31.1.08

As mortes do Farley
L. F. Veríssimo

Até a sua morte ridícula, a única coisa notável no Farley era o nome. Vinha de Farley Granger, um ator americano que sua mãe amava. Fora isso, Farley era uma pessoa comum, à qual nunca tinha acontecido nada. Até que aconteceu: Farley foi atropelado pela bicicleta de um entregador de lavanderia. Caiu, bateu com a cabeça no meio-fio e morreu. O entregador nem estava montado na bicicleta. Deixara a bicicleta estacionada contra um muro, num declive, a bicicleta saíra andando sozinha, Farley vinha dobrando a esquina com um pacote do super (duas cervejas, bolachas, uma revista para a mulher), tropeçara na bicicleta e pumba.
No velório, diante da consternação geral de parentes e amigos - o Farley, tão moço, tão pacato! -, a primeira explicação foi que as circunstâncias da sua morte ainda não estavam bem claras. Tudo indicava que tinha sido um entregador de pizza. Numa moto. Mas ainda não estava bem claro. Podia ter sido um Volkswagen.
A viúva nem precisou pedir. Todos na família se conscientizaram, sem combinar nada, de que era preciso proteger o pobre do Farley dos detalhes da sua morte. Já que vivo não fora nada, que pelo menos morto não fosse ridículo. E a família também precisava se proteger do constrangimento de dizer a verdade, cada vez que perguntassem como o Farley morrera. Um atropelamento por bicicleta desgarrada, por mais doloroso que fosse, seria sempre um desafio à seriedade. A família precisava urgentemente de uma morte mais séria.
Antes de o enterro sair, já corria a versão que Farley tinha sido atropelado por uma Mercedes. E mais: o atropelamento podia não ter sido acidental.
- Mas como? Quem ia querer mata o Farley?
- Nunca se sabe, nunca se sabe.
Naquela noite, tinha-se outra versão da tragédia. Não fora uma Mercedes, fora uma jamanta. E Farley morrera salvando uma criança. Correra para tirar a criança do caminho da jamanta, fora atingido e caíra com a cabeça contra o meio-fio. A jamanta não parara. A criança fugira, assustada. Estavam tentando descobrir sua identidade.
Passou o tempo, como costuma acontecer. E a legenda do Farley cresceu, com versões cada vez mais nobres elaboradas para sua morte sendo empilhadas em cima da singela verdade, para que esta nunca aparecesse. Mas desenvolveu-se, entre os jovens da família, uma espécie de contracorrente. Por inconfidências dos mais velhos, sabiam que a morte do tio Farley tinha sido ridícula. Só não sabiam como. E como os mais velhos não forneciam os pormenores - "Não se fala nisso nesta família, não pergunte" - cresceu entre eles outra legenda: a das possíveis mortes insólitas do tio Farley. Escorregara num cocô de cachorro - não, numa clássica casca de banana! - e quebrara a cabeça. Abrira a boca para bocejar, entrara um besouro em sua boca e ele morrera engasgado. Morrera do que ninguém morre: tratamento de canal, limpeza de pele, até (as especulações chegavam ao delírio) atropelamento por bicicleta. Sabe aquele satélite americano que perdeu velocidade e caiu, se despedaçando ao entrar na atmosfera? Os jornais não deram, mas um pedaço caiu no Brasil, adivinha em cima de quem. No outro dia, um dos jovens da família perguntou para a mãe se não era verdade que o tio Farley tinha ficado com a gravata presa numa porta giratória e... Mas a mãe fez "sssh" porque as pessoas em volta podiam ouvir. E porque a banda ia começar a tocar. Estavam inaugurando o monumento ao Farley, na praça que tinha o seu nome, com uma inscrição no pedestal: "A pátria agradecida”. Finalmente, o reconhecimento pela sua ação decisiva em defesa da democracia, quando acabara, por acidente, embaixo de um tanque de guerra, ainda segurando uma bandeira nacional, em circunstâncias que nunca tinham ficado bem claras.

30.1.08

Um dos meus preferidos da vida inteira. E o primeiro Vinícius de Moraes que eu me lembro ter lido - início de uma paixão irremediável por ele.
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Para uma menina com uma flor
Vinícius de Moraes

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.
E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a cara na vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

29.1.08

Poema ao mais recente amor
Leila Míccolis

Estar entre teus pelos e dedos,
entre tua densidade,
neste transpirar sob medida
aos teus gemidos.
Estar entre teus trópicos,
entre o teu desejo e o meu prazer;
beber o teu desejo e o meu prazer;
beber parte de teus líquens e teus rios
percorrendo-te da foz até a origem,
e pura a cada amor partir mais virgem.

