25.5.11

"É preciso que o nome não seja útil.
Substituir o nome"


Francis Ponge

18.5.11

Leonard Cohen


Ainda que isto pareça um poema
prefiro avisá-los desde o início
de que não tinha que o ser.
Não quero converter tudo em poesia.
Sei tudo sobre o seu papel neste assunto
mas isso não me interessa agora.
Isto é entre tu e eu.
Pessoalmente estou-me a marimbar para quem seduziu quem:
De facto pergunto-me se isso me interessa.
Mas um homem tem de dizer alguma coisa.
A verdade é que lhe deste 5 cervejas MacKewan,
a levaste para o teu quarto, puseste os discos adequados,
e numa hora ou duas estava feito.
Sei tudo sobre a paixão e a honra
mas infelizmente isso nada tinha a ver convosco:
Oh! Tenho a certeza que houve paixão
e mesmo um pouco de honra
mas o importante era pôr os cornos a Leonard Cohen.
Com os diabos, mais valia dizer-vos:
Não tenho tempo para escrever mais nada.
Tenho de dizer as minhas orações.
Tenho de esperar à janela.
Repito: o importante era pôr os cornos a Leonard Cohen.
Gosto desta linha porque nela está o meu nome.
O que na verdade me põe doente
é que tudo continue igual:
Ainda sou uma espécie de amigo,
ainda sou uma espécie de amante.
Mas não por muito tempo:
é por isso que digo a ambos
O caso é que me estou a converter em ouro, a converter em ouro.
É um longo processo, dizem,
acontece por fases.
Só quero informá-los que já me converti em argila.
Escrevemos porque não queremos morrer. Esta é a razão profunda do acto de escrever.


José Saramago
Something in the way she moves attracts me like no other lover. Something in the way she woos me.
I don't want to leave her now, you know I believe and how.
Somewhere in her smile she knows that I don't need no other lover. Something in her style that shows me.
I don't want to leave her now, you know I believe and how.
You're asking me will my love grow: I don't know, I don't know.
You stick around now it may show: I don't know, I don't know.
Something in the way she knows and all I have to do is think of her. Something in the things she shows me.
I don't want to leave her now, you know I believe and how.


 

17.5.11

Tenho saudades de uma dama
como jamais houve na cama
outra igual, e mais terna amante.


Não era sequer provocante.
Provocada, como reagia!
São palavras só: quente, fria.


No banheiro nos enroscávamos.
Eram flamas no preto favo,
um guaiar, um matar-morrer.


Tenho saudades de uma dama
que me passeava na medula
e atomizava os pés da cama.


Carlos Drummond de Andrade
O meu acalanto
Ferreira Gullar


Por que motivo
Verter o pranto?


O canto existe.


Por que motivo
Lembrar a dor?


A flor existe.


Por que motivo
Pensar na morte?


(A morte é triste!)
(...)
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em ti é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente impessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim.


(Ah, bruta flor do querer).

16.5.11


É. O Mineiro 2011 acabou.

15.5.11


Podia ser só a imagem - capa de um disco do Supertramp -, já era suficiente pra eu amar. Mas vai abaixo a descrição do Cadu, que me faz amar ainda mais.


