29.6.06

São demais os perigos desta vida
Toquinho e Vinícius de Moraes


São demais os perigos desta vida pra quem tem paixão
Principalmente quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida
E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma musica qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher
Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita
Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

21.6.06

Sexo com ou sem neurônios

De Xico Sá.


Quanto mais intelectual... menos atirada, menos dada ao sexo. E não se trata apenas de prosopopéia deste ignorante que vos fala. A sentença polêmica é o resultado da Pesquisa de Padrão de Vida (PPV) do científico IBGE.

Segundo o numerol, 61,4% da moças com mais de 12 anos de estudo não estão ligadas a nenhuma atividade sexual. Foram ouvidas mulheres entre 15 e 49 anos em todo o país.
Estudos semelhantes feitos na Europa e EUA já haviam apontado a mesma tendência, incluindo também a marmanjada. Será?
O instituto não pesquisou as razões da inapetência. Seria sublimação? Falta de homem à altura? Falta de homem simplesmente, mesmo que um burro, um jumento qualquer? Só Deus sabe.
Só sei que as enigmáticas discípulas de Clarice Lispector e as belas balzaquianas filiadas à Nouvelle Vague irão subir pelas paredes com as conclusões da estatística brasileira. Se já praguejaram contra as pesquisas de intenção de votos, imaginem com esta enquete.

Pereira, mestre em filosofia pura nas mesas do Amigo Gianotti (aquele boteco das boas fogazzas do Bixiga) e doutorando em antropologia nos labirintos do Love Story, adverte: "Quando uma mulher fala em James Joyce ou cinema iraniano, eu saco meu talão de cheques _pago a conta e vou embora''.
Pera lá, Pereira. "Pegou pessssado!'', como diria o argentino da piada do Cristo portenho. Eu mesmo, meu caro, gostava tanto de mocinhas de óculos que passei quatro anos com Moby Dick' (que nem é coisa de intelectual assim) debaixo do sovaco. Só para causar boa impressão. A coitada da baleia do livro não aguentava mais aquele desodorante, como me gozavam na época.
Depois, mudei para "Cândido'' (Voltaire), uma espécie de "Polyana'' para intelectuais, e as coisas melhoraram um pouquinho.Pereira prefere mesmo não acreditar nunca nessas armas pequeno-burguesas. Como bem disse, ao receber o resultado da pesquisa do IBGE, não troca a loira ou a morena do É o Tchan por uma dúzia de Simone de Beauvoir.

[P.S. de emergência: o cronista discorda radicalmente de preferência tão chinfrim!]

16.6.06

TPM: Você já disse que uma reunião só de mulheres é a coisa mais chata do mundo. Você tem amigas mulheres?
Danuza Leão: Não muitas. Me dou muito bem com homem e de uma certa maneira eu dou bem razão a eles: somos insuportáveis, principalmente apaixonadas. Mulher é muito chata, só fala de homem, se o cara telefonou, se não telefonou. Outro dia fui a um restaurante e tinha uma mesa com seis homens. Homens famosos, legais. Tomei um drinque, depois fui para a mesa, comi, pedi sobremesa... quando levantei e fui embora eles continuavam lá felicíssimos, sem mulher do lado.

11.6.06

Mau humor
Lula Vieira (como eu recebi esse pela internet, não excluam a possibilidade de o autor estar errado - mas o texto não deixa de ser ótimo).

Não me lembro direito, mas li numa revista, acho que na Carta Capital, um artigo levantando a hipótese de que todo cara que tem mania de fazer aspas com os dedinhos quando faz uma ironia é um chato. Num outro artigo alguém escreveu que achava que jamais tinha conhecido um restaurante de boa comida com garçons vestidos de coletinho vermelho. Joaquim Ferreira dos Santos, em "O Globo" de domingo, fala do seu profundo preconceito com quem usa "agregar valor". Eu posso jurar que toda mulher que anda permanentemente com uma garrafinha de água e fica mamando de segundo em segundo é uma chata. São preconceitos, eu sei. Mas cada vez mais a vida está confirmando estas conclusões. Um outro amigo meu jura que um dos maiores indícios de babaquice é usar o paletó nos ombros, sem os braços nas mangas. Por incrível que pareça, não consegui desmentir. Pode ser coincidência, mas até agora todo cara que eu me lembro de ter visto usando o paletó colocado sobre os ombros é muito babaca. Já que estamos nessa onda, me responda uma coisa: você conhece algum natureba radical que tenha conversa agradável? O sujeito ou sujeita que adora uma granola, só come coisas orgânicas, faz cara de nojo à simples menção da palavra "carne", fica falando o tempo todo em vida saudável é seu ideal como companhia numa madrugada? Sei lá, não sei. Não consigo me lembrar de ninguém assim que tenha me despertado muita paixão. Eu ando detestando certos vícios de linguagem, do tipo "chegar junto", "superar limites", essas bobagens que lembram papo de concorrente a big brother. Mais uma vez, repito: acho puro preconceito, idiossincrasia, mas essa rotulagem imediata é uma mania que a gente vai adquirindo pela vida e que pode explicar algumas antipatias gratuitas. Tem gente que a gente não gosta logo de saída, sem saber direito por quê. Vai ver que transmite algum sintoma de chatice. Tom de voz de operador de telemarketing lendo o script na tela do computador e repetindo a cada cinco palavras a expressão "senhoooorrr" me irrita profundamente. Se algum dia eu matar alguém, existe imensa possibilidade de ser um flanelinha. Não posso ver um deles que o sangue sobe à cabeça. Deus que me perdoe, me livre e me guarde, mas tenho raiva menor do assaltante do que do cara que fica na frente do meu carro fazendo gestos desesperados tentando me ajudar em alguma manobra, como se tivesse comprado a rua e tivesse todo o direito de me cobrar pela vaga. Sei que estou ficando velho e ranzinza, mas o que se há de fazer? Não suporto especialista em motivação de pessoal que obrigue as pessoas a pagarem o mico de ficar segurando na mão do vizinho, com os olhos fechados e tentando receber "energia positiva". Aliás, tenho convicção de que empresa que paga bons salários e tem uma boa e honesta política de pessoal não precisa contratar palestras de motivação para seus empregados. Eles se motivam com a grana no fim do mês e com a satisfação de trabalhar numa boa empresa. Que me perdoem todos os palestrantes que estão ficando ricos percorrendo o país, mas eu acho que esse negócio de trocar fluidos me lembra putaria. E para terminar: existe qualquer esperança de encontrar vida inteligente numa criatura que se despede mandando "um beijo no coração"?