28.1.08

'..A coisa era limpa: como se tratava de uma pessoa, então o limpo resultado fora cumprir a experiência de não poder. Pareceu-lhe mesmo que poucas pessoas haviam tido a honra de não poder. Pois, numa sensação genial, nascida talvez da sua dor, ele soube que o resultado mais acertado era falhar. . . Mas falhara? Porque a compensação também era fatal. Pois, num equilíbrio perfeito, acontecia que se ele não tinha as palavras, tinha o silêncio. E se não tinha a ação, tinha o grande amor. Um homem podia não saber nada; mas sabia como se virar, por exemplo, para o lado do poente: um homem tinha o grande recurso da atitude. se não tivesse o medo de ser mudo.'
Clarice Lispector

27.1.08

A aventura de um empregado de escritório
Ítalo Calvino

A Enrico Gnei, empregado de escritório, aconteceu passar a noite com uma bela senhora. Saindo da casa dela, cedo, o ar e as cores da manhã primaveril se abriram diante dele, frescos, tonificantes e novos, e ele tinha a impressão de estar caminhando ao som de música.
(...)
Já que, homem metódico que era, ter se levantado em casa alheia, ter se vestido às pressas, sem se barbear, deixavam-lhe uma impressão de descarrilhamento de hábitos, pensou por um instante em dar um pulo em casa, antes de ir para o escritório, para fazer a barba e se arrumar. Daria tempo, mas Gnei logo repeliu a idéia, preferiu se convencer de que era tarde, porque o assaltou o temor de que a casa, a repetição dos gestos cotidianos dissolvessem a atmosfera extraordinária e rica em que se movia no momento.
(...)
No banco havia um jornal aberto, Gnei o percorreu. Não tinha comprado o jornal, aquela manhã, e dizer que ao sair de casa aquela era sempre a primeira coisa que fazia. Era um leitor habitual, minucioso; acompanhava até os menores fatos, e não havia página que passasse sem ler. Mas naquele dia seu olhar corria sobre as manchetes sem provocar nenhuma associação de pensamento. Gnei não conseguia ler: talvez despertada pela comida, pelo café quente ou pelo atenuar-se do efeito do ar matutino, voltou a assaltá-lo uma onda de sensações da noite. Fechou os olhos, levantou o queixo e sorriu.
Atribuindo aquela expressão de prazer a uma notícia esportiva do jornal, o balconista lhe disse:
– Ah, está satisfeito que Boccadasse volta domingo? – e indicou a manchete que anunciava a recuperação de um centromédio.
Gnei leu, recompôs-se e, em vez de exclamar como gostaria: “Nada a ver com Boccadasse, nada a ver com Boccadasse, meu amigo!”, limitou-se a dizer:
– ...Pois é, pois é... – E, não querendo que uma conversa sobre a próxima partida desviasse a enxurrada de seus sentimentos, virou-se para a caixa, onde, nesse meio tempo, instalara-se uma caixeira jovem e de ar desiludido. – Então – falou Gnei, confidencial –, estou pagando um café e um biscoito. – A moça da caixa bocejou. – Sono, de manhã cedo? – disse Gnei. A moça aquiesceu sem sorrir. Gnei fez um ar de cúmplice: – Ah, ah! Esta noite dormiu pouco, hein? – Refletiu um momento, depois, convencido de estar com uma pessoa que o compreenderia, acrescentou: – Eu ainda tenho que dormir. – Depois se calou, enigmático, discreto. Pagou, cumprimento a todos, saiu. Foi ao barbeiro.
(...)
Seu rosto, com a toalha amarrada no pescoço, aparecia como um objeto que existe por si mesmo, e alguns sinais de cansaço, não corrigidos pela atitude geral da pessoa, destacavam-se; mas continuava sendo um rosto basicamente normal, como o de um viajante que desembarcou no trem da madrugada, ou de um jogador que passou a noite em cima das cartas; se não fosse, para distinguir a natureza peculiar de sua fadiga, certo ar, observou agradavelmente Gnei, relaxado e indulgente, do homem que agora já teve a sua parte, e está pronto para o pior como para o melhor.
“A carícias bem diferentes”, pareciam dizer as bochechas de Gnei ao pincel que as recobria de espuma quente, “a carícias bem diferentes das tuas estamos habituadas!”
“Raspa, navalha”, parecia dizer sua pele, “não rasparás o que senti e sei!”
