30.8.07

Carlos Drummond de Andrade

A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único.
O sexo desprendera-se de sua fundação, errante imprimia-nos seus traços de cobre. Eu, ela, elaeu.
Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.
A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor.
Camões

Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só com vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
Mas eu, por de vantagem merecê-los,
Dei mais a vida e a alma por querê-los,
Donde já me não fica mais de resto.

Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, tudo é vosso,
E o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
O dar-vos quanto tenho e quanto posso,
Que quanto mais vos pago, mais vos devo.

29.8.07

As coisas
Arnaldo Antunes

As coisas têm peso,
massa,
volume,
tamanho,
tempo,
forma,
cor,
posição,
textura,
duração,
densidade,
cheiro,
valor,
consistência,
profundidade,
contorno,
temperatura,
função,
aparência,
preço,
destino,
idade,
sentido.
As coisas não têm paz.

28.8.07

O que mais enfurece o vento são esses poetas invertebrados que o fazem rimar com lamento.

Mário Quintana
Ana Cristina Cesar

Pergunto aqui se sou louca

Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina

E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor

27.8.07

Alice Ruiz

já não temo fantasmas

invoco a todos
que venham em bando
povoar meus dias
atormentar minhas noites

entre tantos
loucos e livres
existe um
que é doce
e que me falta

23.8.07

Aldir Blanc

A mulher e o toureiro
têm em comum o cheiro
de sangue no esmero da roupa
têm em comum a graça
com que transpassam
a besta com a capa e a espada
têm em comum o estro
poético do gesto antes da
morte, os olhos de martírio
o homem-fera
babuja a bainha da Valquíria
quando
o infinito
lavra no lacre
seu sinete:
a besta expira, atônita
diante da verônica
de Manolete

22.8.07

Carta aos mortos
Affonso Romano de Sant’Anna

Amigos, nada mudou

em essência.

Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há recordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera
chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.

Nada mudou em essência.

Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração , insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história.

21.8.07

Confeito
Adélia Prado

Quero comer bolo de noiva, puro açúcar, puro amor carnal
disfarçado de corações e sininhos:
um branco, outro cor-de-rosa,
um branco, outro cor-de-rosa.

20.8.07

O inferno é ser fodona
do site 02 neurônio

Este site é escrito por três mulheres fodonas. Sabe como é. A gente se vira sozinha, mano. Temos reuniões duras de negócios e colocamos o pau na mesa. Depois choramos, claro. Mas tomamos sozinhas o nosso banho quente e nosso calmante (seja ele qual for) depois e vamos em frente. Sabemos trocar a lâmpada. Tentamos arrumar sozinha nossos computadores. Quando não conseguimos, temos o telefone do homem do suporte e dinheiro para pagá-lo.
Nós, as fodonas, não temos muitos ataques de ciúme, porque já fizemos muitos anos de análise, sabe como é. Por isso, entendemos que o problema dos outros é dos outros. Aprendemos a segurar a nossa onda e sofremos de ciúme um pouco. Sem compartilhar com o objeto do ciúme.
Sim, porque as fodonas descobrem um dia que não é preciso falar tudo para o pretê, que a vida é nossa mesmo e que a gente está sozinha nessas.
A gente é fodona. E fodona chora muito, mas ninguém nem vê, nem precisa ver. Porque quando a gente chora a gente se esconde.
Depois de um ataque de choro na frente de um pretê a fodona decide não chorar mais na frente dele, porque talvez ele não entenda. Fodona sabe que melhor chorar na cama, que é lugar quente.
Fodona compra sozinha o próprio carro. Escolhe sozinha o próprio apartamento, o próprio médico, os amigos.
Fodona tem muitos amigos, mas não é amiga de qualquer um, sabe como é. Fodona geralmente é amiga de fodona. Fodona diz eu te amo para a outra fodona pelo telefone. Porque talvez só elas saibam o quanto é um saco ser fodona.
Principalmente quando o mundo é cheio de não fodonas que conseguem mais atenção e mais carinho.
Ser fodona e compreensiva é uma merda.

15.8.07

Insuportável, bancando a musa.
(foto tirada pelo Fer, ex-trompetista, atual fotógrafo e futuro sabe-se lá o que vem depois)

14.8.07

Sobre as fêmeas...
De Xico Sá.

