31.12.05

Feliz Ano Novo (escrito em 1996, mas atemporal)
Arnaldo Jabor

O ano de ver através do vidro o eclipse do sol contra a neblina pela janela da infância, o ano de ver as primeiras imagens de minha mãe, que era uma Greta Garbo linda com ombros altos e cabelo de coque "bomba atômica" e lábios vermelhos, o ano da coqueluche em que meu pai me levou de avião até 4.000 metros para curar a tosse entre nuvens, o ano de temer o quarto onde meus pais conceberiam minha irmã, o ano de olhar árvores, bichos e gente como se eu morasse fora do mundo (mistério que até hoje dura), o ano do medo de levar porrada nas ruas da infância,.o ano das pernas das mulheres, colunas altas e distantes (até hoje), o ano dos fantasmas do fundo do corredor, o ano do cachorro atropelado, o ano dos meninos se comendo de solidão, o ano de ficar olhando o vento no quintal, o ano dos formigueiros, o ano do sarampo e sua lâmpada vermelha, o ano da catapora, o ano da luz azul do quarto da pneumonia de minha irmã, o ano da cabeça quebrada, o ano da cara quebrada, o ano de entender o porquê dos miseráveis do morro da Mangueira perto de minha casa, o ano de ver o primeiro filme de minha vida, o "Ladrão de Bagdá", e ficar sonhando com as coxas da odalisca no tapete voador, o ano dos balões no céu, o ano do Mercury "grená" de meu pai brilhando na luz da rua, o ano do cuspe, o ano da porrada na esquina, o ano dos palavrões, o ano da "merda" e da "puta que pariu", o ano da inveja, o ano da bicicleta, o ano da primeira namorada que me tratava como nada, o ano de temer a Deus e de contar meus crimes aos padres negros de quem eu beijava a mão, o ano em que um padre me deu um beijo na boca e eu fugi com pânico na alma, o ano do Porcolino, do Pernalonga, o ano do Hortelino Trocaletra, das mil e uma noites, o ano da mula-sem-cabeça e do mendigo que dava mijo para a mãe, o ano da camisa-de-vênus boiando na beira da praia, o ano do negro comendo a empregada no quarto de passar roupa, o ano da febre, o ano da violência dos colegas de colégio, o ano dos padres jesuítas sofrendo de solidão nas clausuras e o ano das lâmpadas tristes das noites do colégio, o ano das velas de cera na igreja, o ano dos paramentos, o ano do coroinha sem fé, o ano do covarde, o ano do perigo de ser currado nos fundos do colégio, o ano do soco na cara do mais forte e do sangue no nariz do valentão, o ano da descoberta do orgulho, o ano do Tarzan, o ano do Super-Homem, o ano da porra, o ano da punheta de esguicho que ia até o teto de ladrilho por causa da primeira mulher de biquíni na praia, o ano da punheta pela empregada de peitos grandes e que deixava quase tudo, o ano da dor nos rins, o ano de entrar no porão com a menina, o ano de sentir o gosto de cuspe da menina, o ano de sentir o cheiro do entrepernas da menina e ficar com aquele cheiro até hoje, o ano da primeira mulher e, antes da primeira mulher, o ano da descoberta da literatura e de Rimbaud e o ano de ficar escrevendo o dia inteiro numa febre de descobrir qualquer coisa que ainda acho que vou achar, o ano agora sim, da primeira mulher, uma aeromoça louca da Panair que parecia uma odalisca caída do céu, o ano do meu corpo e do corpo da mulher, o ano das lágrimas quentes, o ano da solidão, o ano das pernas cruzadas dos primeiros puteiros visitados, o ano do Mangue, da indescritível visão do Mangue que só Segall conheceu, com as mil mulheres tremendo a língua para fora e de calça e sutiã nas calçadas, o ano dos bordéis antigos da luz mortiça, o ano das coxas, dos peitos, o ano cabeludo, o ano oleoso, o ano das peles, o ano dos vasos de louça, o ano de nada entender, o ano da gonorréia, o ano de Thereza e de comer o primeiro amor e de flutuar de paixão a um palmo das calçadas de Copacabana, o ano da lua dourada, do sol vermelho, o ano de Ipanema, de Leila Diniz, o ano dos gritos da mulher amada no colchão sujo e esfiapado que era um aparelho do Partido Comunista numa noite de chuva, o ano do amor e da revolução, as duas coisas se confundindo ("serão as bombas ou meu coração batendo?" diria o Bogart em "Casablanca"), o ano da UNE pegando fogo, o ano dos exilados, o ano de Corisco, o ano de Tom e Vinicius, o ano do "Carcará", o ano do cinema novo da noite negra do Ato 5, o ano que não terminou, o ano da boca fechada, o ano da boca no cano de descarga, o ano do nervo do dente exposto na boca do torturado, o ano das unhas arrancadas, o ano dos gritos, o ano dos guerrilheiros suicidas, o ano de cortar a barriga com a faca de bambu, o ano de cortar os pulsos com gilete enferrujada, o ano das cabeças muito loucas, o ano de viver perigosamente, o ano da mescalina e do ácido, o ano das pernas e dos braços virando cobras na "bad trip" da beira da praia, o ano das ondas vermelhas e céus tangerina, o ano de Copacabana virando gelatina colorida, o ano de Janis Joplin de porre comigo num puteiro baiano cantando ponto de candomblé, o ano da esperança nova, o ano de Nelson Rodrigues, de Darlene Glória, o ano das filhas nascendo dentro de um buraco estrelado, o ano da esperança de sentido, o ano da inocência, o ano da ingenuidade, o ano do leite, o ano do ventre molhado, o ano dos quartos escuros, o ano da vida, o ano do sol, o ano do jambo vermelho, o ano das formigas, o ano das bonecas, o ano do olho furado, o ano de ficar louco, o ano do corno, o ano do babaca, o ano de comer mulher, o ano de chorar, o ano de aprender a viver de novo, o ano do "vamos ver", o ano do "que será o amanhã?", o ano do cachorro, o ano da vaca louca, o ano da cachorra no ar, o ano da beira do abismo, o ano da volta à democracia, o ano do não, o ano do sim, o ano de Collor, o ano do Itamar, o ano da hiperinflação, o ano da inflação zero, o ano dos Mamonas, o ano dos caruarus, o ano dos carajás, o ano dos genovevas, o ano dos cachorros quentes explodindo, o ano dos desacontecimentos, o ano dos cabelos brancos, o ano do último vôo livre de minha mãe. 1996, o ano da expectativa, o ano dos adiamentos, o ano da esperança, o ano que ainda não começou e acaba hoje. 1996, o ano que vai começar em 97, feliz ano novo...

22.12.05

Mais uma sobre as duas melhores coisas do mundo: a mulher e o garçom
De Xico Sá.

Numa mesa de bar, claro.
Se não, não teria graça. Eu nem contaria.
Confesso que bebi.
Deus deveria parar o cronômetro, como um juiz de basquete, quando a vida não tivesse como locações a cama ou o boteco.
Mas nada é tão justo assim nesse mundo. Sabemos.
Numa mesa de bar. Exterior, calçada, noite.
A nega indaga:
“Por que será que garçom só decora nome de homem?”
A nega é mulher de amigo, Jotabê Medeiros, compadre torcedor do glorioso Santos Futebol Clube.
De mulher de amigo também não sei sequer o batismo, o sagrado nome. Vê se pode uma coisa dessas!
Garçom só decora nome de homem?
Arrisco uma tese, PhD de botequim que me prezo. Com ajuda da amiga Ana Weiss, linda mulher do lado.
O bar é minha UFPE, minha universidade católica, meu doutorado da USP, minha filosofia, minha cachaça, minha cátedra, minha nota de rodapé, minha escolástica... Meu bar, meu mar...
Desde o “Robertão 70”, onde eu bebia no Recife ao som do Rei e sob as vistas do sósia-proprietário, grande homem.
Desde o bode, o arco e a lira, naquele bar do Espinheiro, mesmas plagas, na companhia do lírico-mor, saudoso amigo Jaci Bezerra.
A tese, sem mais torresmos mentais: ora, homem confia e trata bem o garçom, faz favor.
O garçom é o cúmplice, o ombro amigo, o divã que anda e traz o Freud, o Reich engarrafado. No tempo em que se fazia mais sexo, o chique era Reich, lembram?
Mulher contesta o garçom.
Mulher é que confere as contas.
Mulher é Procon, homem é fraude e festa.
Mulher acha que o garçom é aquele quarto árbitro que sempre levanta a placa do acréscimo, na beirada do campo, pedindo mais tempo, mais uma saideira.
Seu garçom faça o favor!
Mulher é uma praga. E como amo.
Mulher mata mais do que coração e varíola. Ainda morro disso, seu Evaldo, garçom-proprietário daquele bode da Encruzilhada, onde monto no White Horse e discuto Blow-Up, o filme, com Luciana Araújo, Hilton Lacerda e Dolores.
A vida é 90% inspiração e 10% garçom.
Garçom é a encarnação do anjo da guarda dos machos.
Garçom mantém o respeito e guarda a sete chaves o batismo das nossas melhores costelas.
Num bar, a simples pronúncia do nome de uma mulher já é o maior dos pecados. Ele sabe.
E se for mulher dos outros, meu Deus, cem anos de inferno.
Não há a menor réstia de machismo, minhas queridas, nessa elipse de gravata borboleta. Não é falha. O garçom não vos chama pelo nome por excesso de zelo, omissão sagrada, amém.
Garçom não é dez, é 100%, garçom está acima de homem e mulher, garçom é a ONU da existência, mais uma, faz favor, e pergunta aí ao freguês de lado de quanto o meu time apanhou!

