30.11.06

ACONSELHÁVEL: aquilo que provavelmente você não está com a menor vontade de fazer.
DEMORA: quando o tempo emperra na impaciência da gente.
ESPONTÂNEO: o que vem assim: "vim!".
FACEIRO: quem está muito contente porque está muito contente.
FLERTE: quando se joga "escravos de Jó" com os olhos.
FRUSTRAÇÃO: tristeza que fica quando a expectativa acaba.
IDIOTA: quem pensa que sabe tudo sem saber que tudo é bem mais do que ele pensa.
JINGLE: quando geladeira é musa.
LÉPIDO: alguém que, por causa de uma alegria bem alegre, se sentiu coelho de repente.
MÁGOA: ferida que gosta de bolero.
NINGUÉM: todo aquele que não foi a uma festa que ficou vazia.
OUSADIA: quando o coração diz pra coragem "vá" e a coragem vai mesmo.
PAIXÃO: quando apesar da placa "perigo" o desejo vai e entra.
PECADO: algo que os homens inventaram e então inventaram que foi Deus que inventou.
RANCOR: quando o fundo do coração não consegue dizer "deixa pra lá".
RIDÍCULO: tudo que parece um cão abanando o rabo pra alguém que nem percebe.
ROMANCE: caso de amor muito bem encadernado.
SURPRESA: tudo que não é esquilo, quando é um esquilo que você está esperando.
ÚNICO: tudo que, pela facilidade de virar nenhum, pede cuidado.
URBANO: sem vacas.
URGENTE: algo que não te dá tempo de fazer xixi primeiro.

Alguns dos melhores momentos do livro "Pequeno dicionário de palavras ao vento", de Adriana Falcão.

28.11.06

Fábula de um arquiteto
João Cabral de Melo Neto

A arquitetura como construir portas
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e teto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.
2.
Até que, tantos livres o amedrontando,

renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.

26.11.06

Eu andava brigada com o Caetano, mas depois de vê-lo ontem no palco, rindo daquele jeito cheio de covinhas...
Eu me entrego. Paixão de novo.

Não tenho inveja da maternidade nem da lactação.
Não tenho inveja da adiposidade nem da menstruação.
Só tenho inveja da longevidade e dos orgasmos múltiplos.
Eu sou homem, pele solta sobre o músculo.
Eu sou homem, pelo grosso no nariz.
Não tenho inveja da sagacidade nem da intuição.
Não tenho inveja da fidelidade nem da dissimulação.
Só tenho inveja da longevidade e dos orgasmos múltiplos.
(Homem, Caetano Veloso. Do disco "Cê").

PS: nota zero para o Chevrolet Hall. Falta de organização na saída, péssima acústica... e um calor insuportável. Pra completar, fui perguntar sobre o ar refrigerado para uma menina culturete da produção, e ela veio me explicar que "a Casa não tem ar. É quente mesmo, as pessoas que freqüentam já estão cientes disso. Semana passada, inclusive, teve um samba aqui e ficou muito, muito quente". Sim, bizarro.

17.11.06

Vivo ou morto. Meu reino por um homem interessante.
Tati Bernardi
.
Não sei mais o que fazer das minhas noites durante a semana. Em relação aos finais de semana já desisti faz tempo: noites povoadas por pessoas com metade da minha idade e do meu bom senso. Nada contra adolescentes, muitos deles até são mais interessantes e vividos do que eu, mas to falando dos “fabricação em série”. Tô fora de dançar os hits das rádios e ter meu braço ou cabelo puxado por um garoto que fala tipo assim, gata, iradíssimo, tia.
Tinha me decidido a banir a palavra “balada” da minha vida e só sair de casa para jantar, ir ao cinema ou talvez um ou outro barzinho cult desses que tem aberto aos montes em bequinhos charmosos. Mas a verdade é que por mais que eu ame minhas amigas, a boa música e um bom filme, meus hormônios começaram a sentir falta de uma boa barba pra se esfregar.
Já tentei paquerar em cafés e livrarias, não deu muito certo, as pessoas olham sempre pra mim com aquela cara de “tô no meu mundo, fique no seu”. Tentei aquelas festinhas que amigos fazem e que sempre te animam a pensar “se são meus amigos, logo, devem ter amigos interessantes”.
Infelizmente essas festinhas são cheias de casais e um ou outro esquisito desesperado pra achar alguém só porque os amigos estão todos acompanhados. To fora de gente desesperada, ainda que eu seja quase uma.
Baladas playbas com garotas prontas para um casamento e rapazes que exibem a chave do Audi to mais do que fora, baladas playbas com garotas praianas hippye-chique que falam com voz entre o fresco e o nasalado (elas misturam o desejo de serem meigas com o desejo de serem manos com o desejo de serem patos) e rapazes garoto propaganda Adidas com cabelinho playmobil também to fora.
O que sobra então? Barzinhos de MPB? Nem pensar. Até gosto da música, mas rapazes que fogem do trânsito para bares abarrotados, bebem discutindo a melhor bunda da firma e depois choram “tristeza não tem fim, felicidade sim” no ombro do amigo, têm grandes chances de ser aquele tipo que se acha super descolado só porque tirou a gravata e que fala tudo metade em inglês ao estilo “quero te levar pra casa, how does it sounds?”
Foi então que descobri os muquifos eletrônicos alternativos, para dançar são uma maravilha, mas ainda que eu não seja preconceituosa com esse tipo, não estou a fim de beijar bissexuais sebosos, drogados e com brinco pelo corpo todo. To procurando o pai dos meus filhos, não uma transa bizarra. Minha mais recente descoberta foram as baladinhas também alternativas de rock. Gente mais velha, mais bacana, roupas bacanas, jeito de falar bacana, estilo bacana, papo bacana… gente tão bacana que se basta e não acha ninguém bacana.
Na praia quem é interessante além de se isolar acorda cedo, aí fica aquela sensação (verdadeira) de que só os idiotas vão à praia e às baladinhas praianas. Orkut, MSN, chats… me pergunto onde foi parar a única coisa que realmente importa e é de verdade nessa vida: a tal da química. Mas então onde Meu Deus? Onde vou encontrar gente interessante? O tempo está passando, meus ex já estão quase todos casados, minhas amigas já estão quase todas pensando no nome do bebê,… e eu? Até quando vou continuar achando todo mundo idiota demais pra mim e me sentindo a mais idiota de todos?
Foi então que eu descobri. Ele está exatamente no mesmo lugar que eu agora, pensando as mesmas coisas, com preguiça de ir nos mesmos lugares furados e ver gente boba, com a mesma dúvida entre arriscar mais uma vez e voltar pra casa vazio ou continuar embaixo do edredon lendo mais algumas páginas do seu mundo perfeito.
A verdade é que as pessoas de verdade estão em casa. Não é triste pensar que quanto mais interessante uma pessoa é, menor a chance de você vê-la andando por aí?

