28.1.06

"Entrei no teu blog quando estava procurando um poema da Elisa Lucinda no google. Não achei o poema, mas achei um outro lugar de mim. Eu não sabia o quanto eu podia ser outra pessoa. Agora caminho os teus passos e as palavras e não palavras com que tu sem saber me narras. Adorei absolutamente tudo o que já li aqui, mesmo o que não gostei".
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Se me permite, Nin, seja você quem for: roubei seu comentário porque queria um post para a sua delicadeza.
Em busca da civilidade (im)possível
por Nina Lemos, do blog "02 Neurônio"

Três semanas sem vê-lo depois que o mundo desabou sobre nós. Voltei a viver e a gostar da minha vida. Acordo bem. ELE não é a primeira coisa em que penso quando acordo.
Aquele top fofo que comprei na Fashion House não me lembra ele. Me lembra apenas que eu gosto da roupa. Coloco sem culpa, para ser elogiada por outros homens, não por ele, que elogiou - um dos últimos elogios enquanto o mundo desabava sobre nós.
Minhas calcinhas bonitas não me lembram mais ele. Nem a rua dele, nem nada. Recuperei-me. Recito "as coisas não precisam de você". É isso mesmo. Não precisam.
Ele deixa um recado na secretária. Eu não ouço. Olha só, não ouvi porque não estava esperando. Mas ligo para ele. Temos conversa extremamente civilizada e carinhosa, agora, depois que o mundo desabou sobre nós.
E agora, enquanto escrevo, ele acaba de entrar no MSN. É verdade. Pontada de dor no coração. Perdi o ritmo.
Isso porque decidimos ser civilizados. Combinamos que seremos amigos. Ele quer que eu vá no aniversário dele (que só é em junho, olha só). Nos prometemos coisas boas.
E a civilidade depois que o mundo desabou dói. Como assim aniversário? E se ele estiver namorando alguém? E se eu estiver?
Será que eu quero olhar pra ele e ver a cara do amor que deu errado? Ou será que eu quero ver outras caras que me mostrem que o amor pode dar certo?
Talvez a civilidade não exista para os sentimentais. E, sinceramente, não quero voltar a chorar, agora que eu parei e até voltei a usar meus cremes e meu corretivo MAC.
Por isso, brava que sou, sei que ele está online, mas não falo oi.
No momento, melhor outros "ois". E se acharem isso incivilizado, a minha resposta é: fôda-se.
"Não sentem, porque haveriam de sentir?". Sempre o Pessoa. Sentimental eu sou. Civilizada? Não, obrigado. Eu tenho medo.

22.1.06

O último carinho do mundo
De Tati Bernardi.

O amor com hora para acabar é o único que me interessa, é o único que sei amar, é até onde posso ir.
Imagine que um avião cheio de mágoas e crianças envelhecidas pela dor vai bater no seu mundinho perfeito e estratégico e fazer explodir pelos ares o que você acreditava que era uma vidinha feliz e romântica.
Já eram ombros largos, já era porta-retrato de sorrisos endurecidos pra sempre, já era o seu ódio pela imperfeição.
Por isso, antes de dormir hoje, imagine que, no meio da noite, aquele cara de todos os dias, que já lhe causou alguma emoção mas agora se concentra apenas em roncar, vai se levantar de farda e marchar para uma inexistência de honra e se perder num tempo distante.
Sei lá, acho que tô lendo Herman Hesse demais e estou com a temática guerra na cabeça, mas imagine qualquer outra coisa, então: que ele vai espirrar e a força do espirro será tão forte que ele vai se despedaçar em moléculas pelo universo e adeus olhos grandes e boca pequena.
De qualquer maneira, o jogo é esse: por um segundo, toque a pele dele como se fosse a última vez. Olhe com carinho dobrado aquela esquininha entre a coxa e o saco, repare como é perfeito o diâmetro lisinho e virgem entre o cabelo e a orelha e concentre-se com a maior dor do mundo, a dor do presente que nunca mais voltará, no quentinho ingênuo da sua nuca.
Importa mesmo que ele não corte a unha do pé ou que faça xixi sentado por preguiça? Importa que ele se dedique tanto às plantinhas e tenha a horrível mania de berrar palavras estúpidas quando fala com algum amigo menos inteligente?
Você tem uma piedade melancólica que disfarça seu medo quando as fotos antigas te encaram e lembram: vai acabar, minha amiga, uma hora vai acabar mesmo você sendo tão legal em só levar a vida e carregar uma alma eterna. Essa porra toda, boa ou não, vai acabar.
E você, fechadinha no seu mundo seguro de rotinas e roteiros estipulados, esquece da fragilidade das horas, esquece do fim de cada segundo a cada segundo, você ignora o encantamento de agora porque pensa que agora faz parte de uma longa vida igual que ocorrerá de agoras em agoras, sem que isso seja percebido.
Pois muito bem, esqueça que daqui a um ano vocês vão morar juntos, esqueça que daqui a dois se casarão, que daqui a três farão juntos um lindo bebê e que daqui a quatro mudarão para uma casa maior, esqueça que daqui a dez, se ele continuar roncando, cuidando tanto das plantas e berrando idiotices para idiotas, sua vida será um inferno. Esqueça o script e neste exato segundo olhe com a frieza de quem encara o absurdo da morte desprovido de mantas, chás e palavras quentes e lembre-se o que foi que você sentiu a primeira vez que ele encostou em você e, por fim, sinta a mesma emoção pela última vez. A última.
Desamarre da sua carcaça o peso do destino programado no Excel, tire a corcunda de gordura cheia de certezas das suas costas, deixe de ver a vida com um peso da vida toda e veja a vida como se, por um segundo, Deus te deixasse ver o que é a vida.
Amanhã pela manhã ele já terá ido embora, sua calça não estará mais do avesso, seu tênis não estará mais tão longe do seu par que se perdeu atrás da porta, suas moedinhas não estarão mais acumuladas em cantinhos inúteis, seus detalhes não serão mais pequenos detalhes deste mundo.
Amanhã pela manhã o lado dele da cama será tão limpo e liso quanto a sua vida chata e vazia, o bafo matinal dele deixará espaço no ar para um nada que seca do nariz até a alma, a mania dele de abrir os olhos ainda fraco para encarar a vida naquelas primeiras frestas de sol deixará espaço para que o sol te cegue e te enfraqueça sem nenhum pára-raio.
Importa tanto que vez ou outra ele solte uma gíria qualquer e se perca, autista, desfocando de você? Importa que ele não saiba quem é Jamie Cullum e John Fante?
Coloque agora aquela música que você pula toda vez, porque sabe que daqui a cinco minutos vai tocar novamente, e a escute de joelhos, sinta cada pó de grafite de cada nota e saiba que é a última vez que ela tocará. Quando a música acabar, deixe o som da pá, da terra e da tampa aterrorizar você. Acabou tudo, tudo morreu. Imagina como seria poder socar o fim e agarrar-se novamente à vida?
Ame, não sempre porque se fôssemos sempre poetas não teríamos racionalidade para construir alturas mais próximas do céu, sem saber se você terá coração na próxima batida.
Neste último respiro do homem que você pensava que veria pelos próximos mil anos, tente zerar todo o seu preconceito e tente zerar seu corpo de qualquer orgulho. Esteja mais pelada do que nunca e ainda que o frio seja insuportável se concentre em apenas não correr, em apenas não fazer uma piada para disfarçar, em apenas não olhar no relógio como se a adrenalina fosse mais uma coisa com a qual você já sabe lidar e está entediada. Tente morrer junto com aquele segundo que durou pouco mas foi demais para continuar, só assim você saberá como é bom renascer no próximo segundo, e só assim você saberá que morrerá novamente e que estamos morrendo, vivendo ou não.
Este carinho é o último, então que se dane que ele tenha uma pinta com cabelo nas costas. Este carinho é o último, então que se dane que aquela coluna já tenha se curvado e ainda possa se curvar por outras reboladas que não sejam a sua. Este carinho é o último, então que se dane a sua posse, a sua necessidade quase espiritual de controle, a sua felicidade só verdadeira quando existe comando. Este carinho é o último e tente enxergar como é eterno e perfeito mesmo tendo a falha fatal da interrupção.
Eu só sei te amar hoje, se eu tiver que te amar hoje para sempre eu vou me soterrar tanto que ficaremos sem o carinho de agora.
Este é o último carinho para sempre e, mesmo você não me completando, não dizendo o que eu quero ouvir, não ficando até tarde comigo quando sou engolida pelo silêncio e pelas marteladas do meu cérebro, eu te amo como se este fosse o único carinho. E então amo como se fosse o último amor e então amo para sempre.