A fêmea é mesmo um jogo de advinhação. Governar bem um desses seres colossais passa sobretudo pela nossa capacidade de correr à frente dos seus desejos. E realizá-los a contento. O macho que consegue a tal façanha se consagra para sempre no coração da sua Carmencita amada.
Todas as fêmeas são naturalmente parecidas com aquela personagem do filme O Piano – não falam e querem que a gente cumpra todas as funções, todos os trabalhos de Hércules,que a gente adivinhe e seja o senhor de todas as demandas. Precisamos adivinhar mesmo, à vera, todas as horas. Se elas querem sexo naquela momento, se o sexo deve ser delicado ou mais selvagem, se está na hora de puxarmos os seus cabelos, se querem apenas um cafuné enquanto vêem Almodóvar ou nada mais... correr à floresta, cortar lenha e pôr à beira do fogão antes que venha a tempestade.Homem sensível e lenhador ao mesmo tempo. Adivinhar onde quer ser tocada e também a hora da chuva. Isso é o que querem as mulheres. O que implica o mais completo domínio de uma arte que junta conhecimento tântrico com a meteorologia.
Preocupado com os meus párias, iniciei o esboço do Pequeno Manual de Adivinhação e Encorajamento do Macho Diante do Silêncio da Fêmea e Outros Hiatos Perturbadores, do qual subtraí os verbetes que seguem:
Fêmea sacudindo o vasto cabelo loiro - Esqueça esse tal de Marcel Proust, meu amigo, antes que ela confunda com outro personagem do mundo da velocidade e diga que preferia o Ayrton Senna. Corra em busca do tempo perdido e atraque no motel com cascata e teto para as estrelas mais próximo.
Fêmea sacudindo o cabelo castanho ou preto – Também quer sexo, mas adora falar antes sobre a personalidade de peixes-com-peixes, peixes-com-sagitário, peixes-com-virgem, numerologia, Caminho de Santiago, Paulo Coelho, búzios, cristais, a cura pelo vento...Fêmea em mostra de filme francês – Diga à gazela, assim bem brega: "Se o Truffaut a tivesse te conhecido, Bertrand, o Homem que Amava as Mulheres, teria final feliz – e seria contigo".
Fêma silenciosa no café da manhã – Espera que ela consuma todo o líquido. Mire o fundo da xícara e arrisque uma leitura árabe da borra de café. Só assim será possível descobrir a demanda - um cânion de desejos não-cumpridos - provocada ao longo do tempo pela nossa incompetência caramelada de testosterona.
Fêmea sentada na cama mirando o guarda-roupa – Ela vai experimentar um, dois, três vestidos; quatro, cinco saias; uma dúzia de blusas com calças tantas... tops, miniblusas, saia-envelope... Quando atingir o desespero, na tentativa do tubinho preto, pegue-a pelo braço, corra ao shopping mais próximo e realize o seu sonho de "Uma Linda Mulher".
Fêmea no teste do biquíni – Ao perceber que ela ficou incomodada ao sentar pela primeira vez na areia daquele verão, não adianta nem mesmo a mais derramada e lírica das declarações de amor. Mesmo que você não saiba sequer a diferença entre estria e celulite, mesmo que prefira uma "botterinha", não adianta convencê-la. Nada vai adiantar, nehum adjetivo é capaz de derretê-la, mesmo com aquele sol todo, nobilíssimo macho. Melhor presenteá-la com uma temporada de alcachofras num bucólico spa das redondenzas.
Copiei do Legally Normal, que copiou de outro lugar.

"... and then she told me that when life gets you lemons you have to make lemonade. i've always wanted to know who came up with that expression. and not because i ever thought it sounded cool. but she said this about life and i thought, you know what, fuck that. just because life gives you lemons, doesn't mean you have to accept the lemons. it doesn't mean you have to take them. and you sure as hell don't have to make lemonade just because everyone else is making lemonade. i thought, if life really gave me lemons, i'd throw them back and say, keep your fucking lemons. and then i'd go find me some oranges."
A Casa Materna
Vinícius de Moraes

Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se encontra num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias, que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste.

É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em preces, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas careciam sonhar.

A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta, de cujo teto à noite pende uma luz morta, com negras aberturas para os quartos cheios de sombra. Na estante junto à escada há um Tesouro da juventude com o dorso puído de tato e de tempo. Foi ali que o olhar filial primeiro viu a forma gráfica de algo que passaria a ser para ele a forma suprema da beleza: o verso.

Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado, ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoitos de araruta - pois não há lugar mais propício do que a casa materna para uma boa ceia noturna. E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima ficam os guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna, sabe porque queima às vezes uma vela votiva. E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia.

A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como que se marca ainda na velha poltrona da sala e como que se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre de sua casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se fazem mais lentas e as mãos filiais ainda mais unidas em torno à grande mesa, onde já agora vibram também vozes infantis.

12.8.07

Diário de uma paixão
Ulisses Tavares

(...)

II
Foi em Trindade nossa
Primeira lua-de-mel.
Com falta de vaga no hotel,
Cerveja cara e tudo
Pela primeira vez
Nem sentimos os borrachudos.

