29.10.09


A mulher existe. O nome dela é Dita Von Teese.

28.10.09

Saudades do Rio antigo
Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada.
Lá o rei não será deposto
E lá sou amigo do rei.
Aqui eu não sou feliz
A vida está cada vez
Mais cara, e a menor besteira
Nos custa os olhos da cara.
O trânsito é uma miséria:
Sair a pé pelas ruas
Desta capital cidade
É quase temeridade.
E eu não tenho cadilac
Para em vez de atropelado,
Atropelar sem piedade
Meus pedestres semelhantes.
Oh! que saudades que eu tenho
Do Rio como era dantes!
O Rio que tinha apenas
Quinhentos mil habitantes.
O Rio que conheci
Quando vim para cá menino:
Meu velho Rio gostoso,
Cujos dias revivi
Lendo deliciosamente
O livro de Coaraci.
Cidade onde, rico ou pobre
Dava gosto se viver.
Hoje ninguém está contente.
Hoje, meu Deus, todo mundo
Traz na boca a cinza amarga
Da frustração...
Minha gente,
Vou-me embora pra Pasárgada.

25.10.09

Fernando Pessoa

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje já é outro dia.

22.10.09

Do blog da Marcela.

Google Talk também é poesia

- e a vida?
- a vida é muito grande. posso falar do dia.
Meu lado "big band" ama essa música - e a Mari sabe.



The way you look tonight
Tony Bennett

Someday, when I'm awfully low, when the world is cold
I will feel a glow just thinking of you and the way you look tonight

You're so lovely, with your smile so warm and your cheeks so soft
There is nothing for me but to love you and the way you look tonight

With each word your tenderness grows tearing my fears apart
And that laugh that wrinkles your nose touches my foolish heart

You're lovely, never ever change, keep that breathless charm
Won't you please arrange it?
'Cause I love you just the way you look tonight

Presente da Mari. Adoro - ela e ele.

A desconsoladora
Murilo Mendes

Mulher, eu te procuro continuamente. É mais fácil achar Deus do que te achar.

Tenho por ti uma grande atração e repulsão - ao mesmo tempo.

Eu, adormeço com teu amor e deperto com o ódio a ti. E te destruo e te construo a todo o instante.

Hás de me perseguir até a imortalidade. A paz da mulher não é a paz de Deus.

A mulher não é o amor. A poesia é o amor. A poesia da ausência da mulher
é equivalente à poesia da posse da mulher.

21.10.09

Daqui.
Pablo Neruda. Direto do blog da Carol.

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo e por isso te amo quando te amo.
Teste do internauta de rede social
Jô Hallack (02 neurônio)


Marque uma das alternativas

( ) Você é um(a) mala na vida real, seu blog é mala, seu twitter é mala, seu facebook é mala.
( ) Você é um(a) mala na vida real mas , rapaz, no virtual você parece incrível!
( )Você diz que gosta de expressionismo alemão na vida real mas no seu facebook você curte quem diz que “saúda o pôr do sol” .
( )Você não sabe escrever português na vida real e no twitter, no facebook, no fotolog, no caralho a quatro você continua não sabendo escrever. Mas todos juram que na internet as pessoas são toda assim. Digo, analfabetas.
( ) Você faz tererê na praia mas no twitter você coloca pensamentos do Kafka.
( ) Você cita Adorno depois de trepar mas no seu “face” (isso mesmo, você chama o Facebook por um apelidinho carinhoso) tem uma foto carregada de um móvel que denuncia: no último final de semana você estava numa micareta.
( ) Você faz o depressivo(a) alugando a humanidade mas a sua frase do dia é “I can see clearly now the rain is gone. Here's the rainbow I've been praying for!’. E você não esta tomando Prozac. Ou ácido.
( ) Você não vive. Posta.
( ) Ontem você foi no Orkut

A Mari, de novo.

Eu, às vezes, me esqueço do seu rosto e o coração vai do estômago até a boca quando penso nisso. E me apavoro, por vezes, ao pensar que não me lembro da sua voz e quero te ligar para a ouvir de novo me dizer do seu dia ou daquelas todas. E esse movimento de sair e voltar à minha vida me confunde como poucas coisas e quando penso que te quero é porque, na verdade, não quero mais. E isso são tantos anos e tantas coisas que me esqueço dos seus olhos de ressaca, à maneira Capitu, que sempre me encantaram e me fixaram em um só sentido. E enquanto você finge que nada aconteceu, que não houve tudo aquilo e tenta apagar o passado, eu vou, como o meu amor, do que sou para o que sou também*, e fujo enquanto me aproximo. E não quero despejar tudo aquilo de novo, não quero o que passou, quero um mundo novo. E se me custou tanto fazê lo e refazê lo e pretender que você não passou. Que não tiveram seus abraços e sua risada. E me custou muito tudo isso, mais do que você possa imaginar. Então não, não finja que nada aconteceu e não ache que pode dizer que me quer de volta. Não volte à minha vida como se nunca houvesse saído.