17.1.06

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O tempo ainda é a melhor coisa que inventaram.
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Choque térmico
Martha Medeiros

Uma pessoa fica duas horas jogando frescobol na beira da praia sob um sol africano: 38 graus. Terminada a partida, joga as raquetes para o alto e corre para um mar de temperatura siberiana, bem ao gosto dos pingüins. Resultado: choque térmico.
Você não precisa fazer a experiência: quem já teve um grande amor e perdeu de um dia para o outro sabe como é. Você passa meses, talvez anos ao lado de alguém que aquece suas noites, que a faz queimar, derreter. Não é um forno de microondas: é seu namorado, que não precisa apertar botão nenhum para fazê-la arder, basta tocar no seu braço e temos um incêndio no quarteirão. Tudo é quente entre vocês: os olhares, os beijos e o resto, principalmente o resto. Vocês são pólvora, querosene, gasolina. Altamente inflamáveis. Imagine anos e anos nesse fogaréu, até que um dia ele telefona e diz que conheceu outra pessoa, que continua a gostar de você, mas como amiga.
Choque térmico. Você, que vivia de camiseta regata e minissaia, passa a usar blusa de gola rulê, casacão e luvas, e mesmo assim não pára de tremer. Foi-se o calor. Você nunca o viu tão frio. (...)
Choque térmico. Você perde o seu amor, e com ele as labaredas, as faíscas, a transpiração que a fazia tomar três banhos por dia. Agora resta a solidão, o frigorífico, as águas do Pacífico. Você se sente nua em pleno Alaska.
Você planeja fazer cinco horas de aeróbica e depois se atirar de um barco num lago congelado, um suicídio mais que simbólico. Mas eis que surge um salva-vidas de 1 metro e noventa e a cara do Leonardo di Caprio quando for adulto. Ele convida para um vinho. Oferece um cobertor. Bota lenha na fogueira. Choque térmico à vista, outra vez. Olhe pra você, já começou a suar.

15.1.06

A dor que dói mais
Martha Medeiros

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o escritório e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua pintando o cabelo de vermelho. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango assado, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua surfando, se ela continua lhe amando.
Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber se ele está com outra, e ao mesmo tempo querer. É não querer saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo querer. É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

13.1.06

Sozinha em casa, com dor de cotovelo e à toa. Resultado: um blog de tamanho dobrado.
As melhores e as piores coisas do mundo
Martha Medeiros

