18.4.06

Beijo-te a mim mesmo
Nelson Botter
www.blonicas.zip.net

Eu queria poder te amar do jeito que você é, sem enxergar seus defeitos, suas manias e manhas. Eu queria não querer a perfeição, não exigir o máximo, ser tolerante e talvez até um pouco mais ingênuo. É verdade, assim eu queria não perceber tudo que se passa, não entender sua maneira de pensar, não te achar frio e calculista, sedutor e manipulador, não ter rancor e muito menos desconfiança de você. Dói muito quando vejo que você nem sempre é quem eu gostaria que fosse, que seus objetivos não são os que eu esperava, que sua linha de raciocínio é muitas vezes duvidosa, que me assusto com o que você fala e ainda mais com a sua maneira agressiva de se defender. Eu queria não ver nada disso, olhar para dentro de você e só perceber as coisas boas, sim, pois você é repleto de virtudes, não pense que só vejo a sua sombra. Não, nada disso, vejo também a sua luz, mas os contrastes são fortes e não há como fingir que o latente desencanto também existe, que sua carne fede como a dos anjos e demônios. A balança ora pende para cá, ora pende para lá, normal, tudo igual, mas eu queria poder ver só um dos lados, dois pesos e uma só medida. Você me pergunta por que isso, eu te respondo que não sei, talvez seja o movimento dos astros, as pressões da sociedade, as imposições da vida, tanto faz, tanto fez. Eu queria poder te classificar como um homem bom, do bem, que respeita o limite dos outros, que respeita seus próprios limites, que não é guiado apenas por interesses próprios e sim os das pessoas que te cercam, dos que te querem bem. Eu queria poder encher minha boca de dentes e gritar ao mundo que você é um exemplo a ser seguido em todos os aspectos e não apenas aqui ou ali. Enfim, é como tudo na vida, mas eu queria poder ser um pouco menos teimoso, um pouco menos míope com a realidade. Você, que vejo agora no espelho, sou eu e é por isso que eu queria poder te entender melhor, te dominar mais e saber algo mais sobre mim mesmo. Eu queria poder ser menos cego, menos mudo, menos surdo, ou - simplesmente - menos eu.

17.4.06

Viva a ignorância
De Milly Lacombe.


O que aconteceria se a ignorância fosse, como que por mágica, eliminada da face da terra. No dia seguinte tudo seria questionado: dogmas, verdades absolutas, sistemas políticos, econômicos, sociais e religiosos. A quem interessa, portanto, a manutenção da ignorância? Estado, Indústria e Igreja vivem da nossa pouca capacidade de reflexão. Porque somos ignorantes, é possível que campanhas políticas nos convençam de mentiras absurdas. A campanha presidencial para a reeleição de nosso notável comandante vem aí. E é de se espantar que, mesmo que o povo tenha acesso a escabrosas informações sobre como o atual governo faz negócios e trabalha o dinheiro público, o líder molusco comece a corrida com mais de 50% de intenção de voto. O que justifica isso? Apenas nossa invejável capacidade de continuar ignorantes. Ignorantes a ponto de achar que um metalúrgico semi-analfabeto, ligado a ex-guerrilheiros amantes de Cuba, poderia nos salvar. Se antes falar mal da pouca capacidade de raciocínio do presidente era preconceito, agora é conceito. O homem é, comprovadamente, limitado. O que tem lhe caído como uma luva: porque apenas uma ancestral ignorância pode desculpá-lo. Nem Dirceu, nem Delúbio, nem Palocci, nem mensalão: o metalúrgico não viu nada disso. E quem pode provar que ele viu? Santa ignorância.Mas voltemos à fotografia panorâmica porque a perspectiva é excelente: a qualidade e o alcance do ensino público continuam lastimáveis, e o poder dos cultos religiosos só faz crescer. Tudo faz parte de uma mesma roda moral, de um mesmo pacote: quanto mais desinformado e descrente o cidadão, quanto mais desamparado pelo Estado (que, porque está mais preocupado em desviar do que em investir, não consegue fornecer o básico, aquilo que esperamos receber quando somos obrigados a viver com uma carga tributária de 40%: saúde, educação, lazer, segurança), mais propenso a se entregar a crendices e promessas de vida farta e colorida após a morte. Quem pode culpá-los? Se aqui a coisa não rola, se aqui seus filhos são assassinados, se aqui a melhor possibilidade de trabalho é gerada no tráfico, se aqui eles têm que viver, quando conseguem emprego, com um ou dois salários mínimos, por que não acreditar cegamente que, depois daqui, deles será o reino dos céus? Fé. Eis aí o melhor e mais genial instrumento de marketing já criado pelo homem: acredite sem questionar. Acredite no dízimo, porque ele garantirá sua entrada no reino de Deus. Se o padre acabou de comprar um rolex, se o Papa usa Prada, nada disso importa, porque o dízimo é fundamental para que você, fiel, seja aceito por Deus quando esta vida aqui acabar. E se Deus não te aceitar, ah, meu filho, aí teu negócio é com o diabo. Então, acredite. Em céu e inferno, na ressurreição, nos três Reis Magos, em Adão e Eva, no pecado original, na inferioridade feminina ... vá acreditando porque, quanto mais fé, mais certa será sua vida no paraíso. Mas não ouse questionar. Não ouse querer mudar as regras, reescrever a história da moral humana. As leis de Deus são imutáveis. Aquele que tiver a petulância de refletir sobre a veracidade das histórias bíblicas, - e algumas fazem tanto sentido quanto Chapeuzinho Vermelho - será punido. Fé. Nunca deixe de ter fé ou o inferno será sua morada eterna. Fé no povo, na Igreja, no Estado. Por ela, mata-se e morre-se. Fé, o mais genial dos instrumentos de manipulação.Está tudo, portanto, nocivamente interligado. E o combustível para tanta manipulação é nossa santa ignorância. Não fosse ela, viveríamos em um mundo muito melhor. Um mundo no qual o estado seria laico, a renda mais igualmente distribuída, a filosofia ensinada em escolas públicas, e tão popular quanto a religião. Spinoza e São Sebastião teriam o mesmo peso. Nietzsche seria tão citado quanto João Paulo II. Um mundo mais iluminado, enfim. Um mundo que faria Deus, o Deus de Spinoza, aquele que se manifesta na harmonia das coisas, aquele que não pune nem é intervencionista, finalmente orgulhoso de sua criatura.

6.4.06

Rico ou bonito?
02 Neurônio

Uma pesquisa revelou que as mulheres agora não estão só preocupadas em arranjarem homens ricos. Agora, que elas trabalham fora e têm seu próprio dinheiro, elas estão priorizando a beleza. Entre um rico e um bonito, elas estão preferindo o bonito.

Onde esses cientistas estão pesquisando?! Porque entre as mulheres que conhecemos, mulher nenhuma ficou interessada num homem porque ele era rico. Nós contentamos com um que tenha crédito no celular pra responder nossas ligações. E quanto a beleza...como dizia Susana Flag (a versão mulher de Nelson Rodrigues), "mulher não liga pra beleza não" .

Lógico que um bonitinho sempre chama atenção. Se ele se vestir bem, melhor ainda. Mas se o bonitinho for um metido, não vamos nem olhar pra ele. Se for burro também. Mesmo que seja um milionário. Aliás, não frequentamos ambientes com bonitos, ricos, metidos e burros. Por isso, sempre vamos preferir aquele cara mais ou menos, nem feio nem bonito, nem rico nem pobre, mas que tem o maior charme.