28.11.10



Paris é pra mim. Fim.


27.11.10

O que se foi

O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?

Ferreira Gullar

23.11.10

Rita Ritinha Ritona
Dalton Trevisan

Aos 13 anos, Ritinha floriu numa orgia de beleza. Toda graças e prendas. Foi um susto na família. Um espanto entre as amigas. Uma surpresa a cada desconhecido.
À sua passagem, os cãezinhos a passeio presos na coleira davam duplos saltos-mortais de alegria. Nas janelas os vasinhos de violeta batiam palmas para lhe chamar a atenção. As pedras mudavam de lugar na calçada, cada uma disputando o afago do seu pezinho. Os semáforos se acendiam em onda verde, não atrasá-la caminho da escola. Um bando de garças voou lá do Passeio Público para vê-la.
Desde menina dançou balé, estudou inglês, atirou-se do trampolim mais alto na piscina. Tinha seu próprio quarto, com tevê e computador. Cartazes de Paul McCartney e O beijo, de Klimt. Uma foto do selvagem Brando.
Aos 15 anos, de um dia para outro, segundo susto, novo espanto, maior surpresa. No seu corpo aconteceu um milagre da natureza: ó delírio de curvas, doçuras e delícias!
Ao vê-la da primeira vez, você logo suspirava: Ai, Rita, meu amor! De joelho e mãozinha posta. Igual se deslumbrou diante do mar nunca visto - as grandes ondas rebolantes desse mar de olhos verdes, des pen teando ao vento as longas melenas loiras de espuma. E, tocado de tal assombro, gemerá para sempre: Ai, Ritinha, Rita, Ritona!
Para ela, cada dia era uma festa. O telefone da casa nunca mais parava de tocar. Um namorado novo toda semana, às vezes dois ao mesmo tempo. Nunca chegava sozinha e sim num arrastão de amigas, taga relando e rindo - alarido festivo de baitacas em revoada.
Ao seu lado, todas ficavam feias e pálidas. Perturbada com o próprio esplendor, buscou em vão esconder a beleza e exagerava no disfarce. Setenta e sete tipos diversos de brincos. Correntinha no tornozelo. Mil cores de batom para combinar com a roupa. Unhas também coloridas, miniatura em cada uma. Um armário de minissaias.
Nas temporadas de praia, Rita namorou quanto banhista possível. O vizinho tinha gêmeos. Num verão foi um dos irmãos; no seguinte, o outro. Resistir, quem podia? Estrela rósea do mar, em quatro modelos de biquíni. Chapéus, cangas, sandálias. Mil presilhas e elásticos no cabelo. Arsenal devastador para uma jovem matadora de corações.
Foi a todas as festinhas consentidas pelo catolicismo dos pais - e sem permissão a outras tantas. Sob a mansa beleza, não se iluda: uma leoa rondava lá dentro. Às proibições sempre injustas, segundo ela, reagia com violência, aos gritos. Ai de quem a enfrentasse:
- Não pode, mocinha. Papai não deixa. Deus não quer.
Os grandes olhos verdes trovejavam raios. Na seqüência de argumentos, Ritona era fulminante:
- Que é que tem de mais?
Agressiva:
- A vida é uma só.
Vencendo definitiva a discussão:
- Eu não pedi para nascer.
Na celebração dos 16 anos, disputada pelo bando de amigas (do colégio, do inglês, do balé, da igreja, da vizinhança) e pelos ex, atuais e futuros namorados. Rita afirmou o seu direito a tudo: banda ao vivo, o vestido decotado, cabelo e maquiagem de mulher. Valsa com o pai, o avô, o irmão e o amigo mais íntimo. Mil damas de honra, cada uma com uma rosa na mão - ela a rainha única da festa.
Foi a sua última festa.
Pouco depois conheceu o José. Não sei onde nem como. Suponho que em algum evento de jovens ecu mênicos, porque ele é calvinista. As igrejas gostam de promover atividades esportivas e culturais para adolescentes e jovens. Em todo caso, não sei. Só que, ao vê-lo, Rita sentiu no peito doendo fininho sete alfinetes de fogo.
