30.6.09

Não vai pegar (não acredito mais assim na humanidade), mas bem que podia. Movimento pelo uso racional do Photoshop nas fotos publicitárias. Porque ninguém é mais bonito quando parece de plástico. Aqui.
(...) (porque o tempo sempre foi longo para me esqueceres e curto para te amar).

Cecília Meireles
(...) É difícil perder-se. Tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.

Clarice Lispector, "A paixão segundo GH".
Do blog Casa da Chris, que é sempre cheio de coisas deliciosas, hoje veio um texto delicioso.

Vontade não tem hora, nem lugar adequado, nem dia certo para aparecer. Hoje acordei com vontade de comer pudim. Daqueles instantâneos, que vêm na caixinha com instruções que levam dois minutos para ser seguidas. Jogue o pó numa panela bonita, acrescente um copo de leite, misture com uma colher de pau até virar mingau. Bom seria que a vontade passasse durante os dois minutos de preparo, assim que o perfume de baunilha alcança o nariz. Logo que a mão começa a movimentar a colher mais devagar, por conta da mistura que engrossa e vira mingau. Já vou avisando que não passa assim, em dois minutos. É preciso despejar o creme espesso e perfumado artificialmente em copinhos, e sem deixar escorrer nas beiradas - porque fica feio aquela gotinha ressecada na borda do copo. Depois tem de levar para gelar. Esperar o mingau virar pudim e, só então, romper com a colher mais bonita do faqueiro a capinha que se forma antes de alcançar o creme, agora gelado, pudim de fato. Hoje acordei com vontade de comer pudim por pura saudade de mim mesma. Da minha parte que prepara pudins com ou sem caixinha por perto. Se tiver amido de milho, leite e extrato natural de baunilha, melhor ainda. Saudade dos dias de acordar com vontade de fazer flores de açúcar para colocar sobre os bolinhos. De sonhar com receitas inventadas que eu nem sei que gosto têm. Do meu lado que se arrepende de não fazer bolinhos todos os dias. Amanhã vou fazer pudim sem caixinha mesmo. E depois de amanhã, as flores de açúcar não escapam. Porque não dá para ficar fugindo o tempo todo das próprias vontades.

29.6.09

Nova Poética

Manuel Bandeira

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Sai um sujeito com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó de uma nódoa de lama:
É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.

Indivisíveis

Mário Quintana

O meu primeiro amor e eu sentávamos numa pedra

Que havia num terreno baldio entre as nossas casas.

Falávamos de coisas bobas,

Isto é, que a gente achava bobas

Como qualquer troca de confidências entre crianças de cinco anos.

Crianças...

Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos

A não ser o azul imenso dos olhos dela,

Olhos que eu não encontrava em ninguém mais,

Nem no cachorro e no gato da casa,

Que tinham apenas a mesma fidelidade sem compromisso

E a mesma animal - ou celestial - inocência,

Porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu:

Não, não importava as coisas bobas que diséssemos.

Éramos um desejo de estar perto, tão perto

Que não havia ali apenas duas encantadas criaturas

Mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra,

Enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se, não sabia

Que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a sua vida...

(...)
- Você tem um cigarro?
- Estou tentando parar de fumar.
- Eu também. Mas queria uma coisa nas mãos agora.
- Você tem uma coisa nas mãos agora.
- Eu?
- Eu.
(...)

Caio Fernando Abreu.

Não sei dizer ainda se o nome dele é Chico ou Tom. Sei que ele é lindo, enorme, estabanado, com uma carinha triste. E que, como a dona, não sabe se prefere ficar sozinho ou ganhar abraços, e sai pra caminhar já pensando na hora de voltar pra casa e ficar em paz.
Janta
(Marcelo Camelo, com part. Mallu Magalhães)

Eu quis te conhecer mas tenho que aceitar
caberá ao nosso amor o "eterno" ou o "não dá"
pode ser cruel a eternidade, eu ando em frente por sentir vontade

Eu quis te convencer mas chega de insistir
caberá ao nosso amor o que há de vir
pode ser a eternidade má, caminho em frente pra sentir saudade

Paper clips and crayons in my bed, everybody thinks that I'm sad
I take my ride in melodies and bees and birds will hear my words
will be both us and you and them together
I can forget about myself trying to be anybody else
I feel allright that we can go away and please my day
I'll let you stay with me if you surrender.

