30.4.09

Dançarina espanhola
Rainer Maria Rilke


Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.

E logo ela é só flama, inteiramente.

Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.

Então como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.

28.4.09

Poema Erótico
Manuel Bandeira

Teu corpo claro e perfeito,
- Teu corpo de maravilha
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha...
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira...
Teu corpo branco e macio
É como um véu de noivado...
Teu corpo é pomo doirado...
Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume...
Teu corpo é a brasa do lume...
Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes...
É puro como nas fontes
A água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama...
Volúpia de água e da chama...
A todo momento o vejo...
Teu corpo... a única ilha
No oceano do meu desejo...
Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa, flor de laranjeira.

Meu Deus, me dê a coragem 
Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
meu pecado de pensar.

26.4.09

Carlos Drummond de Andrade falando lindo do que é infalável.

Era manhã de setembro
e
ela me beijava o membro

Aviões e nuvens passavam
coros negros rebramiam
ela me beijava o membro

O meu tempo de menino
o meu tempo ainda futuro
cruzados floriam junto

Ela me beijava o membro

Um passarinho cantava,
bem dentro da árvore, dentro
da terra, de mim, da morte

Morte e primavera em rama
disputava-se a água clara
água que dobrava a sede

Ela me beijando o membro

Tudo que eu tivera sido
quando me fora defeso
já não formava sentido

Somente a rosa crispada
o talo ardente, uma flama
aquele êxtase na grama

Ela a me beijar o membro

Dos beijos era o mais casto
na pureza despojada
que é própria das coisas dadas

Nem era preito de escrava
enrodilhada na sombra
mas presente de rainha

tornando-se coisa minha
circulando-me no sangue
e doce e lento e erradio

como beijava uma santa
no mais divino transporte
e num solene arrepio

beijava beijava o membro

Pensando nos outros homens
eu tinha pena de todos
aprisionados no mundo

Meu império se estendia
por toda a praia deserta
e a cada sentido alerta

Ela me beijava o membro

O capítulo do ser
o mistério de existir
o desencontro do amar

eram tudo ondas caladas
morrendo num cais longínquo
e uma cidade se erguia

radiante de pedrarias
e de ódios apaziguados
e o espasmo vinha na brisa

para consigo furtar-me
se antes não me desfolhava
como um cabelo se alisa

e me tornava disperso
todo em círculos concêntricos
na fumaça do universo

Beijava o membro
beijava
e se morria beijando
a renascer em setembro.
Cantiga para não morrer
Ferreira Gullar

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Olê, olê, olê, olê...


Hoje larguei tudo pra te ver. Faço isso por amor, dou a vida por você. Cruzeiro, farei isso para sempre, te apoio eternamente, nada pode me deter.



PS1: o vídeo é da vitória inacreditável de 5 a 0 sobre o Atlético. Não, não a de hoje. A do ano passado. 
PS2: eu só posso amar um time que tem um mascote tão hilário. Raposão, I love you!
PS3: ia postar o vídeo do meu grito preferido da torcida cruzeirense, mas vamos deixar pra domingo que vem...
PS4: também pensei em postar a Beth Carvalho cantando "Vou festejar", mas o Fer pediu pra não fazer isso, e o amor que eu sinto por ele não me deixa desobedecer, sorry.

25.4.09

Paulo Leminski

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto
Canção do amor imprevisto
Mário Quintana

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E minha poesia é um vicio triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.
Mas tu apareceste com tua boca fresca de madrugada,
Com teu passo leve,
Com esses teus cabelos...
E o homem taciturno ficou imóvel,
sem compreender nada,
numa alegria atônita...
A súbita alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos!

Hilda Hilst

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me. 

Não basta o compromisso, vale mais o coração.



"Primeiro de julho", Cássia Eller. 

22.4.09

Reposto aqui um post do Fer e reforço o pedido para que vocês ajudem no reconhecimento ao trabalho legal e sério que a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais está fazendo.

Caros leitores,
.
A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais e seu regente, Fabio Mechetti, estão entre os finalistas do Prêmio Carlos Gomes - o mais relevante do segmento de música clássina no Brasil. .
Eu sei que essa coisa de pedir voto virtual é um porre, que ir à outra página é um esforço irritante, mas essa premiação seria muito importante para a Orquestra nesse momento. Ela foi criada no ano passado, teve um ótimo primeiro ano, mas uma premiação nacional sempre ajuda!
.
Quem tiver a bondade de dar um pulo aqui não vai gastar mais do que 90 segundos para votar na Orquestra e no maestro. São várias categorias, mas você pode deixar as que não conhece em branco. Para votar, não é necessário fazer cadastro; é só informar o nome, e-mail e CPF.
.
Depois do voto, quem se interessar pode me mandar um e-mail (fernandolara@hotmail.com) que eu vou sortear um ingresso para o próximo concerto da Filarmônica, no dia 30 de abril... Ou seja, sua chance de ganhar deve ficar entre 33 e 100%! É só colocar no assunto da mensagem qualquer coisa que diga respeito à Orquestra, pra que o e-mail não fique perdido na caixa de lixo eletrônico.
.
Ah, e se, por acaso, você tiver um blog e se sensibilizar com a questão, ia ser legal uma força na divulgação, não acha?
.
Obrigado!

16.4.09

Fisionomia
Ana Cristina Cesar

Não é mentira
é outra
a dor que dói
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outra
outra a dor que dói.

15.4.09

Pensei em escrever que hoje eu estou mais musical do que literária, mas não é verdade. Porque música pra mim sempre foi letra. Não sei pensar diferente do que pela palavra.
Já postei "Lígia" no meu video preferido, que é com Tom Jobim e Roberto Carlos, mas estou apaixonada por essa música esses dias, então posto hoje a Lígia do Chico.
(eu tinha uns 12 anos quando entendi que "eu nunca sonhei com você" era declaração de amor se seguido por "nunca fui ao cinema, não gosto de samba, não vou a Ipanema, não gosto de chuva nem gosto de sol").



Sempre adorei essa música, desde pequena, por influência do meu pai e da minha mãe. Mas foi preciso crescer pra entender - e hoje, crescida, ela me lembra ainda mais os dois.



"If"
Paulo Mendes Campos


Meu filho, se acaso chegares, como eu cheguei a uma campina de horizontes
arqueados, não te intimidem o uivo do lobo, o bramido do tigre;
enfrenta-os nas esquinas da selva, olhos nos olhos, dedo firme no
gatilho.

Meu filho, se acaso chegares a um mundo injusto e triste como este em
que vivo, faze um filho; para que ele alcance um tempo mais longe
e mais puro, e ajude a redimi-lo.

11.4.09

A Lu me mandou e eu achei ótimo. Verdade, quem corre entende - e dá muita vontade de correr!


L. F. Veríssimo

Encosto ou não encosto? Só o joelho. O que pode acontecer? Ela dizer “Mr. Lula, please!” Ai eu recolho o joelho, peço desculpas, “aimsórri, aimsórri” e pronto. Se eu soubesse falar inglês, explicaria. Sabe o que é, Elizabeth? Eu estava aqui pensando: quando é que, lá em Pernambuco, eu ia imaginar que um dia estaria sentado ao lado da rainha da Inglaterra? Não sei quem é que me botou aqui para tirar esta fotografia dos G-20. Não acho que tenha sido um pedido seu, “Quero o bonitinho de barba à minha esquerda”. Claro que não. Mas o fato é que estou aqui e o Barack está aí atrás em algum lugar, de pé e se perguntado o que eu tenho que ele não tem. O Sarkozy não deve nem estar aparecendo. Ficou atrás da Merkel e não vai sair na foto. E eu aqui ao seu lado, na primeira fila.

Isto significa muito, viu Elizabeth? Lá na minha terra vai ter gente se mordendo de raiva. Onde já se viu, aquele retirante nordestino que nem fala direito sentado à esquerda da Rainha da Inglaterra? Quando eu me elegi muita gente ficou horrorizada: como é que vai ser quando ele, um torneiro mecânico, tiver que nos representar num jantar oferecido, por exemplo, pela coroa inglesa? Vai ser servido na cozinha, para não dar vexame na escolha dos talheres. E aqui estou eu, sentado ao lado - com todo o respeito - da coroa inglesa em pessoa.

Se foi o protocolo que me botou aqui, ele acertou, viu Beth? Você, queira ou não, não é só a rainha dos ingleses, é, simbolicamente, a rainha de todos os loiros de olhos azuis do mundo, incluindo o Barack. De todos os bandidos que causaram esta crise e hoje nos infernizam a vida. E, de certo modo, eu sou o seu oposto. Sou uma espécie de rei republicano dos não-loiros do mundo - ou pelo menos deve ter sido essa a idéia do protocolo aos nos botar lado a lado. Todos os outros chefes de estado desta fotografia seriam dispensáveis. A foto poderia ser só de nós dois e estariam todos representados.

E isto significa outra coisa também, viu Beth? Eu não me contentei em ter nascido na miséria, no Nordeste, e quis mais. Não me contentei em ser um torneiro mecânico em São Paulo e quis mais. Não me contentei em ser um líder sindical e quis mais. Não me contentei em perder eleição atrás de eleição, insisti e acabei presidente. Agora estou aqui, lado a lado com a Rainha da Inglaterra, num dos pontos mais altos da minha carreira, e também quero mais. Por isso minha perna se moveu e meu joelho encostou no seu. De certa forma, o movimento da minha perna foi o passo final da caminhada que começou em Pernambuco, tantos anos atrás. Já que, ao contrário de você, Beth, não posso ficar no poder para sempre.

6.4.09

Amor nos três pavimentos
Vinícius de Moraes

Eu não sei tocar, mas se você pedir
Eu toco violino fagote trombone saxofone.
Eu não sei cantar, mas se você pedir
Dou um beijo na lua, bebo mel himeto
Pra cantar melhor.
Se você pedir eu mato o papa, eu tomo cicuta
Eu faço tudo que você quiser.

Você querendo, você me pede, um brinco, um namorado
Que eu te arranjo logo.
Você quer fazer verso? É tão simples!...você assina
Ninguém vai saber.
Se você me pedir, eu trabalho dobrado
Só pra te agradar.

Se você quisesse!...até na morte eu ia
Descobrir poesia.
Te recitava as Pombas, tirava modinhas
Pra te adormecer.
Até um gurizinho, se você deixar
Eu dou pra você...

4.4.09

Eu acho isso sensacional:


Mais uma vez
Adélia Prado

Não quero mais amar Jonathan.
Estou cansada desse amor sem mimos,
destinado a tornar-se um amor de velhos.
Oh! nunca falei assim -
um amor de velhos.
Ainda bem que é mentira.
Mesmo que Jonathan me olvide
e esta canção desafine
como um bolero ruim,
permaneço querendo a bicicleta holandesa
e mais tarde a cripta gótica
pra nossos olhos dormirem.
Ó Jonathan,
não depende de você
que a cornucópia invisível jorre ouro.
Nem de mim.
Quero enfear o poema
pra te lançar meu desprezo,
em vão.
Escreve-o quem me dita as palavras,
escreve-o por minha mão.

2.4.09

Acho que quando a nossa geração tiver de fazer um balanço dos seus merecimentos e misérias para ser julgada, poderemos todos usar esta credencial: fomos contemporâneos do Chico Buarque. E exigir tratamento especial.
.
L. Fernando Veríssimo