Ele foi a sua ruína. Quando começou, ninguém se apercebeu - apenas mais um de uma longa lista. Após dois, três meses, começaram a ficar impressionados. Tomara juízo afinal e assentava a cabecinha naquela sucessão frenética de casos?
Passado meio ano, a família decidiu reparar no rapaz e descobrir o que a filha via nele. Até então, o José aparecia uma e outra vez em algum aniversário. Mais não fazia que cumprimentar de longe. Quieto no seu canto, com ninguém falava. Opinião unânime: bonito não era. Nem interessante ou divertido. Porte atlético? Nunquinha: magrelo e esquálido. Ao aparecer de calção na praia, verificaram que as pernas, além de cabeludas, eram cambaias. Quais podiam ser os seus atrativos secretos?
A essa ausência deles, Ritinha respondia com olhos submissos e alumbrados - bem suspeitaram fosse presa de algum feitiço. Era a mesma rebelde que despedia os pretendentes com enfado e arrogância? Até a vez dele fo ra tão louca, festeira, prepotente. E a família acei tou aliviada aquele namoro exclusivo. Por isso custaram a notar as pequenas mudanças no seu com portamento.
A maquiagem foi aos poucos sumindo, ao José não agradava. Batom vermelho-fogo nunca mais. As saias aumentaram, agora mais compridas que as da mãe, abaixo do joelho. Salto alto nem pensar, ficava um tantinho maior que ele. Das amigas foi se afastando, uma a uma. Para o José, esta era muito exibida. Aquela, má companhia. Uma terceira, invejosa.
Às festas só podia ir com ele. E como ele não era de festa... As bijuterias, correntinhas, brincos, deu à irmã caçula. E, para consternação da família, surgiu na praia - oh, não - de maiô preto inteiriço. (Lá de longe eis que vinham as pequenas ondas, uma atropelando a outra, na ânsia de ser a primeira a beijar em flores de espuma os seus róseos pezinhos.)
Desgosto da mãe: começou a freqüentar o culto cal vinista. Desespero do pai: desistiu do inglês. Na reunião urgente da família, Ritona se defendeu com a antiga ferocidade. Os pobres pais reconheceram desiludidos que tudo era inútil: proibição de sair, mesada reduzida, ameaça, sermão e lágrimas. Uma só concessão ela fez: concluir a graduação do inglês.
Já que ela não saía, o José passou a freqüentar diariamente a casa. Quanto ao inglês, estudavam juntos - e o que podiam agora os pais alegar? No caso de festa muito especial (um grupo do colégio, uma amiga, um clube), o distinto se recusava a ir. A guerreira adormecida se insurgia, pronta a desafiá-lo. No início conciliadora, pedia e suplicava. Afinal:
- Então vou sozinha.
- Pode ir - ele não discutia. - Só que está acabado. Entre nós tudo acabou.
Covardemente, a leoa já lambia a mão com o chicote.
Às vezes iam ao cinema. Ele esperando na sala. Ela chegava lindíssima, a cabeleira de fogo e mel, o vestido vermelho novo - os seios de cornucópia à vista com todos os frutos da terra.
- Ah, não. Esta saia é muito curta.
- Com você assim eu não saio.
- E esse cabelo? Não tem escova?
Nunca um elogio. Ritinha voltava chorando ao quarto. Calada, trocava de roupa. E acabavam não saindo.
Passados um, dois anos, a família odiava o nosso maniqueísta da saia curta, o discípulo fariseu de Cal vino, o capeta de bigodinho que roubava da garota o riso, a luz, o verde dos olhos. Então era tarde: ela fez 18 anos. Agora maior e senhora do seu destino.
José vem todo dia jantar na casa. Filho único de uma viúva de militar, da qual tem vergonha e mantém escondida. Rita enfeita o seu lugar à mesa: todos os quitutes ao alcance da mão. Ai, o patê de salmão que o tipo gosta. O presunto cru que o fulano gosta. O queijo fresco que o tal gosta.