14.11.06

Três anos de namoro.
.
“Evidentemente, estou falando da modalidade de vida que faz do amor o centro de tudo, que busca toda satisfação em amar e ser amado. (...) O lado fraco dessa técnica de viver é de fácil percepção, pois, do contrário, nenhum ser humano pensaria em abandonar esse caminho da felicidade por qualquer outro. É que nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor”.
.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização [1930].
Este poema é do irmão da Carlinha, minha amiga - agora venezuelana - que nunca acessaria um blog na vida e, portanto, nunca verá esta menção a ela.
Vou ligar pra contar que ela mereceu uma homenagenzinha e tem merecido minhas saudades TODOS os dias. Amigo é uma coisa ótima (poetas também são, e o irmão da Carlota é mesmo muito bom).
.
Chapéu mexicano
Luís Vilela

Senhor, me vê um chapéu desses
Isso, do grande; mexicano
Pra eu usar em dia de sol
E tirar em dia de chuva.
Virar ao avesso
Guardar dessa água.
Fazer dele
Um vaso de flor
De raiz profunda
À altura
do meu
Amor.
Amores platônicos, trepadas homéricas.
De Xico Sá.

O sexo no MSN. Intimidade em dez segundos. E depois, como fazer para curar o amor platônico se não rolar uma trepada homérica??? ...pra ficar tão-somente na comparação mais trágica e mais grega, saca? Kill bill gates? Ou, como diria na minha pátria, Mate Severino, mate!
As cartas nas narrativas russas ou antigas demoravam séculos, léguas. Intimidades no lombo dos ursos, velho tchecov, nos trenós, rosebuds. Agora em dois segundo não estarás apenas lambendo selos das cartas, estarás no platonismo lambendo paus, cus ou bucetas, a depender do gosto. E tê-los, tê-las, tetas?
Jovens, não esqueçam das ruas, dos banheiros, dos telhados, das mentiras, da história do olho, da baciazinha de leite na qual ela senta com a bunda como um gato a bebê-la... pra levantar pingando a vida pelo taco, segui-la, a lama, o charco, o pântano do amor até chegar no ponto mais fraco, a porra a nos colar xifópagos.

7.11.06

Já vivi e não tenho saudades. Tá bem, tenho um pouquinho de saudades (de chegar amassada depois de 13 horas de viagem com cheiro de ônibus da Gontijo, de ver dez filmes no quarto de hotel e não querer sair pra nada, da despedida com ar de novela mexicana...).
Ainda assim, amor de perto é tão mais legal... Fer, ainda bem que você voltou.
.
O amor e a distância
Raq Affonso
.
Você sempre foi contra o amor interestadual. O amor interpaíses. Interplanetários. Contra não. Na verdade, nunca acreditou que eles pudessem sobreviver.
E aí você de repente você se depara com o seu amor. A 400 kms de distância!!!!
E dá-lhe telefonemas. SMS. MSN. O amor através das siglas.
E viagens. E um dia você está voltando do feriado de finados num ônibus da viação 1001. Está passando o filme "The Abyss". É sobre um grupo de mergulhadores que se vê às voltas com uma entidade do fundo do mar. Ao lado, um homem chora. Está emocionado com o filme. Você resolve comer o lanche oferendado pela aviação. Amendoim sabor shoyu.
Daí o seu amor liga. Você fica com vergonha, afinal, tá todo mundo ouvindo sua conversa. Inclusive o homem emocionado. Pelo celular, ele diz que tá com saudades. Você disfarça. Fala: "Eu também". As pessoas olham de canto de olho. Você se compara com uma mulher que falou no celular e chamou o interlocutor de BEBÊ. E se despede.
Pra logo depois começar a realmente acreditar no amor interestadual. Interplanetário. Do fundo do mar. E achar a autoviação 1001 no dia dos finados um programa tipo ótimo.

1.11.06

João, meu paciente de 4 anos, passou ontem um tempão em silêncio montando um carrinho de Lego. Nem uma palavra durante a sessão. Resposta dele quando tentei falar alguma coisa: "sshhh! Não faz barulho, senão eu levado acordo!".
O semblante de analista, é claro, sumiu automaticamente.