30.3.10

Sujeito indireto
Paulo Leminski

Quem dera eu achasse um jeito
de fazer tudo perfeito,
feito a coisa fosse o projeto
e tudo já nascesse satisfeito.
Quem dera eu visse o outro lado,
o lado de lá, lado meio,
onde o triângulo é quadrado
e o torto parece direito.
Quem dera um ângulo reto.
Já começo a ficar cheio
de não saber quando eu falto,
de ser, mim, sujeito indireto.

26.3.10

Vicente e Mariana
Fabrício Carpinejar

Meus filhos não são impossíveis, eles me tornam possível.
Há segredos de Mariana que Vicente sabe, há segredos do Vicente que Mariana sabe. Não sei de nenhum dos segredos e não sinto falta. Eles se bastam.
Sou pai e meu trabalho é fazer com que eles se defendam de mim, inclusive de minha paixão por eles, que não é pouco.
Mariana tem 16 anos e fica uma criança ao lado do caçula. O caçula tem 8 anos e fica um adolescente ao lado de sua mana. Trocam as fases com facilidade. Eles me enganam com suas frases espirituosas.
A árvore tem frutos para poder voar. Temos idades diferentes para não morrer.
Mariana decidiu pintar o cabelo de vermelho. Vulcânico. Vicente decidiu que seu cabelo irá crescer. Vendaval. Uma atitude é ligada à outra. Complicado definir quem segue o exemplo de quem. Eles dividem um quarto virtual, o blog, radiomilpontozero.blogspot.com, para trocar suas canções prediletas.
Mariana toca violão, Vicente é que dirige seus videoclipes. Quando estão juntos nas férias, atravessam a noite conversando. Eu finjo que estou dormindo. Não vou atrapalhar se não há escola. Estou errado, mas é um erro emocionado.
Vicente me explicou como fazer para interromper a tristeza da Mariana. "Conversa sobre signos com ela, pai". Ele decorou os horóscopos para dar colo às suas dores.
Mariana me explicou como distrair o choro do Vicente. "Fale sobre as raças de cachorros, pai." Mariana estudou a fundo os pedigrees para passear com a angústia do menino.
Ambos me chamam de "Pánceps". Tento fazer barriga para honrar o apelido.
Eles guardam uma mãe em comum, apesar das mães diferentes: a amizade.
Fácil identificar quando os filhos se amam. No momento em que aprontam. A bagunça detém o mistério da cumplicidade.
Não se entregam, nunca se denunciam. Não importa a pressão. São leais no tropeço. Não consigo ficar brabo. Estou errado de novo. Deliciado com o improviso, ouço um completar a história mais maluca do outro.
Num dia de palestra, eles ficaram com a avó. Meia-noite e recebo a ligação materna, incapaz de controlar a felicidade dos dois.
- Eles não me respeitam. O Vicente está com um abajur na cabeça fingindo que teve ideias geniais.
- O que , vó?
- Isso, ele falou que a eternidade não dorme.
- Depois a gente se fala, tá?
Meia-noite e meia e Vicente me liga.
- A gente só estava brincando.
- Precisam respeitar a avô?
- Tá, mas posso te contar....
Meia-noite e quarenta e Mariana me chama.
- Não foi bem assim.
- Mari, não força a barra. Cuida da avó que está velha.
- Tudo bem, mas não é justo. Posso te contar....
- Ok, mas desliga a cabeça do Vicente, por favor!
Repetiram exatamente a mesma versão. Igual até nos engasgos. Não sou bobo, aquilo que é ensaiado é mentira. Mas eles não escondem a verdade, protegem e cuidam da verdade melhor do que eu. Um dia vão me devolver.

25.3.10


Andréa,
Morri.
Ass: Dri

24.3.10

Pro Fer.

Natureza humana
Vinicius de Moraes

Cheguei. Sinto de novo a natureza
Longe do pandemônio da cidade
Aqui tudo tem mais felicidade
Tudo é cheio de santa singeleza

Vagueio pela múrmura leveza
Que deslumbra de verde e claridade
Mas nada. Resta vívida a saudade
Da cidade em bulício e febre acesa

Ante a perspectiva da partida
Sinto que me arranca algo da vida
Mas quero ir. E ponho-me a pensar

Que a vida é esta incerteza que em mim mora
A vontade tremenda de ir-me embora
E a tremenda vontade de ficar.

22.3.10

Ela, sempre. Hilda Hilst.

II

Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida altivez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora
Há tanto tempo sua própria tessitura.
Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.