As melhores: banho escaldante, livro bom, acordar às seis da manhã e lembrar que é domingo, o dentista não encontrar nada para fazer na sua boca a não ser passar flúor.
As piores: banheiro de avião, missa de sétimo dia, ir numa loja, adorar um casaco, ter dinheiro para comprá-lo mas como bom mão-de-vaca não comprá-lo, aí chegar em casa e descobrir que não tem um único casaco decente no armário e então voltar na loja no dia seguinte e descobrir que mudou a coleção e ontem era o último dia com descontos de 50% sobre o preço da etiqueta.
As melhores: a pessoa que você está a fim também está a fim de você, qualquer episódio de Os Normais, sua tia que sempre lhe deu presentes criativos (como aquele colete de bolinhas de madeira para colocar no banco do carro) resolveu dar dinheiro esse ano.
As piores: ler jornal no vento, faltar luz quando você está no elevador saindo para um compromisso para o qual já está atrasado, pisar em algo melequento e mal-cheiroso antes de entrar num cinema lotado, ser parado numa blitz quando você está dirigindo o carro do seu irmão que odeia emprestar as coisas porque diz que você é um irresponsável que nunca anda com documentos.
As melhores: o telefone não pára de tocar no sábado e as ligações são todas pra você (considerando que você tenha 17 anos), o telefone não toca uma única vez no dia em que o amor da sua vida chega depois de uma viagem de dois meses (considerando que você tenha qualquer idade), comida de restaurante cinco estrelas, comida caseira depois de passar não sei quantos dias comendo em restaurante.
As piores: mosquito, reunião de condomínio, o porteiro eletrônico tocar bem na hora em que você está fazendo algo muito importante (tipo sexo) e você tem certeza de que é apenas o homem do gás e você não está precisando de gás mas fica se remoendo achando que pode ser algo urgente e, putz, vai atender e é o homem do gás.
As melhores: queijo, cheirinho de carro novo (de preferência, seu), chegar no check in do aeroporto e descobrir que não fizeram a reserva do assento como você solicitou, e a companhia aérea, sentidíssima pelo transtorno causado, transferiu sua passagem para a classe executiva.
As piores: no meio da festa alguém se oferecer para tocar violão, meia-calça que desfia antes mesmo de você chegar no trabalho, gente que se materializa na sua frente dizendo "lembra de mim?"e você nunca viu mais gordo.
A vida é boa nas pequenas coisas. Não há terrorismo no cotidiano.
Rilke, “Cartas a um jovem poeta”.
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(...)
Não se deve deixar enganar em sua solidão, por existir algo em si que deseja sair dela. Justamente tal desejo, se dele se servir tranqüila e sossegadamente como de um instrumento, há de ajudá-lo a estender a sua solidão sobre um vasto território. Os homens, com o auxílio das convenções, resolveram tudo facilmente e pelo lado mais fácil da facilidade; mas é claro que nós devemos agarrar-nos ao difícil. Tudo o que é vivo se agarra a ele, tudo na natureza cresce e se defende segundo a sua maneira de ser; e faz-se coisa própria nascida de si mesma e procura sê-lo a qualquer preço e contra qualquer resistência. Sabemos pouca coisa, mas que temos de nos agarrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom estar só, porque a solidão é difícil. O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita.
Amar também é bom: porque o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação. (...)
"Maria Amélia lembra de uma brincadeira que fazia com os filhos. Perguntava a cada um o que mais gostava de fazer na vida. Ela nunca se esqueceu da resposta de Chico: 'Eu gosto de rir'".

(Perfis do Rio: Chico Buarque, por Regina Zappa, pág. 28)
Negrinha
Monteiro Lobato

Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.
Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.
Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.
Ótima, a dona Inácia.
Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:
— Quem é a peste que está chorando aí?
Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.
— Cale a boca, diabo!
No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer...
Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.
— Sentadinha aí, e bico, hein?
Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.
— Braços cruzados, já, diabo!
Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas — um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante.
Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.
Que idéia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo — não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim — por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida — nem esse de personalizar a peste...
O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta...
A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”...
O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo:
— Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!...
Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma — divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer fino” nada melhor!
Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente.
Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha — coisa de rir — um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta — atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias.
— “Peste?” Espere aí! Você vai ver quem é peste — e foi contar o caso à patroa.
Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se.
— Eu curo ela! — disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias.
— Traga um ovo.
Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:
— Venha cá!
Negrinha aproximou-se.
— Abra a boca!
Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:
— Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste?
E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava.
— Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida... Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária — mas que trabalheira me dá!
— A caridade é a mais bela das virtudes cristas, minha senhora —murmurou o padre.
— Sim, mas cansa...
— Quem dá aos pobres empresta a Deus.
A boa senhora suspirou resignadamente.
— Inda é o que vale...
Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas.
Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu — alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.
Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também... Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado — e findo o seu inferno — e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.
Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: “Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga”?
Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral —sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos — a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre.
— Quem é, titia? — perguntou uma das meninas, curiosa.
— Quem há de ser? — disse a tia, num suspiro de vítima. — Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus... Uma órfã. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora.
— Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! — refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco.
Chegaram as malas e logo:
— Meus brinquedos! — reclamaram as duas meninas.
Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos.
Que maravilha! Um cavalo de pau!... Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais... Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos... que falava “mamã”... que dormia...
Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.
— É feita?... — perguntou, extasiada.
E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão,o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la.
As meninas admiraram-se daquilo.
— Nunca viu boneca?
— Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca?
Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.
— Como é boba! — disseram. — E você como se chama?
— Negrinha.
As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca:
— Pegue!
Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente... era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena.
Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.
Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.
Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:
— Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?
Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.
Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha...
Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.
Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa — e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!
Assim foi — e essa consciência a matou.
Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.
Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.
Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.
Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.
Brincara ao sol, no jardim. Brincara!... Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.
Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos... E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada.
Mais uma de amor
Martha Medeiros

Que algumas pessoas não acreditem que o homem esteve mesmo na lua, dá até pra entender, mas tem gente que não acredita em amor, e isso é imperdoável. Podemos não acreditar no que nossos olhos vêem, mas não podemos desacreditar no que sentimos. Você já ficou com a boca seca diante de uma pessoa? Já teve receio de ela estar ouvindo as batidas do seu coração? Bem, isso tudo não é prova de amor, apenas de ansiedade. Amor é outra coisa.
Amor é quando você acha que a pessoa com quem você se relacionava era egoísta, possessiva e infantilóide e isso não reduz em nada a sua saudade, não impede que a coisa que você mais gostaria neste instante é de estar tocando os cabelos daquela egoísta, possessiva e infantilóide.
Amor é quando você não compreende direito algumas coisas, mesmo tendo o QI mais elevado da turma, mesmo dominando o pensamento de Sócrates, Plutão e Nietzche. Perguntas simples ficam sem resposta, como por exemplo: como é que eu, sendo tão boa gente, tão honesto e com um coração tão grande, não consigo fazê-la perceber que ela seria a pessoa mais feliz do mundo ao meu lado?
Amor é quando você passa dias sem ver quem você ama, depois passam-se meses, e aí você conhece outra pessoa e passam-se décadas, e você já nem lembra mais do passado, e um dia qualquer de um ano qualquer você se olha no espelho e pensa: como é que eu consegui enganar a mim mesmo durante todo esse tempo?
Amor é quando você sente que seria capaz de amarrar o cadarço de um tênis com uma única mão ou de fazer a chuva parar só com a força do pensamento caso a pessoa que você ama lhe mandasse um sim deste tamanho.
Amor é quando você sabe tintim por tintim as razões que impedem o seu relacionamento de dar certo, é quando você tem certeza de que seriam muito infelizes juntos, é quando você não tem a menor esperança de um milagre acontecer, e essa sensatez toda não impede de fazê-lo chorar escondido quando ouve uma música careta que lembra os seus 14 anos, quando você acreditava em milagres.
Tudo isso pode parecer uma grande dor, mas é uma grande dádiva, porque a existência do amor está toda hora sendo lembrada. Dor é quando a gente está numa relação tão fácil, tão automática, tão prática e funcional que a gente até esquece que também é amor.
Amor Bastante
Paulo Leminski

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante
um bom poema leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade,
eu e você, caminhando junto
Essa negra fulo
Jorge de Lima

Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!