16.12.05

De que lado você fica?
De Leo Jaime.

www.blonicas.zip.net

Vamos supor que em sua rua tenha um supermercado e que você faça suas compras lá, regularmente. Já cumprimenta os funcionários, conhece as prateleiras, sabe que o preço não é o melhor mas como é próximo e tem bons produtos é um cliente fiel. Fiel até ser surpreendido com a notícia, espalhada aos quatro cantos do planeta, de que o gerente da loja resolveu tocar fogo em uma família de mendigos que tinha se mudado para a marquise do supermercado dias atrás. Pois é, todo mundo dormindo ele chega, sorrateiro, joga gasolina nos cobertores e ateia fogo, fazendo um churrasco daquela família que, aos olhos de todos, exibia sua miséria ali, de forma inconveniente, incomodando os usuários e espantando a freguesia. Isso mesmo, você não era a favor daquela família residir na frente daquela loja mas ficou horrorizado, com justiça, com a medida escabrosa que o seu gerente arranjou pra resolver o assunto.
Qual sua atitude? Espera que a lei seja cumprida e nunca mais volta no supermercado? Provavelmente. Mas, afinal, o erro foi do gerente ou da empresa? Será que a empresa merece perder o cliente por ter tido um gerente maluco que tomou uma atitude criminosa por conta própria? Você pode nem querer saber. Mais provável é o supermercado predileto da vizinhança fechar as portas vendendo a loja para uma grande rede. O consumidor costuma ser radical nestes casos. Ainda mais quando é um caso desta gravidade, envolvendo assassinatos de crianças de forma tão hedionda.
Nada na história acima parece irregular, nem mesmo o exagero que parece ser culpar o CNPJ de uma empresa por um erro pontual e imprevisível de um funcionário. Vamos agora transferir a mesma situação para a realidade carioca e tentar compreender um dilema que lá se estabelece e que aqui será exposto.
São muitos os entorpecentes, a maioria deles liberada e fabricada por laboratórios confiáveis ou fábricas vigiadas e controladas pelo serviço de saúde pública. Álcool incluído, em suas milhares de formulações.
Vamos, porém, admitir que o seu favorito, o que você gosta de usar, não esteja na lista. Digamos que você prefere ficar mutcho loco com algum bagulho fabricado por pessoas honestíssimas e muito criteriosas com relação a métodos de higiene e controle de qualidade. Que este seu bagulho costuma ser transportado com muito carinho por pessoas igualmente ciosas, muitas vezes em suas cavidades mais íntimas, e que estes portadores tenham por hábito acrescentar com generosidade substâncias que visam enriquecer o mesmo bagulho, tão sagradas que a este ato se dá o nome de batismo. Diante de tudo o que aí se apresenta é naturalíssimo que você tenha a mais cega confiança no produto e em quem o serve. Eu compreendo: o bagulho não tem a função de alterar o estado de consciência? Quem disse que é pra melhor? Quem sou eu pra julgar? Vá lá! Você tem a maior confiança no seu vapor e na origem do bagulho "dubão" que ele costuma trazer em sua casa. Ou é você que passa no barraco dele pra buscar? O que importa?
Ai acontece a surpresa: aquele pessoal de índole sem jaça está com todas as digitais impressas na autoria de um crime bárbaro. O cara que vende seu bagulho é funcionário de uma boca que mandou queimar um ônibus com todos os passageiros dentro vivos, incluindo criancinhas. Não me pergunte o porquê de achar que o fato de ter criancinhas faz este churrasco humano mais bestial.
Eu apenas reservo-me ao direito de achar que crianças de dois anos, viajando com a mamãe de ônibus, são menos hábeis para lutar pela própria vida diante da surpresa terrorista desta natureza.
Pois é. O seu gerente mandou tostar o ônibus sem permitir que ninguém saísse de dentro. Um colega do cara que você recebe em sua sala ficou lá, impedindo que o pessoal escapasse à morte horrorosa. Um ou mais. Vai ver ele mesmo estava lá. E agora? Você deixa de comprar bagulho com ele e vai comprar com aquele pessoal que assou o jornalista com os pneus em volta do corpo?
Talvez você prefira tentar compreender que todo mundo perde mesmo a cabeça um dia e que, pô, os traficantes são muito perseguidos: qualquer um faria a mesma coisa se estivesse no lugar deles. É provavelmente você vai indagar, em meio ao consumo de uma presença dada pelo seu vapor, que ele passou da conta desta vez mas que não deixa de ser um cara super gente fina. E que o bagulho dele é bom e não vem malhado.
A sociedade do Rio tem feito suas escolhas. Tem que fazer. Em todas as cidades grandes, corrompidas pelo crime organizado, a escolha é proposta cotidianamente: de que lado você fica?
Com tanto jeito de alterar seus estados de consciência sem comprar nada de bandido você vai continuar fazendo questão do bagulho produzido pelos criminosos? Já lhe ocorreu que os lugares em que há maior injustiça social no planeta sejam exatamente os grandes centros de produção e escoamento de drogas? Seu traficante queima criancinhas vivas e você continua comprando bagulho dele como se nada houvesse? Você compreende? Acha um absurdo, mas nem por isso vai deixar de ficar doidão do mesmo alucinógeno ilícito?
Neste caso, caro leitor, só posso dizer uma coisa: tomara que o próximo bebê assado por um destes animais seja filho seu e não de alguém que, como eu, sabe muito bem de que lado está. Do outro.
Não dou um centavo em mão de bandido. Não alimento a corrupção.