*Roubadinho do Lobo Antunes.

20.10.09

Ele alterou o "Super Mario World" pra pedir ela em casamento.
Morri.

19.10.09

De amor
Maria Teresa Horta

Falar da paixão
mais do que o sangue

Mais do que o fogo
trazido ao coração

Mais do que a rosa acesa
só por dentro
revolvendo no peito
a ponta de um arpão

Falar de febre sem fé
do animal feroz

Dos líquens abertos
e dos lírios

Falar desassosego sem razão
uma raiva que silva
no delírio

quanto dói a dor
no peito
Quanto é contraditória
esta prisão
que me faz ficar livre no que sinto
e logo envenenada à tua mão
... se ela quer o sétimo céu, vai ter que subir degrau por degrau...

16.10.09

Quero
Carlos Drummond de Andrade

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.
Duas vezes nada acontece
nem acontecerá. E assim sendo,
nascemos sem prática
e sem rotina vamos vivendo.
Wislawa Szymborska, "Alguns Gostam de Poesia".
Jô mandou um e-mail para as amigas pedindo indicação de costureira. Depois juntou as informações que recebeu e enviou pra todas. Já seria fofo até aí. Respondi o e-mail e fiquei achando ela linda. Mas ela ainda fez este post no blog dela.
E é por isso que eu sempre digo que fiz reserva de mercado de mulher ótima na minha vida.


momento mulherzinha

pois bem
estava eu a catar costureiras nesta belo horizonte e a última referencia que tive foi de uma moça em santa tereza - terra natal
agora distante um pouco mais
matutei um bocadinho até que
claro!
amigas!

e depois de fazer uma novelinha por e-mail, contando pra todas sobre os efeitos do contato
ainda recebo um e-mail de uma das queridas dizendo
adorei o momento mulherzinha

e só faltou dizer
seguimos com a programação normal
ahahahahah
dorei!
Do Twitter do Milen:

"Cismei que a dor provocada pelo brazilian waxing vira rancor contra os homens. So, pela volta do american waxing!"

Gênio.
Como um rio
Thiago de Mello

Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.
E de lavar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva,
e lava.

Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.

Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir,
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.

Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
de águas impuras
que afloram a escondida
verdade nas funduras.

Como um rio, que nasce
de outros, saber seguir,
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.

Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.

15.10.09

Anfiguri

Vinícius de Moraes

Aquilo que eu ouso
Não é o que quero
Eu quero o repouso
Do que não espero.

Não quero o que tenho
Pelo que custou
Não sei de onde venho
Sei para onde vou.

Homem, sou a fera
Poeta, sou um louco
Amante, sou pai.

Vida, quem me dera...
Amor, dura pouco...
Poesia, ai!...

13.10.09

Depois que você me mandou limpar os óculos
Tati Bernardi

A mesa rodava, as luzes insistiam, os barulhos iam cessando como um prêmio e as pessoas tentavam me aquecer. Eu sabia que estava sendo amada, talvez como nunca em toda a minha vida. Mas só tinha olhos para os pêlos do seu braço. Eu olhava como quem não olha e me dizia baixinho: olha eles lá, olha lá os pêlos que eu tanto amo sem mais e sem fim.
Matei finalmente a saudade do seu dedão. Seu dedão meio largo, meio torto, com a unha que preenche todo o dedão. Eu amo o seu dedão, amo sua unha meio roxa, amo a semicircunferência branca que sai da sua cutícula e vai até o meio da sua unha, amo a sua mão delicada que sai de um braço firme. Amo que os pêlos da sua mão pareçam meio penteados de lado.
É isso, sei lá, mas acho que amo você. Amo de todas as maneiras possíveis. Sem pressa, como se só saber que você existe já me bastasse. Sem peito, como se só existisse você no mundo e eu pudesse morrer sem o seu ar. Sem idade, porque a mesma vontade que eu tenho de te comer no banheiro eu tenho de passear de mãos dadas com você empurrando nossos bisnetos.
E por fim te amo até sem amor, como se isso tudo fosse tão grande, tão grande, tão absurdo, que quase não é. Eu te amo de um jeito tão impossível que é como se eu nem te amasse. E aí eu desencano desse amor, de tanto que eu encano.
Ninguém acredita na gente: nenhum cartomante, nenhum pai-de-santo, nenhuma terapeuta, nenhum parente, nenhum amigo, nenhum e-mail, nenhuma mensagem de texto, nenhum rastro, nenhuma reza, nenhuma fofoca e, principalmente (ou infelizmente): nem você.
Mas eu te amo também do jeito mais óbvio de todos: eu te amo burra. Estúpida. Cega. E eu acredito na gente. Eu acredito que ainda vou voltar a pisar naqueles cocôs da sua rua, naquelas pocinhas da sua rua, naquelas florzinhas amarelas da sua rua, naquele cheiro de família bacana e limpinha da sua rua. Como eu queria dobrar aquela esquininha com você, de mãos dadas com os pêlos penteados de lado da sua mão.
Outro dia me peguei pensando que entre dobrar aquela esquininha da sua rua e ganhar na mega-sena acumulada, eu preferia a esquininha. A esquininha que você dobrou quando saiu da casa dos seus pais, a esquininha que você dobrou chorando, porque é mesmo o cúmulo alguém não te amar. A esquininha que você dobrou a vida inteira, indo para a faculdade, para a casa dos seus amigos, para a praia. Eu amo a sua esquininha, eu amo a sua vida e eu amo tudo o que é seu.
Amo você, mesmo sem você me amar. Amo seus rompantes em me devorar com os olhos e amo o nada que sempre vem depois disso. Amo seu nada, apenas porque o seu nada também é seu.
Amo tanto, tanto, tanto, que te deixo em paz. Deixo você se virando sozinho, se dobrando sozinho. Virando e dobrando a sua esquininha. Afinal, por ela você também passou quando não me quis mais, quando não quis mais a minha mão pequena querendo ser embalsamada eternamente ao seu lado.