A família mal o tolera. Às vezes retiram-se antes dele chegar. Ao distinto (evitam pronunciar o seu nome) é indiferente, serve-se com o apetite de sempre. Não conversa. Você só escuta a voz amorosa de Ritinha:
- Hoje na aula de Anatomia...
- Estou pensando se você...
- Que tal o tempero, amor?
- Aceita mais um pouquinho de...
Foi então que aconteceu. No seu monólogo se referiu quem sabe a algum novo passo de dança. Ele acabou de comer, cruzou os talheres e decidiu o fim do balé. A moça não podia acreditar:
- É o que faço desde pequena!
- Bem por isso. Já foi bastante.
- O que mais adoro!
- Mais que a mim?
- Não... não...
Agora é demais. O tirano se desmanda no seu poder absoluto. Uma tragédia para ela. Um escândalo para a família, que exulta: chegou a hora da verdade. Sem falar, Rita se recolhe ao quarto - todos à espera do rugido da leoa.
Dois, três dias ele não voltou. A guria chorando trancada no quarto. Ao anunciar enfim que desiste do balé, duramente criticada.
- Quem acha esse tipinho que é?
Ela, uma rainha de Sabá. Ele, um caniço de pernas tortas. Tudo a moça ouve, cabecinha baixa, sem sorrir.
À noite, quem estava lá, se deliciando com o patê e o presunto? Entre beijos gulosos de uma canarinha à sua volta trinando feliz. O amor, essa coisa, sabe como é.
O pai resolve, em desespero, enfrentar o carinha: aos 20 anos, sem emprego fixo, é dependente da mãe, da qual ganha uma pequena mesada.
- Olhe aqui, mocinho. Veja esta casa. Veja a vida que tem a Rita. Acha que pode lhe oferecer as mesmas regalias?
- A gente não precisa de dinheiro. A gente se ama. É isso que importa pra gente.
- Só que o amor não paga as contas.
- O senhor diz isso porque vive no luxo.
- Ah, é? Luxo que você bem desfruta.
- É só falar. A gente não pisa mais aqui, não.
Interrompidos por um grito de súplica e dor:
- Pai!
O velho baixa o tom da voz:
- Não foi o que eu... Mas pense no teu futuro, moço.
Na primeira oportunidade, em breve ausência da moça, torna ao ataque:
- Você não é marido para a minha filha.
- Quem tem de dizer é só ela. Mais ninguém.
A mãe receia que as discussões provoquem a antecipação do casamento. Sua esperança é de Rita se interessar, nos dois anos finais de faculdade, por algum colega ou médico do hospital. Pouco importa católico ou luterano - basta não seja o abominável fulaninho.
Para aflição geral não é que a garota fala em casar? E, duplo desgosto, na Igreja Calvinista. A família se une em vã tentativa de dissuadi-la. Nenhum de nós o aprecia. Os que não odeiam, mal o toleram.
José continua impávido no seu silêncio. Toda noite, senta-se à mesa e come até se fartar. Ainda esquá lido e magro. Na falta do balé, quem engorda é a nossa Ritinha. Mais linda nas curvas mais sinuosas. Um tantinho triste. E nela mesmo a tristeza lhe assenta bem.
Os viajantes de longes terras, ao falarem da nossa cidade anos depois, se lembrarão apenas - ó alegria para sempre! - da garota sem nome, entrevista por alguns instantes, caminhando por entre as nuvens, no seu vestidinho branco de verão.
Se você lhe pergunta:
- Rita, meu amor, vamos ao cinema?
Ou:
- À casa da Paula?
Ou ainda:
- Às compras no shopping?
A cada vez, Rita, Ritinha, Ritona se agita. Pessegueiro em flor pipilante de pintassilgos. Oh, não, olha para o tipo... Que simplesmente franze a testa.
Ela deixa a tua pergunta sem resposta. Faz um gesto indiferente. E, diante da janela, se põe a falar do sol que brilha ou da chuva que cai.
"É por isso que não me canso de dizer: qualquer amor que possa receber e dar, qualquer felicidade que possa receber ou fornecer, cada breve gesto gentil, qualquer coisa que funcione..."

