25.12.06

Post de amor em homenagem a um casal que eu adoro e que agora usa alianças.
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A 2
De Nelson Botter.

Ele acorda. Ela acorda. E a corda não arrebenta. Pode puxar, ela há de agüentar. Mais um dia, mais um mês, mais um ano, mais uma vida. Uma vida a dois, regada de dificuldades, mas que lhes proporciona colheitas espetaculares. Aprenderam os truques de um bom plantio. Nada sabem, é claro, mas sabem. Doeu aprender, mas como ele disse a uma querida leitora essa semana: "a dor é necessária", ainda mais quando o assunto é amor, que é quase um masoquismo, vai ver até é... vai ver e verá. Basta observar, estúpido cupido, as coisas boas da vida são sempre ligadas à dor, pois procuramos o gozo contínuo, a satisfação da insatisfação latente. E isso dói, como dói. Quem disse foi o velho do charuto, aquele da Rua Berggasse 19, nada tenho com isso e não aceito reclamações.
Uma vida a dois dói muito, e não são todos que suportam a dor, não senhor, alguns preferem sofrer em outra freguesia, cansam de assoprar o corte, resolvem lamber as feridas e seguem em frente, pois lá tem mais gente. Digo ainda: ninguém é obrigado a agüentar tanta dor, seja em que nível for. A corda arrebenta. Plac! Não há departamento de atendimento ao cliente que resolva. Para falar abobrinhas tecle 1, para choramingar tecle 2, para quebrar o pau tecle 3 ou permaneça na linha para falar com um de nossos novos divorciados.
Ele custou a aprender, ela também, tanta cabeçada, suturas por todos os lados, mas resolveram – apesar de todo o medo – encarar o desafio, numa era em que as relações estão ameaçadas pela alta demanda, pelo dinamismo que a superficialidade do mundo ‘ponto com’ nos oferece, pois são muitos os perigos que o poetinha de Moraes já via nessa vida e nas que virão. Mas havia tantas estrelas naquela noite, tudo escrito lá, no mapa desenhado sobre a cabeça deles, o frio beijava-lhes a pele e os astros morriam de inveja de tanta dor, ou melhor, tanto amor. As trevas não mais existiam, Neruda. Fiquemos juntos, disseram, e assim o fizeram.
E a dor faz jorrar o sangue, todos os dias, mas é preciso estancar a ferida com a ponta da faca incandescente, cauterização just-in-time, que traz o alívio, o gozo. Ele quer gozar nela, ela quer gozar nele, eles querem gozar no mundo, mas o mundo não quer gozar neles. Entretanto, se deixam levar pela dor, isso é amar, é ousar um salto no escuro, é confiar seu destino a mais do que apenas você, é permitir que a tampa feche a panela, é escolher um cúmplice para as piores e melhores horas, é sentir de verdade a razão de se viver por viver.
Dói, mas passa, por isso quem é feliz com essa dor recomenda. Quem não é feliz com essa dor tem inveja de quem é. Os mais bem resolvidos, que preferem convictos uma outra dor, a da solidão, no fundo querem morrer mergulhados na dor maior. E quem prefere fugir de todas as dores não sofre, mas também não goza. A pele vira látex, perde-se tanto do tanto, Byron, meu lorde.
Vá, leve adiante essa que talvez seja a maior das perversões, a prisão que liberta, a indefectível filosofia na alcova, o que nos torna rijos e pulsantes. Viva a dor de viver a dois e viva duas vezes mais. É um gozo só...
Homens da minha vida
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O cartão de Natal que me fez chorar foi o que meu pai deu pro Fer:
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"Fernando,
Pra ser família não é preciso nascer na família, é preciso conquistar um lugar. Isso você tem feito.
Parabéns pelas realizações, feliz Natal e um excelente 2007".
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Meus pais sempre receberam as pessoas na nossa casa e nas nossas vidas - deles, minha, dos meus irmãos - como se todos os dias fossem Natal: mesa posta, luzes acesas e um bom papo.
Não saberia pedir mais do que eu tenho.

19.12.06

Lar ou ímpar
Aldir Blanc - Pasquim n. 419 - 8 a 14/07/77

Singela homenagem ao divórcio, ao desquite, ao colt, ao serrote e demais formas de separação.

A mulher da gente
não quer ser a mulher
que a gente tinha.
Quer ser “nova a cada instante”.
Bonito, né?
E como aporrinha!

Mas não há de ser nada.
Tem troço mais chato,
mais fora-de-moda
do que mulher que não incomoda?

A boa mulher deve azucrinar.
Deve fazer perguntas sem resposta,
bater portas,
achar a sogra uma josta
e discutir assuntos que variem
desde a nova taxa cambial
ao próprio ciclo menstrual
passando pelo resultado do bicho
E, bem no meio de uma frase do marido,
dizer que o papo ta um lixo.
Deve querer emagrecer ou engordar,
deve exigir permanecer ou se mudar
e recusar fazer o trivial
pra experimentar – mal – nova receita.
O lema é “nunca se dar por satisfeita”.
Um exemplo, gostosa leitorinha:
a mulher feliz, realizada,
deve, por incrível que pareça,
sentir palpitação, dor de cabeça
e, repentinamente, ir se deitar.
Agora, tem o seguinte: na orgia
não tem mulher que chegue
aos pés daquela
que padeça suave hipocondria.
Mas deve ser sutilmente estimulada
para que, depois, somando o ar mais sonso
a uma expressão tensa, dramática,
Jure pela mãe (dela) que não! Que não queria!
Feito as violentadas de “O Dia”
ou da “Luta Democrática”.

Sacaram?
A mulher que é mulher
tem que criar culpa, remorso,
arrependimento na besta do marido.
Aliás, todo marido,
por mais malandro, por mais vivido,
deve ser uma besta, doce besta
como o lar.
O lar – vocês sabem!
É um lugar de estar
e de não estar.
É um templo... um recesso sacrossanto...
um lupanar...
É o repouso do guerreiro,
é o berço do herói
é... é... é... de lascar!
Mas, sendo aconchegante, deve dar,
como qualquer atual democracia,
sensação de falsa liberdade,
a ponto do marido declarar:
- O lar é meu segundo bar!
E em qualquer um dos dois, se embriagar.
Esses porres acontecem
porque toda vida, em parte, é ímpar.

Boa sorte com seu par, meu nego.
Eu? Eu quero é sossego.
Lar ou ímpar?
Um pouquinho por dentro desse jogo
atiro fora os palitinhos, as moedas e os medos
e constato: vão-se os anéis e os dedos.
O lar, gente boa, é a maior zona.
Na purrinha conjugal
pede bem quem pede lona.
Impressionista
Adélia Prado

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

15.12.06

DVDs do Chico Buarque. Todos, em uma caixa linda com fotos, textos...

Chegando em casa, não conseguia ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei mais ainda indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, e achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei!
Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.

Clarice Lispector.

10.12.06

Poema de Natal
Vinícius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e sermos lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre os túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio

Não há muito que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não se esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos imensamente.

6.12.06

A serenata
Adélia Prado

Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mãos incríveis tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobro o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia, os cabelos entristecidos, a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem, de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos - só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

5.12.06

Soneto do gato morto
Vinicius de Moraes

Um gato vivo é qualquer coisa linda
Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade

De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.

Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.

30.11.06

ACONSELHÁVEL: aquilo que provavelmente você não está com a menor vontade de fazer.
DEMORA: quando o tempo emperra na impaciência da gente.
ESPONTÂNEO: o que vem assim: "vim!".
FACEIRO: quem está muito contente porque está muito contente.
FLERTE: quando se joga "escravos de Jó" com os olhos.
FRUSTRAÇÃO: tristeza que fica quando a expectativa acaba.
IDIOTA: quem pensa que sabe tudo sem saber que tudo é bem mais do que ele pensa.
JINGLE: quando geladeira é musa.
LÉPIDO: alguém que, por causa de uma alegria bem alegre, se sentiu coelho de repente.
MÁGOA: ferida que gosta de bolero.
NINGUÉM: todo aquele que não foi a uma festa que ficou vazia.
OUSADIA: quando o coração diz pra coragem "vá" e a coragem vai mesmo.
PAIXÃO: quando apesar da placa "perigo" o desejo vai e entra.
PECADO: algo que os homens inventaram e então inventaram que foi Deus que inventou.
RANCOR: quando o fundo do coração não consegue dizer "deixa pra lá".
RIDÍCULO: tudo que parece um cão abanando o rabo pra alguém que nem percebe.
ROMANCE: caso de amor muito bem encadernado.
SURPRESA: tudo que não é esquilo, quando é um esquilo que você está esperando.
ÚNICO: tudo que, pela facilidade de virar nenhum, pede cuidado.
URBANO: sem vacas.
URGENTE: algo que não te dá tempo de fazer xixi primeiro.

Alguns dos melhores momentos do livro "Pequeno dicionário de palavras ao vento", de Adriana Falcão.

28.11.06

Fábula de um arquiteto
João Cabral de Melo Neto

A arquitetura como construir portas
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.
2.
Até que, tantos livres o amedrontando,

renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.

26.11.06

Eu andava brigada com o Caetano, mas depois de vê-lo ontem no palco, rindo daquele jeito cheio de covinhas...
Eu me entrego. Paixão de novo.

Não tenho inveja da maternidade nem da lactação.
Não tenho inveja da adiposidade nem da menstruação.
Só tenho inveja da longevidade e dos orgasmos múltiplos.
Eu sou homem, pele solta sobre o músculo.
Eu sou homem, pelo grosso no nariz.
Não tenho inveja da sagacidade nem da intuição.
Não tenho inveja da fidelidade nem da dissimulação.
Só tenho inveja da longevidade e dos orgasmos múltiplos.
(Homem, Caetano Veloso. Do disco "Cê").

PS: nota zero para o Chevrolet Hall. Falta de organização na saída, péssima acústica... e um calor insuportável. Pra completar, fui perguntar sobre o ar refrigerado para uma menina culturete da produção, e ela veio me explicar que "a Casa não tem ar. É quente mesmo, as pessoas que freqüentam já estão cientes disso. Semana passada, inclusive, teve um samba aqui e ficou muito, muito quente". Sim, bizarro.

17.11.06

Vivo ou morto. Meu reino por um homem interessante.
Tati Bernardi
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Não sei mais o que fazer das minhas noites durante a semana. Em relação aos finais de semana já desisti faz tempo: noites povoadas por pessoas com metade da minha idade e do meu bom senso. Nada contra adolescentes, muitos deles até são mais interessantes e vividos do que eu, mas to falando dos “fabricação em série”. Tô fora de dançar os hits das rádios e ter meu braço ou cabelo puxado por um garoto que fala tipo assim, gata, iradíssimo, tia.
Tinha me decidido a banir a palavra “balada” da minha vida e só sair de casa para jantar, ir ao cinema ou talvez um ou outro barzinho cult desses que tem aberto aos montes em bequinhos charmosos. Mas a verdade é que por mais que eu ame minhas amigas, a boa música e um bom filme, meus hormônios começaram a sentir falta de uma boa barba pra se esfregar.
Já tentei paquerar em cafés e livrarias, não deu muito certo, as pessoas olham sempre pra mim com aquela cara de “tô no meu mundo, fique no seu”. Tentei aquelas festinhas que amigos fazem e que sempre te animam a pensar “se são meus amigos, logo, devem ter amigos interessantes”.
Infelizmente essas festinhas são cheias de casais e um ou outro esquisito desesperado pra achar alguém só porque os amigos estão todos acompanhados. To fora de gente desesperada, ainda que eu seja quase uma.
Baladas playbas com garotas prontas para um casamento e rapazes que exibem a chave do Audi to mais do que fora, baladas playbas com garotas praianas hippye-chique que falam com voz entre o fresco e o nasalado (elas misturam o desejo de serem meigas com o desejo de serem manos com o desejo de serem patos) e rapazes garoto propaganda Adidas com cabelinho playmobil também to fora.
O que sobra então? Barzinhos de MPB? Nem pensar. Até gosto da música, mas rapazes que fogem do trânsito para bares abarrotados, bebem discutindo a melhor bunda da firma e depois choram “tristeza não tem fim, felicidade sim” no ombro do amigo, têm grandes chances de ser aquele tipo que se acha super descolado só porque tirou a gravata e que fala tudo metade em inglês ao estilo “quero te levar pra casa, how does it sounds?”
Foi então que descobri os muquifos eletrônicos alternativos, para dançar são uma maravilha, mas ainda que eu não seja preconceituosa com esse tipo, não estou a fim de beijar bissexuais sebosos, drogados e com brinco pelo corpo todo. To procurando o pai dos meus filhos, não uma transa bizarra. Minha mais recente descoberta foram as baladinhas também alternativas de rock. Gente mais velha, mais bacana, roupas bacanas, jeito de falar bacana, estilo bacana, papo bacana… gente tão bacana que se basta e não acha ninguém bacana.
Na praia quem é interessante além de se isolar acorda cedo, aí fica aquela sensação (verdadeira) de que só os idiotas vão à praia e às baladinhas praianas. Orkut, MSN, chats… me pergunto onde foi parar a única coisa que realmente importa e é de verdade nessa vida: a tal da química. Mas então onde Meu Deus? Onde vou encontrar gente interessante? O tempo está passando, meus ex já estão quase todos casados, minhas amigas já estão quase todas pensando no nome do bebê,… e eu? Até quando vou continuar achando todo mundo idiota demais pra mim e me sentindo a mais idiota de todos?
Foi então que eu descobri. Ele está exatamente no mesmo lugar que eu agora, pensando as mesmas coisas, com preguiça de ir nos mesmos lugares furados e ver gente boba, com a mesma dúvida entre arriscar mais uma vez e voltar pra casa vazio ou continuar embaixo do edredon lendo mais algumas páginas do seu mundo perfeito.
A verdade é que as pessoas de verdade estão em casa. Não é triste pensar que quanto mais interessante uma pessoa é, menor a chance de você vê-la andando por aí?

14.11.06

Três anos de namoro.
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“Evidentemente, estou falando da modalidade de vida que faz do amor o centro de tudo, que busca toda satisfação em amar e ser amado. (...) O lado fraco dessa técnica de viver é de fácil percepção, pois, do contrário, nenhum ser humano pensaria em abandonar esse caminho da felicidade por qualquer outro. É que nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor”.
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FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização [1930].
Este poema é do irmão da Carlinha, minha amiga - agora venezuelana - que nunca acessaria um blog na vida e, portanto, nunca verá esta menção a ela.
Vou ligar pra contar que ela mereceu uma homenagenzinha e tem merecido minhas saudades TODOS os dias. Amigo é uma coisa ótima (poetas também são, e o irmão da Carlota é mesmo muito bom).
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Chapéu mexicano
Luís Vilela

Senhor, me vê um chapéu desses
Isso, do grande; mexicano
Pra eu usar em dia de sol
E tirar em dia de chuva.
Virar ao avesso
Guardar dessa água.
Fazer dele
Um vaso de flor
De raiz profunda
À altura
do meu
Amor.
Amores platônicos, trepadas homéricas.
De Xico Sá.

O sexo no MSN. Intimidade em dez segundos. E depois, como fazer para curar o amor platônico se não rolar uma trepada homérica??? ...pra ficar tão-somente na comparação mais trágica e mais grega, saca? Kill bill gates? Ou, como diria na minha pátria, Mate Severino, mate!
As cartas nas narrativas russas ou antigas demoravam séculos, léguas. Intimidades no lombo dos ursos, velho tchecov, nos trenós, rosebuds. Agora em dois segundo não estarás apenas lambendo selos das cartas, estarás no platonismo lambendo paus, cus ou bucetas, a depender do gosto. E tê-los, tê-las, tetas?
Jovens, não esqueçam das ruas, dos banheiros, dos telhados, das mentiras, da história do olho, da baciazinha de leite na qual ela senta com a bunda como um gato a bebê-la... pra levantar pingando a vida pelo taco, segui-la, a lama, o charco, o pântano do amor até chegar no ponto mais fraco, a porra a nos colar xifópagos.

7.11.06

Já vivi e não tenho saudades. Tá bem, tenho um pouquinho de saudades (de chegar amassada depois de 13 horas de viagem com cheiro de ônibus da Gontijo, de ver dez filmes no quarto de hotel e não querer sair pra nada, da despedida com ar de novela mexicana...).
Ainda assim, amor de perto é tão mais legal... Fer, ainda bem que você voltou.
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O amor e a distância
Raq Affonso
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Você sempre foi contra o amor interestadual. O amor interpaíses. Interplanetários. Contra não. Na verdade, nunca acreditou que eles pudessem sobreviver.
E aí você de repente você se depara com o seu amor. A 400 kms de distância!!!!
E dá-lhe telefonemas. SMS. MSN. O amor através das siglas.
E viagens. E um dia você está voltando do feriado de finados num ônibus da viação 1001. Está passando o filme "The Abyss". É sobre um grupo de mergulhadores que se vê às voltas com uma entidade do fundo do mar. Ao lado, um homem chora. Está emocionado com o filme. Você resolve comer o lanche oferendado pela aviação. Amendoim sabor shoyu.
Daí o seu amor liga. Você fica com vergonha, afinal, tá todo mundo ouvindo sua conversa. Inclusive o homem emocionado. Pelo celular, ele diz que tá com saudades. Você disfarça. Fala: "Eu também". As pessoas olham de canto de olho. Você se compara com uma mulher que falou no celular e chamou o interlocutor de BEBÊ. E se despede.
Pra logo depois começar a realmente acreditar no amor interestadual. Interplanetário. Do fundo do mar. E achar a autoviação 1001 no dia dos finados um programa tipo ótimo.

1.11.06

João, meu paciente de 4 anos, passou ontem um tempão em silêncio montando um carrinho de Lego. Nem uma palavra durante a sessão. Resposta dele quando tentei falar alguma coisa: "sshhh! Não faz barulho, senão eu levado acordo!".
O semblante de analista, é claro, sumiu automaticamente.

31.10.06

"E da costela de David Beckham, Deus fez o metrossexual".
Xico Sá

18.10.06

Memória
Carlos Drummond de Andrade


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

26.9.06

No último fim de semana, meu irmão de 20 anos perdeu um amigo da mesma idade, que morreu dormindo, atacado por um infarto fulminante. Na noite de quinta, estavam juntos na festa de aniversário de outro amigo. Na manhã de sexta, o João estava morto, na sua cama, aos 20 anos. Simples assim.
O desespero do meu irmão ao saber que o amigo tinha morrido e, por outro lado, a força que aqueles rapazes, quase moleques, deram uns aos outros nessa hora me comoveram de forma absurda.
Quando soube da notícia, fiquei pensando no quanto gostar é difícil porque as coisas não são eternas, ao contrário: em alguns casos, duram menos que nossa mais modesta expectativa. Depois fiquei sabendo que a turma de amigos seguiu com seu luto tomando cerveja e jogando video-game na casa de um deles, lembrando do João e fazendo, afinal, o que ele também faria em um sábado à tarde se estivesse vivo.
Não poderia existir forma mais bonita de sofrer e prestar homenagem. Tenho muito a aprender com esses quase-moleques de 20 anos.
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Sobre a amizade entre os homens
Nina Lemos
Há algo de lindo na amizade entre os homens. Nada mais comovente que dois bofes dizendo eu te amo. “Seu filho da puta, você é um verme, mas eu te amo pra caralho”. Essas coisas emocionam. Diálogo ouvido entre dois amigos, que também são meus (sorte nossa).
- Você encantou a minha festa.
- E você encantou a minha vida.
Os homens que me interessam (como amigos, namorados, pretês, qualquer coisa) são os que gritam eu te amo bem alto. Sujeitos que não se declaram bêbados, e ainda aqueles que falam, com orgulho “ai, só tenho amiga mulher”, não vão conquistar meu coração.
Sim, eu sofro de complexo de Electra. Acabo de lembrar que meu pai, homem intenso, uma vez quebrou três costelas. Motivo: o abraço de um amigo. Tem coisa mais linda?