X

Não é apenas um vago, modulado sentimento
O que me faz cantar enormemente
A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu, um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus.
Não é apenas vaidade de querer
Que aos cinquenta
Tua alma e teu corpo se enterneçam
Da graça, da justeza do poema. É mais.
E por isso perdoa todo esse amor de mim
E me perdoa de ti a indiferença.

21.3.10

Aprendi hoje e adorei. Pomplamoose.

20.3.10

Da Marina, muito fofa. Da série "coisas legais sobre ter um blog":

Dri,
just to let you know...
I'm quite sure I'm falling in love with your sister.
Now I have to go to BH. Or you both can come to London. New Zeland is too far.

19.3.10

Alguém segue este blog da Nova Zelândia, acabei de descobrir.
Eu acho que a Nova Zelândia seria um bom lugar para passar os próximos dias.
Lá ou o Japão.
Aceito convites.

18.3.10

Sujam o suicídio

João Cabral de Melo Neto



O pior que existe no suicídio,
por limpo que seja, ou de tiro;

ou o suicídio por barbitúricos,
em que a dormir se cruza o muro;

pior que o incômodo resíduo
que se há de tratar como um vivo,

que há de lavar, barbear, pentear,
para a viagem que empreenderá;

o pior que há nele é o palavrório
que enreda o caixão e o velório

na oral, tropical, floração
que saliva a nossa nação.

Na verdade, onde mais o medo
é falador é nos enterros.

No enterro, falam mesmo os mudos,
e, se de suicida, falam duplo.

Ninguém deixa a mínima brecha
para a morte-Rilke, a da Igreja

e de outros que fazem da Porta
uma celebração deleitosa.

O Padre sabe: não há frestra
onde a transcendência ele meta

no falatório, mato fechado
que nem pode abrir-se a machado

(Enquanto isso, pensa? o cadáver:
maçada! não pude evaporar-me;

enfim: não se vende em balcão,
ainda, o suicidar-se de avião).

Beijos mortos
Martins Fontes

Amemos a mulher que não ilude,
e que, ao saber que a temos enganado,
perdoa por amor e por virtude,
pelo respeito ao menos do passado.

Muitas vezes, na minha juventude,
evocando o romance de um noivado,
sinto que amei outrora quando pude,
porém mais deveria ter amado.

Choro. O remorso os nervos me sacode.
E, ao relembrar o mal que então fazia,
meu desespero inconsolado explode.

E a causa desta horrível agonia,
é ter amado, quanto amar se pode,
sem ter amado quanto amar devia.

17.3.10

Da primeira vez ela chorou, mas resolveu ficar. É que os momentos felizes tinham deixado raízes no seu penar. Depois perdeu a esperança, porque o perdão também cansa de perdoar.

"Regra três", Toquinho e Vinícius de Moraes

16.3.10

Do blog do Pe.

"Só elas sabiam como pesava o homem que amavam com loucura, e que talvez as amasse, mas que tinham tido que continuar a criar até o ultimo suspiro, dando-lhe de mamar, mudando-lhe as fraldas borradas, distraindo-o com historinhas de mãe para lhe aliviar o terror de sair de manhã e dar de cara com a realidade. E no entanto, quando o viam sair de casa instigado por elas próprias a enfrentar o mundo, então eram elas que ficavam com o terror de que o homem não voltasse nunca. Isso era a vida. O amor, caso houvesse, era uma coisa à parte: outra vida."

Gabriel Garcia Marquez, "O amor nos tempos do cólera".

15.3.10

Manuel Bandeira


Quando perderes o gosto humilde da tristeza,
Quando, nas horas melancólicas do dia,
Não ouvires mais os lábios da sombra
Murmurarem ao teu ouvido
As palavras de voluptuosa beleza
Ou de casta sabedoria;

Quando a tua tristeza não for mais que amargura,
Quando perderes todo estímulo e toda crença,
- A fé no bem e na virtude,
A confiança nos teus amigos e na tua amante,
Quando o próprio dia se te mudar em noite escura
De desconsolação e malquerença;

Quando, na agonia de tudo o que passa
Ante os olhos imóveis do infinito,
Na dor de ver murcharem as rosas,
E como as rosas tudo o que é belo e frágil,
Não sentires em teu ânimo aflito
Crescer a ânsia de vida como uma divina graça:

Quando tiveres inveja, quando o ciúme
Crestar os últimos lírios de tua alma desvirginada;
Quando em teus olhos áridos
Estancarem-se as fontes das suaves lágrimas
Em que se amorteceu o pecaminoso lume
De tua inquieta mocidade:

Então sorri pela última vez, tristemente,
A tudo que outrora
Amaste. Sorri tristemente...
Sorri mansamente... em um sorriso pálido... pálido
Como o beijo religioso que puseste
Na fronte morta de tua mãe... Sobre a sua fronte morta...