Boris, do filme "Whatever works", de Woody Allen.
Postado pelo Gui. Mas é meu. Tá, Gui? Eu te empresto, mas é meu!!
Quando um amor acaba, não há muito o que dizer ou explicar. E as tentativas são inúteis. É triste discutir relações que não existem mais. Tão triste como um cão na chuva. O quanto se amou, as saudades, o que doeu e onde, quem é mais culpado..eu ou você? O seu nome na agenda do celular que não existe mais como também não existe mais um nós ou sua cara de sono pela manhã. O que sobrou, o que fica e insiste é a vida sempre pedindo uma nova chance, é todo o mundo que hoje existe porque você deixou de existir. Ou, melhor, continua existindo mas da sua maneira. A sua maneira longe de mim. Porque hoje já não falo mais de nós para os amigos que perguntam de você. Hoje, escolhi a vida e todo o resto do mundo. Porque hoje já não falo mais mesmo que você exista e sempre vai existir dentro de mim: um pedaço. Mas não um despedaçamento. Há um mundo porque hoje já não falo mais.

Mari Clark. Sempre.

20.11.10

ah, meu coração antiquado e careta.

17.11.10

Obrigado por ter se mandado, ter me condenado a tanta liberdade. Pelas tardes - nunca foi tão tarde -, teus abraços, tuas ameaças. Obrigado por eu ter te amado com a fidelidade de um bicho amestrado. Pelas vezes que eu chorei sem vontade pra te impressionar, causar piedade.
Pelos dias de cão muito obrigado, pela frase feita, por esculhambar meu coração antiquado e careta, me trair, me dar inspiração pra eu ganhar dinheiro.
Obrigado por ter se mandado, ter me acordado pra realidade das pessoas que eu já nem lembrava, pareciam todas ter a tua cara. Obrigado por não ter voltado pra buscar as coisas que se acabaram e também por não ter dito obrigado, ter levado a ingratidão bem guardada.

Cazuza, "Obrigado".
Conversa de mesa de bar. Literalmente.
Saber parar antes do surto.
Parei.

16.11.10

Depoimento
Miguel Torga

De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não. Nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.
A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia,
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder.
Fica a vida, o coração que continua, um cão e o humor.

Consolo na praia
Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizaram.
Mas, e o humor?

14.11.10

Preparando a noiva. E curtindo a amiga.
Amor, amor, amor.

12.11.10

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

Carlos Drummond de Andrade
Não é que eu ache tudo feliz. Mas é que eu não sei, simplesmente não sei ser triste.

11.11.10

Ana não se sentia esgotada, cansada, destruída nem nada do que lhe acometera nos ultimos meses. Depois de muito tempo, Ana sorria feito boba. Sorria sozinha. Porque sentia seu coração no lugar, sua cabeça no lugar e não demoraria muito pra sua vida entrar nos eixos. Ana e somente Ana conseguia entender o que se passava e sorria sozinha. Um riso leve, um sorriso solto, que não se pode segurar só pra si. Nem ela sabia que guardava tantos sorrisos. Era muito bom estar de volta.

daqui, que tirou daqui.

10.11.10

As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão
Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.
Cuspo chicletes do ódio no esgoto exposto do Leblon
Mas retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon
Eu sei o que é bom.

Fora da ordem, Caetano Veloso.

9.11.10

Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem.
Millor Fernandes, direto do blog da Carol.
Nos últimos meses, quando parecia que eu não tinha mais lugar no mundo, eu chegava lá e ficava claro que meu lugar era aquele.


