26.12.09

Mariana Clark

eu sou a menina mais feliz do mundo
sério mesmo
fizeram uma pesquisa
uma pesquisa com todas as meninas do mundo
não passou na sua cidade
porque só foi nas cidades grandes e realmente importantes
não briga comigo, não fui eu quem inventei a pesquisa
e mediram a felicidade por um termometro
um que coloca no ouvido
e a medição é por cores
eu fiquei quase empatada com uma menina do japão
a yoko
mas a namorada da yoko não tem os olhos azuis cintilantes como os seus
pelo contrário
é até um pouco vesga
que me desculpem os vesgos
mas a yoko gosta dela mesmo assim
enfim
eu sou a primeira
a mais feliz
e a yoko é a segunda
Embora eu adore as palavras, o silêncio me faz bem.
Adeus
Eugenio de Andrade

já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
gastámos tudo menos o silêncio.
gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava!
acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos eram peixes verdes.

hoje são apenas os teus olhos.
é pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

já gastámos as palavras.
quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

e, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

não temos nada que dar.
dentro de ti
não há nada que me peça água.
o passado é inútil como um trapo.
e já te disse: as palavras estão gastas.

adeus.

Da vez primeira em que me assassinaram

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...

Depois, de cada vez que me mataram

Foram levando qualquer coisa minha...

E hoje, dos meus cadáveres, eu sou

O mais desnudo, o que não tem mais nada...

Arde um toco de vela, amarelada...

Como o único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!

Ah! Desta mão, avaramente adunca,

Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!

Que a luz, trêmula e triste como um ai,

A luz do morto não se apaga nunca!

Mario Quintana

Tão cedo passa tudo quando passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Ricardo Reis

18.12.09


e tem outra coisa também
que quando você anda na rua
vai caindo uma chuvinha de petalas invisiveis
apesar de invisiveis
elas são laranjinha
sabe?
da cor de laranja quando começa a amadurecer
e então..
elas vão fazendo gracinha ao seu redor
flutuando, te cobrindo toda
forrando o chão para você pisar
e..às vezes
e isso é realmente impressionante
às vezes toca uma musiquinha também ao fundo
e até os passarinhos
e isso é verdade mesmo
não to inventando
até os passarinhos vão tipo assim
cantando, baixinho, junto
e todo o mundo, todinho..
vai ficando um lugar mais colorido
e bonitinho
só porque você tá passando
Passei no doutorado.

Só por hoje, eu estou me achando.

14.12.09

Ainda não é o fim

Thiago de Mello

Escondo o medo e avanço. Devagar.

Ainda não é o fim. É bom andar,

mesmo de pernas bambas. Entre os álamos,

no vento anoitecido, ouço de novo

(com os mesmos ouvidos que escutaram

“Mata aqui mesmo?”) um riso de menina.

Estou quase canção, não vou morrer

agora, de mim mesmo, mal livrado

de recente e total morte de fogo.

A vida me reclama: a moça nua

me chama da janela, e nunca mais

me lembrarei sequer dos olhos dela.

Posso seguir andando como um homem

entre rosas e pombos e cabelos

que em prazo certo me devolverão

ao sonho que me queima o coração.

Muito perdi, mas amo o que sobrou.

Alguma dor, pungindo cristalina,

alguma estrela, um rosto de campina.

Com o que sobrou, avanço, devagar.

Se avançar é saber, lâmina ardendo

na flor do cerebelo, porque foi

que a alegria, a alegria começando

a se abrir, de repente teve fim.

Mas que avançar no chão ferido seja

também saber o que fazer de mim.

O sorriso

Eugênio Andrade

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Toda segunda-feira era dia de Stael. Na verdade, toda segunda, quarta e sexta eram dia de Stael. Mas segunda-feira era o dia de nós duas. Eu ficava em casa até o fim da tarde, e a gente falava banalidades enquanto cada uma fazia seu serviço - eu no computador, ela arrumando a casa. Ela pegava folhinhas na horta e fazia o chá que a gente tomava junto - eu sentada na mesa, ela encostada no móvel da cozinha. Na hora do almoço, eu cozinhava pra gente e ela achava tudo uma delícia - mesmo eu sendo a pior cozinheira de que se tem notícia. E ela lavava a louça depois, cantarolando uma musiquinha que eu não conhecia, mas que era sempre a mesma. Era a musiquinha da Stael. O jeitinho da Stael. O carinho que ela me fazia ao longo do dia, "ôoo Dri, trouxe um lanche porque saco vazio não pára em pé e você trabalha muito".
Eu sempre disse que não era só da minha casa que ela cuidava. Ela cuidava de mim.
A Stael não vai chegar hoje, não vai chegar mais. E eu insisto em tentar lembrar da musiquinha pra cantarolar enquanto lavo, eu mesma, meu prato, chorando uma saudade pontuda que vai custar muito a passar.