7.6.06

Eles e o Chico Buarque
Nina Lemos

O disco novo do Chico é maravilhoso. Disso, ninguém na mesa do Baixo Gávea ousou discordar. É lindo. É de chorar. Mas... meus amigos homens, ali, fãs do Chico tanto quanto eu, começaram a falar:
"Ouvi dizer que ele tem pau pequeno", disse um. "Ah, claro, se tivesse pau grande não escreveria tão bem", completou outro." "Mas imagina, o Chico Buarque já é foda. De pau grande não seria possível", responde outro.
Esses meus amigos não são de falar sobre pau de homem, que fique claro. Mas o assunto era o Chico Buarque. E um deles têm razão quando disse: "todas, mas absolutamente todas as mulheres que eu já comi na vida só deram para mim porque não conseguiram dar para o Chico Buarque". Verdade.
Entramos no carro ao som de "Ela faz cinema". "O mais foda é que o Chico Buarque vai pegar muita mulher por causa dessa música", diz um deles. E completa: "se até eu vou pegar só porque vou mostrar essa música, imagina o Chico...". Verdade. "E eu só comprei o disco, ele fez as músicas", falava o amigo.
Tudo porque o Chico lançou disco novo. E o disco é lindo.
Chico, nós te amamos! E não acreditamos nessa história de que você tem pau pequeno. É inveja deles. Não ligue.
Quando elas pegam pesado
De Xico Sá.

Sim, o caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria, como disse o poeta, um romântico inglês de marca maior, William Blake. Em muitas ocasiões, vale o verso. Em uma, em especial, pode ser um desastre. Palavra de homem, confesso.
Sabe quando ela tenta ser sexy ao extremo?
Ai é que mora o perigo. Fica tão caricato, meu Deus, que nos brocham, afastam. Elas ficam parecendo manequins de sex shop: modelão over, minissaia, decote, lingerie, perfumes apurados, coreografia ensaiada, beicinhos fora de hora...
Se a gente vai para a casa delas, deus mio, pior ainda: lá está o incenso exagerado e enjoativo, a luz ensaiada, os sais fervilhando na banheira _se for o caso de uma dama bem de vida_ e todo um circo que nos tira do prumo.
E haja caras de “sexy”, coisa de quem aprendeu, passo a passo, nas páginas de revistas que “ensinam” as mais novas posições para um orgasmo infalível! Como se o kama-sutra fosse pouco.
Mulheres, esqueçam o kit sex shop. É mais importante uma safadeza, um charme, um suspense no olho durante um jantar, do que a extravagância propriamente dita. Se cuidar, ficar bonita, é de lei, claro; mas não carece carregar nas tintas do desejo.
Não que tenha que acreditar na canção do Dorival Caymmi, esse gênio, que aconselha a Marina não pintar sequer o rosto, que é só seu... Isso é poético, mas uma pintura, um jeito no cabelo, apreciamos, nada mais lindo.
Nada como reforçar a chance que Deus lhe deu com os novos milagres da cosmética e da beleza, como naquele velho receituário de Ovídio. O que não pode é exagerar da cabeça aos pés, com roupas, acessórios e badulaques que, em vez de sexy, podem estragar a festa.
O exagero entrega muito rapidamente o jogo para o homem, elimina um certo suspense, aquela coisa de saber até que ponto ela está ou não ao alcance do nosso desejo. Ora, se ela já chega toda entregue, do decote ao salto, que nos resta de imaginação?
Nada mais sexy que o suspense, o jogo, nem que seja falso, nem que você já tenha chegado toda dele e pra sempre. O sempre possível. O sempre que pode.

4.6.06

Pra ouvir: Otis Redding, "These arms of mine".
Hilda Hilst

E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro.
E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.
Moça na cama
Adélia Prado

Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas,
uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça em ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no topor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros tem seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.
Alice Ruiz

e agora Maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia
e agora Maria?

vai com as outras
vai viver
com a hipocondria
Alice Ruiz

se você marcar bobeira
ou se eu me fizer de tonta
nunca mais eu apareço
nunca mais você me encontra
acho que vou dar bandeira
venha porque já estou pronta
só devia haver começo
a vida passa e não tem volta
venha porque a gente ajeita
sempre existem prós e contras
mas se a gente não encara
nossa vida embolora
chegue que a hora é agora
ou me esqueça
e vá embora
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas.

Ana Cristina Cesar
Quando menos se espera, tudo reverbera.
Hilda Hilst
Alice Ruiz

te procuro nas coisas boas
em nenhuma te encontro inteiro
em cada uma te inauguro