31.10.08

Repostando. Porque às vezes é preciso.
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I love my husband
Nélida Piñon


Eu amo meu marido. De manhã à noite. Mal acordo, ofereço-lhe café. Ele suspira exausto da noite sempre maldormida e começa a barbear-se. Bato-lhe à porta três vezes, antes que o café esfrie. Ele grunhe com raiva e eu vocifero com aflição. Não quero meu esforço confundido com um líquido frio que ele tragará como me traga duas vezes por semana, especialmente no sábado.
Depois, arrumo-lhe o nó da gravata e ele protesta por consertar-lhe unicamente a parte menor de sua vida. Rio para que ele saia mais tranqüilo, capaz de enfrentar a vida lá fora e trazer de volta para a sala de visita um pão sempre quentinho e farto.
Ele diz que sou exigente, fico em casa lavando a louça, fazendo compras, e por cima reclamo da vida. Enquanto ele constrói o seu mundo com pequenos tijolos, e ainda que alguns destes muros venham ao chão, os amigos o cumprimentam pelo esforço de criar olarias de barro, todas sólidas e visíveis.
A mim também me saúdam por alimentar um homem que sonha com casas-grandes, senzalas e mocambos, e assim faz o país progredir. E é por isto que sou a sombra do homem que todos dizem eu amar. Deixo que o sol entre pela casa, para dourar os objetos comprados com esforço comum. Embora ele não me cumprimente pelos objetos fluorescentes. Ao contrário, através da certeza do meu amor, proclama que não faço outra coisa senão consumir o dinheiro que ele arrecada no verão. Eu peço então que compreenda minha nostalgia por uma terra antigamente trabalhada pela mulher, ele franze o rosto como se eu lhe estivesse propondo uma teoria que envergonha a família e a escritura definitiva do nosso apartamento.
O que mais quer, mulher, não lhe basta termos casado em comunhão de bens? E dizendo que eu era parte do seu futuro, que só ele porém tinha o direito de construir, percebi que a generosidade do homem habilitava-me a ser apenas dona de um passado com regras ditadas no convívio comum.
Comecei a ambicionar que maravilha não seria viver apenas no passado, antes que este tempo pretérito nos tenha sido ditado pelo homem que dizemos amar. Ele aplaudiu o meu projeto. Dentro de casa, no forno que era o lar, seria fácil alimentar o passado com ervas e mingau de aveia, para que ele, tranqüilo, gerisse o futuro. Decididamente, não podia ele preocupar-se com a matriz do meu ventre, que devia pertencer-lhe de modo a não precisar cheirar o meu sexo para descobrir quem mais, além dele, ali estivera, batera-lhe à porta, arranhara suas paredes com inscrições e datas.
Filho meu tem que ser só meu, confessou aos amigos no sábado do mês que recebíamos. E mulher tem que ser só minha e nem mesmo dela. A idéia de que eu não podia pertencer-me, tocar no meu sexo para expurgar-lhe os excessos, provocou-me o primeiro sobressalto na fantasia do passado em que até então estivera imersa. Então o homem, além de me haver naufragado no passado, quando se sentia livre para viver a vida a que ele apenas tinha acesso, precisava também atar minhas mãos, para minhas mãos não sentirem a doçura da própria pele, pois talvez esta doçura me ditasse em voz baixa que havia outras peles igualmente doces e privadas, cobertas de pêlo felpudo, e com a ajuda da língua podia lamber-se o seu sal?
Olhei meus dedos revoltada com as unhas longas pintadas de roxo. Unhas de tigre que reforçavam a minha identidade, grunhiam quanto à verdade do meu sexo. Alisei meu corpo, pensei, acaso sou mulher unicamente pelas garras longas e por revesti-las de ouro, prata, o ímpeto do sangue de um animal abatido no bosque? Ou porque o homem adorna-me de modo a que quando tire estas tintas de guerreira do rosto surpreende-se com uma face que Ihe é estranha, que ele cobriu de mistério para não me ter inteira?
De repente, o espelho pareceu-me o símbolo de uma derrota que o homem trazia para casa e tornava-me bonita. Não é verdade que te amo, marido? perguntei-lhe enquanto lia os jornais, para instruir-se, e eu varria as letras de imprensa cuspidas no chão logo após ele assimilar a notícia. Pediu, deixe-me progredir, mulher. Como quer que eu fale de amor quando se discutem as alternativas econômicas de um país em que os homens para sustentarem as mulheres precisam desdobrar um trabalho de escravo.
(...)
Para esconder minha vergonha, trouxe-lhe café fresco e bolo de chocolate. Ele aceitou que eu me redimisse. Falou-me das despesas mensais. Do balanço da firma ligeiramente descompensado, havia que cuidar dos gastos. Se contasse com a minha colaboração, dispensaria o sócio em menos de um ano. Senti-me feliz em participar de um ato que nos faria progredir em doze meses. Sem o meu empenho, jamais ele teria sonhado tão alto. Encarregava-me eu à distância da sua capacidade de sonhar. Cada sonho do meu marido era mantido por mim. E, por tal direito, eu pagava a vida com cheque que não se poderia contabilizar.
