24.8.12

Rita Apoena

"Essa casquinha fez uma ponte sobre a ferida porque
feridas abertas são como abismos por dentro."

"Vivo tão intensamente o momento presente
que quase chego atrasada ao momento seguinte."

"A gente dorme de olhos fechados
que é para poder sonhar por dentro, amor." 

"Quando você vai embora de nós
o pronome parte-se ao meio
você diz que só leva o s
e o que adianta?
se comigo sobra o nó
na garganta." 

“— E você, por que desvia o olhar?
(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarrá-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)
— Ah. Porque eu sou tímida.”

“Então você acha que eu, euzinha, 
vou deixar de amar 
ou levar abraços 
ou escrever uma cartinha colorida 
ou dar um presente e ligar no meio do nada 
ou amarrar nesta árvore um laço de fita 
ou esconder poemas em sua casa 
ou desenhar um mapa na minha barriga 
ou plantar um girassol na janela 
porque você já não me ama mais? 
E o que tenho eu a ver com isso,
se você já não me ama mais?”

“Eu sou contra a pena de lixo. Sou a favor da reciclagem. Afinal, o lixo também merece uma segunda chance.”

"Ela afundou o corpo nele o mais que pôde, como se assim pudesse aprisionar um instante, como se assim pudesse aprisionar o amor. E ele, querendo as respostas que a vida não lhe entrega e que só uma mulher é capaz de abrigar dentro de si, puxou os seus quadris com a ânsia de escorregar para dentro dela e ali ficar. Só uma fêmea é capaz de dividir-se assim ao meio: a metade de baixo a sobrepor-se forte, desfalecendo as resistências do macho e a de cima a ampará-lo doce, beijando e acarinhando os medos de um filhote".

inutilidades para o amor romântico

ana guadalupe
I
não sei o que fazer com você
chinelos de dedo decorados com miçangas
pequenos morcegos de crochê

II
não sei o que fazer com você
estampa pra camiseta, caneca, capa de caderno
onde errarei uma das letras do seu sobrenome
onde você não vai anotar suas coisas
coisa nenhuma
III
não sei o que fazer com você
embora pense nisso
antes de dormir e aos domingos
que é quando há tempo sobrando
eu poderia por exemplo
só me aproximar no quinto dia útil
ou esperar nossos quarenta anos
o que seria um ato heróico
considerando a rapidez dos novos tempos
poderia também desenvolver
melhor o texto das mensagens
e caprichar no mistério
sei que você aprecia um mistério
poderia muito bem fazer uns jogos
sumir durante um tempo e voltar em julho
mentir que viajei pelo mundo
em teoria voltei com novos olhos
com horizontes que aumentaram tanto
que estouraram
te mostraria então os restos dos meus horizontes
mas antes
poderia te encaixar em tarefas mais intrigantes
como a montagem de móveis
e a culinária para principantes
o incrível papel de escovador de dentes
antes de dormir e aos domingos
quando não sei o que fazer nem comigo
e quando é de costume voltar sem resposta
ao início

Vamos perder e retomar o contato
Ana Guadalupe

vamos perder o contato?
visto que não há motivo para mantê-lo
por meio de encontros e recados
se a cada dia acordamos outro
e não vamos manter nem em sonho
nosso outro de ontem
outrora foi mais fácil
cortar os laços todos
vamos retomar e perder o contato
só no arquivo permanente do passado
o outro ficará pra sempre lacrado
prêmio que apenas antecipamos
cromo raríssimo
pacote intacto

mapa de tesouro

menino vestido de pirata
eu sei que os carnavais
têm sua graça
por isso eu respiro
engraçado
quando te vejo
sinto meus braços
acenando para
navios parados


Ana Guadalupe

daqui a pouco

depois quando não existe
depois
não existe
só o agora continua insistente
se fosse um homem ou mulher de olhos grandes
o agora telefonaria muitas vezes
até que alguém atendesse
pra que a gente se gostasse no primeiro instante
e vivesse dias inteiros estragados por detalhes
aparelhos com defeito, despencamento de cabides
um amigo inconveniente, o gênero errado de filme
alergia a pólen
alergia a cabelos

Ana Guadalupe
Diego Sanchez

Mulher

Mulher, o mais terrível e vivo dos espectros,
Por que te alimentas de mim desde o princípio?
Em ti encontro as imagens da criação:
És pássaro, és flor, pedra e onda variável...
Mais que tudo, a nuvem que volta e se consome.
Dormir, sonhar - que adianta, se tu existes?
Se fostes forma somente! és idéia também.
Ah, quando descerá sobre mim a paz antiga.

Murilo Mendes

22.8.12


"É só que eu queria te acolher, sabe, moço. Para você se sentir mais à vontade no mundo, entendido, querido, desamarrado. Então, de repente, livrar-se de um clássico pensamento: “como é difícil ser eu”. 
Carolina Assunção. Daqui.
(e eu tinha passado o fim de semana todo comentando o quanto eu te acho foda, C4!).

