer sub-reptício / Cujo amanhã será tarde
Quanta tara, quanto vício / Quanto enfarte do miocárdio
Quanto medo, quanto pranto / Quanta paixão, quanto luto!...
Tudo isso pelo encanto / Desse beijo de um minuto:
Desse beijo de um minuto / Mas que cria, em seu transporte
De um minuto, a eternidade / E a vida, de tanta morte.

"Minha aposta mais alta. Minha cama com coberta no sábado mais frio. Sabe quando as coisas estão certas? Pois é. Você. (eu poeta...)".

E eu musa.

Mais uma tentativa. Vamos ver se dá pé. O certo é que eu tenho tido vontade de escrever, ou de copiar o que os outros escreveram e eu não teria capacidade, ou coragem.
Vai ser bom pra mim. Até que não seja mais - mas acho que esse é o destino dos blogs: acabarem, um dia, empoeirados e velhos, esquecidos pela rede.