Ele não precisava agradecer. De tal modo atingira a perfeição dos sentimentos, que lhe bastava continuar em minha companhia para querer significar que me amava, eu era o mais delicado fruto da terra, uma árvore no centro do terreno de nossa sala, ele subia na árvore, ganhava-lhe os frutos, acariciava a casca, podando seus excessos.
(...)
Só envelhece quem vive, disse o pai no dia do meu casamento. E porque viverás a vida do teu marido, nós te garantimos, através deste ato, que serás jovem para sempre. Eu não sabia como contornar o júbilo que me envolvia com o peso de um escudo, e ir ao seu coração, surpreender-lhe a limpidez. Ou agradecer-lhe um estado que eu não ambicionara antes, por distração talvez. E todo este troféu logo na noite em que ia converter-me em mulher. Pois até então sussurravam-me que eu era uma bela expectativa. Diferente do irmão que já na pia batismal cravaram-lhe o glorioso estigma de homem, antes de ter dormido com mulher.
(...)
Meu coração ardia na noite do casamento. Eu ansiava pelo corpo novo que me haviam prometido, abandonar a casca que me revestira no cotidiano acomodado. As mãos do marido me modelariam até os meus últimos dias e como agradecer-lhe tal generosidade? Por isso talvez sejamos tão felizes como podem ser duas criaturas em que uma delas é a única a transportar para o lar alimento, esperança, a fé, a história de uma família.
(...)
Assim fui aprendendo que a minha consciência que está a serviço da minha felicidade ao mesmo tempo está a serviço do meu marido. É seu encargo podar meus excessos, a natureza dotou-me com o desejo de naufragar às vezes, ir ao fundo do mar em busca das esponjas. E para que me serviriam elas senão para absorver meus sonhos, multiplicá-los no silêncio borbulhante dos seus labirintos cheios de água do mar? Quero um sonho que se alcance com a luva forte e que se transforme algumas vezes numa torta de chocolate, para ele comer com os olhos brilhantes, e sorriremos juntos.
Ah, quando me sinto guerreira, prestes a tomar das armas e ganhar um rosto que não é o meu, mergulho numa exaltação dourada, caminho pelas ruas sem endereço, como se a partir de mim, e através do meu esforço, eu devesse conquistar outra pátria, nova língua, um corpo que sugasse a vida sem medo e pudor. E tudo me treme dentro, olho os que passam com um apetite de que não me envergonharei mais tarde. Felizmente, é uma sensação fugaz, logo busco o socorro das calçadas familiares, nelas a minha vida está estampada. As vitrines, os objetos, os seres amigos, tudo enfim orgulho da minha casa.
Estes meus atos de pássaro são bem indignos, feririam a honra do meu marido. Contrita, peço-lhe desculpas em pensamento, prometo-lhe esquivar-me de tais tentações. Ele parece perdoar-me à distância, aplaude minha submissão ao cotidiano feliz, que nos obriga a prosperar a cada ano. Confesso que esta ânsia me envergonha, não sei como abrandá-la. Não a menciono senão para mim mesma. Nem os votos conjugais impedem que em escassos minutos eu naufrague no sonho. Estes votos que ruborizam o corpo mas não marcaram minha vida de modo a que eu possa indicar as rugas que me vieram através do seu arrebato.
(...)
Não posso reclamar. Todos os dias o marido contraria a versão do espelho. Olho-me ali e ele exige que eu me enxergue errado. Não sou em verdade as sombras, as rugas com que me vejo. Como o pai, também ele responde pela minha eterna juventude. É gentil de sentimentos. Jamais comemorou ruidosamente meu aniversário, para eu esquecer de contabilizar os anos. Ele pensa que não percebo. Mas, a verdade é que no fim do dia já não sei quantos anos tenho.
E também evita falar do meu corpo, que se alargou com os anos, já não visto os modelos de antes. Tenho os vestidos guardados no armário, para serem discretamente apreciados. Às sete da noite, todos os dias, ele abre a porta sabendo que do outro lado estou à sua espera. E quando a televisão exibe uns corpos em floração, mergulha a cara no jornal, no mundo só nós existimos.
Sou grata pelo esforço que faz em amar-me. Empenho-me em agradá-lo, ainda que sem vontade às vezes, ou me perturbe algum rosto estranho, que não é o dele, de um desconhecido sim, cuja imagem nunca mais quero rever. Sinto então a boca seca, seca por um cotidiano que confirma o gosto do pão comido às vésperas, e que me alimentará amanhã também. Um pão que ele e eu comemos há tantos anos sem reclamar, ungidos pelo amor, atados pela cerimônia de um casamento que nos declarou marido e mulher. Ah, sim, eu amo meu marido.