9.12.09

Campo de sucatas
Paulo Leminski

Saudade do futuro que não houve
aquele que ia ser nobre e pobre
como é que tudo aquilo pôde
virar esse presente podre
e esse desespero em lata?

pôde sim pôde como pode
tudo aquilo que a gente sempre deixou poder
tanta surpresa pressentida
morrer presa na garganta ferida
raciocínio que acabou em reza
festa que hoje a gente enterra

pode sim pode sempre como toda coisa nossa
que a gente apenas deixa poder que possa

8.12.09

Saudade de ter tempo pra postar.
Férias em breve.

Uma bobinha, gostosa e velha enquanto as coisas estão apertadas por aqui:

"Maybe get rid of you and then I'll get back to me".
Unpretty, TLC.

3.12.09

A falta que ama

Carlos Drummond de Andrade

Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.

Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.

A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.

Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se, inteira,
em letras de conclusão.

Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?

O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.

No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É a falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?

Juan Felipe Rubio, da série “Escena de amor entre pareja anónima”.

1.12.09



Todo o sentimento (Cristóvão Bastos - Chico Buarque)

Preciso não dormir até se consumar o tempo da gente. Preciso conduzir um tempo de te amar, te amando devagar e urgentemente. Pretendo descobrir no último momento um tempo que refaz o que desfez, que recolhe todo o sentimento e bota no corpo uma outra vez.

Prometo te querer até o amor cair doente. Prefiro então partir a tempo de poder a gente se desvencilhar da gente. Depois de te perder, te encontro, com certeza, talvez num tempo da delicadeza, onde não diremos nada, nada aconteceu, apenas seguirei, como encantado, ao lado teu.

Limites do amor

Affonso Romano de Sant'Anna

Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.
Ele quis morrer para arrasar a morte e voltar.

Roubei de algum lugar que eu não lembro mais.

25.11.09

Desencontrários
Paulo Leminski

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.
Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.

Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

Nunca sei ao certo
se sou um menino de dúvidas
ou um homem de fé
certezas o vento leva
só dúvidas ficam de pé.

No aeroporto, indo pro Encontro Americano de Psicanálise, com minha analista ao lado.

Eu nunca faria análise com uma psicanalista que não ri.
Delicadeza - esse é o traço, definitivamente.

21.11.09

Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui

Paulo Leminski

18.11.09

A rua

Cassiano Ricardo

Bem sei que, muitas vezes,

O único remédio

É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,

A dívida, o divertimento,

O pedido de emprego, ou a própria alegria.

A esperança é também uma forma

De continuo adiamento.

Sei que é preciso prestigiar a esperança,

Numa sala de espera.

Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,

Esperança sentada.

Não abdicação diante da vida.

A esperança

Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.

Nunca é figura de mulher

Do quadro antigo.

Sentada, dando milho aos pombos.

A Bebel foi adotada. E vai ser feliz pra sempre.

17.11.09


Do blog do Fer. Ajudem a Bebel!


Meu irmão mais velho tem o coração bem maior do que a cabeça. Sempre foi assim: incapaz de negar um favor mesmo quando todas as condições justificariam uma simpática resposta negativa.
.
Há cerca de dois meses, quando saía do trabalho, percebeu uma pequena cadela parada em frente à porta do seu carro: sem pelo, bem machucada, com a pata quebrada e muito assustada. Com medo de se deparar, mais uma vez, com sua incapacidade de dizer não, ele voltou para o escritório e tentou esperar um pouco, na expectativa de que alguém resolvesse o problema da cadela antes que ele voltasse para o carro.
.
Alguns minutos depois, ela continuava no mesmo lugar, nas mesmas condições. E dessa vez, como era de se esperar, ele não disse não... Os próximos passos foram uma internação em um hospital veterinário, uma conta astronômica e, quase cinquenta dias depois, uma cadela muito simpática, carinhosa e agradecida, que recebeu o nome de Bebel.
.
Ela já está em ótimas condições de saúde, com uma carinha muito agradável e um temperamento dócil. A patinha quebrada, como explicou o veterinário, aconteceu em um episódio anterior e foi calcificada incorretamente. Por esse motivo, Bebel manca um pouco, mas consegue andar e correr normalmente.
.
Como ela é bem pequena e não late, acho que viveria muito bem - e feliz! - num apartamento. Ah, e vale dizer também que quando foi encontrada, ela usava coleira com telefone... Meu irmão ligou para o número e descobriu que a família havia se mudado e abandonado a Bebel na rua - fato que me gera ódio, mas isso é outra conversa e não tem nada a ver com uma cadelinha feliz e recuperada procurando residência!
.
É isso... Quem puder ajudar a divulgar ou, principalmente, quem gostar da idéia de ficar com a Bebel, estou à disposição para dar mais informações.