28.11.05

Regras de etiqueta numa vídeo-locadora
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Agora vocês devem estar pensando: hum, essas meninas não tem mais o que falar e começaram a apelar. Nada disso. Fui numa vídeo-locadora na semana passada e me senti fazendo parte do mundo. Todo aquele vazio espiritual que sentia, aquele sentimento de falta de adaptação em relação ao mundo, angústia, melancolia, tudo isso desapareceu no momento em que coloquei os pés na Blockbuster. Me senti inteiramente normal. Mas percebi que o local tem um código de etiquetas próprio, que aprendi a muito custo. E é isso que divido, agora, com vocês.
1 - Não fique procurando filmes cult de diretores obscuros. Lembre-se que seu objetivo é sentir uma união com a raça humana. E nem estou falando do desejo de pegar um filme no Sudão. Mas é que sempre queremos pegar filmes inteligentes (mesmo que sejam americanos) para esbanjar nossa inteligência e sentir que crescemos interiormente depois do filme. Por que? Vá logo para a seção de lançamentos e pegue filmes de astros famosos, filmes tão idiotas que você apagará da sua mente em menos de 24 horas.
2- . Pegue aquelas geléias americanas que eles tentam te empurrar no caixa, amasse o pacote e mostre para a pessoa que está com você. Diga algo como: "olha, que maneiro". Depois devolva, pois é ruim como o diabo.
3 - Vá com um par. Vídeo-locadoras não são lugares para você andar sozinho. Todos andam em pares. E se você tem namorado, vá com ele. Senão, peça para o seu irmão ir com você ou pague um indigente na rua para ir com você. Porque, pelo que percebi, pessoas têm que andar em casais na Blockbuster. Fui sozinha e me senti muito só, muito mesmo. Além do mais, um dos grandes prazeres desses lugares é você convencer o outro dele levar o filme que VOCÊ quer. E quando você vai sozinha, não precisa lutar por seus filmes e a graça é sensivelmente diminuída.
4-Os filmes que estão na prateleira com a capinha com o filme não são para aluguel. Isso mesmo. Peça para alguém te explicar direito como é, senão você irá pagar vários micos como eu, que fiquei na fila com vários filmes achando muito maneiro e quando fui pagar é que me explicaram que eu tinha pegado as caixas erradas e que aqueles filmes estavam alugados. Custava colocar uma plaquinha explicando?
5- Os dias ideais para ir à locadora são os do fim de semana, se estiver chovendo, aproveite. De que adiantaria você ir na terça de noite, com todos os filmes disponíveis? Ir à vídeo-locadora é tipo uma caça, uma disputa entre os outros sócios. Tem que ter uma adrenalina, uma esquema competitivo. Quando você vê que tem alguém lendo a sinopse em uma capinha, você fica escondido atrás da prateleira, de tocaia. E se a pessoa não pega o filme (ou simplesmente se ela vai dar uma volta para pegar o filme depois), você vai lá e pega para você. Isso também é muito melhor do que assistir ao filme em si.
6 - Leve uma série de documentos - cartão de banco, de crédito, certificado de reservistas, certidão de nascimento, comprovante de renda e de residência. Há uma grande burocracia, pois as pessoas acham que você faz parte de uma gangue cujo objetivo é roubar fitas de filmes usadas.
7 - Na fila, fique olhando com inveja para as fitas que os outros escolheram, preferindo o filme que os outros pegaram. É um sentimento de frustração normal, que existe dentro de todo humano e que precisa ser posto para fora. Cobice os filmes do alheio. Jogue mal olhado (Brincadeira!)
8 - Participe de todo o tipo de promoção oferecida, do tipo pegue 20 vinte filmes para ver entre sábado e domigo e ganhe desconto de R$1 uma locação. Por que certas pessoas insistem em desmascar essas promoções e nos provar que não vale a pena? Que gente estraga prazer! Nós sabemos que estamos sendo enganados, mas queremos ser enganados!
9 - Atrase para devolver. Num tempo de crise, salários pingados, em algum momento da vida você tem que sentir esbanjando dinheiro. Deixe os filmes em cima da televisão e não devolva, porque não deu tempo de ver. E quando você for devolver, descubra que você deve R$ 200 de multa, diga que vai pegar o dinheiro em casa, pare de freqüentar a locadora e só reapareça anos depois, quando o gerente irá perdoar sua dívida.
10 - Se os filmes são entregues num saco plástico... na hora de devolver, fique com o saco para você. Você sentirá uma vitória pensando que passou a perna nos donos de cadeias multimilionárias de filmes ficando com o saco plástico, que usará no lixinho da cozinha!
11 - Fique (muito) feliz com seu cartão da locadora, guarde num lugar de destaque da sua carteira, como se fosse um cartão de crédito muito valioso com crédito internacional ilimitado.
12 - Por fim, aproveite que nesse tipo de locadora você pode devolver o vídeo em qualquer horário, através de um buraco miraculoso. E faça questão de devolver o filme três da manhã, nem que você fique em casa acordado, fazendo hora para isso!

25.11.05

Livro aberto (parte 2)
Agora há pouco a Rede TV! promoveu um debate com Bruna Surfistinha, mediado por Luciana Gimenez e com participação de Ângela Bismarchi. Machado de Assis não apareceu. Ele ligou dizendo que não poderia ir por causa do trânsito infernal na Oscar Freire".
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21.11.05

É um texto sobre um amor entre duas mulheres, mas poderia ser qualquer amor.
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Agradecimentos
De Milly Lacombe.
(do site "Blônicas")

Chegamos à hora dos agradecimentos. Trata-se do grande final, da apoteose dramática, do inevitável e dolorido exercício de lembrar por que nos apaixonamos. É o pente fino na relação, o inventário de tudo o que fomos, o último ato. Feito isso, podemos baixar as cortinas e dar o espetáculo por encerrado. Sofisticadamente, como se espera das paixões doces, verdadeiras, belas e sem futuro – aquelas que ocorrem em teatros vazios, mas que, nem por isso, devem ser menos aplaudidas. Daqui, da solidão desse palco em que me encontro agora, meus mais sinceros agradecimentos.
Antes de mais nada, obrigada por ter me dado esse ingresso, por ter me recebido, me convidado a sentar e me deixado ficar. Obrigada por ter me lembrado que a vida pode ser mais divertida, mais intensa, mais musicada e florida. Obrigada pelas noites quentes, pelas cervejas geladas, pelos CDs, pelos livros, pelas caronas, pelos cafés. Por ter me dado colo, carinho, atenção. Por ter me deixado olhar dentro de você, por ter me enxergado tão bem, por ter me permitido ouvir sua melhor música.
Obrigada pela sensibilidade, pelo interesse, pelo doce-de-leite. Obrigada por, mesmo sem dizer, ter me feito sentir tão amada, por ter me deixado ler alguns de seus mais secretos pensamentos. Por ter feito meu coração disparar sem motivo aparente, por ter me admirado tão aberta e sinceramente. Por ter me feito rir, por ter rido de mim, por ter perdido seu sapato no meio da avenida São Luiz e, principalmente, por todas as muitas horas em que, juntas, rimos tão sincera e deliciosamente de coisas que não tinham graça.
Obrigada por ter me dado sua senha, por ter roubado a minha, pelo acesso, pela orientação, por ter entrado em mim, por ter me deixado entrar em você. Por ter me feito chorar de saudade e de medo de te perder. Por ter sentado comigo na varanda e me ouvido falar, por ter me contado sobre seu trabalho, sobre a vaga na garagem, sobre a gorda, sobre seus sonhos, medos, segredos e anseios.
Obrigada por ter me aberto a porta e, depois, por ter me deixado entrar sem bater. Pelo cabelo molhado, pelos suspiros, pelo bico e por me fazer acreditar que um dia poderíamos ter sido. Obrigada por ter me dado tanto prazer e, principalmente, por ter me deixado te dar algum.
Pelas tardes em que passei esperando o telefone tocar, por nunca ter me falhado, pela cumplicidade e pela senha do album na internet. Pelas memórias, pelos beijos molhados, por ter mexido no meu cabelo, por ter me abraçado por trás e me beijado o pescoço, por ter me deixado deitar em você e ficar em silêncio. Por ter me ligado para dizer que a lua estava cheia, por ter me feito ver estrelas, por ter passado a mão na minha perna sempre que havia uma chance, por ter alcançado minha alma.
Obrigada por ter me procurado, por ter se perdido, por ter me deixado molhada, por ter me secado, por ter me dado comida na boca, por ter me lido. Por me fazer sentir tão bonita, por ser tão bonita, por ter tido orgulho de mim, pelos telefonemas fora de hora, por ter me entretido, me divertido e por ter me feito protagonista.
Obrigada por não ter desistido da gente depois daquela primeira noite, e por ter se entregado de forma tão doce e intensa no que agora sei que foi nossa última vez.
Mas, acima de tudo, obrigada por ter me permitido sonhar. Porque, sem sonhos, eu não existo. Então, my beautiful lady, em resumo é mais ou menos isso: obrigada por ter me feito existir.

9.11.05

Homens não querem sofrer
www.02neuronio.com.br

Todo mundo sabe que homens adoram negar. Negar que estão traindo, negar que esqueceram de um compromisso, negar que estão namorando...mas o que o que os homens mais gostam de negar é que estão sofrendo. Isso mesmo, eles têm pavor de sofrer!
Não admitem que podem derramar uma lágrima por alguém. Aliás, eles nem sabem o que é chorar. Eu queria chorar por dois minutos, contados no relógio e depois acabou, disse um conhecido, que tinha acabado um namoro de cinco anos. Dois minutos, esse era o tempo razoável para o sofrimento por amor do rapaz.
(...)
E a gente sofre por meses. Fica mal quando fica com outro, afinal, tem o tempo da ressaca do coração partido. E nos achamos muito más, caso já tenhamos alguém em vista.
Não sofram pela gente, eles dizem. Será que não seria melhor mesmo? Não sofrer, não chorar, não achar que o mundo vai acabar...mas daí a gente viraria homem. E não teria a menor graça.