30.10.08

Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira.
Cecília Meireles

27.10.08

É muito – esperar uma Hora –
Se o Amor está logo ali perto –
E é pouco – a Eternidade –
Se ao fim o Amor é o prêmio certo.

Emily Dickinson

25.10.08

Anfiguri
Vinícius de Moraes

Aquilo que eu ouso

Não é o que quero
Eu quero o repouso
Do que não espero.

Não quero o que tenho
Pelo que custou
Não sei de onde venho
Sei para onde vou.

Homem, sou a fera
Poeta, sou um louco
Amante, sou pai.

Vida, quem me dera...
Amor, dura pouco...
Poesia, ai!...

24.10.08

O idílio suave
Guilherme de Almeida


Chegas. Vens tão ligeira
e és tão ansiosamente esperada, que enfim,
nem te sentindo o passo e já te tendo inteira,
completamente em mim,
quando, toda Watteau, silenciosa, apareces,
é como se não viesses.


Vens... E ficas tão perto
de mim, e tão diluída em minha solidão,
que eu me sinto sozinho e acho imenso e deserto
e vazio o salão...
E, sem te ouvir nem ver, arde-me em febre a face,
como se eu te esperasse!


Partes. Mas é tão pouco
o que de ti se vai que ainda te vejo o arfar
do seio, e o teu cabelo, e o teu vestido louco,
e a carícia do olhar,
e a tua boca em flor a dizer-me doidices,
como se não partisses!

19.10.08

Dez chamamentos ao amigo
Hilda Hilst

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Sou jornalista por formação, mas minha praia é outra há algum tempo. Mesmo assim, coberturas boçais e irresponsáveis sobre sequestros de meninas ainda maltratam meus sonhos adolescentes, guardados lá no fundo, de mudar o mundo com uma reportagem.

16.10.08

Poética
Manuel Bandeira
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Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
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Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
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Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
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Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
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- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Foi por te ver andando reto entre tudo o que há de incerto em mim... que eu sempre te quis assim.

14.10.08

Manoel de Barros
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O poema é antes de tudo um inutensílio.

Hora de iniciar algum
convém se vestir de roupa de trapo.
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Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.
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Faz bem uma janela aberta.
Uma veia aberta.
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Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
Enquanto vida houver
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Ninguém é pai de um poema sem morrer

10.10.08

Não posso me resumir porque não se pode somar uma cadeira e duas maçãs. Eu sou uma cadeira e duas maçãs. E não me somo.
Clarice Lispector.

9.10.08

As aeromoças são desidratadas - é preciso acrescentar-lhes ao pó bastante água para se tornarem leite.
Clarice Lispector