Eu amo. Sou eu.


Sometimes I shave my legs and sometimes I don't.
Sometimes I comb my hair and sometimes I won't.
Depend on how the wind blows I might even paint my toes
It really just depends on whatever feels good in my soul

I'm not the average girl from your video and I ain't built like a supermodel
But I learned to love myself unconditionally because I am a queen
I'm not the average girl from your video
My worth is not determined by the price of my clothes
No matter what I'm wearing I will always be India Arie

When I look in the mirror and the only one there is me
Every freckle on my face is where it's supposed to be
And I know my creator didn't make no mistakes on me
My feet, my thighs, my lips, my eyes; I'm lovin' what I see

Am I less of a lady if I don't wear pantyhose?
My mama said a lady ain't what she wears but, what she knows
But, I've drawn a conclusion, it's all an illusion, confusion's the name of the game
A misconception, a vast deception, something's gotta change
Don't be offended this is all my opinion, ain't nothing that I'm sayin law
This is a true confession of a life learned lesson I was sent here to share with y'all
So get in where you fit in go on and shine, clear your mind, now's the time
Put your salt on the shelf, go on and love yourself
'Cuz everything's gonna be all right

Keep your fancy drinks and your expensive minks, I don't need that to have a good time
Keep your expensive car and your caviar, all I need is my guitar
Keep your Kristal and your pistol, I'd rather have a pretty piece of crystal
Don't need your silicon I prefer my own, What god gave me is just fine

I'm not the average girl from your video and I ain't built like a supermodel
But, I learned to love myself unconditionally because I am a queen
I'm not the average girl from your video
My worth is not determined by the price of my clothes
No matter what I'm wearing I will always be India Arie

26.6.09

Dedicatória
Florbela Espanca

É só teu o meu livro; guarda-o bem;
Nele floresce o nosso casto amor
Nascido nesse dia em que o destino
Uniu o teu olhar à minha dor.

23.6.09


As canções que você fez pra mim.

Roberto Carlos - Erasmo Carlos


Hoje eu ouço as canções que você fez pra mim, não sei por que razão tudo mudou assim. Ficaram as canções e você não ficou.

Esqueceu de tanta coisa que um dia me falou, tanta coisa que somente entre nós dois ficou. Eu acho que você já nem se lembra mais.

É tão difícil olhar o mundo e ver o que ainda existe. Pois sem você meu mundo é diferente, minha alegria é triste

Quantas vezes você disse que me amava tanto, tantas vezes eu enxuguei o seu pranto. Agora eu choro só, sem ter você aqui.

Acho que sou eu. Espero que sim.
No blog dele. Muita saudade. E um amor que não tem fim e que é o amor mais incondicional que eu já senti na vida. Que é amor até quando está bravo ou triste. E que eu desconfio que seja amor pra sempre.

E um dia você chegou, rindo, trazendo Ferreira Gullar, Leminski e Lispector;
E trouxe um mundo maior do que mil pernas minhas;
E me provou que não é bom ser hermético, antipático,
Como uma daquelas latas de biscoito importado, mas cheia de angústia.

Você fundou em mim o cuidado,
E um amor que mais parece asma, de tão amor que é.

E até hoje eu me reprovo, e tento esconder minhas dores pra não te fazer doer.
Sem conseguir, encosto minhas costas nas suas torcendo pra você mudar de lado e me encontrar à sua espera, que é como estou desde que me lembro.

O mundo só me parece imenso porque você me mostrou que ele pode ser.
(Eu sei) ele não teria cor sem você.

Ou eu não teria sem você.

22.6.09

- Cada um tem suas medidas.

- As suas são despropositadas. Você é sempre a mesma. Por otimismo, por ser muito voluntariosa, esconde de si própria a verdade e quando ela salta diante de seus olhos você desaba ou explode.

Simone de Beauvoir, "A idade da discrição".

Tirei daqui.