13.9.06

"Se tudo começou com Big Bang, tinha que acabar com Big Mac".
Trilha de Onqotô, do Grupo Corpo (que coisa o Onqotô, hein?).
Rota
Não existe coisa mais linda nesse mundo. Ele abre o porta-luvas daquele gol amarelo e – sem precisar se virar – lhe estende a mão com um pacote de lenços de papel. - Vamos para onde?
E para onde íamos mesmo? Íamos para a Lua, para a Cidade do México, para as selvas escondidas do Laos. Íamos desbravar novas civilizações, percorrer todos os cafés de Paris, refazer a rota das especiarias, conquistar os 18 territórios. Mas o mundo encurtou.
- Vamos para Gávea.
Não existe coisa mais linda nesse mundo do que aquele silêncio amoroso. Ele não vai tentar decifrar os motivos. Não vai dizer que você merece coisa melhor. Nunca argumentará que foi melhor assim. E que ao menos foi rápido. Que você já passou por isso. Ele não ousará falar que as coisas vão ficar bem. Quem passa doze horas atrás de um volante sabe da vida de verdade.
Se você nunca chorou num banco de trás de um táxi, talvez você tenha amado pouco. E por isso, justamente, tenha sido mais feliz.

2.9.06

O texto é da minha irmã, e eu amei. Sinto muito por estar em inglês, mas não posso mais lutar contra o fato de que minha irmã se tornou americana de vez. Tá lá em http://legallynormal.blogspot.com/. Ana Carol em seu melhor humor.
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Freedom of jeans and the dumb little brazilian girls

This week has been a very good, busy, productive one, but I absolutely need it to be over. I can never make myself go to sleep before at least 2am, and that only adds up to 5 hours of sleep a night at most. Usually by Friday, when ideally someone should have slept 40 hours, I only slept 25, and you can clearly see it by the lack of make-up, the hair in a pony-tail that hasn't even been brushed, and the fact that I usually go out the door looking like I was blindfolded while getting dressed.
One of the things that I absolutely LOVE about the new job is that there is no dress code. My old job did, except for casual Fridays, when we could wear jeans. I had never been a jeans type of girl, and the first time I purchased a pair of jeans that I truly enjoyed wearing was in 2001, when I moved here. In Brazil is very hard to exhist if you're bigger than a size 4, so clearly in my country there is a common belief amongst store owners and establishments in the apparel industry that if you're born with big hips and a not so slim waist you're not worth of owning decent clothing, let alone a pair of jeans. I remember growing up, my mom used to have clothes tailored for me and her because there was no way in hell we would find anything half-way presentable to wear, besides sweatpant and t-shirs. I ended up having a pretty sharp wardrobe by the time I was 18, and 80% was custom tailored for me by this lady who used to make sure to rub on my face that my butt was getting bigger by the visit. She would smack my behind and say "Girl, you 'bout to drive some man crazy with that big ol'butt you got!". I, of course, never took that as a compliment, and I used to find extremely annoying the fact that she thought I was too big for her to work with, but I would definately be a great meal for nasty construction workers.
Anyway, it is definately a more comfortable experience being my size here in this country, because you're not constantly bombarded with the idea that your weight equals to that of 85 skinny brazilian girls combined. That used to bother me A LOT and I'm sure I have passed on a few experiences in the past because I just didn't feel like dealing with the looks of those girls who would stare at me as if they wanted me to realize that they were of a species more evolved than mine.
Now, for all I care, they can eat me because I have finally come to a point in life where I actually feel comfortable with myself enought to know that the size of my hips and the weight of my body is nobobdy's business but MINE. I would be lying if I said that I wouldn't love to shed some pounds, have a flatter stomach, and an ass that is about a quarter of the current ass I got, but eventhought it took me a while, I recently realized that somehow I have grown into someone who knows and believes that I'm SO much more than a stupid dress size.
And I wish the same for all those dumb little brazilian girls, while, of course, hoping that they asses reach size 24 by the time they are 30.

29.8.06

Livros que ensinam que as pessoas devem amar mais a si mesmas para ter uma vida mais longa são os livros mais perniciosos que existem, pois quem lê esse tipo de livro é idiota e, afinal, a quem interessa idiotas amando mais a si mesmos e vivendo cada vez mais e mais? Quem deseja narcisistas cretinos praticamente imortais?
Catalogando os machos – utilidade pública para as fêmeas
De Xico Sá.

Tudo bem, bravas fêmeas, os homens são todos iguais, já sabemos.
Alguns, no entanto, são bem mais perigosos que os outros. Em mais um serviço de utilidade pública, este cronista de costumes expõe aqui sua vitrine. Eis alguns tipos, noves fora a categoria metrossexual (já devidamente comentada nesta página) que merecem cuidados especiais:

Homem-bouquet – aquele macho que entende de vinhos finos, abre a garrafa, cheira a rolha, balança na taça, sente o “bouquet” da bebida... O tipinho não perde um programa do Renato Machado no GNT, entra em sites franceses do gênero, reúne os amigos para aporrinhá-los com o tal “bouquet”... Mais uma advertência: o mesmo elemento costuma apreciar também o que ele chama de “um bom jazz”, uma “música de qualidade”... Corra, Lola, corra de criaturas desse naipe.

Homem-hortinha _ Aquele mancebo que, ao receber as moças elegantemente para um jantar, usa o manjericão cultivado na própria hortinha que mantém no quintal ou na área de serviço. Cultivar o próprio manjericão não é exatamente o defeito do rapaz. O problema é que ele passa duas horas a discorrer sobre o cultivo da hortinha, os cuidados, o zelo, uma chatice só, para não dizer outra coisa. Uma amiga, coitada, conheceu um destes exemplares que cultivava até a própria minhoca usado como “fator adubante” da própria hortinha. Corra, Lola, corra, corra mesmo, corra enquanto é tempo!

Homem-do-predinho-antigo _ Aquele sujeito que ou é gay ou é um metrossexual enrustido. E o pior não é habitar um predinho antigo. O que mais dói é quando ele pronuncia, como toda a afetação desse mundo, que mora num “predinho antigo, charmoso”. Você entra lá, leitora do meu coração, e avista logo umas revistas chiques estrangeiras espalhadas pela sala, tipo “ID”, “Wallpaper” e quetais. O cara entende de iluminação indireta, tem cada abajur que só vendo. É um tipo sobretudo do Sudeste, mas também já começa a se espalhar pelo Sul e Nordeste. Fuja Lola, fuja.

Homem-Ômega 3 – Trata-se do camarada-saúde, preocupado em combater os radicais livres e encher o saco da humanidade com as suas receitas, dietas e bulas. Adora um salmãozinho, que ele pronuncia “salmon”, claro, como os mais frescos exemplares da raça. Jamais vai enfrentar um bom chambaril pernambucano ou barreado paranaense. Buchada de bode que é bom, vixe, passa longe. Até se benze, assustado, diante de um belo cozido de domingo. Adora um frango. Noooossa! Voa Lola e não se fala mais disso.

Homem-ONG – O sujeito onegê é o que há. Todo politicamente correto, benza-te Deus. Adora um abaixo-assinado, uma passeata, e está sempre morto de decepcionado com o governo, qualquer governo. Sim, ele acredita na humanidade, na responsabilidade social, no terceiro setor, na arte como redenção dos pobres... Se você reparar, leitora do meu coração, ele quase levita, de tão puro, de tão bom. Dá um “ninja” nele e some, Lola, some que é roubada-mor.

Homem-chorinho – Ele odeia tudo que é do estrangeiro, mesmo que seja um velho e bom rock´n´roll do Lou Reed ou do Elvis _tanto o rei como o Costello. Mas é capaz de passar horas, dias, quinzenas, como se estivesse numa festa igual à do filme “Anjo Exterminador” (de Buñuel), só ouvindo uma “MPB de qualidade” ou “zum de besouro ímã” do gênero. Finja que vai no banheiro, Lola, e dê área.

25.8.06

A amabilidade daqueles que querem te fuder
Jô Hallack

Não são nem nove da manhã , camisolinha e remelas nos olhos. O telefone toca. Do outro lado da linha, ela é amável, uma simpatia só, quase amor, um anjo.- Olá! Bom dia! Dona Giovana? É que você atrasou 3 dias e 15 segundos no pagamento da primeira parcela da renovação do seu seguro de carro.Eu o que? Me arrasto pela casa tentando alcançar o pote de café. E ela, mais doce que um suspiro:- Mas não tem problema! Só que agora você terá que ir fazer uma nova vistoria!
Um segundo de silêncio enquanto tento digerir esta informação. Nova vistoria? O que isso significa? Como assim? Como? O quê? Dentro do meu cérebro, uma ajudante do mágico segura um cartaz onde se lê: "você se fudeu".
Não! Não posso. Tenho trabalho, meu chefe não me deixa faltar, vou tirar meu pai da forca, levar as crianças na creche. Tenho hora no dentista. Vou passar o dia inteiro catando coquinhos. Não posso ficar nem mais um minuto com você. Juro que pago logo que o banco abrir! Ela, do outro lado, irredutível. Imploro. Imploro o perdão simpaticamente. Me humilho. Digo que mereço 100 chibatadas. Multa. Qualquer coisa para não ir fazer a vistoria. E ela, fofa, muito fofa, mais fofa que todas as fofoletes do mundo reunidas num simpósio da fofura mundial.- Ah! Agora não dá. Sem a vistoria não poderemos renovar o seguro do seu carro! Sim, seu carro, que está a partir de hoje sem cobertura.
Sim, essa piranha safada se fazendo de amiga quer mesmo me fuder. É isso mesmo. Começo a me transformar, neste instante, no monstro de Lockness, num minotauro, num chupacabra de pijaminha, num meteoro chinês a soltar fogo pelas ventas, numa besta demônia. Grito. Choro. Esperneio. Bato o telefone na cara da querida.
Apenas um gesto dramático idiota e inútil: eu me ferrei. E esta vaca ordinária ainda vem com educação. É essa gente que sempre gosta de nos fuder. Corretor de seguro, representante de plano de saúde, gerente de banco, são eles que nos tratam com mais amabilidade. Gerente de banco, agora, é "parceiro de relacionamentos". Sim, gerente de banco, a entidade lucrativa criadora do juro do cheque especial! Parceiro de relacionamentos? Isso também inclui sexo? Ir ao cinema aos domingos?
Pois da próxima vez, exijo menos cinismo. “Sua idiota, você se esqueceu de pagar o boleto do seguro, otária, moradora do Rio de Janeiro, cidade que tem um roubo de carro a cada minuto. É mané, agora se fudeu. Vai para a vistoria, palhaça!”. Isso seria mais justo. E uma lagriminha de puro ódio da montanha começa a escorrer enquanto eu procuro a minha calça jeans.