27.10.05

Um amor tão bom
Danuza Leão
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Casados eles não pareciam ser - não um com o outro -, e aquele jantar cedo, num restaurante modesto, comum, era muito bom de se ver.
Estavam sentados um em frente ao outro, e parecia claro que não iriam para a mesma casa depois do jantar, não dormiriam nem acordariam juntos. Por isso, talvez, tinham tanto a se dizer - e se diziam.
Ela às vezes passava a mão na testa dele, afastando uma mecha de cabelo; daí a pouco ele devolvia o carinho e segurava a mão dela num gesto rápido, isso por cima dos pratos, sem que nada fosse fora de propósito nem inadequado, como nunca são os gestos que saem do coração.
Não havia entre eles aquele clima de urgência que precede a ida a um motel, muito pelo contrário; parecia, isso sim, que eles haviam passado a tarde se amando e depois foram a um restaurante, daqueles em que não há risco de encontrar nenhum amigo, para ficarem juntos um pouco mais, o tempo que ainda tinham, sem inquietação, pelo prazer da companhia um do outro. E os carinhos trocados não eram os da paixão, mas os do amor; de um amor sólido e profundo.
Quem mora junto não conversa tanto, olho no olho, porque sabe que tem tempo pela frente: a noite inteira, talvez o resto da vida. Já eles falavam, e os assuntos não eram esses de namorados; falavam de tudo, interessados um no que o outro dizia, trocavam idéias como se fossem dois grandes amigos, o que é raro entre homem e mulher. Ele talvez falasse de um negócio que estava fazendo, ela talvez de um filho (só dela) com problemas; aí, de repente, um carinho - sem olhares melosos, nada. Apenas a necessidade de tocar no outro, só isso. Estavam ali, inteiros, muito próximos e muito seguros.
Ela usava um suéter com um pequeno decote; num determinado momento, ele passou o braço por cima da mesa, botou a mão no ombro dela, escorregou por dentro do suéter pelas costas e ficou uns momentos passando a mão, aquela mão forte de dono, como recordando a tarde que passaram juntos.
Ela não era nem jovem nem linda, nem ele. Eram pessoas absolutamente normais, banais mesmo, daquelas que não chamam a atenção, para quem não se olha duas vezes - talvez nem uma. Mas naquela mesa pequena daquele restaurante banal havia tudo o que uma mulher e um homem podem querer um do outro: confiança, amizade, amor, paixão - mesmo que discreta -, sexo bem resolvido e segurança. Eles iriam se separar daí a pouco, sentiriam falta um do outro, mas sem angústia ou desespero, sabendo que se encontrariam de novo no dia seguinte ou na semana seguinte, confiando no seu próprio desejo e no do outro, porque aquele amor tinha essa coisa tão rara nos amores em geral: era sólido.
Ele pediu a conta, os dois saíram abraçados normalmente; na esquina, ele chamou um táxi para ela, se beijaram rapidamente, ele ficou olhando até o táxi desaparecer, pegou o dele e a noite - eram 9h - acabou por aí.
Acabou é modo de dizer, porque essas noites tão boas não se acabam assim. Ela foi dormir pensando nele, ele pensando nela, e eu pensando neles. Pensando e imaginando quantas pessoas, neste mundo de tantas paixões, vaidades, ansiedades, desvarios, terão tido a sorte de viver um amor assim tão bom.
Não, o amor não é lindo, como se diz banalmente: o amor é muito bonito quando é de verdade, e o deles era.

17.10.05

O amor acaba
Paulo Mendes Campos
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

14.10.05

As meninas-chapinha
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Foi em um salão caro de bairro chique e tradicional de São Paulo_ o único lugar aberto para fazer a unha no feriado. De repente chegou uma menina. E outra. E mais outra. Todas bonitinhas nos seus menos de 20 anos (bem menos). Todas fofas. Aí comecei a reparar que eles tinham o cabelo liso por cima e meio cacheado por baixo.
Todas as meninas do bairro tinham ido ao salão, que devem freqüentar toda semana, para alisar o cabelo. Todas as meninas entraram ali para saírem iguais.
Se eu tivesse menos de 20 e morasse naquele bairro, talvez também fosse uma mina chapinha ou escova. Tudo para não ser diferente do grupo. Tudo para ser diferente de mim mesma. Se bem que, na minha época de escola, fui lá e raspei o cabelo máquina 2 e logo ganhei o apelido de Maria Alcina. Era horrível ser xingada na rua. Mas era ótimo ter orgulho de ser quem eu sou.
Tinha algo muito de triste nas meninas chapinha. Elas são muito novas para perderem tanto tempo no cabeleireiro. Quer dizer, ninguém, eu acho, deve perder tempo demais no cabeleireiro, porque existe muita coisa boa pra fazer na vida. Ou muita coisa ruim. Mas muita coisa, enfim. Ainda mais com menos de 20. Ainda mais em um feriado.
As meninas chapinha chegam levadas por suas mães, que também têm o cabelo alisado. Uma é gorda e parece que tá meio em crise com o namorado. A outra é magrinha e da mesma classe dela. A mais velha já dirige e é meio blasé.
Mas saem todas iguais, com seus cabelos lisos que não são lisos coisa nenhuma! São é bem cacheados! Eu vi!. Depois de horas com um homem puxando seus cabelos com uma escova (aquilo deve doer) alisam seus fios que parecem lisos. Hello, meninas! Chega de escova progressiva e chapinha! Vez ou outra a gente precisa (ainda) queimar um sutiã metafórico.

27.9.05

Do filme "Mar adentro". Tão lindo quanto o filme.

Mar adentro, mar adentro,
y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños,
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.

Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno,
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo;
es como penetrar al centro del universo:

El abrazo más pueril,
y el más puro de los besos,
hasta vernos reducidos
en un único deseo:

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo,
sin palabras:
más adentro, más adentro,
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.

21.9.05

Mothern, de novo. Tomara que elas não me processem. Quem mandou elas serem ótimas?

Eu com as quatro
eu com ela
eu com ela
nós por cima
nós por baixo...

Lembra dessa brincadeira? Depois de adulta, não parece sacanagem?
Quem anda no trilho é trem de ferro,
sou água que corre entre pedras:
liberdade caça jeito.

Manoel de Barros

11.9.05

Bonito demais. É um dos meus preferidos há muito, muito tempo... e ainda se chama "Psicanálise do açúcar".

Psicanálise do açúcar
João Cabral de Melo Neto

O açúcar cristal, ou açúcar de usina,
mostra a mais instável das brancuras;
quem do Recife sabe direito o quanto,
e o pouco desse quanto, que ela dura.
Sabe o mínimo do pouco que o cristal
se estabiliza cristal sobre o açúcar,
por cima do fundo antigo, de mascavo,
do mascavo barrento que se incuba;
e sabe que tudo pode romper o mínimo
em que o cristal é capaz de censura:
pois o tal fundo mascavo logo aflora
quer inverno ou verão mele o açúcar.
Os versos que te fiz
Florbela Espanca


Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
Amo-te tanto!
E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

***

Saudades
Florbela Espanca

Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?...Ah! Como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!
Sentimental
Carlos Drummond de Andrade

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.
Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!
Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!
Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências, um cartaz amarelo:
"Nesse país é proibido sonhar".
***
Verbo Ser
Carlos Drummond de Andrade

Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível, ser? Dói? É bom? É triste? Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas? Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.

7.9.05

Eu não passo mal.


As pessoas que passam mal
Nina Lemos (site 2neurônio)

"Tô passando mal". Quem me conhece já deve ter ouvido essa frase algumas vezes. Isso porque, como bem definiu a Jô em um momento em que eu falei a frase... eu sou uma pessoa que passa mal. E essa é mais uma forma de divisão do mundo.
As pessoas que passam mal geralmente são histéricas (hello, Freud). E sim, quase sempre são mulheres.
Sofremos de tontura, confusão mental, pressão baixa, desmaios. Tudo sem motivo aparente, ou com motivos ridículos que pra gente fazem todo sentido.
Nesta última vez em que falei a frase, eu estava em um show revival do Fellini, uma das bandas que eu mais amo no mundo. Estava cheio de gente do passado, pessoas de antigamente, passantes famosos, como o Paulo Ricardo de chapinha e o Marcelo Bonfá parecendo o Jon Bon Jovi. É ou não é motivo para passar mal?
Nós estamos acostumados a sermos levados pela mão por pessoas para tomar um ar. Ou a ouvir a frase: "você quer sal?".
Uma vez desmaiei na casa da Danuza Leão, no meio de uma entrevista, descontrol, celebração. "Ernestina, Ernestina", gritava Danuza. Até que surgiu uma senhora vestida de empregada chique e me deu sal.
Achei que esse seria o maior vexame da minha vida. Mas a sábia Danuza respondeu: "não tem nada mais chique do que uma mulher que desmaia". Depois dessa, passei a me achar chique, mesmo pedindo um sal. E dizendo: "gente, me ajuda, to passando mal".