21.6.09

Ganhei da Mari Clark. Adorei porque é ela e porque é ótimo.

Para Dri

Bermuda larga
Chacal

muitos lutam por uma causa justa
eu prefiro uma bermuda larga
só quero o que não me encha o saco
luto pelas pedras fora do sapato

Bola de cristal

Mário Quintana

A praça, o coreto, o quiosque,

as primeiras leituras, os primeiros

versos

e aquelas paixões sem fim...

Todo um mundo submerso,

com suas vozes, seus passos, seus silêncios

- ai que saudade de mim!

Deixo-te, pobre menino, aí sozinho...

Que bom que nunca me viste

como te estou vendo agora

- e é melhor que seja assim...

Deixo-te

com os teus sonhos de outrora, os teus livros queridos

e aquelas paixões sem fim!

e a praça...o coreto...o quiosque

onde compravas revistas...

Sonha, menino triste...

Sonha...

- só o teu sonho é que existe.

Canção do berço

Carlos Drummond de Andrade


O amor não tem importância.

No tempo de você, criança,

uma simples gota de óleo

povoará o mundo por inoculação,

e o espasmo

(longo demais para ser feliz)

não mais dissolverá as nossas carnes.


Mas também a carne não tem importância.

E doer, gozar, o próprio cântico afinal é indiferente.

Quinhentos mil chineses mortos,

trezentos corpos de namorados sobre a via férrea

e o trem que passa, como um discurso, irreparável:

tudo acontece, menina,

e não é importante, menina,

e nada fica nos teus olhos.


Também a vida é sem importância.

Os homens não me repetem

nem me prolongo até eles.

A vida é tênue, tênue.

O grito mais alto ainda é suspiro,

os oceanos calaram-se há muito.

Em tua boca, menina,

ficou o gosto do leite?

ficará o gosto de álcool?


Os beijos não são importantes.

No teu tempo nem haverá beijos.

Os lábios serão metálicos,

civil, e mais nada, será o amor

dos indivíduos perdidos na massa

e só uma estrela

guardará o reflexo

do mundo esvaído

(aliás sem importância).

Aventura na casa atarracada

Ana Cristina Cesar


Movido contraditoriamente

por desejo e ironia

não disse mas soltou,

numa noite fria,

aparentemente desalmado;

- Te pego lá na esquina,

na palpitação da jugular,

com soro de verdade e meia,

bem na veia, e cimento armado

para o primeiro a andar.

Ao que ela teria contestado, não,

desconversado, na beira do andaime

ainda a descoberto: - Eu também,

preciso de alguém que só me ame.

Pura preguiça, não se movia nem um passo.

Bem se sabe que ali ela não presta.

E ficaram assim, por mais de hora,

a tomar chá, quase na borda,

olhos nos olhos, e quase testa a testa.

Minha irmã no MSN em Indianápolis, visitando os amigos e me contando as novidades deles:

Carol diz:
agora ele tem um passarinho que chama Scooby-Do. Ela fica solta no banheiro e fez cocô no banheiro inteiro. Aí ele colocou um som e um DVD pra ela lá dentro. Fica tocando ice ice baby e passando um filme sobre passarinhos.

20.6.09

Filhos

Ferreira Gullar

Daqui escutei
quando eles
chegaram rindo
e correndo
entraram
na sala
e logo
invadiram também
o escritório
(onde eu trabalhava)
num alvoroço
e rindo e correndo
se foram
com sua alegria
se foram
Só então
me perguntei
por que
não lhes dera
maior
atenção
se há tantos
e tantos
anos
não os via crianças
já que
agora
estão os três
com mais
de trinta anos.

(...) Pensar faz mal às emoções.

Alvaro de Campos.

"Uma rã se achava importante porque o rio passava nas suas margens". Lindo demais isso.


Sobre importâncias

Manoel de Barros

Uma rã se achava importante

Porque o rio passava nas suas margens.

O rio não teria grande importância para a rã

Porque era o rio que estava ao pé dela.

Pois Pois.

Para um artista aquele ramo de luz sobre uma lata

desterrada no canto de uma rua, talvez para um

fotógrafo, aquele pingo de sol na lata seja mais

importante do que o esplendor do sol nos oceanos.