16.11.09

Não tenho postado porque um projeto de doutorado está levando todos os meus neurônios.
Gastemos, portanto (e só por enquanto), os hormônios.


Contribuição da Andréa, leitora querida deste blog - que volta em breve à programação normal.

6.11.09

O que se diz ao editor a propósito de poemas
João Cabral de Melo Neto

Eis mais um livro (fio que o último)
de um incurável pernambucano;
se programam ainda publicá-lo,
digam-me, que com pouco o embalsamo.

E preciso logo enbalsamá-lo:
enquanto ele me conviva, vivo,
está sujeito a cortes, enxertos:
terminará amputado do fígado,

terminará ganhando outro pâncreas;
e se o pulmão não pode outro estilo
(esta dicção de tosse e gagueira),
me esgota, vivo em mim, livro-umbigo.

Poema nenhum se autonomiza
no primeiro ditar-se, esboçado,
nem no construí-lo, nem no passar-se
a limpo do datilografá-lo.

Um poema é o que há de mais instável:
ele se multiplica e divide,
se pratica as quatro operações
enquanto em nós e de nós existe.

Um poema é sempre, como um câncer:
que química, cobalto, indivíduo
parou os pés desse potro solto?
Só o mumificá-lo, pô-lo em livro.

5.11.09

Mesmo sendo errados os amantes seus amores serão bons.


Choro Bandido (Chico Buarque e Edu Lobo)

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu serão bonitas, não importa, são bonitas as canções. Mesmo miseráveis os poetas os seus versos serão bons. Mesmo porque as notas eram surdas quando um deus sonso e ladrão fez das tripas a primeira lira que animou todos os sons. E daí nasceram as baladas e os arroubos de bandidos como eu cantando assim: você nasceu para mim, você nasceu para mim.

Mesmo que você feche os ouvidos e as janelas do vestido minha musa vai cair em tentação. Mesmo porque estou falando grego com sua imaginação. Mesmo que você fuja de mim por labirintos e alçapões saiba que os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão. E eis que, menos sábios do que antes, os seus lábios ofegantes hão de se entregar assim: me leve até o fim, me leve até o fim.

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso são bonitas, não importa, são bonitas as canções.
Mesmo sendo errados os amantes seus amores serão bons.

2.11.09

Eu: se você quiser, eu posso fazer comida. Um arroz... uma abobrinha... uma batata...
Fer: Uma Thurman...

1.11.09

Tom Jobim, versão Pixar - a foto é do Fer, mas ficou com cara de animação.

Eu: Fer, você não pode ficar tão chato só porque seu time perdeu na semana passada. Hoje tem outro jogo, você não vai mais assistir nada do Atlético?
Ele: Dri, não sei. Meu coração tá uma bagunça.
Desvio a atenção por um segundo da conversa da minha mesa no bar. Volto a escutar no momento surreal em que a Caroli, com aquela candura toda, profere a frase: "ah, eu já invadi propriedades privadas...".
Adoecer de nós a Natureza:
- Botar aflição nas pedras
(Como fez Rodin).

Manoel de Barros.


Roubado do blog da C4.

Sobre elesRita Apoena

Ela afundou o corpo nele o mais que pôde, como se assim pudesse aprisionar um instante, como se assim pudesse aprisionar o amor. E ele, querendo as respostas que a vida não lhe entrega e que só uma mulher é capaz de abrigar dentro de si, puxou os seus quadris com a ânsia de escorregar para dentro dela e ali ficar. Só uma fêmea é capaz de dividir-se assim ao meio: a metade de baixo a sobrepor-se forte, desfalecendo as resistências do macho e a de cima a ampará-lo doce, beijando e acarinhando os medos de um filhote.


(roubei da minha irmã)

Tenho vergonha de estender o braço
para chamar o táxi
tenho medo que ele me veja
tenho medo que ele me veja
e ainda assim
não pare.

Ana Cristina César

Esse texto é da Mari Clark, mas agora é um pouco meu também, porque ela me deu dizendo assim:

Dri, quando lhe mostrei esse texto, você me pediu para postá-lo e eu não deixei. Hoje, eu dou ele de presente para você e para o Blog da Dri. É só porque fica muito mais bonito quando passa por você.