III
Já consigo olhar para você
E encontrar defeito.
Uma espinha a mais na bunda,
Um riso alto onde habitava o silêncio,
Algo que não era o seu jeito.
E temo nesses momentos
Que minha paixão vire amor
E depois amizade,
Nobres sentimentos
Mas muitos próximos da realidade.

IV
Nossa primeira briga.
Te odeio, até nunca mais,
Fico melhor sem você.
Cada um usando seu aprendizado
Para fugir da dor
O macho afogando na bebida
A fêmea nos braços das amigas.
Ate o desejo queimar o orgulho,
Esse sentir quase em vão,
De dizer que fora você o resto é bagulho,
E os dois brigando de novo
Querendo ser o primeiro a pedir perdão.

(...)
VI
Vou ser um grande cara
Se conseguir levantar da cama
E encarar de frente meus planos
Meus objetivos minha ambição.
Mas você é um detalhe grande demais
Quase acordada do meu lado
Para ser ignorada.
Se conseguir preparar nosso café da manhã
Trazer e cair de novo em seus braços
Já vou ser um sucesso
Mesmo sendo no ibope do mundo
Só um traço.

(...)
IX
Você me disse: preciso
Cuidar de mim agora
e mais um pouco.
O que ouvi soa como:
Recuperei minha razão, meu siso,
Vou ficar longe desse louco.

X
Terminado. Acabou. Já era.
O que fui, o que fomos,
Fica de stand by, na espera.
Cada coisa passa a ser somente
O que sempre foi, separada, domus.
Triângulos, quadrados, o que foi esfera.

(...)
XII
Paixão não tem fim nem preço
O sentir sempre por um triz
Não se pode esperar mesmo
um final feliz
No máximo voltar a mim,
Voltar ao começo.
William Shakespeare

Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:
Sometime too hot in the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed;
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature's changing course untrimmed;
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou owest,
Nor shall death brag thou wanderst in his shade,
When in eternal lines to time thou growest;
So long as men can breathe, or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.

11.8.07

Paulo Leminski

A tese segunda
Evapora em pergunta
Que entrega é tão louca
Que toda espera é pouca
Qual dos cinco mil sentidos
Está livre de mal-entendidos?

10.8.07

Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,
já não se achará doce minha dor a teu lado.

Mas por onde eu caminhe levarei teu olhar
e para onde tu fores levarás minha dor.

Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos
um desvio na rota por onde amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,
do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.

Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

...Desde teu coração diz adeus um menino.
E eu lhe digo adeus.

Pablo Neruda

8.8.07

Ao coração que sofre - XXX
Olavo Bilac


Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a terra pelo céu trocar;

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza,
Ficar na terra e humanamente amar.

7.8.07

Não tenho paciência nenhuma com o Dida aqui de casa, mas dei um abraço apertado nele depois que li este texto:

Ao Igor com amor - O melhor do ser humano
Millôr Fernandes


Magri andou perto, mas não tinha razão total quando afirmou que o cão é um ser humano como outro qualquer. Na afetividade e na lealdade o cão é muito mais do que qualquer ser humano. Igor, poodle de minha filha Paula, conseqüentemente meu, é uma paixão feita de ternura densa e permanente. Sem querer nada em troca, a não ser carinho, conversa e, mais do que tudo, presença. Seus olhos dizem sempre: "Por favor, não me deixa. Nem um minuto. Não sei viver sem você”.
Logo depois que ganhamos o Toy poodle, olhando para ele um dia, e sabendo que cada ano da minha vida corresponde a aproximadamente sete da dele, veio-me incontida angústia: "Céus!, se eu viver mais dez anos, esse cão, essa graça, será mais velho do que eu".
Urich Klever, zoólogo especializado em, e apaixonado por, cães, e Monika Klever, extraordinária fotógrafa, fizeram um belo livro, ao mesmo tempo científico e amoroso, sobre 60 das espécies mais populares de cães; The Complete Book of Dog Care (Barron’s, 178 págs., U$ 12,95).
Traduzo, concordando plenamente: "As dez coisas que um cão quer de sua gente". Gente, vejam bem, não somos os donos. Somos deles, como eles são nossos.

1. Minha vida deve durar entre 10 e 15 anos. Qualquer separação de você será muito dolorosa para mim.

2. Me dê algum tempo pra entender o que você quer de mim.

3. Tenha confiança em mim – é fundamental pro meu bem-estar.

4. Não fique zangado comigo por muito tempo. E não me prenda em nenhum lugar como punição. Você tem seu trabalho, seus amigos, suas diversões. Eu só tenho você.