Sobre a imagem, minha interpretação - e o motivo d'eu gostar dela - é a seguinte. Em 1975 a Inglaterra estava indo pra merda: vinha da crise do petróleo em 1973 e dum crash da bolsa de valores em 1974, estava com inflação alta (27%, o povo tá enlouquecendo no Brasil agora porque a nossa está em 6%), estagnação econômica ("estagflação"), desemprego, a indústria indo pro buraco (e produzindo tudo de má qualidade), greves todo dia, a guerra na Irlanda, o diabo. Em 1976 o governo britânico pediu arrego e foi ao FMI pra libra não estourar (como o real estourou com FHC em 99 e 2002, não nos esqueçamos). A Grã-Bretanha tinha quebrado.
Eu chamo esse cara da foto de o homem evoluído. Esse magrelo. Em volta dele tá tudo uma merda, eu penso naquelas cidades industriais antigas da Inglaterra (Birmingham, Manchester), poluídas, nada funcionando, chuva ácida. E o cara lá, na praia. Dane-se onde, ELE tá na praia. Jornalzinho, drink, radinho Roberts tocando alguma coisa (a Roberts é a Jaguar dos rádios, até hoje existe e faz rádios nesse estilo aí), óculos de sol. O mundo acabando e ele está em Jericoacoara. Na cabeça dele. DO CARALHO.
Não sei quanto a você, mas o objetivo da minha vida é virar esse cara aí. Eu sei que tô muuuuuuuito longe, eu piro com tudo. Mas isso aí é evolução. Crise? Que Crise?

9.5.11

 


Sweet escape
Gwen Stefani


If I could escape I would, but first of all let me say
I must apologize for acting stank and treating you this way
Cause I've been acting like sour milk all on the floor
It's your fault you didn't shut the refrigerator 
Maybe that's the reason I've been acting so cold

If I could escape and re-create a place as my own world 
And I could be your favorite girl forever, perfectly together
And tell me boy, now wouldn't that be sweet? 
If I could be sweet, I know I've been a real bad girl
I didn't mean for you to get hurt 'soever, We can make it better 
And tell me boy, now wouldn't that be sweet?



You held me down, I'm at my lowest boiling point
Come help me out, I need to get me out of this joint
Come on, let's bounce, counting on you to turn me around
Instead of clowning around let's look for some common ground

So baby, times get a little crazy, I've been getting a little lazy
Waiting for you to come save me, I can see that you're angry
By the way the you treat me
Hopefully you don't leave me, want to take you with me
This world is forcing me to hold your hand.

6.5.11

Se a chuva parasse
continuarias a não estar aqui
pelo que prefiro que a chuva prossiga
como sulfúreo castigo;

se te olho através da vidraça
é porque penso ser um dia o namorado
fantasma
a espreitar-te do pára-brisas estilhado
como de insistente postigo.


Daniel Jonas, Os Fantasmas Inquilinos

5.5.11

‎"04 de maio: dia da corinthianização do futebol brasileiro".
@tdbem, no twitter.

3.5.11

Conjugação da ausente
Vinícius de Moraes

Foram precisos mais dez anos e oito quilos
Muitas cãs e um princípio de abdômen
(Sem falar na Segunda Grande Guerra, na descoberta da penicilina e na desagregação do átomo)
Foram precisos dois filhos e sete casas
(Em lugares como São Paulo, Londres, Cascais, Ipanema e Hollywood)
Foram precisos três livros de poesia e uma operação de apendicite
Algumas prevaricações e um exequatur
Fora preciso a aquisição de uma consciência política
E de incontáveis garrafas; fora preciso um desastre de avião
Foram precisas separações, tantas separações
Uma separação...


Tua graça caminha pela casa
Moves-te blindada em abstrações, como um T. Trazes
A cabeça enterrada nos ombros qual escura
Rosa sem haste. És tão profundamente
Que irrelevas as coisas, mesmo do pensamento.
A cadeira é cadeira e o quadro é quadro
Porque te participam. Fora, o jardim
Modesto como tu, murcha em antúrios
A tua ausência. As folhas te outonam, a grama te
Quer. És vegetal, amiga...
Amiga! Direi baixo o teu nome
Não ao rádio ou ao espelho, mas à porta
Que te emoldura, fatigada, e ao
Corredor que pára
Para te andar, adunca, inutilmente
Rápida. Vazia a casa
Raios, no entanto, desse olhar sobejo
Oblíquos cristalizam tua ausência.
Vejo-te em cada prisma, refletindo
Diagonalmente a múltipla esperança
E te amo, te venero, te idolatro
Numa perplexidade de criança.