21.8.12

Fernando Pessoa

O amor causa-me horror; é abandono,
Intimidade...
Não sei ser inconsciente
E tenho para tudo (...)
A consciência, o pensamento aberto
Tornando-o impossível.

E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar nalguém. Horror eu sinto
A que perscrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.

Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber do todo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito de outros homens.

Uma nudez qualquer - espírito ou corpo -
Horroriza-me: acostumei-me cedo
Nos despimentos do meu ser
A fixar olhos pudicos, conscientes
Do mais. Pensar em dizer - "amo-te"
E "amo-te" só - só isto, me angustia.

15.8.12

Do Carpinejar para a revista Capricho, alguns trechos de "Tudo o que você deve saber sobre um ex". 


— Ex é um vírus que compromete seu computador. Perderá os álbuns na web, já que inventou de tirar a maior parte das fotos com os rostos colados.  
— Ex é quando o "tudo bem?" deixa de ser um cumprimento para realmente soar como uma pergunta. 
— Ex se torna o mais simpáticos dos seres com o fim do namoro. Não esqueça: ele está fingindo. Mas tanto faz, vai doer igual. 
— Ex é repetir detalhes e palavras da despedida, mudando a ordem das frases e testando se havia alguma esperança do final ser diferente. 
— Ex é pensar pela primeira vez numa viagem longa para uma região remota em um trabalho voluntário.
— Ex é melhorar as amizades e piorar a relação com os pais e irmãos. 
— Ex é ter saudade de si. E raiva de qualquer outro aborrecimento menor. 
— Ex é sempre encontrar algo dele perdido em suas coisas, é sempre procurar algo seu que deve estar nas coisas dele.
— Ex é emagrecer em uma semana os quatro quilos que tentou durante o relacionamento inteiro.  
— Ex é voltar a se perguntar: Será que sou bonita? Será que sou inteligente? Será que beijo bem?
— Ex é nascer sozinha depois de morrer a dois.
Três coisas

Não consigo entender 
O tempo 
A morte 
Teu olhar 

O tempo é muito comprido 
A morte não tem sentido 
Teu olhar me põe perdido 

Não consigo medir 
O tempo 
A morte 
Teu olhar 

O tempo, quando é que cessa? 
A morte, quando começa? 
Teu olhar, quando se expressa? 

Muito medo tenho 
Do tempo 
Da morte 
De teu olhar 

O tempo levanta o muro. 

A morte será o escuro? 

Em teu olhar me procuro.
  
Paulo Mendes Campos

8.8.12

Ditirambo

Meu amor me ensinou a ser simples
Como um largo de igreja
Onde nem há nem um sino
Nem um lápis
Nem uma sensualidade

Oswald de Andrade

7.8.12



Orlando Pedroso
Orlando Pedroso
You ask me to enter, but then you make me crawl. I can't be holding on to what you've got when all you've got is hurt.



Is it getting better or do you feel the same? Will it make it easier on you now if you've got someone to blame? You said one love, one life, when it's one need in the night. One love, we get to share it. It leaves you, baby, if you dont care for it.
Did i disappoint you or leave a bad taste in your mouth? You act like you never had love and you want me to go without. Well, its too late tonight to drag the past out into the light. We're one but we're not the same, we get to carry each other, carry each other. One.
Have you come here for forgiveness? Have you come to raise the dead? Have you come here to play jesus to the lepors in your head? Did I ask too much, more than a lot? You gave me nothing, now it's all i got. We're one but we're not the same. Well, we hurt each other and we're doing it again.
You said love is a temple, love the higher law, love is a temple, love the higher law. You ask me to enter, but then you make me crawl. I can't be holding on to what you've got when all you've got is hurt.
One love, one blood, one life, you've got to do what you should, one life with each other: sister, brothers. One life but we're not the same, we get to carry each other, carry each other. 

One.

mau sinal no subsolo

mau sinal se aqui não chega
o calor que você dizia
enviar só pra mim
o roteador não tem nada
a dizer sobre os planos
largos acima dos cabos
ninguém pra arrombar as portas
trancadas dos carros
e destruir os anexos
que você dizia manter
só pra mim

Ana Guadalupe

Horrível letra de mão
Ana Guadalupe

quanto mais feia for a sua letra de mão
mais comoção devo sentir
em especial com as menores e mais redondas
deitadas como pedestre atropelado e deixado nas linhas
conhecidas como ‘letra do atrasado na escola’
ou ‘caligrafia de quem já nasceu com as teclas’
alguém que talvez precise usar régua pra alinhar as coisas
que talvez precise de ajuda e recuperação
que talvez precise de mim
talvez precise de mim
Sim.
Todos os poemas
São de amor
Pela rima,
Pelo ritmo,
Pelo brilho
Ou por alguém,
Alguma coisa
Que passava
Na hora
Em que a vida
Virava palavra.

Alice Ruiz