27.9.05

Do filme "Mar adentro". Tão lindo quanto o filme.

Mar adentro, mar adentro,
y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños,
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.

Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno,
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo;
es como penetrar al centro del universo:

El abrazo más pueril,
y el más puro de los besos,
hasta vernos reducidos
en un único deseo:

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo,
sin palabras:
más adentro, más adentro,
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.

21.9.05

Mothern, de novo. Tomara que elas não me processem. Quem mandou elas serem ótimas?

Eu com as quatro
eu com ela
eu com ela
nós por cima
nós por baixo...

Lembra dessa brincadeira? Depois de adulta, não parece sacanagem?
Quem anda no trilho é trem de ferro,
sou água que corre entre pedras:
liberdade caça jeito.

Manoel de Barros

11.9.05

Bonito demais. É um dos meus preferidos há muito, muito tempo... e ainda se chama "Psicanálise do açúcar".

Psicanálise do açúcar
João Cabral de Melo Neto

O açúcar cristal, ou açúcar de usina,
mostra a mais instável das brancuras;
quem do Recife sabe direito o quanto,
e o pouco desse quanto, que ela dura.
Sabe o mínimo do pouco que o cristal
se estabiliza cristal sobre o açúcar,
por cima do fundo antigo, de mascavo,
do mascavo barrento que se incuba;
e sabe que tudo pode romper o mínimo
em que o cristal é capaz de censura:
pois o tal fundo mascavo logo aflora
quer inverno ou verão mele o açúcar.
Os versos que te fiz
Florbela Espanca


Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
Amo-te tanto!
E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

***

Saudades
Florbela Espanca

Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?...Ah! Como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!
Sentimental
Carlos Drummond de Andrade

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.
Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!
Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!
Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências, um cartaz amarelo:
"Nesse país é proibido sonhar".
***
Verbo Ser
Carlos Drummond de Andrade

Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível, ser? Dói? É bom? É triste? Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas? Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.

7.9.05

Eu não passo mal.


As pessoas que passam mal
Nina Lemos (site 2neurônio)

"Tô passando mal". Quem me conhece já deve ter ouvido essa frase algumas vezes. Isso porque, como bem definiu a Jô em um momento em que eu falei a frase... eu sou uma pessoa que passa mal. E essa é mais uma forma de divisão do mundo.
As pessoas que passam mal geralmente são histéricas (hello, Freud). E sim, quase sempre são mulheres.
Sofremos de tontura, confusão mental, pressão baixa, desmaios. Tudo sem motivo aparente, ou com motivos ridículos que pra gente fazem todo sentido.
Nesta última vez em que falei a frase, eu estava em um show revival do Fellini, uma das bandas que eu mais amo no mundo. Estava cheio de gente do passado, pessoas de antigamente, passantes famosos, como o Paulo Ricardo de chapinha e o Marcelo Bonfá parecendo o Jon Bon Jovi. É ou não é motivo para passar mal?
Nós estamos acostumados a sermos levados pela mão por pessoas para tomar um ar. Ou a ouvir a frase: "você quer sal?".
Uma vez desmaiei na casa da Danuza Leão, no meio de uma entrevista, descontrol, celebração. "Ernestina, Ernestina", gritava Danuza. Até que surgiu uma senhora vestida de empregada chique e me deu sal.
Achei que esse seria o maior vexame da minha vida. Mas a sábia Danuza respondeu: "não tem nada mais chique do que uma mulher que desmaia". Depois dessa, passei a me achar chique, mesmo pedindo um sal. E dizendo: "gente, me ajuda, to passando mal".

6.9.05

Oferenda
Itamar Assumpção


Tenho mil segredos para te contar

Abri todas as conchas do mar
Dentro delas achei pérolas
Com algumas te fiz um colar
Um colar de pérolas
Lisas e bem redondas
Lindas bolas claras
Contas de perder a conta
Em todos os dedos você vai usar
Anéis que eu mandei buscar
Uns no fim do mundo três gemas em Minas
Outros dez na Conchinchina meu amor
É teu meu tesouro
Ouro puro e lírios
Meu amor eu juro
Meu palácio com antúrios
Peço pense devagar nessa oferenda
Se recusas ou aceitas
Essa oferenda
Peço pense devagar
Nessa oferenda
Só não tens a vida toda
Pra pensar.

5.9.05

Entusiasmada com meu comentário sobre sua excelente influência em minha vida, feito no post anterior, minha mãe saiu avidamente à busca de novidades para este blog.
Olhaí o resultado. Eu falei, eu falei...

MILÁGRIMAS
Itamar Assumpção - Alice Ruiz

Em caso de dor, ponha gelo
Mude o corte do cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema, dê um sorriso
Ainda que amarelo
Esqueça seu cotovelo
Se amargo for já ter sido
Troque já este vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada milágrimas sai um milagre
Em caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa
Coma somente a cereja
Jogue para cima, faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra apenas, viva apenas
Sendo só fissura, ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena, reze um terço
Caia fora do contexto, invente seu endereço
A cada milágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas, três, dez, cem mil lágrimas, sinta o milagre
A cada milágrimas sai um milagre.

2.9.05

Foi minha mãe quem me ensinou a gostar de Fernando Pessoa. Aliás, minha mãe me ensinou a gostar de milhões de coisas boas nessa vida.

TABACARIA
Álvaro de Campos (1928)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(...)

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

(...)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

(...)

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
O seu santo nome
Carlos Drummond de Andrade


Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.
Carlos Drummond de Andrade

O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.
E para repousar do amor, vamos à cama.
O amor e seus contratos
Carlos Drummond de Andrade

Tanto nas juras mais vivas como nos beijos mais longos
em que perduram salivas de outras paixões ainda ativas,
sopro de angolas e congos, eu sinto a turva incerteza
(ai, ouro de tredas lavras) da enovelada surpresa
que põe tanto de estranheza nos contratos que tu lavras.

Por mais que no teu falar brilhe a promessa incessante
até o mundo acabar e mesmo depois - diamante
de mil prismas incendidos, amarga-me o pensamento
de serem pactos fingidos e nos seus subentendidos
não vi, amor, valimento. Experiência de escrituras,
eu tenho. De que me serve? Após sofridas leituras
de emendas e rasuras, no peito a dúvida ferve,
se nos mais doutos cartórios de Londres, Londrina, Lavras
para assuntos amatórios, teus itens são ilusórios,
só palavras e palavras.

As nulidades tamanhas que te invalidam o trato
não sei se provêm de manhas ou de vistas mais estranhas.
Serão talvez teu retrato gravado em vento ou em sonho
como aéreo documento que nunca mais recomponho.
São todas - digo tristonho - feitas de sonho e de vento.