20.8.06

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."
Clarice Lispector

16.8.06

Vem, Mulher...
Por Paulo Castro

Vem mulher, vem logo, me liga, diz que tá chegando, que precisa de mim, apesar do sangue, sabe que não me importo, que o mundo é cheio de sangue e burrice, o teu é sagrado, é único, é até mesmo saboroso, que não provo pelo seu pudor, que idiotas consideram como birra...

Vem com tudo, com o tesão em letra, meu poema em lata, onde, ontem eu disse tudo que sentia sobre você naquela entrevista, vi o resultado: antes do que imaginávamos, você virou tese de mestrado...

Vem com sede ao pote, vem à sede do teu partido alto, se tivermos que fugir, vamos pra praia, que sem querer, digitei antes, pária, bem nosso caso, como quando cometo atos falhos, falos podem pouco, com a palavra tu...

Vem mulher pra minha literatura bem pobre, para nosso segurar a corda, lado com lado, puxando, caindo no chão, daí já viu, vontade de voltar a fita, mas não há muito sentido nisso, se cada vez vivemos de maneira melhor, numa didática de troca e fluidos envolvidos...

Vem mulher ser reticência na vida, pois sabe que o número três me é importante, em rituais neuróticos e número de gozos, veja bem, se somar, temos seus dez, deus, treze, cabala predileta...

Vem mulher que não te nego fogo, nêgo louco, Paulo pira, se você assim quiser, sei que tenho essa gripe agora, mas veja bem como tudo tem seu tempo exato pra acontecer & como o tempo mesmo foi feito para ser transgredido em eclesiastes de corvos malemancos...

Vem mulher, fazer-me mulher, tua lésbica, só tua lésbica, lembra quando disse, “beija minha boca como se fosse a bucetinha querida, me lambe, que lambo tu, não erro ao digitar, pra você não fugir, sei onde gosta, me fareja e sabe bem do poder do meu nariz"...

Vem mulher, corrigir a vírgula do meu texto pra revista, depois diz que foi um erro bobo de coordenadas, subordinadas, essas coisas de que não entendo e você é bamba, como que para não me ofender, você que me deixa roxos, isso é verdadeiramente engraçado...

Vem mulher, ver como eu ouço músicas, leio livros, sempre em busca de metáforas, metonímias, outras figuras, sou teu álbum de figurinhas que você nunca comprou na saída do colégio, cola com lambida, velcro, lycra, carta...

Vem mulher, escrever outro relatório em que não nos percamos com nossas idéias de riso absoluto, vamos colocar a culpa no papel, no tapa da pantera, me explica, o que foi aquilo, poucas vezes ri tanto, poucas vezes ficou tanto tempo duro, até que fiquei bastante constrangido, se você bem notou, até água mineral virou champanha na nossa propaganda de James Bond e garota rica, maquilagem borrada...

Vem mulher, vamos mostrar nossas fotos de moda, apenas pra nossos olhos, e mostro a que te fiz em segredo, trancado dentro do consultório, de noite, deserto, por certo, caminho e alvo no teu coração que avança, lado esquerdo, sua tatuagem a de beijar a minha, lado direito...

Vem mulher me fazer personagem, me dar esporro, te dou esporas, não seja esposa, assopro esporos pra dentro do teu útero, que já toquei, perfeitinho, durinho, um dedo cabendo, pro nosso filho nascer no colo flor, vem me fazer verdade, vontade, potência, vem te fazer hóstia, compra uma casa no mesmo bairro que a minha, cada uma dos nossos jeitos, mas com um espaço como o segundo andar daquele esquema que a gente se meteu...

Ou

Vamos assistir ao show Los Hermanos que minha filha me deu?

28.7.06

Seu Jeitinho Rebelde
por Léo Jaime.

Estou pensando em lhe dizer estas coisas há algum tempo. Não acredito que lhe sirva de nada, mas talvez faça algum bem a mim mesmo. Por isso decidi. Tenho observado ao longo do tempo que suas posições são sempre contestatórias, sempre duvidando de tudo e de todos. É interessante. Não é aquele que engole qualquer coisa. Ao contrário, não engole nada. Não vai a filmes americanos, não ouve música de artista vendido, quer dizer, que vende, não acredita em políticos que não sejam radicais e desconfia de quase tudo o que ouve. É bacana: o mundo parece lhe dever explicações.
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Vejo o seu olhar de superioridade para com as meninas arrumadas para sair, como se as julgando fúteis, o mesmo que você lança para os que defendem argumentos, sejam lá quais forem, ou torcem para a seleção brasileira, ou gostam de filmes, peças, shows e discos que fazem sucesso, ou fazem programas que estão na moda. Como lhe parece entediante o mundo e seus cidadãos. Achincalhar argumentos é tão mais divertido! Mostrar o podre do mundo, dos projetos e das pessoas é tão mais sagaz, não é? Corajoso? Charmoso? Humm, não sei. Deixamos isso para depois. Vamos continuar ainda nas suas opções.
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Atitude. Esse é o nome que está por trás de tudo o que lhe sustenta. Você aposta todas as fichas nisso. Alguém vai lhe perguntar as horas e seu impulso primitivo é dizer não. Não quer dizer as horas. Não é obrigado. Quer se livrar da obrigação de ser gentil e ter que ficar atendendo os outros. E se não age assim, pelo menos pensa nisso. Consultando limites para a própria rebeldia. Sim. Ser do contra implica em ser antipático, chato, ter uma nuvem cinza sobre a cabeça o tempo todo e você sabe disso. Por exemplo: quando alguém dirige você vai criticando o caminho que a pessoa faz. Não se deve fazer isso sem oferecer um outro caminho e justificar. Sim, é importante dizer o porquê de o outro caminho ser melhor. Isso vale para política e afins. E se você não faz assim você é só um chato. Observe a oportunidade da réplica e de que pode não haver concordância, pelo menos de imediato. Ou nunca.
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Dizer um não, simples e rotundo, ao mundo e à vida, pode parecer charmoso e lhe conferir um ar de sofisticação. De quem não se contenta com qualquer coisa. Sim, é verdade. Só que quem não se contenta com nada está fadado ao insucesso. Ser infeliz de propósito, ser um perdedor por iniciativa própria é antes de tudo uma demonstração de total covardia. Portanto, se você imaginava que a pose de rebelde contra tudo e todos ia lhe conferir um ar de coragem, esqueça: esta é a solução dos covardes. Não apostar em nenhum dos cavalos da corrida e meter o pau em todos não dá crédito para ninguém se gabar do próprio azedume depois. É preciso ter um projeto, seja lá qual for, e acreditar em alguma coisa e lutar por ela.
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É preciso ter algum senso de estética para se construir um sonho. E colorir este sonho. E depois tentar fazer deste sonho algo real. E não importa se muitos vão acreditar nele ou achá-lo interessante. Mas é preciso amar alguma coisa ou alguém para se poder dizer dono de alguma postura, ou atitude. Odiar não é uma postura corajosa. E era isso o que eu tinha para lhe dizer: odiar é muito confortável e lhe parece a solução para tudo o que você não entende e não sabe como lidar. Você odeia tudo o que não entende. E você não entende quase nada porque odeia tudo.Tome uma atitude.

18.7.06

Jô Hallack, em www.02neuronio.blog.uol.com.br
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Ontem eu vi um pinguim nadando na praia. Meio assim, do meu ladinho. Foi um alvoroço. Um sujeito de sungão amarelo ficou correndo atrás do bicho entre as ondinhas gritando. Depois, ele sumiu na água gelada. Daí o sungão ficou triste na areia, olhando para o horizonte tentando ver se o pinguim voltava. O moço disse que é porque ele queria fazer um guizado. Eu acho que não. Foi amor a primeira vista.
É assim que acontece.
Você está na praia num dia de inverno e de repente... um pinguim vai mudar a sua vida.

4.7.06

As mulheres e o futebol
De Nelson Botter.

Você, querida leitora, que vibrou com a derrota brasileira na copa, achando que assim seu amado poderia esquecer a pelota e dedicar mais tempo à sua encantadora beleza, que se iludiu acreditando que seu príncipe deixaria de lado aquele monte de homem correndo atrás de uma bola, sim, você mesma, que detesta competir com o futebol, saiba - infelizmente - que nada vai mudar. É isso aí, homem não muda de time, apenas faz transferência, Freud já dizia. Se ele não torce mais pelo Brasil, vai torcer para uma das seleções semi-finalistas, vai vestir a camisa, tomar todas enquanto assiste ao jogo e vibrar como se fosse sua verdadeira seleção.