Pois Pois.

Em Roma, o que mais me chamou a atenção foi um

prédio que ficava em frente das pombas.

O prédio era do estilo bizantino do século IX.

Colosso!

Mas eu achei as pombas mais importantes do que o

prédio.

Agora, hoje, eu vi um sabiá pousado na Cordilheira

dos Andes.

O pessoal falou: seu olhar é distorcido.

Eu, por certo, não saberei medir a importãncia das

coisas: alguém sabe?

Eu só queria construir nadeiras para botar nas

minhas palavras.

Conclusões de Aninha

Cora Coralina

Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.

O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?

Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?
Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.

(...)

Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

Adélia Prado

19.6.09

Versão mineiríssima do jogo de ontem, com narração da Rádio Itatiaia.
Documentário sobre Vinícius de Moraes. Apesar de amar Chico Buarque e Edu Lobo, o que eu queria de verdade ter postado aqui era só o depoimento do Ferreira Gullar, que começa aos 1:15m desse vídeo que eu encontrei (e, originalmente, não inclui as imagens chatinhas que acrescentaram no final, aos 3:00m, depois do Vinícius e do Tom bêbados, que também já postei aqui).

E é isso. A vida é uma invenção. Então é melhor inventar coisa boa.




Matar, a forma
mais alta de amar,
matar em nós a vontade de matar,
voltar a matar a vontade, matar,
sempre, matar,
mesmo que,
para isso,
seja preciso
todo o nosso amar.

Paulo Leminski

Sobre a minha alegria.

Que não é por nada, nem para nada. Essa que aprendi de mim. Que veio comigo, desde sempre. De vez em quando me perco dela e ficamos a nos procurar: eu por ela, ela por mim. Ela que é minha, que sou eu. Que sou. Sei que ela está aqui. Como quando perco alguma coisa dentro da bolsa repleta de coisas e toco em todas elas, menos no que é tão urgente. Respiro fundo. Calma. Ela está aqui, tenho certeza. É simples, eu vou encontrar.

18.6.09

É MUITO bom ser cruzeirense.
Sem voz por uma semana.

O vídeo é antigo, mas eu amo a música.
Cruzeiro, quem conhece a tua história de conquistas e vitórias nunca mais te esquecerá.
Cruzeiro, tua história é tão bonita, faz parte da minha vida, pros meus filhos vou contar.
Cruzeiro, o guerreiro dos gramados, sou cruzeirense apaixonado e pra sempre vou te amar.

Eu: Fer, olha o que eu li agora em um lugar: (e aí eu leio o trecho pra ele).
Fer: NOSSA! Que lindo! É de quem?
Eu: ... ...
Fer: hein?
Eu: seu, Fer. Tô corrigindo uma monografia sobre cultura e os alunos entrevistaram você. Tá aqui seu nome e essa citação.
Fer: aaaaaah!
Eu: lembra?
Fer: não muito. Mas bem que eu vi que eu estava concordando totalmente com o autor!

Não tem como não amar.



"Professora, você é igualzinha à Betty Boop!".
Fiquei com medo de perguntar pra minha aluna se isso era um elogio.
Mas achei o máximo.

17.6.09

Amor é a coisa mais alegre
Amor é a coisa mais triste
Amor é a coisa que mais quero
Por causa dele falo palavras como lanças

Amor é a coisa mais alegre
Amor é a coisa mais triste
Amor é a coisa que mais quero
Por causa dele podem entalhar-me:
Sou de pedra sabão.

Alegre ou triste
Amor é a coisa que mais quero.

Adélia Prado

(...)

O ritmo das águas indica o roteiro

e me oferece um papel:

abrir o coração como uma vela

ao vento, ou pagar sempre a conta

já vencida.


Lya Luft

Não só quem nos odeia e nos inveja

Nos limita e oprime. Quem nos ama

Não menos nos limita

Que os deuses me concedam que, despido

De afectos, tenha a fria liberdade

Dos píncaros sem nada.