Era, para Gnei, como se uma conversa cheia de alusões se desenrolasse entre ele e o barbeiro, que, pelo contrário, estava calado também, manobrando com empenho seus instrumentos. (...)
Em relação a seu trabalho, Gnei nutria aquele ímpeto amoroso que, mesmo inconfesso, acende o coração dos empregados de escritório, por pouco que sabiam com que doçuras secretas e com que fanatismo furioso se pode carregar a mais corriqueira prática burocrática, o despacho de indiferente correspondência, a manutenção pontual de um registro. Talvez sua esperança inconsciente daquela manhã fosse que a exaltação amorosa e a paixão empregatícia fizessem um todo único, pudessem se fundir, para continuar a arder sem apagar. Mas bastou a vista da escrivaninha, o aspecto usual de uma pasta esverdeada com etiqueta “Pendentes” para fazê-lo sentir vivo o contraste entre a beleza vertiginosa de que mal acabara de se separar e seus dias de sempre.
Girou muitas vezes em torno da escrivaninha, sem se sentar. Fora colhido por uma paixão súbita, urgente pela bela senhora. E não podia sossegar. Entrou no escritório vizinho, onde os contadores batiam, com atenção e descontentamento, nas teclas.
Pôs-se a passar na frente de cada um deles, cumprimentando-os, nervosamente risinho, sombrio, aquecendo-se na recordação, sem esperança no presente, louco de amor entre os contadores. “Como agora estou me mexendo no meio de vocês em seu escritório”, pensava, “assim me virava entre os lençóis dela, agora há pouco.”
(...)
“Este é o segredo”, decidiu, voltando para sua sala: “que a cada momento, a cada coisa que eu faço ou digo, esteja implícito tudo o que vivi”. Mas era roído por uma ânsia, por não poder nunca ser igual àquele que havia sido, por não conseguir exprimir, nem com alusões e menos ainda com palavras explícitas, e talvez nem mesmo com o pensamento, a plenitude que sabia ter alcançado.
Tocou o telefone. Era o diretor. Pedia os antecedentes da reclamação Giuseppieri.
– Veja, senhor diretor – explicou Gnei ao telefone –, a firma Giuseppieri na data de seis de março... – E queria dizer: “E aí, quando ela disse lentamente: ‘Vai embora...?’, eu entendi que não era para largar sua mão...”. – Sim, senhor diretor, a reclamação era por mercadoria já faturada... – E pensava dizer: “Até que a porta se fechasse atrás de nós, eu ainda estava duvidando...”. – Não – explicava –, a reclamação não foi feita por intermédio da agência... – E pretendia: “Mas só então entendi que era inteiramente diferente de como eu a tinha imaginado, fria e altiva...”.
Pôs o fone no gancho. Estava com a testa perlada de suor. Sentia-se cansado, agora, cheio de sono. Fizera mal em não passar em casa para se refrescar e trocar: até as roupas que usava o incomodavam.
Chegou perto da janela. Havia um pátio cercado de paredes altas e repletas de varandas, mas era como estar num deserto. Via-se o céu por cima dos telhados não mais límpido mas esbranquiçado, invadido por uma pátina opaca, assim como na memória de Gnei uma brancura opaca ia apagando qualquer lembrança de sensações, e a presença do sol era assinalada por uma mancha de luz indistinta, parada, como uma surda pontada de dor.

26.1.08

Mais Alcoólicas, da Hilda Hilst. Enviada pela Marina, que é sempre o máximo na tarefa informal de alimentar esse blog de coisas legais.
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Se um dia te afastares de mim, Vida — o que não creio
Porque algumas intensidades têm a parecença da bebida —
Bebe por mim paixão e turbulência, caminha
Onde houver uvas e papoulas negras (inventa-as)
Recorda-me, Vida: passeia meu casaco, deita-te
Com aquele que sem mim há de sentir um prolongado
vazio.
Empresta-lhe meu coturno e meu casaco rosso:
compreenderá
O porquê de buscar conhecimento na embriaguês da via
manifesta.
Pervaga. Deita-te comigo. Apreende a experiência lésbica:
O êxtase de te deitares contigo. Beba.
Estilhaça a tua própria medida.
(Alcoólicas - IX)