12.3.10

A caixinha de música da minha vida é prateada, com uma bailarina que dança em cima de um caleidoscópio vermelho e branco quando a gente gira uma chavinha. E toca essa música, que vai ser dela pra sempre. Como palha italiana, nhoque, dar comida aos pombinhos, mexer na caixa de botões e fazer ponto-de-cruz.
Para quem soube ser uma mulher dura, mas uma avó muito, muito, infinitamente doce.



Fascinação
F.D.Marchetti / M.de Feraudy / (Versão Armando Louzada)
Os sonhos mais lindos sonhei. De quimeras mil um castelo ergui. E no teu olhar tonto de emoção, com sofreguidão mil venturas previ. O teu corpo é luz, sedução, poema divino, cheio de esplendor. Teu sorriso prende, inebria, entontece... és fascinação, amor.

6.3.10

Eu já amava essa música com Sandy e Jr. Então imagina o que a Maria Gadú fez comigo...

5.3.10

Separação
Affonso Romano de Sant'Anna

Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.


Patrícia Highsmith pagando peitinhos do meu suspense amoroso
Xico Sá

CAP. I

Testei ao limite, excesso e lama, e me vi na laje fria do IML do vazio pornográfico. Pensei deveras em morte.

Desculpe ai, é sacanagem, mas sabes o pânico de sentir-se um pouco sem oxigênio?

Já ouviste falar naquela velha crença brega e cafona que diz, mais ou menos assim, que a pessoa amada é o ar que o outro respira?

Teus passos civilizadíssimos e principalmente teu silêncio. Inicialmente debaixo da escada, no frio, depois na edícula, melhor, no quartinho igualmente cool dos fundos sem legenda. Teus passos que o digam.

O ciúme enferrujado, o shortinho verde água da provocação final sem culpa, a foto de Patricia Highsmith pagando peitinho na capa da Ilustrada no último sábado. Tudo me lembra, mesmo que nem mais guarde a tua beleza insegura boiando nos meus olhos castanhos.

Quando voltas para a siesta, nosso começo de ilusões perdidas?

Nunca, sei muito antes a resposta, mas insisto, por amor e por besteira.

Tomara que never more mesmo, como o corvo. Se voltares me fodo outra vez, a lógica, mas quem diz que eu não quero?

A casa está vazia, as trepadeiras crescem assustadoramente na varanda, tontas, sem saber de nada, ainda entorpecidas pela nossa fúria sem adubos ou agrotóxicos, eis o boletim de ocorrências.

Daí aparece Leonard Cohen, naquele mesmo filme que vimos no cinecama, e me fala de zenbudismo, talvez isso seja a saída. Levinho me voy a la playa e esqueço.

Nunca mais agüei as plantas, veio a chuva e me fez mais triste, os sintomas da tempestade, e estamos todos vivos, eu estava mui longe.

O homem que jogou o ventilador na merda, eis a manchete corrosiva do diário Mea Culpa Times da Existência.

Achas que rola um Complexo de Electra na parada?

Hey, Neil Young, homem velho pede passagem.

O certo seria ancorar numa costela de Balzac, fazer o filho que ficou no ralo das clínicas de aborto etc.

Tem cura um velho homem?

Nossa Senhora dos Ansiolíticos, rogai por nós que recorremos a vós.

Pompeia vira o deserto Monjave, onde Sam Shepard me diz coisas tristes e bonitas.

Me apoio no eco de tristeza alheia, pois nunca pareço triste para quem não me conhece o suficientemente besta e covarde.

Finjo, palhaço das ruas e das tavernas.

Por que não apareces, pelo menos, para o reconhecimento do corpo?

Foda essas moças que enterram vivo e sequer mijam nas nossas covas.

Os efeitos do doutorado já podem ser sentidos na frequência de atualização deste blog.
Mas não vamos desistir.

Esses amores fugazes são deliciosos porque carecem de expectativa. Não têm passado nem futuro. A expectativa destrói muitas coisas. Mas aprender a evitá-la é uma arte.

Pedro Juan Gutiérrez, em “Trilogia Suja de Havana”