Essa negra Fulô!

"Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco".

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
"minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou".

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô!)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa,
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô).

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?

Essa negra Fulô!
Anias Ninn


“É como uma doença, o desejo de ver alguém, o anseio profundo e forte. E você acabou de vê-lo, e vê-lo amanhã não vai satisfazer, e a mesma doença, como uma fome, chegará até você, mais forte a cada vez que você o vê. Não, eu não expliquei isso. Eu estava trabalhando hoje, escrevendo. Minha cabeça estava ocupada: minha mente estava repleta do trabalho. Ainda assim, todo o tempo, eu estava ciente de uma dor - corrosiva - como se um pedaço de mim tivesse sido arrancado. E a mente não pudesse fazer nada sobre isso. Era físico: estava nas veias, no sangue, na pele. Eis por que as relações humanas são tão perigosas - porque a mente não tem poder sobre elas”.


“Estou diabolicamente só. O que eu precisava era de alguém que pudesse me dar o que eu dou a Henry: essa atenção constante. Eu leio cada página do que ele escreve, eu acompanho suas leituras, eu respondo a suas cartas, eu o ouço, eu lembro de tudo que ele diz, eu escrevo sobre ele, eu lhe faço presentes, eu o protejo, estou pronta, para a qualquer momento, desistir de qualquer pessoa por causa dele, eu acompanho seus pensamentos, entro em seus planos - um cuidado apaixonado, maternal e intelectual. Ele. Ele não pode fazer isso. Ninguém pode. Ninguém sabe como. É uma arte, um dom. Hugh me protege, mas ele não corresponde. Henry corresponde, mas ele não encontra tempo para ler o que eu escrevo. Ele não entende todos meus humores, nem escreve sobre mim”.
Como será a nova namorada dele
Martha Medeiros
Aí terminaram o namoro. Você ficou meio magoada, ele se sentindo meio culpado, mas deram meia-volta, volver e cada um tomou seu rumo. Passam-se uns dias e surpresa: ele tem nova namorada. Claro que você foi a primeira a saber, suas amigas fizeram questão de lhe contar, afinal, adoram você. Tudo bem, tudo bem, que eles sejam felizes. Tudo bem uma pinóia. Você já arrancou toda a cutícula com a boca. Está se mordendo para saber como é sua rival. Mais bonita? Mais feia? Caiu aqui: você vai odiá-la do mesmo jeito. Digamos que ela seja mais bonita. O cabelo é mais bonito. O corpo é mais bonito. E ainda por cima o nome dela é Paula e você é Ludislene Gorete. Enfim, o cara te trocou por uma gataça. “Que deve ser burríssima. Que deve ter mau-hálito. Que deve ser sofrível na cama. E ele, francamente, tem titica de galinha na cabeça. Coisa mais fora de moda dar valor para a aparência. Está se achando o rei da cocada preta com essa 'zinha' com quem anda desfilando. E que deve corneá-lo, ninguém duvide. É muita areia pro caminhão dele. E o caminhão dele é um Corsa de terceira mão, essa aí em dois toques vai estar trocando ele por um Audi, aí ele vai descobrir que ela não vale a folha de alface que come, essa anoréxica”. Então digamos que ela seja mais feia. O cabelo mais opaco. O corpo só tem frente, não tem verso. Ligeiramente manca. “Putz, deve ser um avião na cama. Deve recitar Beaudelaire de cor e salteado. E deve adorar aipo, que ele também venera. Mas se já é sem sal agora, vai embofar de vez quando engravidar. Vai engordar para todo o sempre, nunca mais se recupera. Vão ficar os dois discutindo Jorge Luis Borges e se entupindo de panqueca de banana. Vão viajar para lugares exóticos para combinar com o rosto dela. Caramba, por que ele nunca me disse que gostava de mulher inteligente? Eu poderia ter lido toda a obra de Tolstoi em vez de perder tempo malhando”. Se for mais bonita ou se for mais feia, pouco importa. Não é você, e é isso que dói.
Oração ao pé feminino
Henfil

Vem com pés de lã passear pelo meu peito.
Vem de manso ou de repente, pé de anjo, vem de qualquer jeito
Domar o meu espanto
de ser subjugado sob os pilotis das coxas do objeto
amado.
Vem com uma pulseira de cobre nos artelhos,
exorcizar os mil demônios
que se enroscam entre os meus pentelhos.
Vem ser lambido, lambuzado, entre os dedos,
vem girar os calcanhares no meu rosto,
torturador sádico
querendo extorquir segredos.

Vem me submeter a tua tirania sem idade,
vem violentar
e ser violentado,
cair de pé, em pé de igualdade.
Vem com teu exército de dedos sobre mim perplexo.
Vem pedestal.
Vem sereníssimo esmagar a cabeça de serpente do meu sexo.
Círculo vicioso
Machado de Assis

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
- “Quem me dera que eu fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela !”
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

- “Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela...”
Mas a lua, fitando o sol com azedume:

- “Mísera ! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal que toda luz resume !“
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

- “Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Porque não nasci eu um simples vaga-lume ?”
Embriagai-vos
Charles Baudelaire

É necessário estar sempre bêbedo. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.

Mas - de que? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:

- É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
Baleia
Graciliano Ramos

A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam, num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da bôca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de rôscas, semelhante a uma cauda de cascavel.
Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fêz tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito. Sinha Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assusados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:
- Vão bulir com a Baleia?
Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo. Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fôfo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.
Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas sinha Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los resmungando com energia.
Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.
Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.
Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como sinha Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:
- Capeta excomungado.
Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.
Pouco a pouco a cólera diminuiu, e sinha Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido sôlto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa de mais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.
Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinha Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros às orelhas. Como isto era impossível, levantou os braços e, sem largar o filho, conseguiu ocultar um pedaço da cabeça.
Fabiano percorreu o alpendre, olhando a baraúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra animais invisíveis:
- Ecô! ecô!
Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiado, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cêrca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou Baleia, que se pôs a latir desesperadamente.
Ouvindo o tiro e os latidos, sinha Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se. E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cêrca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.
Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve mêdo da roda.
Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um dêles havia a barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali, cobria-se de poeira, evitava as môscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha fôlhas sêcas e graveiros colados às feridas, era um bicho diferente dos outros.
Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas. U
ma sêde horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis.
Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra. Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se.
Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nêle partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.
Começou, a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços gorrados e não experimentou nenhum prazer. O olfacto cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham fugido.
Esqueceu-se e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objecto esquisito na mão. Não conhecia o objecto, mas pôs-se a tremer, convencida de que êle encerrava surprêsas desagradáveis. Fêz um esfôrço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dêle, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.
O objecto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido. Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera. Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.
Baleia assustou-se. Que faziam aquêles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzí-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência dêles.
Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a êsse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moiras afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde sinha Vitória guardava o cachimbo.
Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Êstes sons não interessavam Baleia mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença dêles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.
Baleia respirava depressa, a bôca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil do barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.
Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, sinha Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha.
A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.
Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente sinha Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.
Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.
Paulo Leminski

Amor, então,também acaba?

Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
Bem no Fundo
Paulo Leminski

No fundo, no fundo, bem lá no fundo, a gente gostaria de ver nossos problemas resolvidos por decreto

a partir desta data, aquela mágoa sem remédio é considerada nula e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso, maldito seja que olhas pra trás, lá pra trás não há nada, e nada mais

mas problemas não se resolvem, problemas têm família grande, e aos domingos saem todos a passear o problema, sua senhora e outros pequenos probleminhas.
Paulo Leminski

a noite - enorme
tudo dorme

menos teu nome
Pergunte ao pó
Paulo Leminski

cresce a vida
cresce o tempo
cresce tudo
e vira sempre
esse momento

cresce o ponto
bem no meio
do amor seu centro
assim como
o que a gente sente
e não diz
cresce dentro
Um homem com uma dor
Paulo Leminski

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante
Paulo Leminski

Eu ontem tive a impressão
que deus quis falar comigo
não lhe dei ouvidos

quem sou eu para falar com deus?
Ele que cuide dos seus assuntos
eu cuido dos meus

Apesar de tudo
Martha Medeiros

Apesar de tudo, continuamos amando, e este "apesar de tudo" cobre o infinito. Esta frase do filósofo Cioran expressa a extensão dos nossos obstáculos amorosos.
Apesar de termos acreditado na eternidade dos nossos sentimentos e depois descobrirmos que nada mantém-se estável por muito tempo, continuamos amando.
Apesar de termos sofrido noites inteiras por amores que não se concretizaram ou que foram vagos ou pueris, continuamos amando.
Apesar de termos sido rejeitados, apesar de o nosso amor não ter sido suficiente para encantar o outro e fazê-lo permanecer ao nosso lado, continuamos amando.
Apesar de todos os livros escritos, todas as sentenças filosóficas, todas as análises terapêuticas e todos os exemplos de paixões falidas, continuamos amando.
Apesar de não termos mais 15 anos e estarmos numa idade em que os outros acreditam que o nosso coração envelheceu, continuamos amando.
Apesar de a pessoa que a gente ama sentir por nós um amor de amigo apenas, um amor fraterno, um amor camarada que nada faz lembrar o amor ardente que a gente deseja e sonha, continuamos amando.
Apesar de a gente saber que o amor acaba, que o amor talvez nem seja pelo outro, mas apenas uma projeção do amor que a gente tem por nós mesmos, continuamos amando.
Apesar da falta de grana, das desilusões com a política, do cansaço no final do dia, dos projetos que não foram adiante, do tempo que nos falta e do medo que nos sobra, continuamos amando.
Apesar da chuva que não permite o passeio de mãos dadas, do espaço compartilhado que não permite privacidade, da desaprovação dos que nada têm a ver com o assunto, continuamos amando.
Apesar de ele ser casado, de ela ser mais velha, de ele ser humilde ou de ela ser estrangeira, continuamos amando.
Infinitamente, apesar de tudo e todos e apesar de nós mesmos.

Entre Amigos
Martha Medeiros

Para que serve um amigo? Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra. Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.
Milan Kundera, escritor tcheco, escreveu em seu último livro, "A Identidade", que a amizade é indispensável para o bom funcionamento da memória e para a integridade do próprio eu. Chama os amigos de testemunhas do passado e diz que eles são nosso espelho, que através deles podemos nos olhar. Vai além: diz que toda amizade é uma aliança contra a adversidade, aliança sem a qual o ser humano ficaria desarmado contra seus inimigos.
Verdade verdadeira. Amigos recentes custam a perceber essa aliança, não valorizam ainda o que está sendo construído. São amizades não testadas pelo tempo, não se sabe se enfrentarão com solidez as tempestades ou se serão varridos numa chuva de verão. Veremos.
Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.
Um amigo não empresta apenas a prancha. Empresta o verbo, empresta o ombro, empresta o tempo, empresta o calor e a jaqueta.
Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.
Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.
Um amigo não passa apenas cola. Passa contigo um aperto, passa junto o reveillon.
Um amigo não caminha apenas no shopping. Anda em silêncio na dor, entra contigo em campo, sai do fracasso ao teu lado.
Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.
Duas dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um, amém.

Olavo Bilac

"Ora (direis), ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi; no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol saudoso e em pranto
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e entender estrelas.

Eu não sou mãe, e não pretendo ser tão cedo. Mas elas são ótimas!

É difícil, sim. Cansa, sim. Dá trabalho, sim. Mas existem centenas de motivos para, ainda assim, valer a pena ser mothern. Aí vão alguns deles:
. para ser a pessoa mais importante na vida de uma criança;
. para ver seu corpo mudar de forma e gerar outra pessoa;
. para descobrir que a sua capacidade de amar é muito maior do que você imagina;
. para entender melhor a sua mãe;
. para ouvir alguém te chamar de mãe;
. para ver de perto uma criança crescendo;
. para ficar mais generosa;
. para ter um motivo pra escorregar no toboágua;
. para o seu casamento passar por uma prova de fogo;
. para mudar de prioridades;
. para comprar o enxoval;
. para escolher o nome;
. para ver alguém bem parecido com você;
. para descobrir seus dotes de cantora, atriz e fotógrafa;
. para alterar completamente seu relógio biológico;
. para não passar o domingo vendo televisão;
. para pagar menos no seguro do carro;
. para parar de se preocupar com a arrumação da casa;
. para ver seu peito dar leite;
. para encher a casa;
. para parar de encher a cara;
. para catar piolho;
. para ir ao zoológico;
. para aprender o que é molusco e exantema súbito;
. para voltar a brincar de boneca;
. para fazer novos amigos;
. para conhecer a pessoa mais linda que você já viu no mundo;
.
***
.
Viajando com a Nina. Num dia de verão em Tiradentes, tempo incerto e braços abertos:
- Não pode chover, eu sou o bicho maravilhoso!
.
Vendo as gotas de chuva na horta da avó:
- A couve tem umas mágicas...
.
Num passeio de fim-de-tarde na praia:
- As sombras pensam que a gente é grande.
.
A grande lição que Olívia tirou de Branca de Neve e os sete anões:- Pode comer maçã não, né?!"
.
Para o Dedé, quando era menor, volante era rolante, sucrilho era açucrilho. Para a Gabi, figurinha adesiva é sigurinha.