25.1.08

Alcoólicas
Hilda Hilst

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.
(Alcoólicas - I)
* * *
Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.
(Alcoólicas - II)
* * *
E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.
(Alcoólicas - IV)
* * *
Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.
(Alcoólicas - V)

24.1.08

(do Milen, no Essência Intermitente)


Heath Ledger aparece morto e os jornais só me falam do corte de juros do Banco Central americano.
Esses jornalecos decidiram que o mundo é feio, bobo e chato; e o mundo caiu na conversa deles.
Aliás, Heath: quero crer que isso aí tenha sido um mítico desprendimento suicida. Quero crer que você mijou em cinco altares, que descartou Sucesso, Beleza, Dinheiro, Realização Profissional e Sonho Americano com a autoridade de quem foi beijado e lambido por todos esses deuses…
Quero vislumbrar um gigantesco tapa de luva na cara do Ocidente, em vez de um banal erro de cálculo numa noite de terça.

Harmonia velha
Guilherme de Almeida

O teu beijo resume
Todas as sensações dos meus sentidos
A cor, o gosto, o tato, a música, o perfume
Dos teus lábios acesos e estendidos
Fazem a escala ardente com que acordas o fauno encantador
Que, na lira sensual de cinco cordas,
Tange a canção do amor!
E o tato mais vibrante,
O sabor mais sutil, a cor mais louca,
O perfume mais doido, o som mais provocante
Moram na flor triunfal da tua boca!
Flor que se olha, e ouve, e toca, e prova, e aspira;
Flor de alma, que é também
Um acorde em minha lira,
Que é meu mal e é meu bem...
Se uma emoção estranha
o gosto de uma fruta, a luz de um poente -
chega a mim, não sei de onde, e bruscamente ganha
qualquer sentido meu, é a ti somente
que ouço, ou aspiro, ou provo, ou toco, ou vejo...
E acabo de pensar
Que qualquer emoção vem de teu beijo
Que anda disperso no ar...

21.1.08

Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

18.1.08

Fernando Pessoa

Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.
O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.
Trêmulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?

17.1.08

Cláudia Narcótico
Elisa Lucinda

Quando eu dormisse
bem que podia vir um homem
treinado a dizer que me ama.
Quando eu dormisse
Bem que podia nascer na minha cama
Um antúrio com falo e bigode
Um entulho desses que pode
Morder a gente com postura de amante
E constância de marido
Assíduo, quando eu dormisse
Acordar com alguém que me dissesse
Que eu sou gostosa
Despertar como quem goza
No travesseiro e troca a fronha
Desfilar como quem posa
Na poça da bela que sonha.
Quando eu dormisse
O baby-doll enfiado na meninice
Inventar uns nomes
Chamar os homens à cachorrice
Ai, se eu dormisse
Diempax idiotice
Um pijama listrado
A cafonice
Um vampiro tarado paranormalisse
Terno engomado prancha surfisse
Qualquer função que eu não visse
Papai-mamãe
Mesma mesmice
Quando eu dormisse
Manhã de sol e ele sumisse.

15.1.08

Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.

14.1.08

Motivo
Cecília Meireles


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
ao vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