Durante muito tempo só falei de amor nesse blog. Deixei-o como às vezes fazemos com os amores. De alguma maneira, o que eu vivia não encontrava espaço por aqui e eu ficava feliz com os pedidos para retomá-lo mas de uma maneira que não sabia explicar, não sabia como. Não cabia. A escrita foi perdendo seu lugar para outras coisas, outros amores, que como ela, são também importantes. Até o dia em que acordei, fui ao banheiro escovar os dentes e vi dois bilhetinhos do meu irmão para minha mãe. Ele havia trabalhado até às 5 da manhã na noite anterior e precisava da mesma roupa limpa para daqui a algumas horas recomeçar tudo de novo. Vida dura de quem trabalha para os outros se divertirem. Sorri ao ver aqueles bilhetes, me deu uma sensação de pertencer a um lugar, à uma família e ao amor, finalmente. E tudo naquela letra feminina que ele tem (melhor que os meus garranchos e muito melhor que os da minha mãe também), a pedindo para deixar a roupa limpa nem que seja uma lavada rápida, nem que precise usar a secadora. Não deixei de notar um certo tom desesperado e sonolento. Ele dormia.
Gosto de acordar e ter a casa vazia. Gosto quando não tem ninguém a quem deva dar bom dia ou dizer qualquer coisa que seja. Gosto dos meus maus hábitos vespertinos tais como beber coca cola e fumar um cigarro na paz de quem é politicamente incorreta. Mas, de alguma maneira, sei que todos voltarão, uma hora ou outra, e encher todo aquele espaço com barulho, falatórios que nem sempre quero corresponder ou novidades bobas como a promoção de romã da Morini. E eu olho para eles e sei que vou sentir saudades disso para o resto da minha vida.
De amor

Chegaria tímido e olharia tua casa,
A tua casa iluminada.
Teria vindo por caminhos longos
Atravessando noites e mais noites.

Olharia de longe o teu jardim.
Um ar fresco de quietação e repouso
Acalmaria a minha febre
E amansaria o meu coração aflito.

Ninguém saberia do meu amor:
Seria manso como as lágrimas,
Como as lágrimas de despedida.

Meu amor seria leve como as sombras.

Tanto receio de te amar, tanto receio...
A sombra do meu amor
Poderia agitar teu sono, pertubar o teu sossego...

Eu nem quero te amar, porque te amo demais.

Augusto Frederico Schmidt


Eu achei idiotamente sensacional.

8.11.10

Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas

defender a alegria por princípio
defendê-la do pasmo e dos pesadelos
assim dos neutrais e dos neutrões
das infâmias doces
e dos graves diagnósticos

defender a alegria como bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingénuos e também dos canalhas
da retórica e das paragens cardíacas
das endemias e das academias

defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e homicidas
do descanso e do cansaço
e da obrigação de estar alegre

defender a alegria como uma certeza
defendê-la do óxido e da ronha
da famigerada patina do tempo
do relento e do oportunismo
ou dos proxenetas do riso

defender a alegria como um direito
defendê-la de deus e do Inverno
das maiúsculas e da morte
dos apelidos e dos lamentos
do azar
e também da alegria

Mario Benedetti

Nunca ouviremos ninguém dizer que está decepcionado com o capitalismo. Porquê? Porque o capitalismo não promete nada. No entanto, como o socialismo é uma ideologia repleta de promessas também está cheia de decepções.

José Saramago
Paris x NY.

Antes eu não sabia
porque é que se deve
- dia após dia –

andar sempre em frente
até como se diz
o corpo aguentar.

Agora sei.
Se vieres comigo
digo-te.

José Agustin Goytisolo

Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas não ter o seu lugar.

Los Hermanos
Festa aqui em casa, mais de vinte pessoas.
E ninguém morreu de fome, de sede, sem prato ou sem copo.
Descubro que meu estilo "convidada" de ser anfitriã também dá certo.

6.11.10

Por lo tanto, los psicoanalistas no están completamente integrados al ordem social. Sólo tienen un pie adentro. Si tuviera que llevarse a cabo, que realizarse, la inserción social del psicoanálisis sería al mismo tiempo su desaparición. La prueba está en lo delicada que es la vía de hacer reconocer la utilidad social del psicoanálisis. Pues si los psicoanalistas hubieran de tomar este reconocimento en serio y no como un semblante, ello les obligaría a querer el bien.

Leonardo Gorostiza


Ela se chama Isabela, mas poderia ser Drizinha. A mesma calma e tranquilidade.

5.11.10

Clarinha grávida. Eu coruja.
E se "ficar pra titia" for isso, eu não vou me importar nem um pouco.