Alice brincando com a caixa de bichinhos de plástico, pega a aranha e fala:
- Bisso fêo, fêo, fêo!!! Matá ele.
O irmão (o Dedé, meu enteado), do alto dos seus 9 anos de experiência de vida, ensina:
- Não, Lili, matar ele só porque é feio?! Tá cheio de gente feia por aí e a gente não vai matar elas.
Criança sabe ensinar as coisas.
Um conto de fadas diferente
Martha Medeiros

Era uma vez uma menina que, ao virar mulher, descobriu que casar era tudo o que a família esperava dela. É claro que seus pais ficavam felizes com suas boas notas na escola e com a carreira que ela havia escolhido, mas o que eles mais queriam saber, juntamente com os avós e as tias, é se ela havia conhecido alguém interessante na festa da noite anterior, e se este alguém viria a se tornar um namorado. A moça tinha sonhos de viajar, conhecer outros lugares, e a família dizia que ela conheceria quando partisse em lua-de-mel. A moça tinha vontade de dar mais intensidade à sua vida, e os familiares diziam que ela daria, assim que tivesse filhos. A moça pensou em seguir carreira política, depois pensou em ser voluntária num país africano, depois cogitou em fazer um curso de paraquedismo, mas sempre era desencorajada: "em namorar, que é bom, essa garota não pensa".
Pensava sim, e namorou o Mateus, o Luis, o Jairo, o Renato, o André, o Ruy e o Vinicius. "Quando é que você vai escolher um pra vida inteira?" Ela respondia que não acreditava em contos de fada nem em final feliz, e a família dizia que ela iria mudar de idéia quando se apaixonasse. Ela não se apaixonou, mas conheceu um cara legal, que pensava parecido com ela, e os dois namoraram e depois, sob aplausos da platéia, casaram. Tiveram três filhos. Ela tinha um emprego, ele tinha um emprego. Eram populares, católicos e felizes. Passaram-se os anos e eles seguiam populares, católicos e felizes. Outros tantos anos e eles eram o que os outros haviam se acostumado a pensar deles: populares, católicos e felizes, mas eles mesmos já não sabiam direito o que eram. Os filhos cresciam e a moça passava os dias cada vez mais anestesiada pela rotina, até que um belo dia ela comeu uma maçã e foi pra cama dormir. Não acordou mais. Quer dizer, ela levantava, tomava banho e saía para o trabalho, mas parecia morta. As pessoas não a notavam. Ela tampouco percebia os outros. E assim caminhavam todos para o final desta história quando surgiu um homem não se sabe de onde e reparou que ela parecia morta, mas não estava. Achou-a linda e deu-lhe um beijo. Ela acordou e sua vida começou a ser contada sob um novo ponto de vista.
O cotidiano imutável nos envenena. É preciso um beijo para despertar para a vida. O verdadeiro príncipe é aquele que nos acorda e nos faz mudar o rumo da nossa história.
Martha Medeiros

a todos trato muito bem
sou cordial, educada, quase sensata
mas nada me dá mais prazer
do que ser persona non grata
expulsa do paraíso
uma mulher sem juízo, que não se comove
com nada
cruel e refinada
que não merece ir pro céu, uma vilã de novela
mas bela, e até mesmo culta
estranha, com tantos amigos
e amada, bem vestida e respeitada
aqui entre nós
melhor que ser boazinha e não poder ser imitada
"As pessoas ficam procurando o amor como solução para todos os seus problemas quando, na realidade, o amor é a recompensa por você ter resolvido os seus problemas".
Norman Mailer.
Martha Medeiros

eu minto, confesso
me faço de boba, verdade
escondo a idade, me calo,
me sinto tão mal, um inferno
represento um papel, principal
sou mesmo uma atriz, infeliz
quem diz que eu não quero, eu consigo
viver por um triz, enlouqueço
te esqueço e te mato, te amo
atrás de um muro, qualquer
outro dia amanheço, de novo
e falo bobagens, pudera
não sou tão sensata, avisei
sem nada de mais, me despeço
Tens um inimigo? Deseje-lhe uma paixão.

Hilda Hilst
Dos Nossos Males
Mário Quintana


A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais...
Às seis da tarde
Marina Colasanti

Ás seis da tarde as mulheres choravam no banheiro.

Não choravam por isso ou por aquilo, choravam porque o pranto subia garganta acima, mesmo se os filhos cresciam com boa saúde, se havia comida no fogo e se o marido lhes dava do bom e do melhor.
Choravam porque no céu, além do basculante, o dia se punha, porque uma ânsia, uma dor, uma gastura era só o que sobrava dos seus sonhos.
Agora às seis da tarde as mulheres regressam do trabalho, o dia se põe, os filhos crescem, o fogo espera, e elas não podem, não querem chorar na condução.
Frutos e flores
Marina Colasanti

Meu amado me diz
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas
Tive um certo rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua faca
me traspassa.
A arte de amar
Manoel Bandeira

Se queres sentir a felicidade de amar, esqueça a tua alma. A alma é que estraga o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação. Não na outra alma. Só em Deus - ou fora do mundo. As almas são incomunicáveis. Deixa o seu corpo entender-se com outro corpo. Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Dedução
Maiakovski

Não acabarão nunca com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.
O que aconteceu
Maiakovski

Mais do que é permitido, mais do que é preciso, como um delírio de poeta sobrecarregando o sonho: a pelota do coração tornou-se enorme, enorme o amor, enorme o ódio. Sob o fardo, as pernas vão vacilantes. Tu o sabes, sou bem fornido, entretanto me arrasto, apêndice do coração, vergando as espáduas gigantes. Encho-me dum leite de versos e, sem poder transbordar, encho-me mais e mais.
Canção na Plenitude
Lya Luft


Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas,
sou uma estrutura agrandada pelos anos e o peso dos fardos bons ou ruins (carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)
O que te posso dar é mais que tudo o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir quando em outros tempos choraria,
busca te agradar quando antigamente quereria apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza e juventude agora:
esses dourados anos me ensinaram a amar melhor, com mais paciência e não menos ardor,
a entender-te se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força -- que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável cujas marés -- mesmo se fogem -- retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços, mas o sonho interminável das sereias.