11.1.08

A mesa
Carlos Drummond de Andrade

E não gostavas de festa...
Ó velho, que festa grande
hoje te faria a gente.
E teus filhos que não bebem
e o que gosta de beber,
em torno da mesa larga,
largavam as tristes dietas,
esqueciam seus fricotes,
e tudo era farra honesta
acabando em confidência.
Ai, velho, ouvirias coisas
de arrepiar teus noventa.
E daí, não te assustávamos,
porque, com riso na boca,
e a nédia galinha, o vinho
português de boa pinta,
e mais o que alguém faria
de mil coisas naturais
e fartamente poria
em mil terrinas da China
já logo te insinuávamos
que era tudo brincadeira.
Pois sim. Teu olho cansado,
mas afeito a ler no campo
uma lonjura de léguas,
e na lonjura uma rês
perdida no azul azul,
entrava-nos alma adentro
e via essa lama podre
e com pesar nos fitava
e com ira amaldiçoava
e com doçura perdoava
(perdoar é rito de pais
quando não seja de amantes).
E, pois, todo nos perdoando,
por dentro te regalavas
de ter filhos assim... Puxa,
grandecíssemos safados,
me saíram bem melhor
que as encomendas. De resto,
filho de peixe... calavas,
com agudo sobrecenho
interrogavas em ti
uma lembrança saudosa
e não de todo remota
e rindo por dentro e vendo
que lançaras uma ponte
dos passos loucos do avô
à incontinência dos netos,
sabendo que toda carne
aspira à degradação,
mas numa via de fogo
e sob um arco sexual,
tossias. Hem, hem, meninos,
não sejam bobos. Meninos?
Uns marmanjos cinqüentões,
calvos, vividos, usados,
mas resguardando no peito
essa alvura de garoto,
essa fuga para o mato,
essa gula defendida
e o desejo muito simples
de pedir à mãe que cosa,
mais do que nossa camisa,
nossa alma fouxa, rasgada...
Ai, grande jantar mineiro
que seria esse... Comíamos,
e comer abria fome,
e comida era pretexto.
E nem mesmo precisávamos
ter apetite, que as coisas
deixavam-se espostejar,
e amanhã é que eram elas.
Nunca desdenhe o tutu.
Vá lá mais um torresminho.
E quanto ao peru? Farofa
há de ser acompanhada
de uma boa cachacinha,
não desfazendo em cerveja,
essa grande camarada.
Ind’outro dia... Comer
guarda tamanha importância
que só o prato revele
o melhor, o mais humano
dos seres em sua treva?
Beber é pois tão sagrado
que só bebido meu mano
me desata seu queixume,
abrindo-me sua palma?
Sorver, papar: que comida
mais cheirosa, mais profunda
no teu tronco luso-árabe
e que bebida mais santa
que a todos une em um
tal centímano glutão,
parlapatão e bonzão!
E nem falta a irmã que foi
mais cedo que os outros e era
rosa de nome e nascera
em dia tal como o de hoje
para enfeitar tua data.
Seu nome sabe a camélia,
e sendo uma rosa-amélia,
flor muito mais delicada
que qualquer das rosas-rosa,
viveu bem mais do que o nome,
porém no íntimo claustrava
a rosa esparsa. A teu lado,
vê: recobrou-se-lhe o viço.
Aqui sentou-se o mais velho.
Tipo do manso, do sonso,
não servia para padre,
amava casos bandalhos;
depois o tempo fez dele
o que faz a qualquer um;
e à medida que envelhece,
vai estranhamente sendo
retrato teu sem ser tu,
de sorte que se o diviso
de repente, sem anúncio,
és tu que me reapareces
noutro velho de sessenta.
Este outro aqui é doutor,
o bacharel da família,
mas suas letras mais doutas
são as escritas no sangue,
ou sobre a casca das árvores.
Sabe o nome da florzinha
e não esquece da fruta
mais rara que se prepara
num casamento genético.
Mora nele a nostalgia
citadino, do ar agreste,
e, camponês, do letrado.
Então vira patriarca.
Mais adiante vês aquele
que de ti herdou a dura
vontade, o duro estoicismo.
Mas, não quis te repetir.
Achou não valer a pena
reproduzir sobre a terra
o que a terra engolirá.
Amo. E ama. E amará.
Só não quer que seu amor
seja uma prisão de dois,
um contrato, entre bocejos
e quatro pés de chinelo.
Feroz a um breve contrato,
à segunda vista, seco,
à terceira vista, lhano,
dir-se-ia que ele tem medo
de ser, fatalmente, humano.
Dir-se-ia que ele tem raiva,
mas que mel transcende a raiva
e que sábios, ardilosos
recursos de se enganar
quanto a si mesmo: exercita
uma força que não sabe
chamar-se, apenas, bondade.
Esta calou-se. Não quis
manter com palavras novas
o colóquio subterrâneo
que num sussurro percorre
a gente mais desatada.
Calou-se, não te aborreças.
Se tanto assim a querias,
algo nela ainda te quer,
à maneira atravessada
que é própria de nosso jeito.
(Não ser feliz tudo explica.)