Luisa
Mariana Clark

Luisa foi e Luisa voltou tantas vezes em minha cabeça desde aquele dia em que lhe pedi que nunca mais falasse comigo ou me mandasse qualquer coisa mesmo que fossem sinais de fumaça. Não quero perder o tempo de minha vida com você, Luisa, ou que ache que sou capaz de ser um pouco melhor, mais calmo ou mesmo que eu finja ser um adulto. Me irritou profundamente toda essa enrolação para não chegar a lugar nenhum e pode deixar que vou te mandar a conta dos meus três minutos perdidos que nunca terei de volta. Gostaria de falar sobre política, a situação anda catastrófica. Nem sinal de melhoria nas estradas, as federais e as que me levam até você. É difícil governar tamanha situação em que nos perdemos e procuramos nos achar em lugares em que já tivemos mas não estamos mais. Por mais que eu diga essas palavras duras e que Luisa ache tarifa mais barata em outras pessoas, alguém quem sabe que ache isso tudo uma primavera ou mesmo que no inverno uma primavera. Não sou assim, nunca fui fácil, sempre fingi ser coisas que não era. Eu e todas as outras pessoas, obviamente, mas poucas o admitem. E ainda me acho melhor do que os outros por isso, por ter esse gênio difícil, essas palavras duras. Enfim, que Luisa tenha ido e voltado várias vezes e eu tenha a pedido em casamento e depois jogado suas roupas pela janela, ela me chamando de intratável, eu concordando. Coisa mais triste. Eu concordando. E assim, nos odiando nos mesmos lugares em que antes nos amando. E eu agora, sozinho, escrevendo. Eu sozinho escrevendo. Olhando pela janela, confundindo as nuvens com sinais de fumaça. E as gaivotas que, juro, antes não estavam lá.

Construção da noite
Carlos Nejar

No casulo há um homem
mas o fundo é o outro lado.
No casulo de seu tempo há um homem,
mas o fundo é o outro lado.
É o casulo onde o homem foi achado,
mas o fundo é o outro lado.
É o terreno onde o homem foi lavrado,
mas o fundo é o outro lado.
É a treva onde o homem foi fechado,
mas o fundo é o outro lado.
É o silêncio de um homem soterrado,
mas o fundo é o outro lado.
Mas o fundo é o outro lado.

É a infância que nasce sobre o morto,
é a infância que cresce sobre o morto,
é o sol que madruga no seu rosto,
é um homem que salta do sol posto
e convoca outros homens para o sonho
e mistura-se à terra
e mistura-se ao sonho.

E o canto recomeça além do sonho,
além da escuridão, além do lago.
Mas o fundo é o outro lado,
mas o fundo principia sem passado,
sem os montes, sem os barcos, sem o lago.

Tua vida verdadeira é o outro lado.
Tua terra verdadeira é o outro lado.
Tua herança verdadeira é o outro lado.

Tudo cessa.
Tudo cessa,
tudo cessa.
Mas o mundo
é o outro lado
que começa.

29.10.09


A mulher existe. O nome dela é Dita Von Teese.

28.10.09

Saudades do Rio antigo
Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada.
Lá o rei não será deposto
E lá sou amigo do rei.
Aqui eu não sou feliz
A vida está cada vez
Mais cara, e a menor besteira
Nos custa os olhos da cara.
O trânsito é uma miséria:
Sair a pé pelas ruas
Desta capital cidade
É quase temeridade.
E eu não tenho cadilac
Para em vez de atropelado,
Atropelar sem piedade
Meus pedestres semelhantes.
Oh! que saudades que eu tenho
Do Rio como era dantes!
O Rio que tinha apenas
Quinhentos mil habitantes.
O Rio que conheci
Quando vim para cá menino:
Meu velho Rio gostoso,
Cujos dias revivi
Lendo deliciosamente
O livro de Coaraci.
Cidade onde, rico ou pobre
Dava gosto se viver.
Hoje ninguém está contente.
Hoje, meu Deus, todo mundo
Traz na boca a cinza amarga
Da frustração...
Minha gente,
Vou-me embora pra Pasárgada.

25.10.09

Fernando Pessoa

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje já é outro dia.

22.10.09

Do blog da Marcela.

Google Talk também é poesia

- e a vida?
- a vida é muito grande. posso falar do dia.
Meu lado "big band" ama essa música - e a Mari sabe.



The way you look tonight
Tony Bennett

Someday, when I'm awfully low, when the world is cold
I will feel a glow just thinking of you and the way you look tonight

You're so lovely, with your smile so warm and your cheeks so soft
There is nothing for me but to love you and the way you look tonight

With each word your tenderness grows tearing my fears apart
And that laugh that wrinkles your nose touches my foolish heart

You're lovely, never ever change, keep that breathless charm
Won't you please arrange it?
'Cause I love you just the way you look tonight

Presente da Mari. Adoro - ela e ele.

A desconsoladora
Murilo Mendes

Mulher, eu te procuro continuamente. É mais fácil achar Deus do que te achar.

Tenho por ti uma grande atração e repulsão - ao mesmo tempo.

Eu, adormeço com teu amor e deperto com o ódio a ti. E te destruo e te construo a todo o instante.

Hás de me perseguir até a imortalidade. A paz da mulher não é a paz de Deus.

A mulher não é o amor. A poesia é o amor. A poesia da ausência da mulher
é equivalente à poesia da posse da mulher.