4.11.10

Estou numa relação maravilhosa comigo mesmo. Meu francês soltou-se, falo maravilhosamente e faço tudo com o maior desembaraço e sozinho. Alguma coisa em mim parece que laceou, eu era tão cheio de medos. Aprendi também a não contar muito com os outros: na medida do possível, faço tudo só. Dá mais certo.

Caio Fernando Abreu (com exceção do francês, o resto é tudo verdade).

3.11.10

Comentário da minha irmã. Porque rir da gente mesmo é receita de família.

Ana B. disse...

“Falo do amor de forma mística, sei o preço. (…) Sou muito inteligente, muito exigente e muito engenhosa para alguém ser capaz de se encarregar completamente de mim. Ninguém me conhece nem me ama completamente. Só tenho a mim”
- Simone de Beauvoir (Mas podia ter sido você. Ou eu. Ou alguém com pouca modéstia.)





Minha vida sem mim.
Felipe Morozini.

2.11.10

God only knows what I'd be without you.
Agora eu também sei. E de alguma forma, preciso te agradecer por isso.

Eba! Finalmente uma mulher presidente! (mas ela é chamada de vaca e de bruxa)
Nina Lemos, do 02 Neurônio

Uma mulher foi eleita presidenta do Brasil. E isso é uma coisa tão importante, que significa tanto, que provavelmente vamos passar os próximos quatro anos falando sobre isso por aqui.

Eu, pessoalmente, tenho vontade de escrever várias coisas sobre o fato. Não, eu nunca imaginei que isso fosse possível. E o fato de eu nunca ter imaginado é triste e mostra o quanto a gente ainda é minoria. Outro dia vi um amigo falando que não fazia diferença ela ser mulher. Não faz para ele, que é homem. Para a gente faz, sim. E para os homens também.

Prova: o bulliyng que a presidenta está sofrendo desde a campanha. Pode ver: chamam a Dilma de feia, de vaca, de bruxa, de grossa. Falam que ela é sapatão (se for, ótimo, claro, mas isso é problema DELA). O Brasil se pergunta: mas como assim, ela é solteira, não vai ter primeiro damo. Não, queridos, por enquanto não. A presidenta é uma mulher divorciada. Que tem uma filha, uma neta e uma boa relação com o ex. Simples assim. Ela é, nesse caso, como muitas de nós, ou como nossas mães, que queimaram sutiãs para que hoje a gente pudesse escrever, ser presidente e ser solteira.

Quer dizer, a gente pode numas. Quando uma mulher é livre, ela é xingada e agredida. Longe de mim me comparar com a presidenta. Mas sei muito bem o que é sofrer cyberbulliyng. Um dia escrevi sobre depilação aqui no 02 Neuronio e fui chamada de suja. Muita gente disse que tinha nojo de mim. Pois vi uns pseudo moderninhos associando a palavra Dilma com “nojo”.

Mulher quando vira chefe ganha fama de mal comida. E se tem opinião é mal amada. Pára lá! Não somos nada disso. E não saímos por aí xingando os homens e os maltratando. Muito pelo contrário. Se a gente não concorda com uma coisa que lê, não sai escrevendo: “ah, você deve ter pau pequeno”. Não. A gente não é assim.

A presidenta levou muita porrada verbal na campanha e provavelmente vai continuar levando. Somos solidárias a ela. E a todas as garotas que são chamadas de galinhas, biscates, putas, vacas, feias, sujas.

É emocionante ter uma mulher presidenta. E isso faz a gente ter ainda mais vontade de gritar: RESPEITO! DELICADEZA! Não nos xinguem! Nos tratem bem! A gente só quer amor, respeito e liberdade. Simples.

O amor não resolve nada. O amor é uma coisa pessoal, e alimenta-se do respeito mútuo. Mas isto não transcende o colectivo. Levamos já dois mil anos dizendo-nos isso de amar-nos uns aos outros. E serviu de alguma coisa? Poderíamos mudá-lo por respeitar-nos uns aos outros, para ver se assim tem mais eficácia. Porque o amor não é suficiente.

José Saramago

1.11.10



Feliz.
(O jeito é dar uma fugidinha com você).