Bem sei como são penosos
esses lances de família,
e discutir neste instante
seria matar a festa,
matando-te – não se morre
uma só vez, nem de vez.
Restam sempre muitas vidas
para serem consumidas
na razão dos desencontros
de nosso sangue nos corpos
por onde vai dividido.
Ficam sempre muitas mortes
para serem longamente
reencarnadas noutro morto.
Mas estamos todos vivos.
E mais que vivos, alegres.
Estamos todos como éramos
antes de ser, e ninguém
dirá que ficou faltando
algum dos teus. Por exemplo:
ali ao canto da mesa
não por humildade, talvez
por ser o rei dos vaidosos
e se pelar por incômodas
posições de tipo gauche,
ali me vês tu. Que tal?
Fica tranqüilo: trabalho.
Afinal, a vida boa
ficou apenas: a vida
(e nem era assim tão boa
e nem se fez muito má).
Pois ele sou eu. Repara:
tenho todos os defeitos
que não farejei em ti,
e nem os tenho que tinhas,
quanto mais as qualidades.
Não importa: sou teu filho
com ser uma negativa
maneira de te afirmar.
Lá que brigamos, brigamos
opa! que não foi brinquedo,
mas os caminhos do amor
só o amor sabe trilhá-los.
Tão ralo prazer te dei,
nenhum, talvez... ou senão,
esperança de prazer,
é, pode ser que te desse
a neutra satisfação
de alguém sentir que seu filho,
de tão inútil, seria
sequer um sujeito ruim.
Não sou um sujeito ruim.
Descansa, se o suspeitavas,
mas não sou lá essas coisas.
Alguns afetos recordam
o meu coração chateado.
Se me chateio? Demais.
Esse é meu mal. Não herdei
de ti a balda. Bem,
não me olhes tão longo tempo,
que há muito a ver ainda.
Há oito. E todos minúsculos,
todos frustrados. Que flora
mais triste fomos achar
para ornamento de mesa!
Qual nada. De tão remotos,
de tão puros e esquecidos
no chão que suga e transforma
são anjos. Que luminosos!
que raios de amor radiam,
e em meio a vagos cristais,
o cristal deles retine,
reverbera a própria sombra.
São anjos que nos dignaram
participar do banquete,
alisar o tamborete,
viver vida de menino.
São anjos: e mal sabias
que um mortal devolve a Deus
algo de sua divina
substância aérea e sensível,
se tem um filho e se o perde.
Conta: quatorze na mesa.
Ou trinta? Serão cinqüenta,
que sei? Se chegam mais outros,
uma carne cada dia
multiplicada, cruzada
a outras carnes de amor.
São cinqüenta pecadores,
se pecado é ter nascido
e provar, entre pecados,
os que nos foram legados.
A procissão de teus netos,
alongando-se em bisnetos,
veio pedir tua bênção
e comer de teu jantar.
Repara um pouquinho nesta,
no queixo, no olhar, no gesto,
e na consciência profunda
e na graça menineira,
e dize, depois de tudo,
se não é, entre meus erros,
uma imprevista verdade.
Esta é minha explicação
meu verso melhor ou único,
meu tudo enchendo meu nada.
Agora a mesa repleta
está maior do que a casa.
Falamos de boca cheia,
xingamo-nos mutuamente,
rimos, ai, de arrebentar
esquecemos o respeito
terrível, inibidor,
e toda a alegria nossa,
ressecada em tantos negros
bródios comemorativos
(não convém lembrar agora),
os gestos acumulados
de efusão fraterna, atados
(não convém lembrar agora),
as fina-e-meigas palavras
que ditas naquele tempo
teriam mudado a vida
(não convém mudar agora),
vem tudo à mesa e se espalha
qual inédita virtualha.
Oh que ceia mais celeste
e que gozo mais do chão!
Quem preparou? Que inconteste
vocação de sacrifício
pôs à mesa, teve os filhos?
Quem se apagou? Quem pagou
a pena deste trabalho?
Quem foi a mão invisível
que traçou esse arabesco
de flor em torno ao pudim,
como se traça uma auréola?
Quem tem auréola? Quem não
a tem, pois que, sendo de outro,
cuida logo em reparti-la,
e se pensa melhor faz?
quem senta do lado esquerdo,
assim curvada? Que branca,
mas que branca mais que branca
tarja de cabelos brancos
retira a cor das laranjas,
anula o pó de café,
cassa o brilho aos serafins?
Quem é toda luz e é branca?
Decerto não pressentias
como o branco pode ser
uma tinta mais diversa
da mesma brancura... alvura
elaborada na ausência
de ti, mas ficou perfeita,
concreta, fria, lunar.
Como pode nossa festa
ser de um só que não de dois?
Os dois ora estais reunidos
numa aliança bem maior
que o simples elo da terra.
Estais juntos nesta mesa
de madeira mais de lei
que qualquer lei da república.
Estais acima de nós,
acima deste jantar
para o qual vos convocamos
por muito – enfim – vos queremos
e, amando, nos iludirmos,
junto da mesa
vazia.