5. Fale comigo de vez em quando. Mesmo que eu não entenda as suas palavras, compreendo muito bem a sua voz e sinto o que você está me dizendo.

6. Esteja certo de que, seja como for que você me trate, isso ficará gravado em mim pra sempre.

7. Antes de me bater, lembre sempre que eu tenho dentes que poderiam feri-lo seriamente, dentes que eu nunca vou usar contra você.

8. Antes de me censurar por estar sendo vadio, preguiçoso ou teimoso, pergunte se não há alguma coisa me incomodando. Tavez não esteja me alimentando bem. Pode ser que eu esteja resfriado. Ou é apenas meu coração que está ficando velho e cansado.

9. Cuide bem de mim quando eu ficar velho; você também vai ficar.

10. Não se afaste de mim em meus momentos difíceis ou dolorosos. Nunca diga: "Prefiro não ver" ou "Faz quando eu não estiver presente". Tudo é mais fácil pra mim com você ao lado.
Comentários sobre os itens 1 e 5:

1) Sempre atento a que cada hora tua corresponde a sete do poodle, não esqueça que, quando você sai de casa, vai a um cinema e depois vai jantar levando sete horas nesse afastamento, para o teu solitário amigo se passaram dois dias. Bom, ainda bem que pro meu Igor existe a encantadora Natasha que fica enchendo ele o tempo todo e que, por isso, eu chamo de Nachata.

5) Deve-se falar sempre com o cão, conversar com ele o tempo todo, zombar dele, enfim, fazer com ele tudo que uma pessoa de sensibilidade e bom humor faz normalmente com as pessoas que ama. Ele entende muito mais do que qualquer Jader Barbalho desses que dirigem nosso destino.
O poodle praticamente não se interessa por outros cães. Gosta de gente e de ser o centro das atenções. O escritor austríaco Peter Scheitlen escreveu sobre ele, há um século: "É o cão mais perfeito. Tem personalidade, originalidade, jovialidade. E toda alma."

Igor, eu te amo.

6.8.07

A idade de casar
Martha Medeiros

O amor pode surgir de repente, em qualquer etapa da vida, é o que todos os livros, filmes, novelas, crônicas e poemas nos fazem crer. É a pura verdade. O amor não marca hora, surge quando menos se espera. No entanto, a sociedade cobra que todos, homens e mulheres, definam seus pares por volta dos 25 e 30 anos. É a chamada idade de casar. Faça uma enquete: a maioria das pessoas casa dentro dessa faixa etária, o que de certo modo é uma vitória, se lembrarmos que antigamente casava-se antes dos 18. Porém, não deixa de ser suspeito que tanta gente tenha encontrado o verdadeiro amor na mesma época.
O grande amor pode surgir aos 15 anos. Um sentimento forte, irracional, com chances de durar para sempre. Mas aos 15 ainda estamos estudando. Não somos independentes, não podemos alugar um imóvel, dirigir um carro, viajar sem o consentimento dos pais. Aos 15 somos inexperientes, imaturos, temos muito o que aprender. Resultado: esse grande amor poderá ser vivido com pressa e sem dedicação, e terminar pela urgência de se querer viver os outros amores que o futuro nos reserva.
O grande amor pode, por outro lado, surgir só aos 50 anos. Você aguardará por ele? Aos 50 você espera já ter feito todas as escolhas, ter viajado pelo mundo e conhecido toda espécie de gente, ter uma carreira sedimentada e histórias pra contar. Aos 50 você terá mais passado do que futuro, terá mais bagagem de vida do que sonhos de adolescente. Resultado: o grande amor poderá encontrá-lo casado e cheio de filhos, e você, acomodado, terá pouca disposição para assumí-lo e começar tudo de novo.
Entre os 25 e 30 anos, o namorado ou namorada que estiver no posto pode virar nosso grande amor por uma questão de conveniência. É a idade em que cansamos de pular de galho em galho e começamos a considerar a hipótese de formar uma família. É quando temos cada vez menos amigos solteiros. É quando começamos a ganhar um salário mais decente e nosso organismo está a ponto de bala para gerar filhos. É quando nossos pais costumam cobrar genros, noras e netos. Uma marcação cerrada que nos torna mais tolerantes com os candidatos à cônjuge e que nos faz usar a razão tanto quanto a emoção. Alguns têm a sorte de encontrar seu grande amor no momento adequado. Outros resistem às pressões sociais e não trocam seu grande amor por outros planos, vivem o que há pra ser vivido, não importa se cedo ou tarde demais. Mas grande parte da população dança conforme a música. Um pequeno amor, surgido entre os 25 e 30 anos, tem tudo para virar um grande amor. Um grande amor, surgido em outras faixas etárias, tem tudo para virar uma fantasia.