Pois é, não tem jeito, já está no sangue, os genes masculinos também correm atrás da bola, e você, menina, que passa creme por todo o corpo, contorna a boquinha de batom tutti-frutti, que fica perfumadinha, linda e maravilhosa, deliciosamente gostosa para seu queridinho, você não vai ter vez novamente, forget about it, é a sina. Nem pense em pular na frente dele, nem pelada!, pois é preciso saber se Felipão vai se dar bem, se a Alemanha leva o caneco em casa, se o Parreira vai pedir desculpas, etc;

Entenda, é preciso paciência e, mais do que nunca, compreensão. Eu sei, o tempo urge, pois você, menina linda, sabe que logo o campeonato brasileiro recomeça e aí serão mais 6 meses sem ganhar a mínima atenção, terá de competir até com a reprise narrada em inglês, mas é preciso planejar, não ser afoita, afinal de contas homem se ofende quando mulher não respeita sua paixão pelo futebol.

A boa notícia que trago é que na derradeira hora, quando se joga o rapaz na parede, ou a bola ou eu, e ele - claro - escolhe a bola, surge a nova oportunidade, o chope com as amigas, as baladinhas lights, e sempre tem um carinha interessante que não gosta de futebol, ou que pelo menos não acha que a paixão nacional seja o futebol e - sim - uma bela bunda. Pois nesse instante, menina, olha só que maravilha!, você ganha aí 90 minutos para se divertir a valer com os reservas, afinal do titular não se pode esperar muito, assim como foi com a seleção de Parreira... Por isso sempre digo: mulher só fica no zero a zero se quiser, com ou sem copa do mundo.

3.7.06

O truque do “Estou confusa...”
De Xico Sá.


Amigos machos, amigas fêmeas, amigos gays, amigas lésbicas, amigos transexuais, amigos de todas os naipes e naturalezas... Sabem de uma coisa que acho massa, o máximo, nos tais tempos que voam? A apropriação do discurso masculino por parte das mulheres, já notaram? Não chega a ser propriamente um plágio, mas é uma beleza, quase, quase!
E nos interessa sobretudo a enganação-mor, o clássico dos clássicos da nossa principal desculpa. Aquela usada desde priscas eras, saca?
Então dois pontos para acochambrar os parafusos da memória: “Estou confuso, não é culpa sua, você é ótima, mas acho que não vou lhe fazer bem nesse momento, bla-bla-bla-bla”.
Haja enganação, nove horas, truque, fraude...
Já ouviram esse fragmento do discurso nada amoroso, né?
Pra completar: “Você merece algo melhor!!!”
Repito, era um clássico das desculpas dos machos. A nossa maior falta de vergonha na cara. Agora, faz favor, bote um “o” no lugar do “a”.
Pronto.
Sim, agora ouvimos a mesma ladainha da boca das moças, o mal é o que sai de onde menos esperamos, poxa!
Já faz tempo que essa desculpa _ “ESTOU CONFUSA...”­_ só sai da boca delas.
Não faz mal, quantas vezes não usamos do mesmo artifício, da mesma falta de argumento, tá legal, eu aceito o fingimento...
Mas por favor, crias das nossas costelas, devolvam o meu caô, o meu 171, o meu agá, a minha enganação-mor, a minha forma de me livrar mais fácil e, de preferência, de forma indolor.
Encanta-me o avanço das mulheres em todos os campos, só é desnecessário o quase plágio dos nossos discursos. Vocês não carecem disso, vocês são mais sofisticadas, lindas e labirínticas.
“Estou confusa...”
Isso era apenas coisa de macho frouxo, não de elegantes mademoiselles. Tudo bem que vocês, belas raparigas, avancem em tudo, mas não careciam furtar logo o pior dos nossos defeitos.
Somente nesta última semana, deparei-me com quatro amigos sorumbáticos e macambúzios. Todos vítimas do “eu estou confusa, não é culpa sua...”
Devolvam o nosso discurso picareta, façam-me favor!
Nosso 171 de volta!
Pronto, acabou!
"Se obscuros e monótonos dias assombravam os que procuravam a segurança, noites insones são a desgraça dos livres. Em ambos os casos, a felicidade soçobra" (BAUMAN, 1998).
"O afeto pós-moderno, por excelência, é a indiferença, ou melhor, a paixão da ingratidão. Mais nenhuma dívida! Enfim, aliviados de todo reconhecimento" (LAURENT, 2000).
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"A precariedade da existência social inspira uma percepção do mundo em volta como um agregado de produtos para consumo imediato. Mas a percepção do mundo, com seus habitantes, como um conjunto de itens de consumo faz da negociação de laços humanos duradouros algo excessivamente difícil" (BAUMAN, 2001).
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"Saquear o outro, naquilo que este tem de essencial e inalienável, transforma-se quase que no credo nosso de cada dia. A eliminação do outro se este resiste ou faz obstáculo ao gozo do sujeito, nos dias atuais, impõe-se como uma banalidade. A morte e o assassinato, assim, impuseram-se na cena cotidiana como trivalidades" (BIRMAN, 1999).

29.6.06

São demais os perigos desta vida
Toquinho e Vinícius de Moraes


São demais os perigos desta vida pra quem tem paixão
Principalmente quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma musica qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher
Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita
Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

21.6.06

Sexo com ou sem neurônios

De Xico Sá.


Quanto mais intelectual... menos atirada, menos dada ao sexo. E não se trata apenas de prosopopéia deste ignorante que vos fala. A sentença polêmica é o resultado da Pesquisa de Padrão de Vida (PPV) do científico IBGE.

Segundo o numerol, 61,4% da moças com mais de 12 anos de estudo não estão ligadas a nenhuma atividade sexual. Foram ouvidas mulheres entre 15 e 49 anos em todo o país.
Estudos semelhantes feitos na Europa e EUA já haviam apontado a mesma tendência, incluindo também a marmanjada. Será?
O instituto não pesquisou as razões da inapetência. Seria sublimação? Falta de homem à altura? Falta de homem simplesmente, mesmo que um burro, um jumento qualquer? Só Deus sabe.
Só sei que as enigmáticas discípulas de Clarice Lispector e as belas balzaquianas filiadas à Nouvelle Vague irão subir pelas paredes com as conclusões da estatística brasileira. Se já praguejaram contra as pesquisas de intenção de votos, imaginem com esta enquete.

Pereira, mestre em filosofia pura nas mesas do Amigo Gianotti (aquele boteco das boas fogazzas do Bixiga) e doutorando em antropologia nos labirintos do Love Story, adverte: "Quando uma mulher fala em James Joyce ou cinema iraniano, eu saco meu talão de cheques _pago a conta e vou embora''.
Pera lá, Pereira. "Pegou pessssado!'', como diria o argentino da piada do Cristo portenho. Eu mesmo, meu caro, gostava tanto de mocinhas de óculos que passei quatro anos com Moby Dick' (que nem é coisa de intelectual assim) debaixo do sovaco. Só para causar boa impressão. A coitada da baleia do livro não aguentava mais aquele desodorante, como me gozavam na época.
Depois, mudei para "Cândido'' (Voltaire), uma espécie de "Polyana'' para intelectuais, e as coisas melhoraram um pouquinho.Pereira prefere mesmo não acreditar nunca nessas armas pequeno-burguesas. Como bem disse, ao receber o resultado da pesquisa do IBGE, não troca a loira ou a morena do É o Tchan por uma dúzia de Simone de Beauvoir.

[P.S. de emergência: o cronista discorda radicalmente de preferência tão chinfrim!]

16.6.06

TPM: Você já disse que uma reunião só de mulheres é a coisa mais chata do mundo. Você tem amigas mulheres?
Danuza Leão: Não muitas. Me dou muito bem com homem e de uma certa maneira eu dou bem razão a eles: somos insuportáveis, principalmente apaixonadas. Mulher é muito chata, só fala de homem, se o cara telefonou, se não telefonou. Outro dia fui a um restaurante e tinha uma mesa com seis homens. Homens famosos, legais. Tomei um drinque, depois fui para a mesa, comi, pedi sobremesa... quando levantei e fui embora eles continuavam lá felicíssimos, sem mulher do lado.

11.6.06

Mau humor
Lula Vieira (como eu recebi esse pela internet, não excluam a possibilidade de o autor estar errado - mas o texto não deixa de ser ótimo).

Não me lembro direito, mas li numa revista, acho que na Carta Capital, um artigo levantando a hipótese de que todo cara que tem mania de fazer aspas com os dedinhos quando faz uma ironia é um chato. Num outro artigo alguém escreveu que achava que jamais tinha conhecido um restaurante de boa comida com garçons vestidos de coletinho vermelho. Joaquim Ferreira dos Santos, em "O Globo" de domingo, fala do seu profundo preconceito com quem usa "agregar valor". Eu posso jurar que toda mulher que anda permanentemente com uma garrafinha de água e fica mamando de segundo em segundo é uma chata. São preconceitos, eu sei. Mas cada vez mais a vida está confirmando estas conclusões. Um outro amigo meu jura que um dos maiores indícios de babaquice é usar o paletó nos ombros, sem os braços nas mangas. Por incrível que pareça, não consegui desmentir. Pode ser coincidência, mas até agora todo cara que eu me lembro de ter visto usando o paletó colocado sobre os ombros é muito babaca. Já que estamos nessa onda, me responda uma coisa: você conhece algum natureba radical que tenha conversa agradável? O sujeito ou sujeita que adora uma granola, só come coisas orgânicas, faz cara de nojo à simples menção da palavra "carne", fica falando o tempo todo em vida saudável é seu ideal como companhia numa madrugada? Sei lá, não sei. Não consigo me lembrar de ninguém assim que tenha me despertado muita paixão. Eu ando detestando certos vícios de linguagem, do tipo "chegar junto", "superar limites", essas bobagens que lembram papo de concorrente a big brother. Mais uma vez, repito: acho puro preconceito, idiossincrasia, mas essa rotulagem imediata é uma mania que a gente vai adquirindo pela vida e que pode explicar algumas antipatias gratuitas. Tem gente que a gente não gosta logo de saída, sem saber direito por quê. Vai ver que transmite algum sintoma de chatice. Tom de voz de operador de telemarketing lendo o script na tela do computador e repetindo a cada cinco palavras a expressão "senhoooorrr" me irrita profundamente. Se algum dia eu matar alguém, existe imensa possibilidade de ser um flanelinha. Não posso ver um deles que o sangue sobe à cabeça. Deus que me perdoe, me livre e me guarde, mas tenho raiva menor do assaltante do que do cara que fica na frente do meu carro fazendo gestos desesperados tentando me ajudar em alguma manobra, como se tivesse comprado a rua e tivesse todo o direito de me cobrar pela vaga. Sei que estou ficando velho e ranzinza, mas o que se há de fazer? Não suporto especialista em motivação de pessoal que obrigue as pessoas a pagarem o mico de ficar segurando na mão do vizinho, com os olhos fechados e tentando receber "energia positiva". Aliás, tenho convicção de que empresa que paga bons salários e tem uma boa e honesta política de pessoal não precisa contratar palestras de motivação para seus empregados. Eles se motivam com a grana no fim do mês e com a satisfação de trabalhar numa boa empresa. Que me perdoem todos os palestrantes que estão ficando ricos percorrendo o país, mas eu acho que esse negócio de trocar fluidos me lembra putaria. E para terminar: existe qualquer esperança de encontrar vida inteligente numa criatura que se despede mandando "um beijo no coração"?