10.1.08

Nossa expulsão do paraíso
Barroso da Costa (http://www.blogger.com/www.osimpublicaveis.com.br)

Embora não seja especialista na matéria, uma das coisas mais interessantes sobre as quais a Psicanálise me fez pensar diz respeito à nossa expulsão do Paraíso. Isto mesmo. Sobre aquele lance de comer a maçã proibida e, a partir de então, ter vergonha de nossos corpos nus, ter de trabalhar para comer, sentir tesão pela marquinha de biquíni da Eva etc.
Ao sermos despejados do Éden, nos tornamos homens. O mundo evoluiu, o machismo já não impera e hoje podemos ser homens e mulheres, com direitos iguais. Já se pode inclusive ser gay, lésbica, simpatizante, transexual, pansexual, metrossexual, a um metro de ser homossexual e – para o horror de muitos – ainda nos é permitido optar pela heterossexualidade.
Este excesso de nomes para o que no Paraíso seria denominado simplesmente de macho ou fêmea vem bem a calhar quando se trata de tentar explicar nossa expulsão daquele recanto de paz, sossego e tranqüilidade pelo qual muitos ainda anseiam. Vem bem a calhar porque, diferentemente do que ainda pensa boa parte da população ocidental, o que implicou nossa retirada do estado de natureza não foi a atenção dada a uma serpente ou a mordida numa maçã. Pelo menos não no sentido literal ou psicótico destes substantivos.
Aliás, é justamente a necessidade de ter que representar nossa expulsão que explica o porquê do amargo despejo. É a possibilidade de enxergar uma maçã para além da fruta e uma serpente para além do ofídio. Ou seja, é a inevitabilidade do simbólico e, logo, da palavra que nos diferencia de uma samambaia ou de um cabrito, já que é a partir dela que nos sabemos vivos, diferentemente dos animais ou plantas, que simplesmente são, sem ter consciência de sua existência, sem ter consciência, sem ter, sem.
A necessidade da palavra e da comunicação marca a nossa não-integração com o natural, a nossa desintegração complexa. Uma incompletude inerente à nossa condição e que nos faz falar, falar e falar, na tentativa de formarmos laços que, em nossa fantasia, nos tornarão completos, devolvendo-nos ao Paraíso perdido.
Mas aí surge o mal-entendido, próprio dos seres não-absolutos, que têm consciência do que foi e planejam o que será; que raramente se detêm no que está sendo e menos ainda no que é, o que os lembra novamente de seu distanciamento da natureza, em que se existe num eterno presente, sem se lembrar de um passado ou vislumbrar um futuro.
É pela palavra, portanto, que temos notícia de nosso vazio próprio aos não-seres históricos que precisam nomear-se para serem mutuamente reconhecidos em prol de uma realidade pactuada e, portanto, não-natural. Mas é através dela que podemos desejar e, assim, tentar contornar este vazio e continuar vivendo, amando e enganando a dor que resulta daquilo que nos acompanha ao longo de toda a vida, para nos lembrar de nossa expulsão do Éden: a angústia de nos sentirmos humanos e incompletos.
Se, por um lado, a palavra é nossa desgraça, por outro, é nossa tábua de salvação.
Dela, pois, façamos bom uso.

9.1.08

Quem me mandou foi o Nando.
Soneto
Camões

Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos deuses, odioso.

Se males faz Amor, em mi se vêem;
Em mi mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de Amor;
Todos estes seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.

8.1.08

Ri muito desta parte ontem à noite:
.
"(...) Mas eu tinha até ali agarrado uma esperança. Tinha ouvido dizer que, quando canoa vira, fica boiando, e é bastante a gente se apoiar nela, encostar um dedo que seja, para se ter tenência, a constância de não afundar, e aí ir seguindo, até sobre se sair no seco. Eu disse isso. E o canoeiro me contradisse: - 'Esta é das que afundam inteiras. É canoa de peroba. Canoa de peroba e de pau-d'óleo não sobrenadam...' Me deu uma tontura. O ódio que eu quis: ah, tantas canoas no porto, boas canoas boiantes, de faveira ou tamboril, de imburana, vinhático ou cedro, e a gente tinha escolhido aquela... Até fosse crime, fabricar dessas, de madeira burra! (...)".
.
João Guimarães Rosa, "Grande sertão: veredas"

6.1.08

Contribuição da Marina, que me deixa orgulhosa de ter leitor(es) ótimo(s).