Coexistência
L. F. Veríssimo

O advogado disse que tudo que eles tinham adquirido depois do casamento seria dividido entre os dois.
- Parabéns - disse ele. - Você vai ficar com metade da minha alergia seborrágica de fundo nervoso.
- Você já tinha caspa quando casou comigo! – reagiu ela.
Ele a ignorou e perguntou ao advogado:
- E o apartamento?
- Isso vocês dois vão ter que decidir.
- O apartamento fica perto da casa da minha mãe e da minha ginástica, eu me criei nesta zona e os vizinhos simpatizam muito mais comigo do que com você - disse ela.
- O quê?! Os vizinhos me adoram.
- Proponho um plebiscito - disse ela para o advogado.
- Quem quer ficar comigo e quem quer ficar com ele. Sabe como é o apelido dele no prédio?
- Calma, calma - pediu o advogado.
- Como é meu apelido no prédio?
- Calma insistiu o advogado. - isso não vem ao caso. O apartamento vocês decidem depois. Nesta sala, por exemplo, o que foi adquirido pelos dois?
- Esta poltrona.

***
A poltrona. O primeiro estofado que tinham comprado. Ele sentado na poltrona, ela no seu colo. Recém-casados.
- De quem é esse narizinho?
- É seu…
- De quem é essa boquinha?
- É sua…
Depois tinham comprado o sofá.
- Onde está aquele umbiguinho que eu gosto tanto?
Os dois deitados no sofá. Ela abria a roupa para mostrar o umbigo.
- Está aqui?
- Aí está ele!
Ele beijava o umbigo dela.
Depois tinham comprado a televisão. E, um dia, os dois estavam abraçados no sofá, olhando a televisão, e ela começou a apalpá-lo dizendo:
- Onde é que está?
- O quê?
- Você sabe.
- Não sei, não. O quê?
- Ah, você sabe.
- Procura que você acha…
E ela finalmente achou. O controle remoto da televisão. De certa maneira, aquele diálogo fora o começo do fim. Tudo que acontecera depois fora decorrência. Tinha acabado a mágica.

***
Um dia, no banheiro, ele chamara a mulher, apontara para as escovas de dentes dos dois penduradas lado a lado, e dissera:
- Olha que coisa bonita. Somos nós dois. Nada simboliza a união de duas pessoas como suas escovas de dentes, lado a lado, num armário de banheiro. Na cerimônia de casamento, o padre devia perguntar "aceita a escova de dentes dessa mulher ao lado da sua pelo resto da vida?"
- Pelo resto da vida, até que a morte nos separe…
- Ou o aparelho de barba - dissera ele, abraçando-a por trás.
- O quê?
- Sabe que a principal causa de divórcio no Brasil é a mulher raspar as pernas com o aparelho de barba do marido e depois não limpar? Em segundo lugar, vem o adultério e, em terceiro o ronco.
Ela dera um tapa brincalhão na sua mão.
- Pára. E eu só usei uma vez.
- Promete que não usa mais?
- Prometo.
- Jura? Pelo que há de mais sagrado? Pelas nossas escovas de dente?
- Juro. Pelas nossas escovas de dentes.

***
Se tivesse ficado só naquilo, o casamento talvez ainda pudesse ser salvo. Mas ele continuara. Mesmo beijando-a na nuca, ele continuara.
- Sabe o que duas escovas de dentes penduradas lado a lado simbolizam? Coexistência. Não existe intimidade maior do que a de duas pessoas que juntam suas escovas de dentes. E a coexistência é impossível, a intimidade é impossível, o casamento é impossível se um raspa as pernas com o aparelho de barba do outro - e depois não limpa!
- Eu já disse que não acontecerá de novo.
- você não tem o seu depilador? Pois use o seu depilador e largue o meu aparelho de barba.
- Está bem, já disse!
Mas não havia mais salvação.

***

É o tempo. O tempo é um demolidor. Por isso estavam os dois ali com o advogado, decidindo o destino dos estofados.
Entraram no quarto de dormir.
- Compramos a cama juntos.
- Eu não quero a cama - disse a mulher. - Pode ficar pra ele. Só me traria más recordações.
- Ah, é? Ah, é?
- Calma - disse o advogado.
***

Exatamente dez anos antes, numa noite, depois do sexo, naquela cama, ela exclamara:
- Puxa!
E ele, orgulhoso:
- Você diz isso … sinceramente?
- E digo de novo. Puxa! Você, heim?
- Um adjetivo. Quero um adjetivo.
- "Puxa" não serve?
- Não. "Puxa" é interjeição. Quero um adjetivo qualificativo.
- Deixa ver…
- Magnífico? Glorioso? Ciclópico? Apoteótico?
- Foi perfeito!
- Só perfeito?
- Mais que perfeito.
- Foi a melhor de todas até hoje?
- É difícil comparar com a outra. Cada uma tem seu clima, suas características… Cada uma é boa a sua maneira.
- Mas esta foi espetacular?
- Foi…
- Numa escala de um a dez…

***
Cinco anos antes, naquele mesmo quarto, chegando em casa depois de uma festa, ela, bêbada, chutara um sapato do pé e quase o acerta.
- Você quase me acertou!
- Chute em sapato você também. Faça alguma coisa excitante na sua vida.
Ela chutara o outro sapato, forçando-o a abaixar para não ser atingido.
- Não quero chutar sapato. Agora pára.
- Vem cá, vem.
- Pra quê?
- Vem abrir o zi… o zi… Palavra difícil. O zíper do meu vestido.
Ele fora abrir o vestido dela. Ela ordenara:
- Com os dentes.
Ele tentara pegar a chapinha do zíper com os dentes, mas não conseguira.
- Não consigo.
- Do que adianta ter um marido se ele não consegue abrir um zíper com os dentes?
- Pára com isso e … onde você vai?
Ela estava saindo pela porta, descalça.
- Vou voltar pra festa e arranjar um homem pra abrir o meu zíper com os dentes.
Ele a segurara e a empurrara para a cama.
- Tanto homem na festa e eu tinha que vir pra casa logo com você! Por quê?
- Eu sou seu marido.
- Exato. Eu devia saber que não ia dar em nada…