8.10.08

Vou parar, prometo. Me deixem deslumbrada por ter Saramagos diários pelo menos por um tempinho, que depois eu juro que volto a ser diversificada.
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O outro lado
José Saramago
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Como serão as coisas quando não estamos a olhar para elas? Esta pergunta, que cada dia me vem parecendo menos disparatada, fi-la eu muitas vezes em criança, mas só a fazia a mim próprio, não a pais nem professores porque adivinhava que eles sorririam da minha ingenuidade (ou da minha estupidez, segundo alguma opinião mais radical) e me dariam a única resposta que nunca me poderia convencer: “As coisas, quando não olhamos para elas, são iguais ao que parecem quando não estamos a olhar”. Sempre achei que as coisas, quando estavam sozinhas, eram outra coisas. Mais tarde, quando já havia entrado naquele período da adolescência que se caracteriza pela desdenhosa presunção com que julga a infância donde proveio, acreditei ter a resposta definitiva à inquietação metafísica que atormentara os meus tenros anos: pensei que se regulasse uma máquina fotográfica de modo a que ela disparasse automaticamente numa habitação em que não houvesse quaisquer presenças humanas, conseguiria apanhar as coisas desprevenidas, e desta maneira ficar a conhecer o aspecto real que têm. Esqueci-me de que as coisas são mais espertas do que parecem e não se deixam enganar com essa facilidade: elas sabem muito bem que no interior de cada máquina fotográfica há um olho humano escondido… Além disso, ainda que o aparelho, por astúcia, tivesse podido captar a imagem frontal de uma coisa, sempre o outro lado dela ficaria fora do alcance do sistema óptico, mecânico, química ou digital do registo fotográfico. Aquele lado oculto para onde, no derradeiro instante, ironicamente, a coisa fotografada teria feito passar a sua face secreta, essa irmã gémea da escuridão. Quando numa habitação imersa em total obscuridade acendemos uma luz, a escuridão desaparece. Então não é raro perguntar-nos: “Para onde foi ela?” E a resposta só pode ser uma: “Não foi para nenhum lugar, a escuridão é simplesmente o outro lado da luz, a sua face secreta”. Foi pena que não mo tivessem dito antes, quando eu era criança. Hoje saberia tudo sobre a escuridão e a luz, sobre a luz e a escuridão.