O dia da ira
Adélia Prado

As coisas tristíssimas,
o rolomag, o teste de Cooper,
a mole carne tremente entre as coxas,
vão desaparecer quando soar a trombeta.
Levantaremos como deuses,
com a beleza das coisas que nunca pecaram,
como árvores, como pedras,
exatos e dignos de amor.
Quando o anjo passar,
o furacão ardente do seu vôo
vai secar as feridas,
as secreções desviadas dos seus vasos
e as lágrimas.
As cidades restarão silenciosas, sem um veículo:
apenas os pés de seus habitantes
reunidos na praça, à espera de seus nomes.
"Quem tem fé entra na Kombi".
Palavras do líder religioso da rua Guaicuí.

4.1.08

Marfim
Ana C. César

A moça desceu os degraus com o robe monogramado no peito: L.M. sobre o coração. Vamos iniciar outra Correspondência, ela propõe. Você já amou alguém verdadeiramente? Os limites do romance realista. Os caminhos do desconhecer. A imitação da rosa. As aparências desenganam. Estou desenganada. Não reconheço você, que é tão quieta, nessa história. Liga amanhã outra vez sem falta. Não posso interromper o trabalho agora. Gente falando por todos os lados. Palavra que não mexe mais no barril de pólvora plantado sobre a torre de marfim.

3.1.08

Os desaparecidos
Affonso Romano de Sant’Anna

De repente, naqueles dias, começaram
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no táxi que se ia.
Culpado ou não, sumia-se
ao regressar do escritório ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mão, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que não via.
Mães segurando filhos e compras,
gestantes com tricots ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
Mecânicos se diluíam
- mal ligavam o tôrno do dia.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Desaparecia-se a olhos vistos
e não era miopia. Desaparecia-se
até a primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspícuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes esvaneciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, arefeitos, constatar no além,
como os pescadores partiam.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Os atores no palco
entre um gesto e outro, e os da platéia
enquanto riam.
Não, não era fácil ser poeta naqueles dias.
Porque os poetas, sobretudo
- desapareciam.
Se fosse ao tempo da Bíblia, eu diria
que carros de fogo arrebatavam os mais puros
em mística euforia. Não era. É ironia.
E os que estavam perto, em pânico, fingiam
que não viam. Se abstraíam.
Continuavam seu baralho a conversar demências
com o ausente, como se ele estivesse ali sorrindo
com suas roupas e dentes.
Em toda família à mesa havia
uma cadeira vazia, a qual se dirigiam.
Servia-se comida fria ao extinguido parente
e isto alimentava ficções
- nas salas e mentes
enquanto no palácio, remorsos vivos boiavam
- na sopa do presidente.
As flores olhando a cena, não compreendiam.
Indagavam dos pássaros, que emudeciam.
As janelas das casas, mal podiam crer
- no que viam.
As pedras, no entanto,
gravavam os nomes dos fantasmas
pois sabiam que quando chegasse a hora
por serem pedras, falariam.
O desaparecido é como um rio:
- se tem nascente, tem foz.
Se teve corpo, tem ou terá voz.
Não há verme que em sua fome
roa totalmente um nome. O nome
habita as vísceras da fera
Como a vítima corrói o algoz.
E surgiam sinais precisos
de que os desaparecidos, cansados
de desaparecerem vivos
iam aparecer mesmo mortos
florescendo com seus corpos
a primavera de ossos.
Brotavam troncos de árvores,
rios, insetos e nuvens em cujo porte se viam
vestígios dos que sumiam.
Os desaparecidos, enfim,
amadureciam sua morte.
Desponta um dia uma tíbia
na crosta fria dos dias
e no subsolo da história
- coberto por duras botas,
faz-se amarga arqueologia.
A natureza, como a história,
segrega memória e vida
e cedo ou tarde desova
a verdade sobre a aurora.
Não há cova funda
que sepulte
- a rasa covardia.
Não há túmulo que oculte
os frutos da rebeldia.
Cai um dia em desgraça
a mais torpe ditadura
quando os vivos saem à praça
e os mortos da sepultura.

2.1.08

A invenção de um modo
Adélia Prado

Entre paciência e fama quero as duas,
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: "Ora, isso é pras mulheres de São Paulo"
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque que tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.

1.1.08

A morte
Vinícius de Moraes

A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.