***
O tempo, o tempo. Com o tempo um grande amor degenera para pequenas maldades.
- Como era o meu apelido no prédio?
- Nem queira saber.
E o advogado:
- Calma, calma.
Tu e Eu
Veríssimo

Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
e a sabedoria de só saber crescer
até dar pé.
Eu não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa
- que não sei qual é!
És de outra pipa
e eu de um cripto.
Tu,lipa
Eu,calipto.
Gostas de um som tempestade
roque lenha
muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães
o mais leve.
És vidrada no Lobão
eu sou mais albônico.
Tu,fäo.
Eu,fônico.
És suculenta
e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei
e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu,piniquim.
Eu,ropeu.
Gostas daquelas festas
que começam mal e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss, eu um místico.
Tu,multo.
Eu,carístico.
És colorida,
um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,
e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu,cano.
Eu,clidiano.
Dizes na cara
o que te vem a cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu,tano.
Eu, femismo.
Confissão
Leila Míccolis

Dizem que o amor é cego, não nego,
por isso te abro os olhos:
não tenho bens nem alqueires,
eu não sou flor que se cheire,
nem tão boa cozinheira,
(bem capaz que ainda me piches por só comer sanduíches),
minha poesia é fuleira, tenho idéias de jerico,
um cio meio impudico como as cadelas e as gatas,
às vezes me torno chata por me opor ao que contemplo,
sei que sou péssimo exemplo,
por pouca coisa me grilo,
talvez por mim percas quilos,
eu não sei se valho a pena,
iguais a mim, há centenas,
desejo te ser sincera.
Mas no fundo o amor espera
que grudes qual carrapicho:
são tão grandes meu rabicho
e minha paixão por ti,
que não estão no gibi...
Ao te ver, viro pamonha,
sem ação, e sem vergonha
o meu ser inteiro goza.
Por isso, pra encurtar prosa,
do teu corpo, cada poro
eu adoro adoro adoro...
Intuição
Leila Míccolis

Ter nas pessoas
a confiança dos gatos,
que fecham os olhos
e esticam o pescoço
na certeza do carinho.
Prêmio de consolação
Leila Míccolis

Há anos os homens ensinam
Às mulheres a agradá-lo,
a adulá-lo, a servi-lo,
numa ascendência sem par.
Agora elas retribuem
Sempre que fingem gozar.
A mulher e a casa
João Cabral de Melo Neto

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como és por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
e suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.
A rede ou o que a Sevilha não conhece
João Cabral de Melo Neto

Há uma lembrança para o corpo,
a tua: é a de um abraço de rede,
esse abraço de corpo inteiro
de qualquer rede do Nordeste,
da rede que tua Andaluzia,
que é tão da sesta, não conhece,
e mais que abraço, é o abraçar
de tudo o que pode estar nele;
é o abraço sem fora e nem dentro,
é como vestir outra pele
que ele possui e que o possui,
uma rede nas veias, febre.
Amor robô
Jacques Prevért

Um homem escreve à máquina uma carta de amor e a máquina responde ao homem e à mão como se fosse a destinatária
Tão aperfeiçoadas as máquinas
a máquina de lavar cheques e cartas de amor
E o homem confortavelmente instalado na sua máquina de morar lê com a máquina de ler a resposta da máquina de escrever
E na sua máquina de sonhar com a sua máquina de calcular compra uma máquina de fazer amor
E na sua máquina de realizar os sonhos faz amor com a máquina de escrever com a máquina de fazer amor
E a máquina o engana com o mecânico
Um mecânico que morre de rir.
Nós
Guilherme de Almeida

Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos,

e que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
- "Como se amaram esses coitadinhos!
como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto
hão de falar os teus cabelos brancos.
Florbela Espanca

Ódio por ele?

Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto...
Que importa se mentiu?
E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!
Ah! nunca mais amá-lo é já bastante!

Quero senti-lo d’outra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!
Ódio seria em mim saudade infinda,

Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena...
As quadras dele (II)
Florbela Espanca

(...)

Enquanto eu longe de ti
Ando, perdida de zelos,
Afogam-se outros olhares
Nas ondas dos teus cabelos.

Dizem-me que te não queira
Que tens, nos olhos, traição.
Ai, ensinem-me a maneira
De dar leis ao coração!


(...)
Eros e Psique
Fernando Pessoa

...E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade. (Do Ritual Do Grau De Mestre Do Átrio Na Ordem Templária De Portugal)

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Terrível Bébé,
Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bonbon, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bébé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que a havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao sem hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e (...) e eu gostava que a Bébé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma crença, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece ser impossível ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim
Fernando (Pessoa)
09/10/1929
Fernando Pessoa

O amor é uma companhia.
Já não posso andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa e ver menos,
E ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma é uma cousa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se não a vejo,
Imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo,
Não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim com um girassol
Com a cara dela no meio.
Liberdade
Fernando Pessoa


Ai que prazer

não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada, estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal, sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é quando há bruma.

Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...

Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto

É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa (1932)

Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.

Viver é não conseguir.

Eu tenho idéias e razões,
Conheço a cor dos argumentos
E nunca chego aos corações.

Fernando Pessoa, 1932
O avô e o neto
Fernando Pessoa

Ao ver o neto a brincar,
Diz avô, entristecido:
“Ah, quem me dera voltar
A estar assim entretido!

Quem me dera o tempo quando
Castelos assim fazia,
E que os deixava ficando
Às vezes p’ra o outro dia;

“E toda a tristeza minha
Era, ao acordar p’ra vê-lo,
Ver que a criada já tinha
Arrumado o meu castelo”.

Mas o neto não o ouve
Porque está preocupado
Com um engano que houve
No portão para o soldado

E, enquanto o avô cisma, e triste
Lembra a infância que lá vai,
Já mais uma casa existe
Ou mais um castelo cai;

E o neto, olhando afinal
E vendo o avô a chorar,
Diz, “Caiu, mas não faz mal:
Torna-se já a arranjar”.
Poema em linha reta
Álvaro de Campos

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.