Quem quer pouco, tem tudo; Quem quer nada

É livre; Quem não tem e não deseja,

Homem, é igual aos deuses

Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)

Poema

Augusto Frederico Schmidt

Encontraremos o amor depois que um de nós abandonar

os brinquedos.

Encontraremos o amor depois que nos tivermos despedido

E caminharmos separados pelos caminhos.

Então ele passará por nós,

E terá a figura de um velho trôpego,

Ou mesmo de um cão abandonado,

O amor é uma iluminação, e está em nós, contido em nós,

E são sinais indiferentes e próximos que os acordam do

seu sono subitamente.

O poeta

Manoel de Barros

Vão dizer que não existo propriamente dito.

Que sou um ente de sílabas.

Vão dizer que eu tenho vocação pra ninguém.

Meu pai costumava me alertar:

Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som

das palavras

Ou é ninguém ou zoró.

Eu teria treze anos.

De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que

se pendia nos longes da Bolívia

E veio uma iluminura em mim.

Foi a primeira iluminura.

Daí botei meu primeiro verso:

Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.

Mostrei a obra pra minha mãe.

A mãe falou:

Agora você vai ter que assumir as suas

irresponsabilidades.

Eu assumi: entrei no mundo das imagens.

O amor eterno

Mário Quintana

Dante se enganou: Paolo e Francesca
Continuariam bem juntinhos no Inferno, com pecado e tudo
Juntinhos e felizes!
Mas quem sabe se não seria este mesmo o castigo divino?
Um amor que jamais pudesse terminar...

Da Mariana Clark. Adorei, Mari.


Porque quando te conheci e você já me dizia as coisas lindas que sempre disse, lhe falei que conhecesse uma menina mais perto de você e não se apaixonasse por uma que mora em Minas e você do mundo grande de São Paulo, falando com aquele sotaque tão bonitinho mesmo que um pouco brega. E você me disse, assim, que uma menina mais perto não seria eu. E eu acreditei e é o que eu digo para você toda vez que reclama da distância ou do fato de nos vermos pouco, pouco porque queríamos nos ver todos os dias. Mas as coisas não são assim.
Sabe, porque me despedir de você no final desse feriado, aquele beijo na rodoviária, me doeu o coração ver aquele ônibus te levando para tão longe. E você ainda com o Picolé Garoto na mão, que você adora, aquele de chocolate amargo que não se acha em São Paulo.
E o seu jeito todo esquentado com que se irrita porque o molho branco não dá certo enquanto eu, distraída, leio as poesias para você do meu poeta preferido enquanto você cozinha para mim. E eu acho gostoso, acho uma delícia.
Porque quando eu me deito do seu lado, e coloco a cabeça no seu ombro, todo o mundo se torna um lugar mais seguro e eu me sinto mais em paz comigo, com a vida e com você.
Mesmo nos momentos em que discutimos porque temos o gênio forte, você mais que eu, e eu mimada, eu teimosa, eu te pedindo desculpas depois e você dizendo que tudo bem, tudo bem, Mariana. E me chama pelo meu nome, diferente de todas as pessoas que eu conheço, não usa apelidos. Para você sou Mariana e diz com a voz forte, grave e quando ouço de você, acho o nome mais bonito do mundo. Fico igual menina boba pensando que tudo fica melhor quando você me chama.
Sabe, porque não é a distância ou qualquer coisa assim, que me separa de você. Nem nossos mundos tão diferentes ou o fato de você ser palmeirense. É porque quando você me diz que está com fome, ligo para todos os restaurantes da sua cidade e peço para entregar uma pizza. E eu mesma queria entregar, sabe como? Mas a distância torna as coisas mais bonitas também. E eu sou mais bonita porque sou sua namorada, meu bem.

16.6.09

O aferidor

Manoel de Barros

Tenho um aferidor de Encantamentos.

A uma açucena encostada no rosto de uma criança

O meu Aferidor deu nota dez.

A uma fuga de Bach que vi nos olhos de uma criatura

O Aferidor deu nota vinte.

Mas a um homem sozinho no fim de uma estrada

Sentado nas pedras de suas próprias ruínas

O meu Aferidor deu DESENCANTO.

(O mundo é sortido, Senhor, como dizia meu pai.)