6.9.05

Oferenda
Itamar Assumpção


Tenho mil segredos para te contar

Abri todas as conchas do mar
Dentro delas achei pérolas
Com algumas te fiz um colar
Um colar de pérolas
Lisas e bem redondas
Lindas bolas claras
Contas de perder a conta
Em todos os dedos você vai usar
Anéis que eu mandei buscar
Uns no fim do mundo três gemas em Minas
Outros dez na Conchinchina meu amor
É teu meu tesouro
Ouro puro e lírios
Meu amor eu juro
Meu palácio com antúrios
Peço pense devagar nessa oferenda
Se recusas ou aceitas
Essa oferenda
Peço pense devagar
Nessa oferenda
Só não tens a vida toda
Pra pensar.

5.9.05

Entusiasmada com meu comentário sobre sua excelente influência em minha vida, feito no post anterior, minha mãe saiu avidamente à busca de novidades para este blog.
Olhaí o resultado. Eu falei, eu falei...

MILÁGRIMAS
Itamar Assumpção - Alice Ruiz

Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo
Se amargo for já ter sido
Troque já este vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada milágrimas sai um milagre
Em caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente a cereja
Jogue para cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas
Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço
A cada milágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre.

2.9.05

Foi minha mãe quem me ensinou a gostar de Fernando Pessoa. Aliás, minha mãe me ensinou a gostar de milhões de coisas boas nessa vida.

TABACARIA
Álvaro de Campos (1928)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(...)

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

(...)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

(...)

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
O seu santo nome
Carlos Drummond de Andrade


Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.
Carlos Drummond de Andrade

O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.
E para repousar do amor, vamos à cama.
O amor e seus contratos
Carlos Drummond de Andrade

Tanto nas juras mais vivas como nos beijos mais longos
em que perduram salivas de outras paixões ainda ativas,
sopro de angolas e congos, eu sinto a turva incerteza
(ai, ouro de tredas lavras) da enovelada surpresa
que põe tanto de estranheza nos contratos que tu lavras.

Por mais que no teu falar brilhe a promessa incessante
até o mundo acabar e mesmo depois - diamante
de mil prismas incendidos, amarga-me o pensamento
de serem pactos fingidos e nos seus subentendidos
não vi, amor, valimento. Experiência de escrituras,
eu tenho. De que me serve? Após sofridas leituras
de emendas e rasuras, no peito a dúvida ferve,
se nos mais doutos cartórios de Londres, Londrina, Lavras
para assuntos amatórios, teus itens são ilusórios,
só palavras e palavras.

As nulidades tamanhas que te invalidam o trato
não sei se provêm de manhas ou de vistas mais estranhas.
Serão talvez teu retrato gravado em vento ou em sonho
como aéreo documento que nunca mais recomponho.
São todas - digo tristonho - feitas de sonho e de vento.

31.8.05

Uma das características que Rubem Braga exigia da mulher perfeita:

"Que no verão seja assaltada por uma remota vontade de miar".
É um amor impossível o de peixe e pássaro.
Nunca podem estar juntos.
O pássaro morre afogado na água.
O peixe morre afogado no ar.
Depois, peixe e pássaro não têm mãos para amar.
Não sei nada sobre o coração de peixe nem de pássaro.
Penso que devem ter muita esperança.

(Bartolomeu Campos Queiroz, em O Peixe e o Pássaro)
De quem é isso mesmo? Acho que da Regina Teixeira da Costa.


(...)
Quem é o neurótico? Alguém que enfrenta temerosamente as exigências da vida – e isto lhe suga a vitalidade, o consome, o cansa. Por isto suas escolhas são tímidas: não se encoraja a ousar muito. Para manter o equilíbrio na corda bamba em que atravessa a existência, busca o que é mais cômodo. Aquieta-se, e não sai à cata de novas e melhores formas. Espantado frente ao novo, devido à pobreza de seu repertório, ou por sua crônica falta de auto-confiança, ou por esperar sempre que se repitam as decepções, acaba se excluindo, ficando de fora ou deixando de fora.
Deixa passar boas chances de estabelecer relações duradouras de boa qualidade: perde o bonde, deixa passar o cavalo arreado. Continua vagando, solitário, sentindo-se vazio, carente e sedento de contato. Nada satisfaz, nunca encontra o preenchimento pelo qual anseia.
(...)
Às vezes, pede ajuda: busca a análise, a psicoterapia – raramente não sem antes ter buscado um remédio que lhe cure a cabeça que dói, o peito que aperta, as vísceras em fogo, o sono que não chega, o cansaço crônico. E – por que não? - que também leve embora essa tristeza que insiste em doer-lhe na alma.
Pretende-se, então, que ele faça contato afetivo com seu padecimento. Conhecer sua montagem e, a partir daí, modificar suas relações intrapsíquicas e interpessoais. Desconstruir a mitologização de seu passado, e dar-se chance de achar caminhos, abrir picadas, desbravar terrenos, criando novas possibilidades de solucionar, sair, evoluir. Espera-se que adquira condições de vir a se autoconhecer, se desenvolver e se sustentar emocionalmente, deixando para trás o cheiro bolorento e o peso inútil do passado que agrilhoa e cerceia. Colocar-se em marcha: a vida será o que fizermos dela.
Uma revolta
Clarice Lispector

Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa.

PS: Já postei isso aqui? Não tenho mais paciência de procurar no arquivo inteiro deste blog. Fica combinado que quando eu publicar de novo alguma coisa, é porque gostei de novo dela.

Por não estarem distraídos
Clarice Lispector

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
Hipótese
Carlos Drummond de Andrade

E se Deus é canhoto e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.
Voltando de outra temporada em Goiânia. E vendo tudo alegrinho de novo.

Momento
Adélia Prado

Enquanto eu fiquei alegre, permaneceram
um bule azul com um descascado no bico,
uma garrafa de pimenta pelo meio,
um latido e um céu limpidíssimo
com recém-feitas estrelas.
Resistiram nos seus lugares, em seus ofícios,
constituindo o mundo pra mim, anteparo
para o que foi um acometimento:
súbito é bom ter um corpo pra rir
e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo
alegre do que triste. Melhor é ser.
Do blog Mothern, que eu adoro. Dá até vontade de ser mãe daqui a uns 20 anos.

Violência doméstica

Quando fiquei grávida da Gabi, Nina tinha 2 anos. Comuniquei:
- Nina, tem um neném na minha barriga.
- Eu vou bater nele.

14.8.05

Em minhas últimas brigas com meu namorado, tenho pedido sempre mais atenção. Mais cuidado. Mais carinho. Mais tudo. Enfim, estou uma chata. Achei um texto sobre mulheres que bancam as resolvidas e depois se fodem, e reproduzo aqui, por encontrar grande semelhança com minha situação atual.

O inferno é ser fodona
do site 02 neurônio
Este site é escrito por três mulheres fodonas. Sabe como é. A gente se vira sozinha, mano. Temos reuniões duras de negócios e colocamos o pau na mesa. Depois choramos, claro. Mas tomamos sozinhas o nosso banho quente e nosso calmante (seja ele qual for) depois e vamos em frente. Sabemos trocar a lâmpada. Tentamos arrumar sozinha nossos computadores. Quando não conseguimos, temos o telefone do homem do suporte e dinheiro para pagá-lo.
Nós, as fodonas, não temos muitos ataques de ciúme, porque já fizemos muitos anos de análise, sabe como é. Por isso, entendemos que o problema dos outros é dos outros. Aprendemos a segurar a nossa onda e sofremos de ciúme um pouco. Sem compartilhar com o objeto do ciúme.
Sim, porque as fodonas descobrem um dia que não é preciso falar tudo para o pretê, que a vida é nossa mesmo e que a gente está sozinha nessas.
A gente é fodona. E fodona chora muito, mas ninguém nem vê, nem precisa ver. Porque quando a gente chora a gente se esconde.
Depois de um ataque de choro na frente de um pretê a fodona decide não chorar mais na frente dele, porque talbez ele não entenda. Fodona sabe que melhor chorar na cama, que é lugar quente.
Fodona compra sozinha o próprio carro. Escolhe sozinha o próprio apartamento, o próprio médico, os amigos.
Fodona tem muitos amigos, mas não é amiga de qualquer um, sabe como é. Fodona geralmente é amiga de fodona. Fodona diz eu te amo para a outra fodona pelo telefone. Porque talvez só elas saibam o quanto é um saco ser fodona.
Principalmente quando o mundo é cheio de não fodonas que conseguem mais atenção e mais carinho.
Ser fodona e compreensiva é uma merda.

28.7.05

Maria Elisa Ferraz Paciornik. Esse é o nome da autora do poema que eu postei há uns dias, no auge da crise de saudade e de desespero por perder meu amor para Goiânia. Vou repeti-lo aqui porque ele é lindo, mas depois de uma super temporada na minha nova segunda casa, meu coração já está melhor, obrigada.

Olha, hoje não vem fazer confidência,
vê se hoje não vem se queixar
hoje estou morrendo de pena de mim,
hoje não quero escutar.

15.7.05

O que é angústia
Clarice Lispector, “A descoberta do mundo”.

Um rapaz fez-me essa pergunta difícil de ser respondida. Pois depende do angustiado. Para alguns incautos, inclusive, é palavra de que se orgulham de pronunciar como se com ela subissem de categoria - o que também é uma forma de angústia.
Angústia pode ser não ter esperança na esperança. Ou conformar-se sem se resignar. Ou não se confessar nem a si próprio, ou não ser o que realmente se é, e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser também não ter coragem de ter angústia - e a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.
Esse mesmo rapaz perguntou-me: você não acha que há um vazio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera que o coração entenda.
As sem razões do amor
Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga, nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Vou brincar de casinha com o meu amor por alguns dias.

Se for só isso o céu,
está perfeito. (Adélia Prado)

9.7.05

Olha, hoje não vem fazer confidência,
vê se hoje não vem se queixar
hoje estou morrendo de pena de mim,
hoje não quero escutar.


Maria Elisa (de sobrenome difícil, que eu esqueci)
O Fer foi pra bem longe e me levou com ele.

Soneto do amor como um rio
Vinícius de Moraes

Este infinito amor de um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno, interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo

Em que seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.


*****

Leminski

você está tão longe
que às vezes penso
que nem existo

nem fale em amor
que amor é isto

2.7.05

Bilhete
Mário Quintana

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
Pneumotórax
Manuel Bandeira

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

...........................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o
[pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Para o Fer levar com ele:

Maiakovski

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura
O que importa é partir, não é chegar.
Lygia Fagundes Telles

Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas, ambíguas diante dos apaixonados. Aproximam-se deles, dizem coisas amáveis, mas guardam certa distância, não invadem o casulo imantado que envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita cautela ao pisar nesse terreno. Com sua disciplina indisciplinada, os amantes são seres diferentes e o ser diferente é excluído porque vira desafio, ameaça. Se o amor na sua doação absoluta os faz mais frágeis, ao mesmo tempo os protege como uma armadura. Os apaixonados voltaram ao Jardim do Paraíso, provaram da Árvore do Conhecimento e agora sabem.
O que é triste pode ser bonito. E Lya Luft pode ser legal.

O lado fatal
Lya Luft

I
Quando meu amado morreu, não pude acreditar:
andei pelo quarto sozinha repetindo baixo: "Não acredito, não acredito”.
Beijei sua boca ainda morna, acarinhei seu cabelo crespo, tirei sua pesada aliança de prata com meu nome e botei no dedo.
Ficou larga demais, mas mesmo assim eu uso.
Muita gente veio e se foi.
Olharam, me abraçaram, choraram, todos com ar de incrédula orfandade.
Aquele de quem hoje falam e escrevem (ou aos poucos vão-se esquecendo) é muito menos do que este, deitado em meu coração, meu amante e meu menino ainda.

II
Deus (ou foi a Morte?) golpeou com sua pesada foice o coração do meu amado (não se vê a ferida, mas rasgou o meu também).
Ele abriu os olhos, com ar deslumbrado, disse bem alto meu nome no quarto de hospital, e partiu. Quando se foram também os médicos e suas máquinas inúteis, ficamos sós: a Morte (ou foi Deus?), o meu amado e eu.
Enterrei o rosto na curva do seu ombro como sempre fazia, disse as palavras de amor que costumávamos trocar.
O silêncio dele era absoluto: seu coração emudecido e o meu, varados por essa dourada foice.
Por onde vou deixo o rastro de um sangue denso e triste que não estancará jamais.

(...)

IV
O meu amado tinha coisas de menino: dormia abraçado a mim feito criança, gostava de doce e de ganhar camisas novas de presente.
Usava a água-de-colônia que lhe dei e ria: "Pareço uma Paulina Bonaparte."
Olhava-me tão agradecido ao menor cuidado como limpar seus óculos ou trazer-lhe água, que era como se nunca tivesse tido infância.
(Gostava de rir, embora chorasse algumas vezes a meu lado.)
Abria as portas grandes da varanda de nosso quarto sobre as florestas da Gávea, e de tudo se admirava: "Espantoso! Qual o sentido disso?”.
Quando eu não estava em casa, ficava aflito: telefonava para conferir se eu voltara ao nosso cotidiano: "Sabendo que você está aí, meu mundo fica em ordem."
O meu amado tinha coisas de menino: mas seus olhos eram sábios de entenderem quase toda a miséria deste mundo.

(...)

VIII
(...)
Não conseguia sentar-se mais que meia hora para escrever: vinha ao meu escritório, usava de pretextos para me distrair, dava um beijo, fazia confidências, comentava assuntos do dia.
Quando me via triste, dizia entre compassivo e magoado: "Você hoje está numa melancolia profunda?"
Certa vez discutimos, e ele deixou sobre minha máquina de escrever um bilhetinho: "Hélio Pellegrino ama Lya Luft."
Nunca tivemos mais que vinte anos.

IX
Outro dia sentei-me na beira da cama para aparar as unhas que sempre trago bem rentes.
(Minhas duas mãos pareciam tão solitárias.)
Dei-me conta de que nunca mais ele sentará a meu lado dizendo: "Gosto de ver você fazendo essas coisas bem cotidianas."
Era a primeira vez que cuidava de minhas mãos depois que ele se fora.
Então deitei-me no chão e chorei amargamente por duas horas, sabendo que mesmo que chorasse dois anos ou dois séculos ele não voltaria mais.
(...)

XII
O meu amado era mineiro: mas dos visionários.
Levava-me à sua terra, onde, ébrios de tanta luz e tanto céu, percorríamos a sua juventude: eu integrada nessa vida inteira.
Ouro Preto revisitada muitas vezes, a Serra da Piedade onde escutávamos a paisagem vasta.
Belo Horizonte, e todas as esquinas de antigos ardores: seu coração se abria em confissões noite adentro.
O meu amado era de Minas. Da banda dos visionários: capaz de morrer sem abdicar dos sonhos
(...)

XVI
Não digam que isso passa, não digam que a vida continua, que o tempo ajuda, que afinal tenho filhos e amigos e um trabalho a fazer.
Não me consolem dizendo que ele morreu cedo mas morreu bem (quem não quereria uma morte como essa?)
Não digam que tenho livros a escrever e viagens a realizar.
Não digam nada.
Vejo bem que o sol continua nascendo nesta cidade de Porto Alegre, onde vim lamber minha ferida escancarada.
Mas não me consolem: da minha dor sei eu.

XVII
O meu amado era um homem impaciente: brigava no trânsito, detestava filas, batia portas com força quando perdia suas coisas.
Certa vez rachou um telefone que não dava linha; reclamava de ir ao dentista.
Mas quando um dia chorei porque ele falava aos gritos, andou-me rosas vermelhas que espalhei pela casa toda. Ainda hoje elas florescem para onde quer que eu me volte.

(...)

XXIV
Os amigos dizem que preciso reagir, e reajo.
Não me matei ainda, e provavelmente vou resistir.
Só pela teimosia dos que não acreditam, reajo;
penteio os cabelos, passo pó no rosto, pois os amigos dizem que a vida continua.

