28.7.05

Maria Elisa Ferraz Paciornik. Esse é o nome da autora do poema que eu postei há uns dias, no auge da crise de saudade e de desespero por perder meu amor para Goiânia. Vou repeti-lo aqui porque ele é lindo, mas depois de uma super temporada na minha nova segunda casa, meu coração já está melhor, obrigada.

Olha, hoje não vem fazer confidência,
vê se hoje não vem se queixar
hoje estou morrendo de pena de mim,
hoje não quero escutar.

15.7.05

O que é angústia
Clarice Lispector, “A descoberta do mundo”.

Um rapaz fez-me essa pergunta difícil de ser respondida. Pois depende do angustiado. Para alguns incautos, inclusive, é palavra de que se orgulham de pronunciar como se com ela subissem de categoria - o que também é uma forma de angústia.
Angústia pode ser não ter esperança na esperança. Ou conformar-se sem se resignar. Ou não se confessar nem a si próprio, ou não ser o que realmente se é, e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser também não ter coragem de ter angústia - e a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.
Esse mesmo rapaz perguntou-me: você não acha que há um vazio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera que o coração entenda.
As sem razões do amor
Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga, nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Vou brincar de casinha com o meu amor por alguns dias.

Se for só isso o céu,
está perfeito. (Adélia Prado)

9.7.05

Olha, hoje não vem fazer confidência,
vê se hoje não vem se queixar
hoje estou morrendo de pena de mim,
hoje não quero escutar.


Maria Elisa (de sobrenome difícil, que eu esqueci)
O Fer foi pra bem longe e me levou com ele.

Soneto do amor como um rio
Vinícius de Moraes

Este infinito amor de um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno, interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo

Em que seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.


*****

Leminski

você está tão longe
que às vezes penso
que nem existo

nem fale em amor
que amor é isto

2.7.05

Bilhete
Mário Quintana

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
Pneumotórax
Manuel Bandeira

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

...........................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o
[pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Para o Fer levar com ele:

Maiakovski

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura
O que importa é partir, não é chegar.
Lygia Fagundes Telles

Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas, ambíguas diante dos apaixonados. Aproximam-se deles, dizem coisas amáveis, mas guardam certa distância, não invadem o casulo imantado que envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita cautela ao pisar nesse terreno. Com sua disciplina indisciplinada, os amantes são seres diferentes e o ser diferente é excluído porque vira desafio, ameaça. Se o amor na sua doação absoluta os faz mais frágeis, ao mesmo tempo os protege como uma armadura. Os apaixonados voltaram ao Jardim do Paraíso, provaram da Árvore do Conhecimento e agora sabem.
O que é triste pode ser bonito. E Lya Luft pode ser legal.

O lado fatal
Lya Luft

I
Quando meu amado morreu, não pude acreditar:
andei pelo quarto sozinha repetindo baixo: "Não acredito, não acredito”.
Beijei sua boca ainda morna, acarinhei seu cabelo crespo, tirei sua pesada aliança de prata com meu nome e botei no dedo.
Ficou larga demais, mas mesmo assim eu uso.
Muita gente veio e se foi.
Olharam, me abraçaram, choraram, todos com ar de incrédula orfandade.
Aquele de quem hoje falam e escrevem (ou aos poucos vão-se esquecendo) é muito menos do que este, deitado em meu coração, meu amante e meu menino ainda.

II
Deus (ou foi a Morte?) golpeou com sua pesada foice o coração do meu amado (não se vê a ferida, mas rasgou o meu também).
Ele abriu os olhos, com ar deslumbrado, disse bem alto meu nome no quarto de hospital, e partiu. Quando se foram também os médicos e suas máquinas inúteis, ficamos sós: a Morte (ou foi Deus?), o meu amado e eu.
Enterrei o rosto na curva do seu ombro como sempre fazia, disse as palavras de amor que costumávamos trocar.
O silêncio dele era absoluto: seu coração emudecido e o meu, varados por essa dourada foice.
Por onde vou deixo o rastro de um sangue denso e triste que não estancará jamais.

(...)

IV
O meu amado tinha coisas de menino: dormia abraçado a mim feito criança, gostava de doce e de ganhar camisas novas de presente.
Usava a água-de-colônia que lhe dei e ria: "Pareço uma Paulina Bonaparte."
Olhava-me tão agradecido ao menor cuidado como limpar seus óculos ou trazer-lhe água, que era como se nunca tivesse tido infância.
(Gostava de rir, embora chorasse algumas vezes a meu lado.)
Abria as portas grandes da varanda de nosso quarto sobre as florestas da Gávea, e de tudo se admirava: "Espantoso! Qual o sentido disso?”.
Quando eu não estava em casa, ficava aflito: telefonava para conferir se eu voltara ao nosso cotidiano: "Sabendo que você está aí, meu mundo fica em ordem."
O meu amado tinha coisas de menino: mas seus olhos eram sábios de entenderem quase toda a miséria deste mundo.

