30.4.10

A uma carta pluma
Paulo Leminski

a uma carta pluma
só se responde
com alguma resposta nenhuma
algo assim como se a onda
não acabasse em espuma
assim algo como se amar
fosse mais do que bruma

uma coisa assim complexa
como se um dia de chuva
fosse uma sombrinha aberta
como se, ai, como se,
de quantos como se
se faz essa história
que se chama eu e você


29.4.10

Fora de hora

Carlos Drummond de Andrade

Entrega fora de hora
e posse fora de hora.
Quem mandou
você atrasar a hora,
você apressar a hora,
você aceitar a hora
não madurada
ou demasiado madura.

O tempo fora de hora
não é tempo nem é nada.
O amor fora de hora
é como rolar a escada.

27.4.10

Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar.

"Flor da pele", Zeca Baleiro

25.4.10

Pro Mario, companhia de madrugadas (reais e agora virtuais).
Interessante:
Formiga enxerga tudo gigante.

Arnaldo Antunes, "Iê iê iê".
The dreamers. Amo.

23.4.10

Minha irmã querendo me convencer sobre a pesquisa que afirma que o autismo é causado pela ingestão de certos alimentos em quantidades prejudiciais.

@anabarroso | carol diz:

mas essa parece que é séria.

Faz sentido

Eu ja li muito sobre isso. Nao sei pq, mas comecei a ler.

E ja vi medicos falando disso, nao é farofa nao

Dri diz:

quem sabe vc tem cura?

@anabarroso | carol diz:

o meu problema é causado pelo problema da quebra do brigadeiro

Dri diz:

AHHAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHA.

@anabarroso | carol diz:

o brigadeiro nao quebra e desencadeia a produção de uma substancia similar à morfina.

21.4.10

20.4.10

Docemente
Maria Teresa Horta

Docemente
disponho dos teus braços

dos peixes que navegam
docemente

Docemente
disponho em minha face

a faca dos teus olhos
docemente.

Docemente
canso, disponho do cansaço

primeiro do teu afago
docemente

Docemente
afago, a tua boca apago

e vou negando a minha
docemente.

15.4.10

You are not a beautiful and unique snowflake. You are the same decaying organic matter as everyone else, and we are all part of the same compost pile.

"Fight Club", Chuck Palahniuk

14.4.10

Apelo sexual
Fabrício Carpinejar

Toda mulher cria seu fetiche: um detalhe pessoal e intransferível que ela adora num homem. Uma atitude que vai diferenciá-la de qualquer estratégia varejista.
Talvez você, macho leitor, só desvendará o segredo pela convivência, e olhe lá, talvez nunca descubra. É um trejeito que executa de modo inocente e que perturba violentamente sua cara-metade, realmente a excita mais do que um beijo e um abraço. Aquilo que é imperdoável para a ex será visto como estimulante para a nova companhia. Não há como repetir ou patentear. Pode ser um tique nervoso, uma manha, uma feição contrariada ao longo do aceno. Ou algo que nem gosta e procura esconder.
Não é uma piscadela ou um beiço consciente, elimine o repertório básico de sedução, diz respeito a uma postura ou um gosto discreto, vadio, que não nasceu para pose.
Juro que não tenho como ajudar, não existe padrão. Muda conforme o histórico escolar da moça.
De repente, é um acessório de sua aparência, não duvido que seja o modo como deixa a camiseta para fora da casa ou sua inclinação à porta no instante de suportar um atraso. O complicado é detectar o atrativo durante o relacionamento. Caso localize, gozará de um poder especial de tirá-la do sério quando quiser e de escapar ileso de uma briga.
Enquanto procura, é uma bomba-relógio instalada em seu corpo. Já foi acionada a contagem regressiva. Trate de iniciar a investigação. Onde está seu apelo sexual? Onde?
Convivi com uma colega que se emociona com cadarço desamarrado e longo. Bem longo. Alucinada pelo tipo que não amarra e pula corda com seus próprios calçados. Arrepia-se diante do fio arrastado; as serpentes no chão; a língua bifurcada antecipando o bico. Não procure compreender, fantasia não se explica, cresce no mistério. Quem usa velcro está imediatamente descartado. Ela escolhe seus parceiros pelos pés. Lamento que perdeu a época do kichute, organizaria um leilão de pretendentes.
Outra amiga baba por motorista que emprega uma única mão para estacionar de ré, girando os dedos como uma enceradeira. Sem direção hidráulica, então, o cara ganha amor eterno. Ela se enxerga dominada pelo movimento. Arrebatada. Confessa que suas pernas tremem, os cabelos deslizam para os seios. Mas não dá mole, entabula regras rígidas de autoescola, cobra baliza no primeiro encontro: não admite que empregue a mão esquerda como apoio. Uma mão! Sonha com o que ele será capaz de aprontar apenas com uma mão.
Uma terceira repara no pulso. Homem graúdo, legítimo, tem que ostentar relógio grande, o pré-histórico cebolão. Considera grave afronta a variação digital, destinada aos analfabetos amorosos. Desdenha também das pulseiras de plástico, endereçadas para as barbies. Caça o ponteiro muito mais do que uma aliança. O relógio é a cabeceira frondosa da cama. Em sua fantasia pontual, o pertence de ferro sugere superdotados incansáveis que perderiam a hora.
Já a minha namorada nutre uma paixão pelos meus ombros. Acho que careceu de exigência ou foi mesmo falta de opção. Eu me envergonho deles, pelos ossos saltados. Não exibo forma de escravo romano, não curto musculação, sou magro, quase um cavalete de quadro. Mas Cínthya passa os dedos com volúpia na pia batismal do pescoço, muda a respiração, engole o sopro de volta num suspiro invertido.
Sua admiração produziu até neologismo. Inventou de chamar meus ombros de pollockianos, uma homenagem a arte de Jackson Pollock.
O que me intriga é que o americano somente fez pintura abstrata.