7.10.08

Não é "estou postando um texto do Fer porque ele é meu marido". Na verdade, é "o Fer é meu marido porque escreve textos como o que estou postando agora".
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O maravilhoso e incompreensível universo das mulheres
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A lógica feminina é um ambiente impenetrável, inóspito, árido para nós, homens. O sucesso de um relacionamento ou da participação masculina em um relacionamento só pode se dar no momento em que essa pedra fundamental das interações intersexuais for compreendida e eternizada.
Como um motorista que, dia após dia, enfrenta novas estradas sem nunca percorrê-las duas vezes, o homem deve se orientar por uma única baliza: não pode criar expectativas ou construir padrões que o ajudem a compreender o que está pela frente.
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Cena 1
O homem, recém-casado, preocupa-se em organizar os itens que só ele pode resolver dentro da nova casa: instala pequenos equipamentos eletro-eletrônicos, usa sua nova furadeira, equilibra-se nos últimos degraus da escada de alumínio para evitar que a nova parceira o faça.
À mulher destinam-se as tarefas de cunho mais feminino - organização de armários, decoração, limpeza, cozinha.
(Torna-se pertinente, aqui, um questionamento sobre o por quê dessas tarefas estarem associadas ao universo das mulheres: terá sido por imposição social nas primeiras décadas posteriores à revolução industrial, por afinidade às habilidades físico-motoras das senhoras casadas ou pelo puro e simples acaso?)
Voltando à cena 1, após um dia de trabalho igualmente desgastante para ambas as partes, o seguinte diálogo acontece:
- Nos próximos dois dias, a limpeza do chão e as louças são responsabilidade sua, diz a mulher.
- Uai, por que?
- Porque hoje eu passei o dia lavando as roupas, limpando a sala e fiz a comida.- Tá, mas eu também passei o dia trabalhando, não parei hora nenhuma igual a você
Claro, claro, mas você fez as coisas que você gosta. E eu não...
Proferida essa frase, Martinho Lutero se contorce em sofrimento, amaldiçoando a eficiência católica em inflingir culpa e sofrimento no cardápio diário de milhões de pessoas em todo o mundo. Inútil dizer que ninguém mais poderia ter executado as tarefas que nosso marido executou, nem dizer que 80% da limpeza e da organização femininas são desnecessárias ao mundo masculino, ao passo que nenhuma das "prazerosas" tarefas empreendidas pelo homem poderia ser deixada de lado. E, afinal, qual é o problema em se ter prazer no que se faz? O homem deveria proibir sua esposa de cozinhar caso essa tarefa lhe apetecesse?
Preocupado em construir as bases de um relacionamento duradouro e ainda mais preocupado em não assumir o lugar típico do chefe de família dos anos 50, o parceiro vai, ao longo dos meses, aceitar cada vez mais funções, sem nunca conseguir rebater a acusação de que só faz o que gosta dentro da casa, esse grande pecado.
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Cena 2
Outro casal em seu primeiro ano de casamento, sem diarista que lhes alivie a dura rotina de manter a casa limpa, roupas lavadas, louças brilhando e muito bom humor. Determinam que a pia seria responsabilidade dela nos dias ímpares, dele nos dias pares.Dia ímpar: ele prepara uma salada e um grelhado para o jantar.
Dia par: ela decide fazer souflé de espinafre de entrada, lasanha à bolonhesa como prato principal e, de sobremesa, mousse. Experimenta 97% dos utensílios que o casal ganhou dos parentes e amigos no casamento, incluindo o fantástico secador de alface, o mixer elétrico para preparar 35ml de molho e um jogo de refratários importado.
Três horas mais tarde, com as mãos enrugadas e a roupa suja de detergente, ele escuta: "você demora demais pra lavar louça, meu bem". Ao registrar sua insatisfação com a desigualdade no volume de louças, consegue o passaporte para um debate sobre o relacionamento.
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Cena 3
Deitada de bruços, com as duas mãos em posição de esfinge, ela diz: faça o que achar certo. Ele, mezzo convicto de que conhece bem o comportamento de sua mulher, fica mezzo tranquilo e se prepara para executar a tarefa, trazendo consigo as ferramentas necessárias. Sente, porém, um desequilíbrio da Força.
Observa de soslaio a feição da esposa, que aparenta indiferença. Ela segue serena, confiante de ter deixado clara sua sugestão impositiva. Lê uma revista, arruma o cabelo e finge ignorar a presença de uma furadeira, escada e caixa de ferramentas no chão da sala.
Trinta minutos depois, já com o serviço executado, a casa é preenchida por uma simpática nuvem cinza. Fazer o que achava certo nesse caso, decretou a mulher a posteriori, não incluía levar a cabo a tarefa. "Faça o que achar certo" significa na lógica feminia, quase sempre, "faça o que eu acho certo, mas que insisto em não lhe dizer".
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Epílogo para garantir a continuidade do meu casamento
Acho as mulheres adoráveis, deliciosas, fundamentais. A minha, mais do que todas. A imprevisibilidade feminina torna o dia-a-dia mais divertido, inesperado e desafiante. A lógica simplista e preguiçosa do homem - mesmo que eu a adote com frequência - deixa o mundo mais sujo e grosseiro. O contraponto feminino evita que papéis, documentos e embalagens usadas se acumulem na mesa da sala por meses.
Estou casado há quase um ano. Nunca estive tão feliz com minha escolha, com minha companheira e com minha vida. A Dri dormindo em meu peito vale qualquer falta de lógica do mundo.
Não tem jeito de não postar. Ele me entende.
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Teatro, tu és puro teatro
Xico Sá.
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D´onde tratamos do ator intenso, da atriz intensa, intensíssima. Do tipo que diz, durante o nhoque-permuta no restaurante, depois de mais um Rei Lear: “Eu respiro teatro”. Ao avistar um conhecido, alardeia, quebrando o sossego do recinto: “Ah, você ainda não foi me ver?!” O ator/atriz intensos não acreditam que uma só criatura possa deixar de vê-los em cena, embora a bilheteria muitas vezes teime em desapontá-los. Como ousam deixar de nos ver? Como irão passar sem aquela montagem imperdível de um Eurípedes, de um Ibsen, de um Tchecov, de um Shakespeare?...
Clássico é clássico e vice-versa
É, o artista intenso, esse animal dramático por excelência, não se envolve com qualquer comediazinha caça-níquel da praça. Nécaras. Para este tipo de gênio, só vale uma lei: “Clássico é clássico e vice-versa”, como na boutade ludopédica do atacante Jardel. O ator/atriz intensos guardam sempre um ar solene, um conteúdo na linha “vidas passadas”. São sempre uns elisabetanos do século XV, estão sempre em Corinto, há milhões de anos atrás, vivem sempre na Grécia, zilhões de séculos a.C. –antes da “Caras”.
A fêmea trágica e intensa
A atriz intensa costuma ser mais intensa ainda que o ator intenso. Queda que as fêmeas têm para a tragédia, especula-se. Em compensação, o macho-dramaticus é mais histérico na sua intensidade. Tudo o perturba, desconcentra –principalmente o ronco emitido pelo convidado VIP que sofre de apnéia na primeira fila. O macho é mais estressadinho, cheio de nove-horas e não-me-toques. Carrega essa tensão para o palco mesmo quando na pele de um patafisico Ubu Rei. É incapaz de compreender o paradoxo do comediante, como debocharia o camarada Diderot.
O macho intenso e a estética do cachecol
O macho enquanto ator intenso vive de cachecol em todos os lugares por anda. Sempre com o pescoço envolto por aquela estranha rodilha. E, reparem, ele sempre está ajustando o cachecol ao gogó, impaciente e bufando queixas contra os seus semelhantes mais intensos ainda, contra o público despreparado para a sua grande arte, contra a política de incentivos fiscais, contra o sucesso fácil dos outros...
Dramaturgia sem botox
A fêmea intensa, com suas encantadoras olheiras, veste-se muito bem. Com um rápido pendor para o gótico simplificado, além dos adereços, anéis e brincos, agressivos no ponto certo. Jamais fará botox, para não matar a crueldade da Medéia que mora nos arredores dos seus olhos.
100% Hamlet
Todos os atores intensos e de cachecol querem mesmo é ser Hamlet. Assim como as fêmeas na pele de atrizes intensas serão todas intensíssimas Medéias.
Mas como não tem vaga de Hamlet ou de Medéias para todo mundo, certamente muitos acabarão na novela das 8, quando estarão muito mais simpáticos e trocarão, finalmente, o “conteúdo vidas passadas” por belas cenas de merchandising –todas sob rigorosa marcação brechtiana. Bravos, bravíssimos! Melhor que o Irajá... E com a vantagem de trocar a porca miséria do obrigatório jantar-permuta na cantina decadente por um Gero, um Carlota, um noite à champanhota no Spot...
Desce o pano!
E aí que eu recebi uma ligação educada e despretensiosa me convidando para falar em um evento. Também educada e despretensiosamente, aceitei na hora. Agora, com o programa do evento em mãos, me vejo cercada de desembargador, juiz, secretário municipal, psicanalista (inclusive a minha!) e toda a sorte de gente foda e importante.
Isso é pra eu aprender de vez que desejar é muito perigoso.
Jesus, toma conta.