(...)

VIII
(...)
Não conseguia sentar-se mais que meia hora para escrever: vinha ao meu escritório, usava de pretextos para me distrair, dava um beijo, fazia confidências, comentava assuntos do dia.
Quando me via triste, dizia entre compassivo e magoado: "Você hoje está numa melancolia profunda?"
Certa vez discutimos, e ele deixou sobre minha máquina de escrever um bilhetinho: "Hélio Pellegrino ama Lya Luft."
Nunca tivemos mais que vinte anos.

IX
Outro dia sentei-me na beira da cama para aparar as unhas que sempre trago bem rentes.
(Minhas duas mãos pareciam tão solitárias.)
Dei-me conta de que nunca mais ele sentará a meu lado dizendo: "Gosto de ver você fazendo essas coisas bem cotidianas."
Era a primeira vez que cuidava de minhas mãos depois que ele se fora.
Então deitei-me no chão e chorei amargamente por duas horas, sabendo que mesmo que chorasse dois anos ou dois séculos ele não voltaria mais.
(...)

XII
O meu amado era mineiro: mas dos visionários.
Levava-me à sua terra, onde, ébrios de tanta luz e tanto céu, percorríamos a sua juventude: eu integrada nessa vida inteira.
Ouro Preto revisitada muitas vezes, a Serra da Piedade onde escutávamos a paisagem vasta.
Belo Horizonte, e todas as esquinas de antigos ardores: seu coração se abria em confissões noite adentro.
O meu amado era de Minas. Da banda dos visionários: capaz de morrer sem abdicar dos sonhos
(...)

XVI
Não digam que isso passa, não digam que a vida continua, que o tempo ajuda, que afinal tenho filhos e amigos e um trabalho a fazer.
Não me consolem dizendo que ele morreu cedo mas morreu bem (quem não quereria uma morte como essa?)
Não digam que tenho livros a escrever e viagens a realizar.
Não digam nada.
Vejo bem que o sol continua nascendo nesta cidade de Porto Alegre, onde vim lamber minha ferida escancarada.
Mas não me consolem: da minha dor sei eu.

XVII
O meu amado era um homem impaciente: brigava no trânsito, detestava filas, batia portas com força quando perdia suas coisas.
Certa vez rachou um telefone que não dava linha; reclamava de ir ao dentista.
Mas quando um dia chorei porque ele falava aos gritos, andou-me rosas vermelhas que espalhei pela casa toda. Ainda hoje elas florescem para onde quer que eu me volte.

(...)

XXIV
Os amigos dizem que preciso reagir, e reajo.
Não me matei ainda, e provavelmente vou resistir.
Só pela teimosia dos que não acreditam, reajo;
penteio os cabelos, passo pó no rosto, pois os amigos dizem que a vida continua.

Eu, tudo o que queria era trocar o tempo que me resta e pesa tanto por um instante em que pudéssemos repetir (embora não seja preciso, porque ele e eu sabemos) os momentos de amor, e os silêncios de nosso mútuo e pleno entendimento.

XXVI
O meu amado morreu belo como um guerreiro, mas eu não estava preparada.
Morreu iluminado, sem dor, pronunciando meu nome, mas eu não estava preparada.
O meu amado morreu a sua morte toda, a que vinha morrendo desde o nascimento como todos nós.
Morreu nos anos de ternura e relativa paz, morreu pleno de paixão e deixou-me o legado de sua indignação.
Morreu como todos quereriam morrer:
mas eu não estou preparada.

(...)

XXIX
O meu amado era velho e moço, ríspido e cândido, apaixonado e solitário, e compreendeu minha atormentada alma como ninguém.
Achava graça em mim algumas vezes. Mas quando eu lhe dizia sentir medo sem razão no meio da noite (com certeza antecipando a separação que sobrevinha), ele me abraçava calado e sombrio, dizendo: "É para se ter medo mesmo."
Não pronunciávamos então a palavra temida que talvez nos espreitasse nos cantos do quarto.
Só nessas ocasiões ele não me explicava nada.

(...)

XXXV
"Hélio Pellegrino deve estar fazendo comício no céu, andando de braço dado com Freud e discutindo com Marx", disse-me uma amiga.
(Eu sinto-o aninhado, frágil e brilhante, sozinho e amigo, nisto que me sobrou de coração.)