9.10.09

Nada disfarça o apuro do amor
Ana Cristina Cesar

Um carro em ré. Memória de água em movimento. Beijo.
Gosto particular da tua boca. Último trem subindo ao
céu.
Aguço o ouvido.
Os aparelhos que só fazem som ocupam o lugar
clandestino da felicidade.
Preciso me atar ao velame com as próprias mãos.
Sirgar.
Daqui ao fundo do horto florestal ouço coisas que
nunca ouvi, pássaros que gemem.

8.10.09

É meu.
... and I owe it all to you.

(minha irmã vai amar este post, aposto).

6.10.09

A prova de que ele faz qualquer coisa ficar sexy. Até "Poker Face", da Lady Gaga (quem?).

Súplica

Miguel Torga

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

4.10.09

Devagar com a louça que eu conheço a moça,
vai devagar.
E eu conheço a moça, devagar com a louça,
vai, pra não errar.

Devagar com a louça, Elza Soares.

1.10.09

La luz del lenguaje me cubre como una música.

Alejandra Pizarnik (descobri há pouco e estou apaixonada por ela).



A rede
Lenine

Nenhum aquário é maior do que o mar, mas o mar espelhado em seus olhos
Maior, me causa um efeito de concha no ouvido, barulho de mar
Pipoco de onda, ribombo de espuma e sal.
Nenhuma taça me mata a sede, mas o sarrabulho me embriaga, mergulho na onda vaga
eu caio na rede, não tem quem não caia.

Às vezes eu penso que sai dos teus olhos o feixe de raio que controla a onda cerebral do peixe

Nenhuma rede é maior do que o mar, nem quando ultrapassa o tamanho da Terra
Nem quando ela acerta, nem quando ela erra, nem quando ela envolve todo o planeta
Explode, devolve pro seu olhar o tanto de tudo que eu tô pra te dar
Se a rede é maior do que o meu amor não tem quem me prove

Às vezes eu penso que sai dos teus olhos o feixe de raio que controla a onda cerebral do peixe

Se a rede é maior do que o meu amor não tem quem me prove
Eu caio na rede, não tem quem não caia.
Retrato breve do adolescente
Carlos Pena Filho

Aos dez anos, tinha apenas
um catecismo discreto
e os olhos presos nas alvas
e nudas formas do teto.
Às vezes, em dias claros,
em tardes de sol concreto
retirava os olhos mudos
das alvas formas do teto,
sonhara tempos e navios,
mas seu sonho predileto
estava nos negros olhos
que habitavam seu afeto
e que ele há tanto buscava
longe das formas do teto.

Um dia, a chuva imprevista
que às vezes sai do verão
dormiu sobre o seu telhado
mostrou-lhe a imaginação,
tempo em que foi visitado
seu humilde coração
por Isa, Rosa e uma vaga
Maria da Conceição
e aquele mais do que nunca
herói do sonhar em vão
foi dormir com todas elas
nas curvas da própria mão.

Num dia de aniversário
usou (a primeira vez)
solenes calças compridas,
gravata alegre. Era o mês
em que nos campos mais frios
e em outros campos, talvez,
inauguravam-se as rosas
imitando a quem as fez
e aquele mais do que nunca,
latino por sua tez,
apascentou em silêncio
as coisas que nunca fez.

Depois, a moça morena
que em sua rua morava,
embora sendo tão pouco
para quem tanto aguardava,
mostrou-lhe: o esperar é vão.

E veio o beijo roubado
na penumbra do portão.
Enfim, na noite mais forte
que houvera em todo o verão
ambos foram dormir juntos
aquém das curvas da mão.

Aos dezoito olhou pra trás:
perdera-se todo o afeto.
Olhou para a frente e viu
o nada por objeto.
Olhou pra cima e sorriu
das alvas formas do teto.