Eu, tudo o que queria era trocar o tempo que me resta e pesa tanto por um instante em que pudéssemos repetir (embora não seja preciso, porque ele e eu sabemos) os momentos de amor, e os silêncios de nosso mútuo e pleno entendimento.

XXVI
O meu amado morreu belo como um guerreiro, mas eu não estava preparada.
Morreu iluminado, sem dor, pronunciando meu nome, mas eu não estava preparada.
O meu amado morreu a sua morte toda, a que vinha morrendo desde o nascimento como todos nós.
Morreu nos anos de ternura e relativa paz, morreu pleno de paixão e deixou-me o legado de sua indignação.
Morreu como todos quereriam morrer:
mas eu não estou preparada.

(...)

XXIX
O meu amado era velho e moço, ríspido e cândido, apaixonado e solitário, e compreendeu minha atormentada alma como ninguém.
Achava graça em mim algumas vezes. Mas quando eu lhe dizia sentir medo sem razão no meio da noite (com certeza antecipando a separação que sobrevinha), ele me abraçava calado e sombrio, dizendo: "É para se ter medo mesmo."
Não pronunciávamos então a palavra temida que talvez nos espreitasse nos cantos do quarto.
Só nessas ocasiões ele não me explicava nada.

(...)

XXXV
"Hélio Pellegrino deve estar fazendo comício no céu, andando de braço dado com Freud e discutindo com Marx", disse-me uma amiga.
(Eu sinto-o aninhado, frágil e brilhante, sozinho e amigo, nisto que me sobrou de coração.)

(...)

XXXIX
O meu amado, das muitas coisas que sabia, ensinou-me algumas: conheço mais a mim e aos outros, aprendi a amar melhor a todos e entendi que a morte pode ser também um sonho.
Mas não se iludam: esta que agora escreve, fuma, dirige seu carro e tantas vezes quer morrer, não é a de antes: paixão e morte me derrubaram e caminham sobre mim com suas grandes patas quando ninguém percebe.

XL
Estranho também esse amor, com hora marcada para a mutilação da morte, o minuto acertado, e o fim consultando o relógio para nos golpear.
Estranho esse amor de agora, com meu amado atrás de um espelho baço onde às vezes penso divisar seu vulto como num aquário.
Enrolado em silêncio, mais que nunca o meu amor comanda a minha vida.

XLI
Ainda não acreditei na tua morte.
Visito tua sepultura ao sol do Rio de Janeiro, onde fomos felizes e infelizes e nos amamos tanto.
Mas não acredito. Ponho a mão na pedra que esconde alguma coisa que restou de ti; mesmo assim não acredito.
Deixo flores na laje, saio a andar entre sepulturas anônimas e conhecidas, sozinha ao sol da cidade onde já não moro.
Imagino que deves ter morrido de verdade ou não me deixarias andar ali tão só.
(Quando acreditar em tua morte inteiramente, o que fará meu coração desnorteado?)

(...)

XLIII
Não falem alto comigo: andem sempre na ponta dos pés.
Principalmente, não me toquem.
Finjam que não vêem se tenho um jeito absorto, se nem entendo as perguntas com a rapidez de antigamente, se pareço fatigada e sem graça como nunca fui.
Façam silêncio ao meu redor.
Não me interessa nada o cotidiano nem o místico. Não quero discutir os preços do mercado nem os grandes mistérios da eternidade.
Levo meu amado no peito como quem carrega nos braços para sempre uma criança morta.

XLIV
(...)

Amado meu, vivo em mim para sempre, apesar da ruga a mais e do olhar mais triste, devo-te isto: voltar a amar a vida como agora amas, inteiramente, a tua morte.
Açúcar emprestado
Luis Fernando Veríssimo

Vizinhos de porta, ele o 41 e ela o 42.
Primeiro lance: ela. Bateu na porta dele e pediu açúcar emprestado para fazer um pudim.
Segundo lance: ela de novo. Bateu na porta dele e perguntou se ele não queria provar o pudim. Afinal, era co-autor.
Terceiro lance: ele. Hesitou, depois perguntou se ela não queria entrar. Ela entrou, equilibrando o prato do pudim longe do peito para não derramar a calda.
- Não repara a bagunça...
- O meu é pior.
- Você mora sozinha?
Sabia que ela morava sozinha. Perguntara ao porteiro logo depois de se mudar. A do 42? Dona Celinha? Mora sozinha. Morava com a mãe mas a mãe morreu. Boa moça. Um pouco... E o porteiro fizera um gesto indefinido com a mão, sem dizer o que a moça era. Fosse o que fosse, era só um pouco.
A conversa começou com apresentações e troca de informações - "Nélio", "Celinha", "Capricórnio", "Leão", "Daqui mesmo", "Eu também" - e continuou enquanto comiam todo o pudim, que estava ótimo. Mas quando ela disse "Como a gente se entendeu bem, né?", cobrindo a mão dele com a dela, ele decidiu dar um lance preventivo e declarou que não queria envolvimentos em sua vida. Queria ser um homem sem envolvimentos. Entende? Sua decisão de vida era não ter envolvimentos.
- Como, envolvimentos? - perguntou ela.
- Envolvimentos - explicou ele.
Antes de sair, com a cara amarrada, ela disse:
- Me empresta uma gilete?
- Gilete? Eu não uso gilete.
- Não faz mal, eu tenho em casa.
E saiu, pisando firme e sem olhar para trás.
Uma hora depois, bateu na porta.
- Esqueci o prato do pudim.
Ele viu que ela tinha cortado os pulsos. O sangue pingava nas lajes do corredor.
- O que é isso?!
E todo o tempo, enquanto ele estancava a sangueira da melhor maneira possível, e a colocava no seu carro, e a levava em disparada para o hospital, ela só repetia:
- Ué, não era você que não queria envolvimentos? Não era você?
A seco
Leila Míccolis

Tem coisas que a gente só diz de porre
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.
Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez
responsáveis por tamanha estupidez.
E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose... afetiva

23.6.05

Para o Fer:

“O inferno dos vivos não é algo que vai existir: se existe, já está aqui, o inferno de nossa vida cotidiana, formado pelo fato de vivermos juntos. Há duas formas de suportá-lo. A primeira é a que muitos acham fácil: aceitar o inferno e tornar-se parte dele, até não o ver mais. A segunda é arriscada e exige constante atenção e aprendizado: no meio do inferno procurar e saber reconhecer o que não é inferno, fazê-lo durar, dar-lhe espaço”.

Cidades Invisíveis, Italo Calvino
Hilda Hilst

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.
Infância
Guilherme de Almeida

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".
XLII - Passou a diligência
Alberto Caeiro

Passou a diligência pela estrada, e foi-se;
E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia.
Assim é a ação humana pelo mundo fora.
Nada tiramos e nada pomos; passamos e esquecemos;
E o sol é sempre pontual todos os dias.
Eu bem que tento não postar sempre os mesmos autores. Mas como não escolher Clarice Lispector?
a
Chegando em casa, não conseguia ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei mais ainda indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, e achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei!
Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.
Despedida
Cecília Meirelles

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero a solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)

Quero solidão.
"O amor com seus contrários se acrescenta”
Camões
Noite carioca
Ana C. César

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio.
Atravancos na contramão. Suspiros no
Contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta
Do mundo: essa que não tem nenhum segredo.
Mater dolorosa
Adélia Prado

(...) Uma vez fizemos piquenique,
ela fez bolas de carne
pra gente comer com pão.
Lembro a volta do rio
e nós na areia.
Era domingo,
ela estava sem fadiga
e me respondia com doçura.
Se for só isso o céu,
está perfeito.

19.6.05

Fanatismo
Florbela Espanca

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!..."
Alberto Caeiro

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.


(...)
Para um amor na rua
Elisa Lucinda

Meu amor,
vem pra casa que ouvi dizer
que vai estourar a guerra
Nostradamus previu
Raimunda, nega Raimunda confirmou
Por favor, ponha os pés na terra
Chão firme cama da gente
ouvi dizer que vai estourar a guerra.
Você que é mundano convicto
você que erra
vai argumentar que não há perigo e o escambau
que é apenas o "bicho" internacional.
Vai confundir tudo com show
vai dizer que tem Prince, Rock n'roll
Gun's N'Roses e talvez Gal;
É mau, meu bem
tem também Sadam, Bushes e mesquinharias
Vem pra casa guardar num cofre sua ingenuidade
vem proteger da maldade sua fotografia.
Aqui fiz cuscuz farofa e feijão fraldinho
aqui pintei filosofia, comigo-ninguém-pode
espada de São Jorge, jasmim, arruda, carinho.
Tudo anti-míssil
tudo bruxaria anti-crueldade bélica
Lá fora alguns meninos
querem experimentar a potência
de seus terríveis brinquedos.
Não tenha medo
vem pra casa sem nem telefonar
aqui tem ar, poesia, fé
e tudo que a alegria da alma encerra.