(...)

XXXIX
O meu amado, das muitas coisas que sabia, ensinou-me algumas: conheço mais a mim e aos outros, aprendi a amar melhor a todos e entendi que a morte pode ser também um sonho.
Mas não se iludam: esta que agora escreve, fuma, dirige seu carro e tantas vezes quer morrer, não é a de antes: paixão e morte me derrubaram e caminham sobre mim com suas grandes patas quando ninguém percebe.

XL
Estranho também esse amor, com hora marcada para a mutilação da morte, o minuto acertado, e o fim consultando o relógio para nos golpear.
Estranho esse amor de agora, com meu amado atrás de um espelho baço onde às vezes penso divisar seu vulto como num aquário.
Enrolado em silêncio, mais que nunca o meu amor comanda a minha vida.

XLI
Ainda não acreditei na tua morte.
Visito tua sepultura ao sol do Rio de Janeiro, onde fomos felizes e infelizes e nos amamos tanto.
Mas não acredito. Ponho a mão na pedra que esconde alguma coisa que restou de ti; mesmo assim não acredito.
Deixo flores na laje, saio a andar entre sepulturas anônimas e conhecidas, sozinha ao sol da cidade onde já não moro.
Imagino que deves ter morrido de verdade ou não me deixarias andar ali tão só.
(Quando acreditar em tua morte inteiramente, o que fará meu coração desnorteado?)

(...)

XLIII
Não falem alto comigo: andem sempre na ponta dos pés.
Principalmente, não me toquem.
Finjam que não vêem se tenho um jeito absorto, se nem entendo as perguntas com a rapidez de antigamente, se pareço fatigada e sem graça como nunca fui.
Façam silêncio ao meu redor.
Não me interessa nada o cotidiano nem o místico. Não quero discutir os preços do mercado nem os grandes mistérios da eternidade.
Levo meu amado no peito como quem carrega nos braços para sempre uma criança morta.

XLIV
(...)

Amado meu, vivo em mim para sempre, apesar da ruga a mais e do olhar mais triste, devo-te isto: voltar a amar a vida como agora amas, inteiramente, a tua morte.
Açúcar emprestado
Luis Fernando Veríssimo

Vizinhos de porta, ele o 41 e ela o 42.
Primeiro lance: ela. Bateu na porta dele e pediu açúcar emprestado para fazer um pudim.
Segundo lance: ela de novo. Bateu na porta dele e perguntou se ele não queria provar o pudim. Afinal, era co-autor.
Terceiro lance: ele. Hesitou, depois perguntou se ela não queria entrar. Ela entrou, equilibrando o prato do pudim longe do peito para não derramar a calda.
- Não repara a bagunça...
- O meu é pior.
- Você mora sozinha?
Sabia que ela morava sozinha. Perguntara ao porteiro logo depois de se mudar. A do 42? Dona Celinha? Mora sozinha. Morava com a mãe mas a mãe morreu. Boa moça. Um pouco... E o porteiro fizera um gesto indefinido com a mão, sem dizer o que a moça era. Fosse o que fosse, era só um pouco.
A conversa começou com apresentações e troca de informações - "Nélio", "Celinha", "Capricórnio", "Leão", "Daqui mesmo", "Eu também" - e continuou enquanto comiam todo o pudim, que estava ótimo. Mas quando ela disse "Como a gente se entendeu bem, né?", cobrindo a mão dele com a dela, ele decidiu dar um lance preventivo e declarou que não queria envolvimentos em sua vida. Queria ser um homem sem envolvimentos. Entende? Sua decisão de vida era não ter envolvimentos.
- Como, envolvimentos? - perguntou ela.
- Envolvimentos - explicou ele.
Antes de sair, com a cara amarrada, ela disse:
- Me empresta uma gilete?
- Gilete? Eu não uso gilete.
- Não faz mal, eu tenho em casa.
E saiu, pisando firme e sem olhar para trás.
Uma hora depois, bateu na porta.
- Esqueci o prato do pudim.
Ele viu que ela tinha cortado os pulsos. O sangue pingava nas lajes do corredor.
- O que é isso?!
E todo o tempo, enquanto ele estancava a sangueira da melhor maneira possível, e a colocava no seu carro, e a levava em disparada para o hospital, ela só repetia:
- Ué, não era você que não queria envolvimentos? Não era você?
A seco
Leila Míccolis

Tem coisas que a gente só diz de porre
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.
Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez
responsáveis por tamanha estupidez.
E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose... afetiva