7.6.06

Eles e o Chico Buarque
Nina Lemos

O disco novo do Chico é maravilhoso. Disso, ninguém na mesa do Baixo Gávea ousou discordar. É lindo. É de chorar. Mas... meus amigos homens, ali, fãs do Chico tanto quanto eu, começaram a falar:
"Ouvi dizer que ele tem pau pequeno", disse um. "Ah, claro, se tivesse pau grande não escreveria tão bem", completou outro." "Mas imagina, o Chico Buarque já é foda. De pau grande não seria possível", responde outro.
Esses meus amigos não são de falar sobre pau de homem, que fique claro. Mas o assunto era o Chico Buarque. E um deles têm razão quando disse: "todas, mas absolutamente todas as mulheres que eu já comi na vida só deram para mim porque não conseguiram dar para o Chico Buarque". Verdade.
Entramos no carro ao som de "Ela faz cinema". "O mais foda é que o Chico Buarque vai pegar muita mulher por causa dessa música", diz um deles. E completa: "se até eu vou pegar só porque vou mostrar essa música, imagina o Chico...". Verdade. "E eu só comprei o disco, ele fez as músicas", falava o amigo.
Tudo porque o Chico lançou disco novo. E o disco é lindo.
Chico, nós te amamos! E não acreditamos nessa história de que você tem pau pequeno. É inveja deles. Não ligue.
Quando elas pegam pesado
De Xico Sá.

Sim, o caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria, como disse o poeta, um romântico inglês de marca maior, William Blake. Em muitas ocasiões, vale o verso. Em uma, em especial, pode ser um desastre. Palavra de homem, confesso.
Sabe quando ela tenta ser sexy ao extremo?
Ai é que mora o perigo. Fica tão caricato, meu Deus, que nos brocham, afastam. Elas ficam parecendo manequins de sex shop: modelão over, minissaia, decote, lingerie, perfumes apurados, coreografia ensaiada, beicinhos fora de hora...
Se a gente vai para a casa delas, deus mio, pior ainda: lá está o incenso exagerado e enjoativo, a luz ensaiada, os sais fervilhando na banheira _se for o caso de uma dama bem de vida_ e todo um circo que nos tira do prumo.
E haja caras de “sexy”, coisa de quem aprendeu, passo a passo, nas páginas de revistas que “ensinam” as mais novas posições para um orgasmo infalível! Como se o kama-sutra fosse pouco.
Mulheres, esqueçam o kit sex shop. É mais importante uma safadeza, um charme, um suspense no olho durante um jantar, do que a extravagância propriamente dita. Se cuidar, ficar bonita, é de lei, claro; mas não carece carregar nas tintas do desejo.
Não que tenha que acreditar na canção do Dorival Caymmi, esse gênio, que aconselha a Marina não pintar sequer o rosto, que é só seu... Isso é poético, mas uma pintura, um jeito no cabelo, apreciamos, nada mais lindo.
Nada como reforçar a chance que Deus lhe deu com os novos milagres da cosmética e da beleza, como naquele velho receituário de Ovídio. O que não pode é exagerar da cabeça aos pés, com roupas, acessórios e badulaques que, em vez de sexy, podem estragar a festa.
O exagero entrega muito rapidamente o jogo para o homem, elimina um certo suspense, aquela coisa de saber até que ponto ela está ou não ao alcance do nosso desejo. Ora, se ela já chega toda entregue, do decote ao salto, que nos resta de imaginação?
Nada mais sexy que o suspense, o jogo, nem que seja falso, nem que você já tenha chegado toda dele e pra sempre. O sempre possível. O sempre que pode.

4.6.06

Pra ouvir: Otis Redding, "These arms of mine".
Hilda Hilst

E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro.
E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
Moça na cama
Adélia Prado

Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas,
uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça em ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no topor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros tem seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.
Alice Ruiz

e agora Maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia
e agora Maria?

vai com as outras
vai viver
com a hipocondria
Alice Ruiz

se você marcar bobeira
ou se eu me fizer de tonta
nunca mais eu apareço
nunca mais você me encontra
acho que vou dar bandeira
venha porque já estou pronta
só devia haver começo
a vida passa e não tem volta
venha porque a gente ajeita
sempre existem prós e contras
mas se a gente não encara
nossa vida embolora
chegue que a hora é agora
ou me esqueça
e vá embora
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas.

Ana Cristina Cesar
Quando menos se espera, tudo reverbera.
Hilda Hilst
Alice Ruiz

te procuro nas coisas boas
em nenhuma te encontro inteiro
em cada uma te inauguro

1.5.06

Do blog da minha irmã gringa. Tão legal (ela e o texto)...
Põe água no feijão aí, mulher. Família Buscapé chegando em breve.
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"The day you said yes was not the day he got on his knees and asked you. It was not the day you determined what side of the bed was yours. And it was not the day you decided you were perfectly okay with the troubling fact that he dances like a 6 year old trying to step on the head of his shadow. No, the day you honestly, truly, said yes was the day you put his name down in the 'Who to contact in case of Emergency' section."

18.4.06

Beijo-te a mim mesmo
Nelson Botter
www.blonicas.zip.net

Eu queria poder te amar do jeito que você é, sem enxergar seus defeitos, suas manias e manhas. Eu queria não querer a perfeição, não exigir o máximo, ser tolerante e talvez até um pouco mais ingênuo. É verdade, assim eu queria não perceber tudo que se passa, não entender sua maneira de pensar, não te achar frio e calculista, sedutor e manipulador, não ter rancor e muito menos desconfiança de você. Dói muito quando vejo que você nem sempre é quem eu gostaria que fosse, que seus objetivos não são os que eu esperava, que sua linha de raciocínio é muitas vezes duvidosa, que me assusto com o que você fala e ainda mais com a sua maneira agressiva de se defender. Eu queria não ver nada disso, olhar para dentro de você e só perceber as coisas boas, sim, pois você é repleto de virtudes, não pense que só vejo a sua sombra. Não, nada disso, vejo também a sua luz, mas os contrastes são fortes e não há como fingir que o latente desencanto também existe, que sua carne fede como a dos anjos e demônios. A balança ora pende para cá, ora pende para lá, normal, tudo igual, mas eu queria poder ver só um dos lados, dois pesos e uma só medida. Você me pergunta por que isso, eu te respondo que não sei, talvez seja o movimento dos astros, as pressões da sociedade, as imposições da vida, tanto faz, tanto fez. Eu queria poder te classificar como um homem bom, do bem, que respeita o limite dos outros, que respeita seus próprios limites, que não é guiado apenas por interesses próprios e sim os das pessoas que te cercam, dos que te querem bem. Eu queria poder encher minha boca de dentes e gritar ao mundo que você é um exemplo a ser seguido em todos os aspectos e não apenas aqui ou ali. Enfim, é como tudo na vida, mas eu queria poder ser um pouco menos teimoso, um pouco menos míope com a realidade. Você, que vejo agora no espelho, sou eu e é por isso que eu queria poder te entender melhor, te dominar mais e saber algo mais sobre mim mesmo. Eu queria poder ser menos cego, menos mudo, menos surdo, ou - simplesmente - menos eu.

17.4.06

Viva a ignorância
De Milly Lacombe.


O que aconteceria se a ignorância fosse, como que por mágica, eliminada da face da terra. No dia seguinte tudo seria questionado: dogmas, verdades absolutas, sistemas políticos, econômicos, sociais e religiosos. A quem interessa, portanto, a manutenção da ignorância? Estado, Indústria e Igreja vivem da nossa pouca capacidade de reflexão. Porque somos ignorantes, é possível que campanhas políticas nos convençam de mentiras absurdas. A campanha presidencial para a reeleição de nosso notável comandante vem aí. E é de se espantar que, mesmo que o povo tenha acesso a escabrosas informações sobre como o atual governo faz negócios e trabalha o dinheiro público, o líder molusco comece a corrida com mais de 50% de intenção de voto. O que justifica isso? Apenas nossa invejável capacidade de continuar ignorantes. Ignorantes a ponto de achar que um metalúrgico semi-analfabeto, ligado a ex-guerrilheiros amantes de Cuba, poderia nos salvar. Se antes falar mal da pouca capacidade de raciocínio do presidente era preconceito, agora é conceito. O homem é, comprovadamente, limitado. O que tem lhe caído como uma luva: porque apenas uma ancestral ignorância pode desculpá-lo. Nem Dirceu, nem Delúbio, nem Palocci, nem mensalão: o metalúrgico não viu nada disso. E quem pode provar que ele viu? Santa ignorância.Mas voltemos à fotografia panorâmica porque a perspectiva é excelente: a qualidade e o alcance do ensino público continuam lastimáveis, e o poder dos cultos religiosos só faz crescer. Tudo faz parte de uma mesma roda moral, de um mesmo pacote: quanto mais desinformado e descrente o cidadão, quanto mais desamparado pelo Estado (que, porque está mais preocupado em desviar do que em investir, não consegue fornecer o básico, aquilo que esperamos receber quando somos obrigados a viver com uma carga tributária de 40%: saúde, educação, lazer, segurança), mais propenso a se entregar a crendices e promessas de vida farta e colorida após a morte. Quem pode culpá-los? Se aqui a coisa não rola, se aqui seus filhos são assassinados, se aqui a melhor possibilidade de trabalho é gerada no tráfico, se aqui eles têm que viver, quando conseguem emprego, com um ou dois salários mínimos, por que não acreditar cegamente que, depois daqui, deles será o reino dos céus? Fé. Eis aí o melhor e mais genial instrumento de marketing já criado pelo homem: acredite sem questionar. Acredite no dízimo, porque ele garantirá sua entrada no reino de Deus. Se o padre acabou de comprar um rolex, se o Papa usa Prada, nada disso importa, porque o dízimo é fundamental para que você, fiel, seja aceito por Deus quando esta vida aqui acabar. E se Deus não te aceitar, ah, meu filho, aí teu negócio é com o diabo. Então, acredite. Em céu e inferno, na ressurreição, nos três Reis Magos, em Adão e Eva, no pecado original, na inferioridade feminina ... vá acreditando porque, quanto mais fé, mais certa será sua vida no paraíso. Mas não ouse questionar. Não ouse querer mudar as regras, reescrever a história da moral humana. As leis de Deus são imutáveis. Aquele que tiver a petulância de refletir sobre a veracidade das histórias bíblicas, - e algumas fazem tanto sentido quanto Chapeuzinho Vermelho - será punido. Fé. Nunca deixe de ter fé ou o inferno será sua morada eterna. Fé no povo, na Igreja, no Estado. Por ela, mata-se e morre-se. Fé, o mais genial dos instrumentos de manipulação.Está tudo, portanto, nocivamente interligado. E o combustível para tanta manipulação é nossa santa ignorância. Não fosse ela, viveríamos em um mundo muito melhor. Um mundo no qual o estado seria laico, a renda mais igualmente distribuída, a filosofia ensinada em escolas públicas, e tão popular quanto a religião. Spinoza e São Sebastião teriam o mesmo peso. Nietzsche seria tão citado quanto João Paulo II. Um mundo mais iluminado, enfim. Um mundo que faria Deus, o Deus de Spinoza, aquele que se manifesta na harmonia das coisas, aquele que não pune nem é intervencionista, finalmente orgulhoso de sua criatura.

6.4.06

Rico ou bonito?
02 Neurônio

Uma pesquisa revelou que as mulheres agora não estão só preocupadas em arranjarem homens ricos. Agora, que elas trabalham fora e têm seu próprio dinheiro, elas estão priorizando a beleza. Entre um rico e um bonito, elas estão preferindo o bonito.

Onde esses cientistas estão pesquisando?! Porque entre as mulheres que conhecemos, mulher nenhuma ficou interessada num homem porque ele era rico. Nós contentamos com um que tenha crédito no celular pra responder nossas ligações. E quanto a beleza...como dizia Susana Flag (a versão mulher de Nelson Rodrigues), "mulher não liga pra beleza não" .

Lógico que um bonitinho sempre chama atenção. Se ele se vestir bem, melhor ainda. Mas se o bonitinho for um metido, não vamos nem olhar pra ele. Se for burro também. Mesmo que seja um milionário. Aliás, não frequentamos ambientes com bonitos, ricos, metidos e burros. Por isso, sempre vamos preferir aquele cara mais ou menos, nem feio nem bonito, nem rico nem pobre, mas que tem o maior charme.

30.3.06

Alugar um filme pornô pode ser mico
por Raq Affonso
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Você está com o seu pretê em casa no domingo à tarde. E está um tédio. Vocês já viram tudo que está passando na TV, inclusive entrevistas da Hortência nas Olimpíadas e churrasco do pessoal do No Limite no Faustão. Daí você tem uma grande idéia: pegar um filme pornô na locadora! Isso, vocês se vestem e vão todos animadinhos.
Só que quando chegam lá descobrem que a sessão de filmes de sacanagem é no andar superior, e você vai ter que subir uma escadinha constrangedora. Todos vão olhar, porque tem uma placa gigante escrito Erótico, apontando pra lá. A saída: mandar seu pretê sozinho. Enquanto isso, você fica disfarçadamente olhando as fitas da sessão Filmes Europeus.
Só que isso não adianta de nada, porque quando vocês vão pagar, a ficha é no seu nome. Então você tem que assinar um recibo escrito: Tesão Anal da Mulher Gato! Como pode existir um filme com um nome assim e você ainda estar alugando isso?! Será que fica registrado na sua ficha da locadora?
Bom, chegando em casa, surge a seguinte dúvida: é de bom tom comer pipoca durante a projeção da fita? Ou isso pode acabar com toda a atmosfera erótica? Melhor comer a pipoca antes. Ou depois.
Começa a fita. Aparece um cara vestindo uma calça saintropeito e de rabo de cavalo! Todo o tesão que poderia existir desaparece na hora. Uma loura siliconada aparece e começa a tirar a calça do rapaz e tchan, tchan, tchan: ele está com um bip pendurado na calça! Isso mesmo! Além de rabo de cavalo, calça saintropeito, o cara ainda tem um bip! Eca!
O problema dessas fitas pornôs é que não tem história nenhuma, o cara chega lá, começa a transar com a mulher (que nunca tem pêlos, que coisa impressionante), mostram vários closes e ele goza na boca da moça. Sempre. Eca de novo.
Muito chato. Desisti no meio e voltei pras Olimpíadas. A ginástica Olímpica estava bem melhor.

21.3.06

O beijo, o “xêro” e os seus arredores
De Xico Sá.

Do cheiro ou simplesmente "xêro", como se diz na lexicografia caseira e no fonema nordestino. Pense numa coisa diferente do beijo. Donde o beijo é simples e universalíssimo. O cheiro é mais para os esquimós e seus narizes gelados, encostam um no outro e cheiram, cheiram nos iglus...
Nos modos de macho & modinhas de fêmeas do Nordeste, idem ibdem, o cheiro é mais importante até mesmo do que o beijo na boca.
No pescoço, de preferência.No cangote, na seqüência.
Aspirar até o pó das almas que escorre feito ouro em Serra Pelada no gogó das existências.
Sugar, sugar o cheiro do sabonete barato e genérico de supermercado ou o Lancôme das negas mais ricas.Às vezes nem carece encostar o nariz de Gogol, sempre suspeito, sempre perdido depois do corte epistemológico do barbeiro russo.
Basta passar por perto.Como no ônibus.No corredor da repartição,na firma, na fila do banheiro, no bar, no basfond, onde a abelha sentir o bafo de uma alma de flores.
Fungar...
Eis o verbo.Gastar todos os sentidos num só olfato, como um Marcel Proust que, em vez de ser platônico, pode ser homérico.
Em vez de bolinhos franceses, madaleines, lindos pescoços.Em vez de bolinhos para a merenda, tapiocas pós-cheiros.
Quase vampiros, mas sem caninos, só a fungada mais lírica, as incandescências das quais me falava o poeta Jaci Bezerra nos nossos porres no Espinheiro.
O cheiro, ao contrário do beijo, velho Augusto dos Anjos, jamais será a véspera do escarro.O cheiro é a memória afetiva, caro Walter Benjamin, o faro a favor do encontro no mapa das cidades depois de perdições cartográficas.
O cheiro, amigo Jomard Muniz de Brito, é o prazer do texto, como dizia nosso Roland Barthes, de quem te roubei alguns livros.Tenho uma amiga, Flavia Guerra, de São Paulo, que educa um sobrinho aqui criado para não perder o encanto do cheiro. Para ser um bom homem, diz ela.
Os mancebos perderam o prazer do cheiro.Logo agora, numa era de cosméticos tão avançados.
Como nunca precisamos reabilitar o cheiro ("xêro") com toda a força desse mundo, nada como um cangote cheiroso num baile ou numa pista de dança. Cabelos presos ou soltos. É pela fungada que sentimos o cheiro da alma, o Cashmere Bouquet da existência.
Sem se falar naqueles cabelos molhados no elevador, aquele Neutrox de fim de tarde na padaria, aqueles aromas todos a perseguir, debaixo dos caracóis dos seus cabelos ou derretendo-me qual manteiga na sua chapinha mais quente.

7.3.06

"ah, compra um oclão com armação vermelha, tá? Sonhei que vc tinha um assim. Redondão, meio Jackie. E vc estava um arraso com ele".

Amiga fodona e hilária. Essa é a Du.

21.2.06

**Os posts que estavam aqui foram censurados por um homem muito bravo.**

20.2.06

"Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa".
Clarice Lispector
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Que difícil achar a medida.

15.2.06

O gigante
Tati Bernardi

Ontem eu ensaquei o Lorenzo, nosso filho que você me deu em uma das nossas milhares de brigas sem fim e sem jeito. Ele me olhou triste, passivo e impotente, assim como eu também olhei para ele e assim como tenho olhado para o mundo.
Dei um abraço forte no nosso urso cinza e chorei que nem uma criancinha de cinco anos que sofre porque está com rinite alérgica e tem que tirar os brinquedos de pelúcia do quarto. A realidade acabando com a brincadeira mais uma vez.
Depois foi a vez das fotos, eu beijei uma por uma e guardei numa caixa, coloquei a caixa num canto escondido e alto do armário, no mesmo canto escuro e esquecido por onde anda meu coração.
Olhei meu lindo vestido novo e pensei o quanto ele era feio porque eu nunca o colocaria para você. Olhei meus sapatos novos e pensei como seria triste usá-los sem nem saber direito para onde ir. Olhei minha velha cara no espelho e tive muita pena do quanto aquele rosto ainda ia esbugalhar os olhos para o teto lembrando que você disse que nunca desistiria.
Vira e mexe tenho essa vontade de cortar alguma parte do meu corpo, para ver se esguicho pra longe esse sangue contaminado que incha meu corpo de dor e me emagrece de vida. Tenho vontade de me fazer feridas porque parece mais fácil cuidar de um machucado externo e curável.
Outro dia desses eu estava numa padaria com um amigo e ele me perguntou se eu queria um chaveirinho de ursinho, eu disse a ele que só queria morrer, se ele poderia me fazer esse favor. Coitado, ele nunca mais ligou. Ainda bem, só você podia me dar chaveirinhos de ursinho, quem esse cara pensa que é?
Outro dia desses eu estava num bar com um amigo e ele começou a falar de todos os filmes, livros e músicas que eu tanto queria que você falasse. No final da noite eu só queria estar ouvindo aquela merda daquele cd do Alpha Blond, esses intelectuais de merda não chegam aos pés do seu sorriso e nunca vão ter de mim esse amor tão puro, tão absurdo e tão sem fim que eu tinha por você.
A fidelidade não é uma escolha e nem um sacrifício, ela é uma verdade. Por mais que eu tente, só sinto nojo. A gente não se fala mais, eu nem sei mais por onde você anda, eu até tenho o impulso de tentar de novo com outros homens, mas eu só sinto nojo.
A Lolita vive cheirando por baixo da porta e olhando triste para o interfone, outro dia minha mãe perguntou notícias suas e quando ela ouviu seu nome, enfiou a cabeça no meio das patas e só ficou triste, ela se parece comigo mesmo. Depois do passeio na Liberdade com meu amigo tem um encontro da mulherada no café alí do Itaim. Depois tem cinema com outra amiga e depois, se eu estiver a fim, uma baladinha na casa de outra. Eu tenho um milhão de motivos pra fugir de pensar em você, mas em todos esses lugares você vai comigo. Você segura na minha mão na hora de atravessar a rua, você me olha triste quando eu olho para o celular pela milésima vez, você sente orgulho de mim quando eu solto uma gargalhada e você vira o rosto se algum homem vem falar comigo. Você prefere não ver, mas eu vejo você o tempo todo.
Eu torço pra não fazer Sol, eu torço pra não chover, eu torço para acordar no meio do dia, eu torço para o dia acabar logo. Eu torço para ter alguma coisa que me faça torcer, que me diga que eu ainda sei torcer por algo mesmo sem torcer pela gente.
Minha dança é queda equilibrada, minhas roupas novas são fantasias, meu sorriso é espasmo de dor, minha caminhada reta é um círculo que sempre me traz até aqui, meu sono é cansaço de realidade, minha maquiagem é exagerada, meu silêncio é o grito mais alto que alguém já deu, minhas noites são clarões horríveis que me arregaçam o peito e nada pode me embalar e aquecer, o frio é interno, o incômodo é interno, nenhum lugar do mundo me conforta.
Minha fome é sobrevivência, minha vontade é mecânica, minha beleza é esforço, meu brilho é choro, meus dias são pontes para os dias de verdade que virão quando essa dor acabar, meus segundos são sentidos em milésimos de segundos, o tempo simplesmente não passa.
Às vezes tento não ser eu, porque se eu não for eu, eu não sentirei essa dor. Mas o amor é tanto que até as outras todas que eu posso ser também o sentem.
Hoje menos que ontem, amanhã menos que hoje, e por aí vai.
Vou implodir esse gigante dentro de mim e soltar seu pó a cada manhã sem fome que faz doer o corpo todo, a cada banho sem intenção, a cada tarde sem recompensas, a cada noite sem magia, a cada madrugada sem paz.
Um dia o gigante vai cair morto igual ao King Kong e chega dessa dor, dessa incerteza, desse silêncio, dos dias se arrastando, do ódio, das imagens doentias na minha cabeça, da saudade espada que furou meu centro e aumenta o diâmentro a cada movimento.
Só vai sobrar uma tristeza eterna em saber, como todos que já viram esse filme sabem, que o rei da selva, o dono do pedaço, o forte, o poderoso, o assustador, o monstro inabalável que bate no peito e destrói qualquer um, só queria ser amado pela frágil mocinha.
Daqui de longe, enquanto escrevo esse texto chorando mais do que cabe no meu rosto, ouvindo pela milésima vez a música do Damien Rice e sem vontade nenhuma de ter vontade nenhuma, eu escuto seu riso alto, exagerado e constante. E eu só consigo ter mais pena de você do que de mim.

12.2.06

Fernando tentando me conquistar novamente. Ganhou, claro.
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POESIA NEO-CONCRETA DA DRI
Sinapse, Sinopse, Sinepse,
Canteiros de luz no japão
Caminhos de cor sem sentir
Palavras de amor na sarjeta
A Dri adora sua lambreta

10.2.06

Os Idiotas
Walter Salles
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Praia de Lopes Mendes, Ilha Grande, domingo de manhã. Como é uma área de proteção ambiental, não há carros. Chega-se até ali caminhando por uma longa e bem-preservada trilha através da mata atlântica ou pelo mar, de barco. Por causa das férias escolares, há muitas crianças na areia. De repente, o cenário se transforma numa cena de "Apocalypse Now", de Francis Ford Coppola. Um helicóptero dá um rasante na praia. Depois chega outro, e logo mais um terceiro. Ferindo a lei, pousam ao lado da areia, perto de uma pequena igreja construída pelos pescadores da região -uma das únicas edificações da praia.
Os passageiros saltam. Você já os viu naquelas revistas que glorificam "celebridades". Caminham pela praia, dão um rápido mergulho, mas não ficam. Logo partem para atazanar uma outra freguesia, não sem antes darem novos rasantes na praia. O negócio não é desaparecer na geografia de um lugar. O negócio é ser visto.
Não interessam as tradições do local. Interessa, ao contrário, trazer consigo o mundo em que essas pessoas vivem. É um pouco como George Bush, da primeira vez que foi a Roma, já na Presidência do país mais poderoso do mundo. Levou toda sua comitiva para comer no McDonald's. Em Roma, como os americanos.
Ir à praia de helicóptero, no Brasil de hoje, não é uma exclusividade do litoral fluminense. Em Trancoso, na Bahia, um helicóptero pousou na semana retrasada em plena praia do Espelho, lançando areia sobre os banhistas que lá estavam. Saudável reação: foi apedrejado. Até na distante Barra Grande, península de Maraú, Bahia, helicópteros também começaram a pousar em área pública -as praias- pela primeira vez.
Num país em que o próprio presidente fala de leis que "pegam ou não pegam", pousar de helicóptero em locais proibidos pela lei pegou. Não é à toa, aliás, que helicópteros são expostos na Daslu, ao lado de calcinhas subfaturadas. Estão na moda.
Há algo de sintomático nisso. Em primeiro lugar, a já cansativa confusão entre o público e o privado, que, no Brasil, a cada ano se acentua. Hoje, o que é privado é defendido a unhas e dentes, atrás de vidros blindados, em ruas com cancelas e seguranças. O que é público é constantemente conspurcado. Não importa se uma praia é área de proteção ambiental. Pousa-se ali porque se quer e (não) se pode.
Sintomática, também, é a ausência de fiscalização por parte das autoridades competentes. Retrato de um país em que alguém vai preso por roubar um alicate em um supermercado, mas um ex-governador de São Paulo com centenas de milhões de dólares em contas-fantasmas no exterior está solto, comendo pastel em Campos do Jordão.
Houve um tempo em que se falava do Brasil como a Belíndia. De um lado, a Bélgica; do outro, a Índia. A Índia continua aí, a cada esquina. Ou, talvez, não mais, já que aquele país tem crescido a taxas duas vezes maiores do que as nossas. Investe pesadamente em educação, o que não fazemos. Por outro lado, também não faz mais sentido falar de Bélgica, cuja elite é certamente mais responsável do que a nossa. Na falta da Belíndia, talvez seja o caso de se falar hoje de Bahriti. De um lado, o Bahrein -com toda a sua exibição de riqueza. Do outro, o Haiti. Convenientemente, as nossas forças armadas já estão por lá.
Um economista do MIT, Lester Thurow, sustenta a tese de que "o que falta na América Latina é elite. O que existe é oligarquia. As oligarquias desfrutam ou herdam o poder, mas não entendem as responsabilidades públicas inerentes a ele". Ou seja: querem os privilégios, mas não os ônus. Querem a gravata da Gucci, mas não os impostos de importação, que se convertem em saúde, educação etc. Depois, reclamam da falta de segurança, da inoperância dos governos, apadrinham uma creche para apaziguar a consciência e, ato final, compram um helicóptero para sobrevoar os nossos Haitis.
São Paulo já é a segunda cidade com o maior número de helicópteros em operação no mundo, perdendo apenas para Tóquio, no Japão. Em parte, essa estatística se deve ao transito caótico das duas cidades, à extensão geográfica que ocupam, à falta de planejamento urbano. Presume-se, também, que muitos desses aparelhos sejam utilizados de forma correta -o que não elimina o problema criado pelos usuários que não agem dessa maneira.
Para finalizar: muitas vezes me perguntam por que o cinema brasileiro fala tão pouco de suas elites. A resposta é simples: porque não é fácil falar de classes dominantes tão caricatas. Pena que Buñuel não esteja mais entre nós. Nem Tomas Gutierrez Alea, cujo olhar cáustico também teria dado conta do recado. Sobra Lars von Trier, que fez um filme sobre um bando de pessoas que fazem de tudo para chamar a atenção. Chama-se "Os Idiotas".