28.11.07

Canção do Carcereiro
Jacques Prevért

Aonde vais belo carcereiro
Com essa chave manchada de sangue
Vou soltar aquela que amo
Se ainda for possível
E que tranquei
Ternamente cruelmente
No mais profundo do meu tormento
Nas mentiras do futuro
Nas bobagens das juras
Quero soltá-la
Quero que seja livre
Até para me esquecer
Até para ir-se embora
Até para voltar
E também para me amar
Ou para amar um outro
Se esse outro lhe agradar
E se ficar um dia sozinho
E ela só em idas
Guardarei sempre
Nas minhas duas mãos côncavas
Até o fim dos dias
A doçura dos seus seios modelados pelo amor.

24.11.07

O risco da meia da moça
Inácio de Loyola Brandão

Cedo ainda, pai e filha entraram na lanchonete deserta. O homem escolheu a mesa no canto, junto à janela. Magro, óculos de lentes espessas, parecia cansado. Indagou da menina:
- O que você quer?
- Chocolate.
- E para comer?
- Pão de queijo. E o senhor?
- Acho que nada.
Enquanto ela comia com lentidão, o pai olhava atento, como que preocupado.
Havia um breve brilho de alegria nos olhos dele, talvez contentamento por estar com ela. No entanto, não parecia muito à vontade. A manhã de maio era límpida, fresca.
(...)
Ela tomou mais um pouco do chocolate, fazendo barulho com a boca.
- Não faça isso, é feio. Coisa de gente mal-educada.
- Sou bem-educada?
- Ao menos, tenho tentado.
Ele viu que o pão de queijo tinha sido devorado. Talvez a menina quisesse outro. Virou-se um pouco, tirou umas moedas do bolso, contou.
- Quer outro pão de queijo?
- Posso?
- Por que não?
- Outro dia, na padaria, comi um pão na chapa e você não comeu nada, estava sem dinheiro. Você tem dinheiro, pai?
- Pode comer outro. Sossegada.
Desta vez, ele pediu um pão de queijo com recheio, ela mordeu, o requeijão escorreu. Ela riu, os dois riram.
- Surpresa, pai! Que delícia! Quer provar?
Os olhos dele indicavam que sim, ele disse não.
(...)
A menina não prestou atenção, estava olhando uma mulher que tinha entrado, morena, muito bonita.
- Viu a meia dela, pai?
- Não. O que tem?
- É moderna, tem um risco no meio, atrás. Você me compra uma?
- No seu aniversário.
- Vou ficar maravilhosa como aquela mulher?
- Vai.
- Por que não olha para ela, pai?
- Já olhei. Uma mulher dessas é um sonho, filha.
- Sonhos não acontecem?
- Depende da gente.
- Depende...o que é depende?
O pão de queijo se acabava, ela queria desfrutar ao máximo. Ao terminar, ficou olhando pela janela. O salão de festas da lanchonete estava bem à frente, todo colorido.
- O que é aquilo?
- Para festas de aniversário.
- Vamos fazer a minha ali?
- O seu aniversário demora.
- Mas vamos fazer?
Ele pareceu indeciso entre dizer não e desiludir e dizer sim, ela esperar e ele não poder cumprir.
- Depende...
- Depende, quer dizer coisa ruim, não é?
- Vou tentar tudo. Agora, vamos embora.
Eles se levantaram, o homem começou a apanhar a bandeja.
- O que está fazendo pai?
- Limpando a mesa, é costume.
- Eles não têm empregados?
O homem não soube responder. Apanhou tudo e levou ao lixo, em cuja tampa estava escrito obrigado. A menina deu a mão ao homem, caminharam para a saída. Na calçada, ela se voltou para ele:
- Não sabemos muita coisa, não é pai? Ou o senhor não gosta de responder perguntas?
- Um dia saberemos.
- Saberemos? E se a mulher olhasse para você, pai?
O homem não respondeu, mas sabia que carregaria dentro dele, quem sabe para sempre, o belo rosto da mulher, já que não tinha visto o risco da meia.

20.11.07

Ando sumida. É que na minha casa nova ainda não tem internet - lá só tem lareira, vela, cobertor quentinho, quintal com amora, jardim, noite fria, vinho, namoro, amigos (amigos, amigos, amigos).
Daqui a pouco volto a ser cyber. Por enquanto, estou curtindo ser só feliz mesmo.

13.11.07

Bossa Nova para principiantes
Edson Aran.

Tenha mulheres! Praias! Barquinhos!
1 – Se você acha que amar é tolice, bobagem e ilusão é Bossa Nova. Se amar foi sua ruína é samba-canção. Se a ingrata deu pro Assum Preto, pro Pintassilgo e pro Ditão é música sertaneja.
2 – Se você acordou de amanhã se sentindo miserável não é Bossa Nova. É blues.
3 – Se a última fileira do teatro consegue te escutar não é Bossa Nova. Se a primeira também não escuta é show do Philip Glass.
4 – Se você vai à praia de tardinha para ver o barquinho é Bossa Nova. Se você só viu barcão, solzão, canção, campeão ou outra coisa terminada em “ão” é samba-enredo. Menos improvisação. Aí é jazz.
5 – Música com maçã, Iansã e febre terçã geralmente é coisa do Djavan. Mas se tiver pau, pedra e um resto de toco é o fim do caminho.
6 – Se você veio da Bahia, mas um dia ainda volta pra lá, a rodoviária fica logo ali. Valeu.
7 – Se você fica deprimido quando pensa no amor é Bossa Nova. Se você pensa no amor e fica deprimido é impotência.
8 – Se você é cantora e mostra o joelho é Bossa Nova. Se mostra a bunda é axé music. Se mostra que só sabe gemer com voz fina e estridente é a Sandy. Ou o Júnior. Uma das duas.
9 – Se as mulheres jogam calcinhas no palco quando você canta, definitivamente não é Bossa Nova. Se você é homem e tira a calcinha no palco é Tropicalismo. Se você é mulher e entra no palco sem calcinha é a Britney Spears.
10 – Se ela passa num doce balanço a caminho do mar é Bossa Nova. Se a sua alegria atravessou o mar é outra coisa.
Esta vida
Guilherme de Almeida

Um sábio me dizia: esta existência,
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo. E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.

Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um monge me dizia: ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quadro círios acesos : eis a vida

Isto me disse o monge e eu continuei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um pobre me dizia: para o pobre
a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.

Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!

Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.

12.11.07

À vida
Florbela Espanca

Ém vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo "Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfa-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia,
A gente esquece sempre o bom de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!

Do blog da minha irmã.
Amor.
.
It just so happen that life chose them for me. But if I was given the chance I would be like "I want that dark-skinned one with the thick eyebrows and a hole on his chin, and that short one with a funny nose. Thanks."


11.11.07

Um dos mais lindos do mundo:

Álvaro de Campos

Quando eu não te tinha
Amava a natureza como um monge calmo a Cristo...
Agora amo a natureza como um monge calmo a Virgem Maria...
Religiosamente, a meu modo, como antes,
Mas de outra maneira, mais comovida e mais próxima...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor...
Tu não me tiraste a natureza...
Tu mudaste a Natureza...
Trouxeste a Natureza para o pé de mim.
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Porque tu me escolhestes para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as coisas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou...

9.11.07

É a dúvida da Dri de lá, mas também desta Dri daqui:
Dúvida
Como pude conviver com o joio por tanto tempo?

Me explica, Dri. Eu também preciso que alguém me explique (de qualquer forma, que bom ter alguém com a mesma dúvida pra me assegurar da minha lucidez!).

8.11.07

Apetite sem esperança
Elisa Lucinda

Mãe eu tô com fome
eu dizia eu gritava eu mugia
minha vó zangada respondia
você não está morrendo e nem tem fome
Você tem é apetite
Você sabe que vai comer, aonde comer, o quê vai comer.
Fome não! A fome, minha neta,
a fome, meu irmão,
a fome, minha criança,
é um apetite sem esperança.
Quando há certeza de cereais, toalhas americanas,
guardanapos e alegrias da coca-colândia
não há fome de verdade.
Minha vó já dizia pra mim um futuro de Brasil.
Minha vó nem viu edifício crescer no lugar de pão
no lugar de trigo
nem viu criança com infância de semáforo
vendendo mariola barata, criança que mata
porque seu quintal tá sempre no vermelho
criança cujo ralado de joelho

dói menos do que o não morar, não existir, não contar
com a fome tenaz
Não há tenaz na escola
há só a cola de cheirar a dor doída
de um monstro estômago a roncar
um animal doído dentro do corpo a uivar
todo dia, sem boa vista, sem quinta zoológica onde morar
Com a fome das crianças brasileiras
forra-se a mesa, arma-se o banquete
dos que sempre tiveram apenas apetite.
A faminta criança foi apenas o álibi, o cardápio, o convite.
Desmamada ela cresce procurando o peito da pátria amada
uma banana, uma manga, uma feijoada
e a mãe pátria diz nada.
Tem ela apenas o horror, o descalor, a calçada
um ódio a todos os tênis dos meninos nutridos
um ódio a mochilas, a saudáveis barrigas
com contínuo furor de assaltar os relógios
um deter o tempo que é o seu verdadeiro balão
um cai-cai balão que só cai à mão armada.
A fome gera a cilada de uma pátria de não irmãos.
A gente podia ter gripe, asma, catapora, bronquite
A gente podia ter apetite mas fome não.
Minha vó bem que dizia sem errança:
fome é um apetite sem esperança.

7.11.07

Clarice Lispector

Mas há a vida

que é para ser
intensamente vivida, há o amor.
Que tem que ser vivido

até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

6.11.07

Moda da menina trombuda
Cecília Meireles

É a moda
da menina muda
da menina trombuda
que muda de modos
e dá medo.

(A menina mimada!)

É a moda
da menina muda
que muda
de modos
e já não é trombuda.

(A menina amada!)
C. D. Andrade

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

4.11.07

Mais Camões, porque é o máximo e porque o Cadu, leitor VIP, adora:

Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.


Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.


Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,


Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.

2.11.07

Camões

Tanto de meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconserto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando,
numa hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.

1.11.07

Não sei se já postei aqui, mas valeria postar mil vezes. Sou completamente apaixonada por ele.

Ana Cristina César

Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos