29.8.09

Jorge Amado e Zélia Gattai.

27.8.09

Clarice Lispector

Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto - como se chama o que sinto? Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente - como se chama essa mágoa e esse rancor? Estar ocupada, e de repente parar por ter sido tomada por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota - como se chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar: como se chama? Até hoje só consegui nomear com a própria pergunta. Qual é o nome? e é este o nome.

***

Uma revolta

Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa.
"Amolo facas, tesouras, alicates de unha".
O apitinho da infância, das tardes em casa e do cheiro de café vindo da cozinha. Amolador, eu te amo!
(Fer, que postou esse vídeo porque sabia que eu ia ficar muito feliz, eu te amo também)!

26.8.09

A ciência da abelha, da aranha e a minha muita gente desconhece.
Escultura
Adalgisa Nery

Eu já te amava pelas fotografias.
Pelo teu ar triste e decadente dos vencidos,
Pelo teu olhar vago e incerto
Como o dos que não pararam no riso e na alegria.
Te amava por todos os teus complexos de derrota,
Pelo teu jeito contrastando com a glória dos atletas
E até pela indecisão dos teus gestos sem pressa.
Te falei um dia fora da fotografia
Te amei com a mesma ternura
Que há num carinho rodeado de silêncio
E não sentiste quantas vezes
Minhas mãos usaram meu pensamento,
Afagando teus cabelos num êxtase imenso.
E assim te amo, vendo em tua forma e teu olhar
Toda uma existência trabalhada pela força e pela angústia
Que a verdade da vida sempre pede
E que interminavelmente tens que dar!...

Os bares de BH no "The New York Times". Olha aí o Bar do Caixote!

25.8.09

Irmandade

Octavio Paz

Sou homem: duro pouco
E é enorme a noite.
Mas olho para cima:
As estrelas escrevem.
Sem entender, compreendo:
Também fui escrito
E neste mesmo instante
Alguém me soletra.

Casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo. A mais linda, a mais amada, respeitada, cuidada... A mais bem comida. E a pessoa mais namorada do mundo e a mais casada. E a mais festas, viagens, jantares... Casa comigo que te faço a pessoa mais realizada profissionalmente. E a mais grávida e a mais mãe. E a pessoa mais as primeiras discussões. A pessoa mais novas brigas e as discussões de sempre. Casa comigo que te faço a pessoa mais separada do mundo. Te faço a pessoa mais solitária com um filho para criar do mundo. A pessoa mais foi ao fundo do poço e dá a volta por cima de todas. A mais reconstruiu sua vida. A mais conheceu uma nova pessoa, a mais se apaixonou novamente... Casa comigo que te faço a pessoa mais casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo.

Descartes
Cacaso

Não há
no mundo nada
mais bem
distribuído do que a
razão: até quem não tem tem
um pouquinho



Lar doce lar
Cacaso

Minha pátria é minha infância:
por isso vivo no exílio

24.8.09

Minha mãe mandou por email. E eu aqui, longe do Tom...

23.8.09

Fer, eu e o Tom estamos mandando um beijo. Ele diz que o amor dele é novo, mas é muito verdadeiro.

Ao amor antigo
Carlos Drummond de Andrade

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
Pro William Castilho, que hoje me disse, com ar de pai: "você ainda não ultrapassou a curvatura que separa um modo de viver muito fluido, muito livre, do ponto em que a gente passa a se submeter às instituições, a ser mais fixo". Era uma espécie de bronca, mas eu achei bonito demais o que ele falou.
Ps: o William não faz a menor idéia do que seja um blog, muito menos de que este blog aqui exista.

Escolha
Lya Luft

Apesar do medo
escolho a ousadia.
Ao conforto das algemas, prefiro
a dura liberdade.
Vôo com meu par de asas tortas,
sem o tédio da comprovação.

Opto pela loucura, com um grão
de realidade:
meu ímpeto explode o ponto,
arqueia a linha, traça contornos
para os romper.

Desculpem, mas devo dizer:
eu quero o delírio.

Pablo Neruda

Es así que te quiero, amor
Así te quiero, amor,
amor, así te amo,
así como te vistes
y como se levanta
tu cabellera y como
tu boca se sonríe,
ligera como el agua
del manantial sobre las piedras puras,
así te quiero, amada.

Al pan yo no le pido que me enseñe
sino que no me falte
durante cada día de la vida.

Yo no sé nada de la luz, de dónde
viene ni dónde va,
yo sólo quiero que la luz alumbre,
yo no pido a la noche
explicaciones,
yo la espero y me envuelve,
y así tú, pan y luz
y sombra eres.

Has venido a mi vida
con lo que tú traías,
hecha
de luz y pan y sombra te esperaba,
y así te necesito,
así te amo,
y a cuantos quieran escuchar mañana
lo que no les diré, que aquí lo lean,
y retrocedan hoy porque es temprano
para estos argumentos.

Mañana sólo les daremos
una hoja del árbol de nuestro amor, una hoja
que caerá sobre la tierra
como si la hubieran hecho nuestros labios,
como un beso que cae
desde nuestras alturas invencibles
para mostrar el fuego y la ternura
de un amor verdadero.
A hóspede
Guilherme de Almeida

Não precisas bater quando chegares.
Toma a chave de ferro que encontrares
sobre o pilar, ao lado da cancela,
e abre com ela
a porta baixa, antiga e silenciosa.
Entra. Aí tens a poltrona, o livro, a rosa,
o cântaro de barro e o pão de trigo.
O cão amigo
pousará nos teus joelhos a cabeça.
Deixa que a noite, vagarosa, desça.
Cheiram à relva e sol, na arca e nos quartos,
os linhos fartos,
e cheira a lar o azeite da candeia.
Dorme. Sonha. Desperta. Da colméia
nasce a manhã de mel contra a janela.
Fecha a cancela
e vai. Há sol nos frutos dos pomares.
Não olhes para trás quando tomares
o caminho sonâmbulo que desce.
Caminha - e esquece.

20.8.09

Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado.
O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...

O pequeno príncipe, Saint Exupéry.
Nic, taí o texto todo pra você.

Dois estudos
João Cabral de Melo Neto

1
Tu és a antecipação
do último filme que assistirei.
Fazes calar os astros,
os rádios e as multidões na praça pública.
Eu te assisto imóvel e indiferente.
A cada momento tu te voltas
e lanças no meu encalço
máquinas monstruosas que envenenam reservatórios
sobre os quais ganhaste um domínio de morte.
Trazes encerradas entre os dedos
reservas formidáveis de dinamite
e de fatos diversos.

2
Tu não representas as 24 horas de um dia,
os fatos diversos,
o livro e o jornal
que leio neste momento.
Tu os completas e os transcendes.
Tu és absolutamente revolucionária e criminosa,
porque sob o teu manto
e sob os pássaros de teu chapéu
desconheço a minha rua,
o meu amigo e o meu cavalo de sela.
O coração perdoa, mas não esquece à toa... e eu não me esqueci.
Bethânia é diva.



Fera ferida
Roberto Carlos / Erasmo Carlos

Acabei com tudo, escapei com vida, tive as roupas e os sonhos rasgados na minha saída
Mas saí ferido, sufocando o meu gemido, fui o alvo perfeito, muitas vezes no peito atingido
Animal arisco domesticado esquece o risco, me deixei enganar e até me levar por você
Eu sei, quanta tristeza eu tive, mas mesmo assim se vive morrendo aos poucos por amor
Eu sei, o coração perdoa, mas não esquece à toa, e eu não me esqueci.
Não vou mudar, esse caso não tem solução, sou fera ferida no corpo, na alma e no coração.
Eu andei demais, não olhei pra trás, era solto em meus passos, bicho livre, sem rumo, sem laços
Me senti sozinho, tropeçando em meu caminho, à procura de abrigo, uma ajuda, um lugar, um amigo
Animal ferido, por instinto decidido, os meus rastros desfiz, tentativa infeliz de esquecer
Eu sei que flores existiram, mas que não resistiram a vendavais constantes
Eu sei que as cicatrizes falam, mas as palavras calam o que eu não me esqueci.
Axé com cérebro.



Reconvexo
Caetano Veloso

Eu sou a chuva que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma
Eu sou a sereia que dança, a destemida Iara, água e folha da Amazônia
Eu sou a sombra da voz da matriarca da Roma Negra, você não me pega, você nem chega a me ver
Meu som te cega, careta, quem é você?
Que não sentiu o suingue de Henri Salvador, que não seguiu o Olodum balançando o Pelô
E que não riu com a risada de Andy Warhol, que não, que não e nem disse que não
Eu sou um preto norte-americano forte com um brinco de ouro na orelha
Eu sou a flor da primeira música, a mais velha, a mais nova espada e seu corte
Sou o cheiro dos livros desesperados, sou Gitá Gogóia, seu olho me olha mas não me pode alcançar
Não tenho escolha, careta, vou descartar
Quem não rezou a novena de Dona Canô, quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor?
Quem não amou a elegância sutil de Bobô, quem não é Recôncavo e nem pode ser reconvexo.

19.8.09

Ponto de honra
Maria Teresa Horta

Não sou escrava
de lamento
nem tento ferida
de enfeite

nem uso a raiva
que tenho
como um alfange
no peito

Não talho o sangue
nas pedras

nem uso palavras
de ódio

e não quero anéis
de aceite
para enfeitar os meus olhos
Sei lá
Paulo Leminski

vai pela sombra, firme,
o desejo desespero de voltar
antes mesmo de ir-me
antes de cometer o crime,
me transformar em outro
ou em outro transformar-me
quem sabe obra de arte,
talvez, sei lá, falso alarme,
grito caindo no poço,
neste pouco poço nada vejo nem ouço,
mais mais mais
cada vez menos

poder isso, sinto, é tudo que posso,
o tão pouco tudo que temos
Canção de amor da jovem louca
Sylvia Plath

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)
Ganhei um presente. Gui, você me fez tão feliz!

18.8.09

É simples. É muito simples.

16.8.09

Ok, acabou ele por hoje. Mas é que isso aqui é bom demais e ele fala do jeito mais legal sobre essa "vontade desesperada de ser americano", que eu odeio. Também não compro, Caetano.

Caetano rock'n roll - amo ele falando "você foi mó rata comigo".
Ele é o cara.


Rocks
Caetano Veloso

Tatuou um ganesh na coxa, chegou com a boca roxa de botox
Exigindo rocks, animais, metais, letais, metais, eu não dei letra.
Tu é gênia, gata, etc., mas cê foi mesmo rata demais
Meu grito inimigo é: você foi mó rata comigo
Você foi concreta e simplesmente rata comigo demais
Rata comigo demais, rata comigo demais
Rata.

Trilha sonora. Pra dançar e cantar alto.



Não enche
Caetano Veloso

Me larga, não enche, você não entende nada e eu não vou te fazer entender
Me encara de frente, é que você nunca quis ver, não vai querer, nem vai ver
Meu lado, meu jeito, o que eu herdei de minha gente eu nunca posso perder
Me larga, não enche, me deixa viver, me deixa viver, me deixa viver, me deixa viver...
Cuidado, oxente! Está no meu querer poder fazer você desabar
do salto, nem tente manter as coisas como estão porque não dá, não vai dar.
Quadrada! Demente! A melodia do meu samba põe você no lugar
Me larga, não enche, me deixa cantar, me deixa cantar, me deixa cantar, me deixa cantar...
Eu vou clarificar a minha voz gritando nada mais de nós.
Mando meu bando anunciar: vou me livrar de você...
Harpia! Aranha! Sabedoria de rapina e de enredar, de enredar
Perua! Piranha! Minha energia é que mantém você suspensa no ar
Prá rua! se manda! Sai do meu sangue, sanguessuga que só sabe sugar
Pirata! Malandra! Me deixa gozar, me deixa gozar, me deixa gozar, me deixa gozar...
Vagaba! Vampira! O velho esquema desmorona, desta vez pra valer
Tarada! Mesquinha! Pensa que é a dona e eu lhe pergunto: quem lhe deu tanto axé?
À-toa! Vadia! Começa uma outra história aqui na luz deste dia "D"
Na boa, na minha, eu vou viver dez, eu vou viver cem, eu vou vou viver mil, eu vou viver sem você.
O macho e a modinha do xixi sentado
Xico Sá

Ih, rapaz, por essa a gente não esperava tão cedo. Mas vem da Suécia, pátria de todos os clichês do sexo loiro, uma lufada revolucionária capaz de virar de cabeça para baixo as nossas tristes existências. As gazelas daquele país passaram a obrigar os cavalheiros a mijar sentados. Postura que nos impõe um distanciamento brechtiano em relação ao nosso confidente-mor: agora escondido, mergulhado no vaso, encoberto pela barriga, ele sente que perdeu o arrastado e cansativo debate sobre a pontaria. Ele abaixa a cabeça, num quase mergulho suicida, existencialista perdido diante do trunfo da nova moral burguesa do Politicamente Correto.

Que fazer?

Saltamos, leninistas, abestalhados a buscar uma solução para essa onda que deve varrer o mundo. Aqui em SP, a cidade proibidona, o alcaide não demora por implantar a tal modinha.

Claro que se trata de mais uma novidade do chamado projeto internacional para tentar forjar o dito prospecto do macho sensível. Ora, outro dia admitíamos, no máximo, uma camadazinha de minâncora sobre uma espinha trabalhosa. Hoje vejo íntegros camaradas se lambuzarem de Lancôme sem a menor cerimônia, com a maior cara lavada. Que fazer?, repetimos, estrategicamente leninistas.

Daqui a pouco não restará um só mictório na cidade. Em Estocolmo, apontam entusiastas da nova mania, não é mais possível mijar em pé em alguns bares e restaurantes. O fim do mundo. Tentam acabar com aquela cena clássica de um magote de marmanjos, lado a lado, inveja do pênis do vizinho ou não, tirando água do joelho.

Claro que fizemos por onde ser derrotados nessa peleja. Foram décadas e mais décadas de reclamações. Erramos. Não levamos a sério os quesitos pontaria, tampa levantada etc. Zombamos da boa vontade daquelas que lustram o nosso chão de estrelas. Deu no que deu. Agora, compadres, só nos restarão o Firestone na saída dos bares, a cerca do vizinho, um baobá qualquer a caminho de casa ou o asfalto propriamente dito. (Como este é um espaço proustiano, recordo-me de quando mijávamos na areia quente do sertão, tentando escrever os nossos nomes no chão com vigorosos jatos-mirins.)

Não adianta estrebuchar, pouco importa o direito ao juris esperneandi. O certo é que querem nos civilizar a qualquer custo... É a conspiração internacional da qual tratei linhas atrás. Querem nos androgenar, como diria o lírico sambista Luis Ayrão. “Esse camarada se androginou/ a moça deu bola a ele/ e ele nem ligou”.

Só nos resta aceitar a derrota histórica. Mijar sentado, tudo bem, mas pelo amor de Deus, sem aquele barulhinho erótico de que só uma dama é capaz. Devagar, rapaziada guerreira.

Chico Buarque e Paula Toller juntos. Pros dois poderem suspirar, democraticamente.
E a música ainda é A música.



Dueto
Chico Buarque

Consta nos astros, nos signos, nos búzios, eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás: serás o meu amor, serás a minha paz

Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas, eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais: serás o meu amor, serás a minha paz

Mas se a ciência provar o contrário e se o calendário nos contrariar... mas se o destino insistir em nos separar

Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos, profetas, sinopses, espelhos, conselhos, se dane o evangelho e todos os orixás: serás o meu amor, serás, amor, a minha paz

Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela, está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um cartaz: serás o meu amor, serás a minha paz.
A gravação pela qual eu sou apaixonada é a original, do Martinho da Vila. Mas Ney Matogrosso e Pedro Luis são sempre ótimos. Aliás, essa música é sempre o máximo.



Disritmia
Martinho da Vila
Eu quero me esconder debaixo dessa sua saia pra fugir do mundo
pretendo também me embrenhar no emaranhado desses seus cabelos
preciso transfundir seu sangue pro meu coração que é tão vagabundo
me deixe te trazer num dengo pra num cafuné fazer os meus apelos.
Eu quero ser exorcizado pela água benta desse olhar infindo
que bom é ser fotografado, mas pelas retinas desses olhos lindos
me deixe hipnotizado pra acabar de vez com essa disritmia.
Vem logo, vem curar seu nego que chegou de porre lá da boemia.

Distância

Nuno Júdice

Entro no teu quarto, como se
entrasse no mar. Um temporal de perguntas
enrola os teus cabelos. Lanças-te
contra as ondas de um sonho antigo,
e abres a porta da varanda
para te sentares à cadeira
do oriente, apanhando o vento
da tarde. «Não te levantes, digo,
e deixa que os teus olhos se libertem
de sombra, depois de uma noite
de amor, para me abrigarem
da luz estéril da madrugada.» Mudas
de posição, como se me tivesses
ouvido; e o teu corpo enche-se
de palavras, como se fosses
a taça da estrofe.

15.8.09

Coisa tua
Alice Ruiz

assim que vi você
logo vi que ia dar coisa
coisa feita pra durar,
batendo duro no peito
até eu acabar virando
alguma coisa
parecida com você
parecia ter saído
de alguma lembrança antiga
que eu nunca tinha vivido,
mas ia viver um dia
alguma coisa perdida
que eu nunca tinha tido
alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido
agora não tem mais jeito,
carrego você no peito

poema na camiseta
com a tua assinatura
já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu que virei alguma coisa tua.

De tanto não poder dizer
meus olhos deram de falar
só falta você ouvir.

14.8.09

Transcrição da secretária eletrônica do meu celular:

"Dri, é Suzana, sua sogra, mas antes de tudo sua amiga. Eu estou ligando pra te falar que você é um doce de pessoa, muito linda, muito alegre, muito inteligente, muito boa para o meu filho e pra todos nós. Você tem um blog que eu adoro ler, onde você coloca muitas coisas lindas. Nós sentimos muitas saudades de você e amamos você. Então, se você precisar de um carinho gigante, pode vir aqui que a gente te dá. Um beijo. Ah, uma outra coisa que eu acho um encanto em você é que você adora ajudar as pessoas. Outro beijo".

Sim, é minha sogra. Sim, ela ligou só pra eu me sentir amada. Sim, podem morrer de inveja.
Mulheres de preto
Eugénio de Andrade

Há muito que são velhas, vestidas
de preto até a alma.
Contra o muro
defendem-se do sol de pedra;
ao lume
furtam-se ao frio do mundo.
Ainda têm nome? Ninguém
pergunta, ninguém responde.
A língua, pedra também.
Esse é pra Andréia (não sei se tem "i"), da Filarmônica. Que, como eu, chora com Tati Bernardi. E que mandou um presente fofo pro meu cabelo. E que tem o cabelo mais legal do mundo.

Impune
Tati Bernardi

Ontem me perdi, como sempre acontece quando estou perto da sua casa, e fui cair na rua da farmácia, a rua atrás da sua. Ou da frente (é que todo o mundo parece ficar atrás da sua casa, seja a rua que for, seja lá o que isso quer dizer). Algo me carrega pra perto de você, um algo infinitamente pequeno e solitário frente ao imenso e diversificado não que carrego em relação a nós. Isso, de estar por perto e poder vê-lo, sempre me gela o coração e seca a boca, o que é uma besteira pois sem dramas ou dúvidas externadas seguimos com nossas vidas e, também num acordo silencioso e quase sem importância, decidimos manter uma amizade agradável e sem fins sexuais a cada doze ou nove ou dezessete ou onze ou quarenta e três dias.
Não sei se era você, veja bem, te vejo a todos os instantes saindo e entrando de todo e qualquer lugar e nunca, nunca, é você. Às vezes são até mesmo umas pessoas bem feias e diferentes e impossíveis de te lembrar. Mas tudo lembra e assim sigo te vendo por toda parte em todos os instantes (engraçado que no dia que era você não levei susto e cheguei mesmo a pensar que você não é você, mas essa é outra história).
E na rua da farmácia, saindo dela, estava você, ou mais um desses seres que fantasmagoricamente ganham alguns de seus movimentos ou cores ou nadas. E era um você acompanhado, abraçado, a uma garota que me pareceu sem graça, um pouco larga e com um cabelo igualmente sem graça e igualmente recheado, além da conta, para as laterais. Mais velha, mais alta, do que eu. Não era você e acho que inventei um pouco agora sobre a mulher. Era só uma mulher na altura da sua axila e você parecia esmagá-la com intensidade como fazia comigo, poucos meses atrás. Muitos até pode se dizer mas, para mim, poucos.
Segue ali um homem impune, pensei. Um cruel homem impune. Um destruidor de mundo impune, eu pensei. O cara do fogo, da chacina, da faca, da bala, da explosão, de tudo isso que também é amor quando não se sabe ou não se pode simplesmente agir amorosamente. Eu quis abrir a janela do meu carro e gritar, alto, com força e seriedade, até sumir minha voz: peeeeeeeguem! Ladrããão! Mas não fiz nada. Tudo durou um milésimo de segundo e certamente nem era você. Ou era. E essa pobre mulher, gorda e feia em minha imaginação, bonita, madura e leve, em minha imaginação. A mulher da minha imaginação. Essa mulher, pobre coitada. Quando tempo a bexiga murcha que você carrega no peito poderá dar a ela o tal do abraço apertado que você gosta tanto? Aquele que sufoca e depois solta no mundo gélido, de ponta cabeças, com os pés pendurados numa corda que não vemos e por isso mesmo demora a desatar. Nem bem se acostuma a ser amada, a sua mulher, qualquer que seja ela, já que você coleciona e não ama e um dia disse apenas, de mim: “tô com uma mulher”. Nem bem se anda com você no peito, equilibrando a dor que um amor tão evasivo causa por querer tanto correr do peito alheio, pra logo estarmos atravessando sozinhas, as ruas, com medo dos carros desenfreados e do vento que passa levando poeiras e intenções.
Você, meu querido, com tudo que parece ter de bom, inclusive sua tristeza e desânimo, esse presente humilde e falso que sua arrogância dá a quem poderia simplesmente odiar você e fim de papo, impossibilitando que alguém te faça tanto mal já que você chega antes. Você, meu amor, ainda que viva na coragem de tomar na cara os murros do mundo e por isso mesmo possa se ausentar com maestria de tomar unhadas de mocinhas. Você, que o mundo perdoa mas eu não, ainda que eu queira bem mais que ele. Que me causa esse ânimo desolador quando vez ou outra, do outro lado da linha, me faz ouvir mais uma vez essa coisa que me arrasa o dia e a vida mas quase se parece com alegria. Seu pigarro poderia ser o único sopro saudável que escuto quando lembro ou sinto algo.
Você é o homem impune, indo e voltando, todos os dias, pra sua casa e outras casas. O homem impune que depois de tanto sentir e dizer e tentar (tanto em tão pouco), simplesmente saiu mais uma vez da farmácia, com seus pacotes de camisinhas, antiácidos e vontades de esmagar corações nas axilas. O homem impune e mais uma mulher. Se o mundo for justo, se o mundo for realmente justo, um dia vou estar ocupada demais pra viver tão ofendida com pessoas que desfilam amores como se fossem sacolinhas de farmácia. O homem impune atravessando ruas querendo qualquer coisa do outro lado delas, mas apenas pra ter forças pra esperar o sinal e conseguir alcançar esse curto espaço de viver. Não é pelo outro lado, é só pra poder ir. É algo sobre atravessar e nunca sobre chegar. O homem impune e seus paliativos com vencimento, numa sacolinha de farmácia.
Não te atropelei porque eu não quis, e digo isso me referindo a todo o resto.

13.8.09

Affonso Romano de Sant'Anna


A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.
Eu: "Fer, deixa eu ouvir mais uma vez. UMA. Juro. Só mais uma".
Fer: "você disse isso uma hora atrás e esta música está tocando desde Los Angeles".
Eu: "você pode ouvir qualquer música depois. QUALQUER UMA. Só mais uma vez. Prometo".

Era junho de 2008. Era lua-de-mel. Era California. Era indo pra San Francisco. Era o Pacífico do nosso lado esquerdo. Era o CD que a minha irmã tinha gravado. Era a música mais linda e romântica do mundo. Era ele que tinha me mostrado, dizendo "eu tenho certeza que você vai amar essa". Não era a última vez que ela iria tocar, ele sabia. Mas, convenhamos, também não era a hora de negar um pedido desses.

Pro Fer, que sempre soube quando me dizer "sim" no repeat: Michael Bublé, "Everything".



You're a falling star, you're the get away car, you're the line in the sand when I go too far. You're the swimming pool on an August day, and you're the perfect thing to say.

And you play it coy but it's kinda cute, ah, when you smile at me you know exactly what you do. Baby don't pretend that you don't know it's true cause you can see it when I look at you.

And in this crazy life, and through these crazy times it's you, it's you, you make me sing. You're every line, you're every word, you're everything.

You're a carousel, you're a wishing well and you light me up when you ring my bell. You're a mystery, you're from outer space, you're every minute of my everyday.

And I can't believe that I'm your man and I get to kiss you baby just because I can. Whatever comes our way, we'll see it through and you know that's what our love can do.

You're every song, and I sing along cause you're my everything.

12.8.09

you can't read my poker face.

10.8.09

Secret Garden, Bruce Springsteen.
Do filme "Jerry Maguire".

"I love him for the man he wants to be. And I love him for the man he almost is".




She'll let you in her house
If you come knockin' late at night
She'll let you in her mouth
If the words you say are right
If you pay the price
She'll let you deep inside
But there's a secret garden she hides

She'll let you in her car
To go drivin' round
She'll let you into the parts of herself
That'll bring you down
She'll let you in her heart
If you got a hammer and a vise
But into her secret garden, don't think twice

You've gone a million miles
How far'd you get
To that place where you can't remember
And you can't forget

She'll lead you down a path
There'll be tenderness in the air
She'll let you come just far enough
So you know she's really there
She'll look at you and smile
And her eyes will say
She's got a secret garden
Where everything you want
Where everything you need
Will always stay
A million miles away
Silêncio
Tati Bernardi

Disse pra mim. Nenhum pio. Não vou falar nada. Já que sou tão imprópria, inadequada, boba. Já que nunca basto e se tento me excedo. Já que não sei o que deveria ou exagero em querer saber o que não devo. Nunca entendo exatamente, nunca chego lá, nunca sou verdadeiramente aceita pela exigência propositalmente inalcançável. Meu riso incomoda. Meu choro mais ainda. Minha ajuda é pouca. Meu carinho é pena. Meu dengo é cobrança. Minha saudade é prisão. Minha preocupação chatice. Minha insegurança problema meu. Meu amor é demais. Minha agressividade insuportável. Meus elogios causam solidão. Minhas constatações boas matam o amor. As ruins matam o resto todo. Minhas críticas causam coisas terríveis. Minhas palavras cuidadas incomodam. Minhas palavras jogadas, mais ainda. Minhas opiniões sempre se alongam e cansam. Minhas histórias acabam sempre no egocentrismo ou preconceito. Meu sem fim dá logo vontade de encurtar. Minha construção, desconstrói. Meus convites quase nunca agradam. Meus pedidos sempre desagradam. Meus soquinhos de frases são jovens demais. Meu bombardeio de coisas sempre acaba em guerra. Minha paz que viria depois nunca chega, pois eu nunca chego. Minha voz doce assusta. Minha voz brincalhona é ridícula. Minha voz séria alarde. Nenhum pio. Disse pra mim. Falar do que sinto é, na hora, desintegrar com seu olhar. Então fico me perguntando sobre o que deveria dizer, se só sei o que sinto. Devo sentir por personagens de livros, filmes, jornais e ruas? É assim que se diz sem ser o que não importa de verdade? E se for o contrário? Mas pra dizer do contrário, fica sempre no ar, é melhor não dizer. Se digo algo sobre minha vida, só sei falar de mim. Se digo algo sobre a vida dele, coitada de mim, achando que sei alguma coisa da vida. Se falo sobre a vida dos outros, que papo furado é esse? Se falo sobre coisas me sinto mais uma delas. Se provoco, eu que provoque sozinha porque ele não é trouxa de cair. Sobre livros, nunca são os que interessam. Sobre minha reportagem, nem quis ler. Meu trabalho nunca foi e nunca será da mulher dos sonhos. Meus sonhos evito falar, um medo de ser menina. Quieta. É assim que será. Se digo certo, isso logo acaba. Se digo certeiro, acabou. Se digo errado, nunca acaba. Se eu for mulher, mulher é um saco. Se eu for homem, homem só existe ele. Se eu for criança, fale com sua analista. Nenhum pio. Combinei comigo. Falar da gente pode? Pode, desde que, depois, eu tenha estrutura para ver toda uma massa desistente desabando sobre meu sofá pequeno. Nadinha. Não vou falar nada. Sobre dor não toca. Sobre prazer toca pouco. Nada. Porque toda vez que eu pergunto, quase ofende. E se respondo, ofende mais. E se exclamo, minha vontade de viver soterra. E se são três pontinhos, não posso. Se começo preciso terminar. Mas quando termino, ele já não está mais. Se repito, quase explode. Se digo uma, sou boa de ser guardada em algum lugar que nunca vejo. Se não explico, pareço louca. Se explico, sou louca. Quieta. Isso! Você consegue! Se for o que eu penso, eu penso errado. Se for o que eu não penso, errei por não pensar. Se não for nada disso, eu que pensasse antes. Se estou animada, cuidado com a rasteira. Se estou desanimada, não tem mão pra levantar. Nada. Não vou sussurrar. Nem gemer. Nenhum som. Respiração muda. O silêncio absoluto. Olhando pra ele. Lembrando de quando ele me disse que é no silêncio que se sabe a verdade. E a verdade chega como um teto gigante que desaba numa cabecinha de vento. O que eu mais temia. O que eu não queria descobrir. Ela me diz. E o pior é que eu nem posso falar por ela. É tudo mentira.

2.8.09

Ausência
Sophia de Mello Breyner


Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Ninguém venha me dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferido,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser,
e não quero me encontrar,
que estou dentro de um navio,
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.
Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.
Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis quem não me quis.

Cecília Meireles

A carta que não foi mandada

Vinícius de Moraes

Paris, outono de 73
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor

Mas ao vê-lo assim tão triste e só
Sou eu que estou chorando
Lágrimas iguais
E, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez
em quando
E
olha para trás
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei... nem lembro mais

Apresentação da Filarmônica no parque (orgulho do Fer), seguida de risoto com espumante e amigos que eu adoro, em uma tarde linda de frio e sol.

Só não foi mais Ilha de Caras porque duvido que lá tenha tanta gente interessante, divertida e delicada.

Eu tenho muita sorte.

1.8.09

Amor. Juro. E eu achava que era impossível.
Chego em casa e encontro Fernando e Tom Jobim (marido e cachorro, respectivamente) na rede.
Fer: "você perdeu, estávamos cantando a música da pata escavadeira".
Eu: ...
Fer: "a música que eu fiz pro Tom depois que ele começou a fazer buracos no nosso quintal".

***

Mais tarde, no mesmo dia, Fer falando com Tom, que insiste em dar a pata pra ganhar o que quer: "vamos lá, seu espateador!".
As nossas madrugadas
Maria Teresa Horta

Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito
pois suspeitas
que com ele me visto e me
defendo
É raiva
então ciúme
a tua boca
é dor e não
queixume
a tua espada
é rede a tua língua
em sua teia
é vício as palavras
com que falas
E tomas-me de força
não o sendo
e deixo que o meu ventre
se trespasse
E queres-me de amor
e dás-me o tempo
a trégua
a entrega
e o disfarce
E lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lenços que desfazes
na pressa de teres o que só sentes
e possuires de mim o que não sabes
Despertas-me de noite
com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo
e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vais descobrindo vales.

Menos a mim

Ferreira Gullar

Conheço a aurora com seu desatino
Conheço o amanhecer com o seu tesouro
Conheço as andorinhas sem destino
Conheço rios sem desaguadouros
Conheço o medo do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.

Conheço o ódio e seus argumentos
Conheço o mar e suas ventanias
Conheço a esperança e seus tormentos
Conheço o inferno e suas alegrias
Conheço a perda do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.

Mas depois que chegaste de algum céu
Com teu corpo de sonho e margarida
Pra afinal revelar-me quem sou eu
Posso afirmar enfim
Que não conheço nada desta vida
Que não conheço nada, nada, nada
Nem mesmo a mim.

Saúde
Rita Lee

Me cansei de lero-lero, dá licença mas eu vou sair do sério.
Quero mais saúde, me cansei de escutar opiniões de como ter um mundo melhor
mas ninguém sai de cima, nesse chove-não-molha, eu sei que agora eu vou é cuidar mais de mim.
Como vai, tudo bem, apesar, contudo, todavia, mas, porém
as águas vão rolar, não vou chorar se por acaso morrer do coração
é sinal que amei demais - mas enquanto estou viva, cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz.