25.11.09

Desencontrários
Paulo Leminski

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.
Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.

Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

Nunca sei ao certo
se sou um menino de dúvidas
ou um homem de fé
certezas o vento leva
só dúvidas ficam de pé.

No aeroporto, indo pro Encontro Americano de Psicanálise, com minha analista ao lado.

Eu nunca faria análise com uma psicanalista que não ri.
Delicadeza - esse é o traço, definitivamente.

21.11.09

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

Paulo Leminski

18.11.09

A rua

Cassiano Ricardo

Bem sei que, muitas vezes,

O único remédio

É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,

A dívida, o divertimento,

O pedido de emprego, ou a própria alegria.

A esperança é também uma forma

De continuo adiamento.

Sei que é preciso prestigiar a esperança,

Numa sala de espera.

Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,

Esperança sentada.

Não abdicação diante da vida.

A esperança

Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.

Nunca é figura de mulher

Do quadro antigo.

Sentada, dando milho aos pombos.

A Bebel foi adotada. E vai ser feliz pra sempre.

17.11.09


Do blog do Fer. Ajudem a Bebel!


Meu irmão mais velho tem o coração bem maior do que a cabeça. Sempre foi assim: incapaz de negar um favor mesmo quando todas as condições justificariam uma simpática resposta negativa.
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Há cerca de dois meses, quando saía do trabalho, percebeu uma pequena cadela parada em frente à porta do seu carro: sem pelo, bem machucada, com a pata quebrada e muito assustada. Com medo de se deparar, mais uma vez, com sua incapacidade de dizer não, ele voltou para o escritório e tentou esperar um pouco, na expectativa de que alguém resolvesse o problema da cadela antes que ele voltasse para o carro.
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Alguns minutos depois, ela continuava no mesmo lugar, nas mesmas condições. E dessa vez, como era de se esperar, ele não disse não... Os próximos passos foram uma internação em um hospital veterinário, uma conta astronômica e, quase cinquenta dias depois, uma cadela muito simpática, carinhosa e agradecida, que recebeu o nome de Bebel.
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Ela já está em ótimas condições de saúde, com uma carinha muito agradável e um temperamento dócil. A patinha quebrada, como explicou o veterinário, aconteceu em um episódio anterior e foi calcificada incorretamente. Por esse motivo, Bebel manca um pouco, mas consegue andar e correr normalmente.
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Como ela é bem pequena e não late, acho que viveria muito bem - e feliz! - num apartamento. Ah, e vale dizer também que quando foi encontrada, ela usava coleira com telefone... Meu irmão ligou para o número e descobriu que a família havia se mudado e abandonado a Bebel na rua - fato que me gera ódio, mas isso é outra conversa e não tem nada a ver com uma cadelinha feliz e recuperada procurando residência!
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É isso... Quem puder ajudar a divulgar ou, principalmente, quem gostar da idéia de ficar com a Bebel, estou à disposição para dar mais informações.

16.11.09

Não tenho postado porque um projeto de doutorado está levando todos os meus neurônios.
Gastemos, portanto (e só por enquanto), os hormônios.


Contribuição da Andréa, leitora querida deste blog - que volta em breve à programação normal.

6.11.09

O que se diz ao editor a propósito de poemas
João Cabral de Melo Neto

Eis mais um livro (fio que o último)
de um incurável pernambucano;
se programam ainda publicá-lo,
digam-me, que com pouco o embalsamo.

E preciso logo enbalsamá-lo:
enquanto ele me conviva, vivo,
está sujeito a cortes, enxertos:
terminará amputado do fígado,

terminará ganhando outro pâncreas;
e se o pulmão não pode outro estilo
(esta dicção de tosse e gagueira),
me esgota, vivo em mim, livro-umbigo.

Poema nenhum se autonomiza
no primeiro ditar-se, esboçado,
nem no construí-lo, nem no passar-se
a limpo do datilografá-lo.

Um poema é o que há de mais instável:
ele se multiplica e divide,
se pratica as quatro operações
enquanto em nós e de nós existe.

Um poema é sempre, como um câncer:
que química, cobalto, indivíduo
parou os pés desse potro solto?
Só o mumificá-lo, pô-lo em livro.

5.11.09

Mesmo sendo errados os amantes seus amores serão bons.


Choro Bandido (Chico Buarque e Edu Lobo)

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu serão bonitas, não importa, são bonitas as canções. Mesmo miseráveis os poetas os seus versos serão bons. Mesmo porque as notas eram surdas quando um deus sonso e ladrão fez das tripas a primeira lira que animou todos os sons. E daí nasceram as baladas e os arroubos de bandidos como eu cantando assim: você nasceu para mim, você nasceu para mim.

Mesmo que você feche os ouvidos e as janelas do vestido minha musa vai cair em tentação. Mesmo porque estou falando grego com sua imaginação. Mesmo que você fuja de mim por labirintos e alçapões saiba que os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão. E eis que, menos sábios do que antes, os seus lábios ofegantes hão de se entregar assim: me leve até o fim, me leve até o fim.

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso são bonitas, não importa, são bonitas as canções.
Mesmo sendo errados os amantes seus amores serão bons.

2.11.09

Eu: se você quiser, eu posso fazer comida. Um arroz... uma abobrinha... uma batata...
Fer: Uma Thurman...

1.11.09

Tom Jobim, versão Pixar - a foto é do Fer, mas ficou com cara de animação.

Eu: Fer, você não pode ficar tão chato só porque seu time perdeu na semana passada. Hoje tem outro jogo, você não vai mais assistir nada do Atlético?
Ele: Dri, não sei. Meu coração tá uma bagunça.
Desvio a atenção por um segundo da conversa da minha mesa no bar. Volto a escutar no momento surreal em que a Caroli, com aquela candura toda, profere a frase: "ah, eu já invadi propriedades privadas...".
Adoecer de nós a Natureza:
- Botar aflição nas pedras
(Como fez Rodin).

Manoel de Barros.


Roubado do blog da C4.

Sobre elesRita Apoena

Ela afundou o corpo nele o mais que pôde, como se assim pudesse aprisionar um instante, como se assim pudesse aprisionar o amor. E ele, querendo as respostas que a vida não lhe entrega e que só uma mulher é capaz de abrigar dentro de si, puxou os seus quadris com a ânsia de escorregar para dentro dela e ali ficar. Só uma fêmea é capaz de dividir-se assim ao meio: a metade de baixo a sobrepor-se forte, desfalecendo as resistências do macho e a de cima a ampará-lo doce, beijando e acarinhando os medos de um filhote.


(roubei da minha irmã)

Tenho vergonha de estender o braço
para chamar o táxi
tenho medo que ele me veja
tenho medo que ele me veja
e ainda assim
não pare.

Ana Cristina César

Esse texto é da Mari Clark, mas agora é um pouco meu também, porque ela me deu dizendo assim:

Dri, quando lhe mostrei esse texto, você me pediu para postá-lo e eu não deixei. Hoje, eu dou ele de presente para você e para o Blog da Dri. É só porque fica muito mais bonito quando passa por você.

Luisa
Mariana Clark

Luisa foi e Luisa voltou tantas vezes em minha cabeça desde aquele dia em que lhe pedi que nunca mais falasse comigo ou me mandasse qualquer coisa mesmo que fossem sinais de fumaça. Não quero perder o tempo de minha vida com você, Luisa, ou que ache que sou capaz de ser um pouco melhor, mais calmo ou mesmo que eu finja ser um adulto. Me irritou profundamente toda essa enrolação para não chegar a lugar nenhum e pode deixar que vou te mandar a conta dos meus três minutos perdidos que nunca terei de volta. Gostaria de falar sobre política, a situação anda catastrófica. Nem sinal de melhoria nas estradas, as federais e as que me levam até você. É difícil governar tamanha situação em que nos perdemos e procuramos nos achar em lugares em que já tivemos mas não estamos mais. Por mais que eu diga essas palavras duras e que Luisa ache tarifa mais barata em outras pessoas, alguém quem sabe que ache isso tudo uma primavera ou mesmo que no inverno uma primavera. Não sou assim, nunca fui fácil, sempre fingi ser coisas que não era. Eu e todas as outras pessoas, obviamente, mas poucas o admitem. E ainda me acho melhor do que os outros por isso, por ter esse gênio difícil, essas palavras duras. Enfim, que Luisa tenha ido e voltado várias vezes e eu tenha a pedido em casamento e depois jogado suas roupas pela janela, ela me chamando de intratável, eu concordando. Coisa mais triste. Eu concordando. E assim, nos odiando nos mesmos lugares em que antes nos amando. E eu agora, sozinho, escrevendo. Eu sozinho escrevendo. Olhando pela janela, confundindo as nuvens com sinais de fumaça. E as gaivotas que, juro, antes não estavam lá.

Construção da noite
Carlos Nejar

No casulo há um homem
mas o fundo é o outro lado.
No casulo de seu tempo há um homem,
mas o fundo é o outro lado.
É o casulo onde o homem foi achado,
mas o fundo é o outro lado.
É o terreno onde o homem foi lavrado,
mas o fundo é o outro lado.
É a treva onde o homem foi fechado,
mas o fundo é o outro lado.
É o silêncio de um homem soterrado,
mas o fundo é o outro lado.
Mas o fundo é o outro lado.

É a infância que nasce sobre o morto,
é a infância que cresce sobre o morto,
é o sol que madruga no seu rosto,
é um homem que salta do sol posto
e convoca outros homens para o sonho
e mistura-se à terra
e mistura-se ao sonho.

E o canto recomeça além do sonho,
além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado,
mas o fundo principia sem passado,
sem os montes, sem os barcos, sem o lago.

Tua vida verdadeira é o outro lado.
Tua terra verdadeira é o outro lado.
Tua herança verdadeira é o outro lado.

Tudo cessa.
Tudo cessa,
tudo cessa.
Mas o mundo
é o outro lado
que começa.