30.9.08

Inocentes do Leblon
Carlos Drummond de Andrade

Os inocentes do Leblon

não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.

29.9.08

vazio agudo
ando meio
cheio de tudo

Paulo Leminski.
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Esta é pro Mario, que gosta de Leminski tanto quanto eu (vem logo pro Messenger!).

28.9.08

"Ela compreendeu até, o que não está muito longe do sublime, que a mulher só existe de verdade sob a condição de existir sem pão, sem pouso, sem amigos, sem marido e sem filhos. É só assim que ela pode forçar seu senhor a descer".
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Jacques Lacan.

27.9.08

A consequência de eu ter ficado viciada no blog do Saramago: agora os leitores deste blog vão ter que gostar muito dele também.
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A prova do algodão
José Saramago
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Segundo a Carta do Direitos Humanos, no seu artigo 12º.: “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida, na sua família ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação”. E mais: “Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a protecção da lei”. Assim está escrito. O papel exibe, entre outras, a assinatura do representante dos Estados Unidos, a qual assumiria, por via de consequência, o compromisso dos Estados Unidos no que toca ao cumprimento efectivo das disposições contidas na mesma Carta, porém, para vergonha sua e nossa, essas disposições nada valem, sobretudo quando a mesma lei que deveria proteger, não só não o faz, como homologa com a sua autoridade as maiores arbitrariedades, incluindo aquelas que o dito artigo 12º. enumera para condenar. Para os Estados Unidos qualquer pessoa, seja emigrante ou simples turista, indiferentemente da sua actividade profissional, é um delinquente potencial que está obrigado, como em Kafka, a provar a sua inocência sem saber de que o acusam. Honra, dignidade, reputação, são palavras hilariantes para os cães cerberos que guardam as entradas do país. Já conhecíamos isto, já o havíamos experimentado em interrogatórios conduzidos intencionalmente de forma humilhante, já tínhamos sido olhados pelo agente de turno como se fôssemos o mais repugnante dos vermes. Enfim, já estávamos habituados a ser maltratados.
Mas agora surge algo novo, uma volta mais ao parafuso opressor. A Casa Branca, onde se hospeda o homem mais poderoso do planeta, como dizem os jornalistas em crise de inspiração, a Casa Branca, insistimos, autorizou os agentes de polícia das fronteiras a analisar e revisar documentos de qualquer cidadão estrangeiro ou norte-americano, ainda que não existam suspeitas de que essa pessoa tenha intenção de participar num atentado. Tais documentos serão conservados “por um razoável espaço de tempo” numa imensa biblioteca onde se guarda todo o tipo de dados pessoais, desde simples agendas de contactos a correios electrónicos supostamente confidenciais. Ali se irá guardando também uma quantidade incalculável de cópias de discos duros dos nossos computadores de cada vez que nos apresentarmos para entrar nos Estados Unidos por qualquer das suas fronteiras. Com todos os seus conteúdos: trabalhos de investigação cintífica, tecnológica, criativa, teses académicas, ou um simples poema de amor. “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada”, diz o pobre do artigo 12º. E nós dizemos: veja-se o pouco que vale a assinatura de um presidente da maior democracia do mundo.
Aqui está. Praticámos sobre os Estados Unidos a infalível prova do algodão, e eis o que verificámos: não se limitam a estar sujos, estão sujíssimos.
Eu odeio maconha pessoalmente. Digo: assim como odeio pepino.

Caetano Veloso, em seu blog "Obra em Progresso".

25.9.08

Da impotência à impossibilidade. No livro, é lindo. Quando é com a gente é que é foda.
Eita, Lacan.
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... de volta à análise, como vocês podem perceber.

23.9.08

Ele tem um blog. Não tem como não amar.
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Biografias
José Saramago.
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Creio que todas as palavras que vamos pronunciando, todos os movimentos e gestos, concluídos ou somente esboçados, que vamos fazendo, cada um deles e todos juntos, podem ser entendidos como peças soltas de uma autobiografia não intencional que, embora involuntária, ou por isso mesmo, não seria menos sincera e veraz que o mais minucioso dos relatos de uma vida passada à escrita e ao papel. Esta convicção de que tudo quanto dizemos e fazemos ao longo do tempo, mesmo parecendo desprovido de significado e importância, é, e não pode impedir-se de o ser, expressão biográfica, levou-me a sugerir um dia, com mais seriedade do que à primeira vista possa parecer, que todos os seres humanos deveriam deixar relatadas por escrito as suas vidas, e que esses milhares de milhões de volumes, quando começassem a não caber na Terra, seriam levados para a Lua. Isto significaria que a grande, a enorme, a gigantesca, a desmesurada, a imensa biblioteca do existir humano teria de ser dividida, primeiro, em duas partes, e logo, com o decorrer do tempo, em três, em quatro, ou mesmo em nove, na suposição de que nos oito restantes planetas do sistema solar, houvesse condições de ambiente tão benévolas que respeitassem a fragilidade do papel. Imagino que os relatos daquelas muitas vidas que, por serem simples e modestas, coubessem em apenas meia dúzia de folhas, ou ainda menos, seriam despachados para Plutão, o mais distante dos filhos do Sol, aonde de certeza raramente quereriam viajar os investigadores.
Decerto se levantariam problemas e dúvidas na hora de estabelecer e definir os critérios de composição das ditas “biobliotecas”. Seria indiscutível, por exemplo, que obras como os diários de Amiel, de Kafka ou de Virginia Woolf, a biografia de Samuel Johnson, a autobiografia de Cellini, as memórias de Casanova ou as confissões de Rousseau, a par de tantas outras de importância humana e literária semelhante, deveriam permanecer no planeta onde haviam sido escritas para que fossem testemunho da passagem por este mundo de homens e mulheres que, pelas boas ou más razões do que tinham vivido, deixaram um sinal, uma presença, uma influência que, tendo perdurado até hoje, continuarão a deixar marcadas as gerações vindouras. Os problemas surgiriam quando sobre a escolha do que deveria ficar ou enviar ao espaço exterior começassem a reflectir-se as inevitáveis valorações subjectivas, os preconceitos, os medos, os rancores antigos ou recentes, os perdões impossíveis, as justificações tardias, tudo o que na vida é assombração, desespero e agonia, enfim, a natureza humana. Creio que, afinal, o melhor será deixar as coisas como estão. Como a maior parte da melhores ideias, também esta minha é impraticável. Paciência.

20.9.08

Dialética
Vinícius de Moraes

É claro que a vida é bela
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E que tenho tudo pra ser feliz

Mas acontece que eu sou triste...

16.9.08

Tudo que move é sagrado e remove as montanhas com todo cuidado, meu amor.
"Amor de índio", Beto Guedes e Ronaldo Bastos.

Sim, eu ando musical.

15.9.08

"Eu tô perdido, sem pai nem mãe, bem na porta da tua casa
Eu tô pedindo a tua mão e um pouquinho do braço.
Migalhas dormidas do teu pão, raspas e restos me interessam,
Pequenas porções de ilusão,
Mentiras sinceras me interessam"

Cazuza, "Maior Abandonado". Escutei de verdade essa música hoje.

13.9.08

Da série: "Você também já chorou com esta".
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Você diz não saber o que houve de errado,
e meu erro foi crer que estar ao seu lado bastaria
Ah, meu Deus, era tudo que eu queria
Eu dizia ao seu nome: não me abandone jamais.
"Meu erro", Paralamas do Sucesso.


10.9.08

A letra era do Tom Jobim, que pediu ajuda pro Chico Buarque, que fez acréscimos à letra original. Mas o João Gilberto resolveu gravar a versão inicial, e é por isso que a música tem duas versões. Na verdade, três, porque o finalzinho tem a versão oficial, gravada pelo Chico Buarque, e a versão que o Tom canta.
O certo é: "Lígia" é uma das minhas músicas preferidas da vida, quem me conhece sabe disso.
João Gilberto tocou a versão dele (minha preferida) no show que fez em Salvador na última sexta-feira. Eu estava lá - e chorei ridiculamente.
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A versão preferida do João Gilberto:
Eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema, não gosto de samba, não vou a Ipanema,
não gosto de chuva nem gosto de sol.
Eu nunca lhe telefonei, para que se eu sabia, eu jamais tentei
e jamais ousaria as bobagens de amor que outro vai te dizer.
Sair com você de mãos dadas na tarde serena, um chope gelado num bar de Ipanema,
andar pela praia até o Leblon.
Eu nunca me apaixonei, eu jamais poderia casar com você,
fatalmente eu iria sofrer tanta dor pra no fim te perder.
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A versão "oficial", parceria de Tom e Chico (mas o Chico não assina como parceiro):
Eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema, não gosto de samba, não vou a Ipanema,
não gosto de chuva nem gosto de sol.
E quando eu lhe telefonei, desliguei, foi engano, o seu nome eu não sei,
esqueci no piano as bobagens de amor que eu iria dizer.
Eu nunca quis tê-la ao meu lado num fim de semana, um chope gelado em Copacabana,
andar pela praia até o Leblon.
E quando eu me apaixonei não passou de ilusão, o seu nome rasguei,
fiz um samba-canção com as mentiras de amor que aprendi com você.
*(do Chico:) E quando você me envolver nos seus braços serenos eu vou me render,
mas seus olhos morenos me metem mais medo que um raio de sol.
**(do Tom:) Você se aproxima de mim com esses modos estranhos e eu digo que sim,
mas seus olhos castanhos me metem mais medo que um raio de sol.


Taí: Tom Jobim e Roberto Carlos cantando Lígia (e o Roberto Carlos apanhando das versões diferentes no final).

8.9.08

Conclusões de Aninha
Cora Coralina


Estavam ali parados. Marido e mulher. Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça tímida, humilde, sofrida. Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho, e tudo que tinha dentro. Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar novo rancho e comprar suas pobrezinhas.
O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula, entregou sem palavra. A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou, se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar E não abriu a bolsa. Qual dos dois ajudou mais?
Donde se infere que o homem ajuda sem participar e a mulher participa sem ajudar. Da mesma forma aquela sentença: "A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar." Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada, o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso e ensinar a paciência do pescador. Você faria isso, Leitor? Antes que tudo isso se fizesse o desvalido não morreria de fome? Conclusão: Na prática, a teoria é outra.

2.9.08

Ele ainda está tentando descobrir se o tal do blog funciona. Na dúvida, passem lá.

1.9.08

Debussy
Manuel Bandeira

Para cá, para lá . . .
Para cá, para lá . . .
Um novelozinho de linha . . .
Para cá, para lá . . .
Para cá, para lá . . .
Oscila no ar pela mão de uma criança
(Vem e vai . . .)
Que delicadamente e quase a adormecer o balança
— Psio . . .
—Para cá, para lá . . .
Para cá e . . .
— O novelozinho caiu.