Vem, meu amor
que ouvi dizer que vai estourar a guerra.
Como se chama
Clarice Lispector

Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto - como se chama o que sinto? Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente - como se chama essa mágoa e esse rancor? Estar ocupada, e de repente parar por ter sido tomada por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota - como se chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar: como se chama? Até hoje só consegui nomear com a própria pergunta. Qual é o nome? e é este o nome.
Cecília Meirelles

Tenho fases como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
Seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No meu dia de alguém ser meu
Não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
O outro desapareceu...


***

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel serrana bela,
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la:
Porém o pai usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecido,

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.

Luís Vaz de Camões
“Nestas circunstâncias o beija-flor vem sempre aos milhares”
Ana Cristina César

Este é o quarto Augusto. Avisou que vinha.
Lavei os sovacos e os pezinhos. Preparei o chá.
Caso ele me cheirasse... ai que enjôo me dá o açúcar do desejo.

12.6.05

A moda dos casais trocados é relativamente nova. Quer dizer, desejar a mulher do próximo é antigo como os dez mandamentos; a novidade é o próximo gostar da idéia e desejar a sua mulher também.
Luís Fernando Veríssimo
Dialética
Vinícius de Moraes

É claro que a vida é bela
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E que tenho tudo pra ser feliz

Mas acontece que eu sou triste...
Alberto Caeiro

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Clarice Lispector

O pior de mentir é que cria falsa verdade. (Não, não é tão óbvio como parece, não é truísmo; sei que estou dizendo uma coisa e que apenas não sei dizê-la do modo certo, aliás, o que me irrita é que tudo tem de ser "do modo certo", imposição muito limitadora). O que é mesmo que eu estava tentando pensar? Talvez isso: se a mentira fosse apenas a negação da verdade, então este seria um dos modos (negativos) de dizer a verdade. Mas a mentira pior é a mentira "criadora". (Não há dúvida: pensar me irrita, pois antes de começar a pensar eu sabia muito bem o que eu sabia).

Ainda é o melhor que eu já li sobre namorados. Afinal, hoje é 12 de junho.
(Ao meu namorado, o de sempre e o mais verdadeiro: eu te amo).

Aos namorados do Brasil
Carlos Drummond de Andrade

Dai-me, Senhor, assistência técnica para eu falar aos namorados do Brasil.

Será que namorado algum escuta alguém? Adianta falar a namorados? E será que tenho coisas a dizer-lhes que eles não saibam, eles que transformam a sabedoria universal em divino esquecimento? Adianta-lhes, Senhor, saber alguma coisa, quando perdem os olhos para toda paisagem, perdem os ouvidos para toda melodia e só vêem, só escutam melodia e paisagem de sua própria fabricação?

Cegos, surdos, mudos - felizes! - são os namorados enquanto namorados. Antes, depois são gente como a gente, no pedestre dia-a-dia. Mas quem foi namorado sabe que outra vez voltará à sublime invalidez que é signo de perfeição interior. Namorado é o ser fora do tempo, fora de obrigação e CPF, ISS, IFP, PASEP, INPS. Os códigos, desarmados, retrocedem de sua porta, as multas envergonham-se de alvejá-lo, as guerras, os tratados internacionais encolhem o rabo diante dele, em volta dele. O tempo, afiando sem pausa a sua foice, espera que o namorado desnamore para sempre.

Mas nascem todo dia namorados novos, renovados, inovantes, e ninguém ganha ou perde essa batalha. Pois namorar é destino dos humanos, destino que regula nossa dor, nossa doação, nosso inferno gozoso. E quem vive, atenção: cumpra sua obrigação de namorar, sob pena de viver apenas na aparência. De ser o seu cadáver itinerante. De não ser. De estar, e nem estar.

O problema, Senhor, é como aprender, como exercer a arte de namorar, que audiovisual nenhum ensina, e vai além de toda universidade. Quem aprendeu não ensina. Quem ensina não sabe. E o namorado só aprende, sem sentir que aprendeu, por obra e graça de sua namorada.

A mulher antes e depois da Bíblia é pois enciclopédia natural, ciência infusa, inconciente, infensa a testes, fulgurante no simples manifestar-se, chegado o momento. Há que aprender com as mulheres as finezas finíssimas do namoro. O homem nasce ignorante, vive ignorante, às vezes morre três vezes ignorante de seu coração e da maneira de usá-lo. Só a mulher (como explicar?) entende certas coisas que não são para entender. São para aspirar como essência, ou nem assim. Elas aspiram o segredo do mundo.

Há homens que se cansam depressa de namorar, outros que são infiéis à namorada. Pobre de quem não aprendeu direito, ai de quem nunca estará maduro para aprender, triste de quem não merecia, não merece namorar.

Pois namorar não é só juntar duas atrações no velho estilo ou no moderno estilo, com arrepios, murmúrios, silêncios, caminhadas, jantares, gravações, fins-de-semana, o carro à toda ou a 80, lancha, piscina, dia-dos-namorados, foto colorida, filme adoidado, rápido motel onde os espelhos não guardam beijo e alma de ninguém.

Namorar é o sentido absoluto que se esconde no gesto muito simples, não intencional, nunca previsto, e dá ao gesto a cor do amanhecer, para ficar durando, perdurando, som de cristal na concha ou no infinito.

Namorar é além do beijo e da sintaxe, não depende de estado ou condição. Ser duplicado, ser complexo, que em si mesmo se mira e se desdobra, o namorado, a namorada não são aquelas mesmas criaturas que cruzamos na rua. São outras, são estrelas remotíssimas, fora de qualquer sistema ou situação. A limitação terrestre, que os persegue, tenta cobrar (inveja) o terrível imposto de passagem: "Depressa! Corre! Vai acabar! Vai fenecer! Vai corromper-se tudo em flor esmigalhada na sola dos sapatos...". Ou senão: "Desiste! Foge! Esquece!".

E os fracos esquecem. Os tímidos desistem. Fogem os covardes.

Que importa? A cada hora nascem outros namorados para a novidade da antiga experiência. E inauguram cada manhã (namoramor) o velho, velho mundo renovado.
Correspondência
Ana C. César

My dear,
(...)
Depois que desliguei o telefone me arrependi de ter ligado, porque a emoção esfriou com a voz real. Ao pedir a ligação, meu coração queimava. E quando a gente falou era tão assim, você vendo TV e eu perto de bananas, tão sem estilo (como nas cartas). Você não acha que a distância e a correspondência alimentam uma aura (um reflexo verde na lagoa no meio do bosque)?
Ensinamento
Adélia Prado

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo.
Não é .
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo:
"coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

26.5.05

Desde pequena tenho mania de guardar tudo o que leio e gosto. Isso me rendeu, em meus 25 anos de hoje, uma coleção enorme de poesias, textos, trechos, escritos em geral.
Ninguém lê nada impunemente, sem expor um pouquinho de si na forma como enfatiza as palavras, como sublinha um trecho ou outro. A maior poesia de qualquer texto talvez esteja exatamente aí.

Delicatessen
Hilda Hilst
Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, "tá quentinho, comprei agora". Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua "ídala", mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: "pé-de-porco". Não entendi. Como? "Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também". Ahn... interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.

Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: "O que aconteceu com seus gatos?" Resposta: "Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu". Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que "bife" era uma coisa para as classes mais baixas, "de um mau gosto terrível", ele enfatiza. E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia... Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas... Perguntei: "E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?" Resposta: "Tive de matá-los". "Mas por quê?!" Resposta: "Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos". "Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?" Olhou-me aparvalhado: "Mas onde? Pra quem?" "E como você os matou?" "A pauladas", respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais.

Obs: A Hilda Hilst ficou "esquecida" pela crítica por muitos anos, morando sozinha em um sítio pra onde levava todos os cachorros de rua que ela encontrava. Foi ser redescoberta já velhinha. Ela escreveu a coisa mais linda do mundo na lápide de seu pai: "E ainda que as janelas se fechem, meu pai/ É certo que amanhece."