6.10.08

Sobre Fernando Pessoa
José Saramago
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Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Com um movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou fundo com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E porque estes, Fernando e a imagem que não era a sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: “Chamo-me Ricardo Reis”. O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para viver. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: “Chamo-me Alberto Caeiro”. O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há duas sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem daqueles que exibem saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: “Chamo-me Álvaro de Campos”, mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente tinha-se cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: “Chamo-me Bernardo Soares”, e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar pediu que lhe dessem os óculos: “Dá-me os óculos” foram as suas últimas e formais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os queria ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente lá estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto. Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.
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Fernando Pessoa
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A ciência, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com tanto esforço dado a ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!
A ciência!
Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.

3.10.08

O Fer que me perdoe, mas eu sou apaixonada pelo Xico Sá. Completamente.
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Para beijar a lona do amor e da sorte
Xico Sá

- Só não vou te perguntar se vens sempre aqui porque a casa inaugurou hoje.
Acreditem, com esta abordagem lindamente ingênua, uma rápida e metalinguística variação do infrutífero clichechão “vens sempre aqui?”, mr. Abelha, um amigo que flana na noite de SP, despertou na gazela um daqueles sorrisos que muitos bacanas só conseguem em troca de um diamante, um presente da Tyffani´s ou 12 trabalhos de Hércules.
Mr. Abelha não tem bala na agulha para bancar uma bonequinha de luxo, também não é um típico “maníaco do trechinho”, como chamamos aqueles supostos intelectuais que disparam duzentas citações e frases de efeito por minuto. Ele tem apenas a manha de fazer sorrir a mais existencialista das afilhadas de Jean-Paul Sartre. E isso é o que conta no primeiro momento, seja qual for o estilo do cavalheiro.
Se o camarada não for lá, digamos assim, um gato, vai carecer ainda mais do poder da simpatia e do algo mais. Sim, um mal-diagramado, caso deste cronista que vos aborda, sabe muito bem que a sua luta é quase sempre por pontos, ali na corda do discurso amoroso, minando a resistência da moça no ringue mais lírico, riso a riso, drinque a drinque, gesto a gesto.
O contrário do bonitão, do galã, sempre confiante, pois está acostumado a vencer por nocaute –embora muitíssimas vezes quebre a cara e volte para casa mascando o jiló do desprezo.
Sim, os desprovidos, como se diz, da beleza padrão, carecem ganhar sempre por pontos; os bonitões guardam na caixa torácica a soberba do triunfo por nocaute.
O melhor de tudo, para sorte nossa, é que a beleza é passageira e a feiúra só acaba no túmulo, como dizia o doce canalha fancês Serge Gainsbourg. Com essa conversinha mole, e muito charme, óbvio, o autor da clássica "Je t'aime moi non plus", a chanson mais tocada nos motéis do mundo inteiro, teve belas e quentíssimas histórias de amor com Jane Birkin e Brigitte Bardot, entre outras tantas fraquinhas da época.
"Casal neuras", do Glauco (pra ver melhor, é só clicar na tirinha e ampliar).

2.10.08

O pai do filho da Cristiana Guerra, publicitária de BH, morreu dois meses antes de o menino nascer. Ela escreve coisas absurdamente lindas sobre a experiência louca de perder um amor, ganhar um filho e transmitir a ele um pai.
Este texto eu posto pro Fer, que me deu bagagem pra entender o que ela diz.
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Valores
Cristiana Guerra
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De vez em quando ele fazia o carinho de colocar duas notas de cinqüenta no meu bolso, aliviando o meu fim de mês, mesmo que no próprio bolso sobrasse apenas uma. E ao ver minha expressão entre o alívio e a tristeza de chegar a esse ponto – não por ganhar pouco, mas por gastar muito –, citava a avó: "Senão o cachorro faz xixi no seu pé, amor." E assim ele me arrancava um sorriso. Também pude fazer por ele algumas vezes, e o fazia com prazer. No dinheiro também estava o amor. Um jeito bonito de misturar as coisas, preservando os desejos e escolhas do outro. Não era hoje eu, amanhã você, mas o correr natural dos gestos e a alegria de dar o amor na forma em que ele viesse: fosse em nota de dinheiro, beijo, telefonema ou pedaço de pão. Nunca, nunca vi seu pai me recriminar por alguma compra. Ao contrário, eu ia correndo mostrar cada peça especial que eu havia encontrado e ele me devolvia um elogio pelo bom gosto, um sorriso de me ver bonita porque aquela também era a minha forma de amor. Amor que não estava no quanto cada um ganhava ou no dividir ou não a conta. Nem na conta conjunta que nunca tivemos. Amor de estar ali ao lado sempre, num desejo só, e aí se incluem os desejos que são de cada um. Quase sempre dava pra viajar pra pertinho, pegar um cinema, tomar um vinho ou fazer um jantar simples, não importa de que lado ou dois ou quanto viesse o dinheiro. E se não houvesse nenhum dinheiro, juntos estávamos em uma de nossas casas. De geladeira vazia e sorriso cheio. Acho que fiquei mais generosa convivendo com ele. Sinto que você vai ser assim também. E vai poder dizer: "Aprendi com meu pai".
Hoje é dia de gente legal neste blog. Eu queria mandar um beijo pro meu pai, pra minha mãe e pra Carol C4! Leitores Vip aos montes! Beijos, mocinha, bom te ter por aqui.
Contribuição de leitor sempre me deixa feliz demais. Quem mandou esta foi a Carol - que já está ali na barra, em "Gente legal", porque ela é sempre fofa e ótima nos comentários.
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“Ora, essas coisas psicanalíticas só são compreensíveis se forem relativamente completas e detalhadas, exatamente como a própria análise só funciona se o paciente descer das abstrações substitutivas até os ínfimos detalhes. Disso resulta que a discrição é incompatível com uma boa exposição sobre a psicanálise. É preciso ser sem escrúpulos, expor-se, arriscar-se, trair-se, comportar-se como o artista que compra tintas com o dinheiro da casa e queima os móveis para que o modelo não sinta frio. Sem alguma dessas ações criminosas não se pode fazer nada direito”.
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Freud, 1910.

1.10.08

Dedução
Maiakovski
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Não acabarão nunca com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.