6.4.10

Embora tudo o que escolhemos e gostamos seja auto-biográfico em alguma medida, vale lembrar que a seleção que faço aqui nem sempre diz respeito a acontecimentos presentes ou a fatos concretos.
A vida não é filme. Você não entendeu.
Corrigindo uma falta gravíssima: a ausência do Mia Couto na lista de autores deste blog. Não, nunca li Mia Couto. Mas a Mari falou, tá falado. E ela sabia que o trecho que ela selecionou pra mim ia me fazer ficar maluca pra postar.

“No meu caso, não, a ausência me deixa submersa, sem acesso a mim. Este é o meu conflito: quando estás, não existo, ignorada. Quando não estás, me desconheço, ignorante. Eu só sou na tua presença. E só me tenho na tua ausência. Agora, eu sei. Sou apenas um nome. Um nome que não se acende senão em tua boca”.

5.4.10

Cuidado com as minhas cuecas
Fabrício Carpinejar

Complicado testemunhar um homem trocando de roupa, indeciso com suas opções, dando meia-volta no quarto, suplicando “só um minutinho, amor”. Ele escolhe um conjunto de cara e não se arrepende. Voltará somente sob pressão popular ou por problemas técnicos, se realmente alguma peça não serve, a camisa está manchada, caiu um botão ou a calça arrebentou a braguilha.
Não há nenhum dano neste comportamento. Revela sua vontade imperiosa de não ser cobrado pela aparência. Põe o desleixo na conta da pressa.
O que tem sérias consequências no comportamento masculino é o descaso com as cuecas. Já é piada que homem somente compra quando tem uma amante.
Mas a calamidade temperamental não está em comprar ou não, mas em nunca jogar fora. Olhe a gaveta do seu namorado ou marido, é natural encontrar cueca de quando ele tinha oito anos. Um pouco mais e acharia fraldas. Seu parceiro confia na desintegração do tecido, no Triângulo das Bermudas, na sucção dos objetos pelos gnomos.
Tanto que é um elogio chamar de gaveta a própria gaveta, refere-se a um museu de pano. Uma caixinha de cueiros, com espécimes descoloridas, puídas, esgarçadas, autênticos sudários da sexualidade. Nem precisa perguntar sobre seu passado, ele está intacto no armário. O marmanjo joga ali e esquece. Não se despede de nenhuma intimidade, sempre abandona.
Não propõe uma faxina ou uma limpa, não reconhece a cueca como vestimenta, é uma fatalidade. Seu desejo é voltar a ser Adão com folhas de parreira. Não toma esta atitude primitiva porque a planta revelaria o tamanho do seu documento.
Ele sequer dobra o tecido, como a mulher empreende sutilmente com a calcinha. Não busca o capricho da coleção. Não estende ao artigo o refinamento do mulherio com a peça de cima. Uma cueca é amassada, enfiada de qualquer jeito. Já o sutiã dorme de conchinha com as duas alças encaixadas.
Homem nem supõe o preço, não guarda nota, não reclama do valor. É o raro produto que não pechincha. Compra em saquinhos de cinco ou seis, para se livrar da tarefa. Arrebata o varal inteiro numa promoção. Não analisa a costura, não se submeterá a experimentar em loja. Nenhum macho testa cueca em provador, é quase um rebaixamento moral. Compra em segundos para pensar no assunto seis meses depois, evidente que nunca por iniciativa própria, mas para se defender das críticas. Mulher já renova a lingerie e, simultaneamente, lança as antigas no lixo, curada do dó e da piedade.
Tamanha sua indiferença, o homem somente descobre a cueca que vestiu no final do dia ou no momento de transar. No baú de inutilidades, se as menos gastas estão lavando, o varão toma a primeira da fileira de cima. Não confere os modelitos, apanha o tecido pela cor. Ele nunca estranhará o sumiço de uma, pois sequer registrou sua chegada. Algo inadmissível para a ala feminina, que prefere sair sem nada a contrair juros da deselegância.
O hábito pode resumir um desprezo, uma avareza emocional ou uma dependência materna. Que as patroas nos perdoem, a cueca é nossa única humildade.
Não há nenhuma razão para que um homem seja obrigado a expor sua vida para o mundo - pois o mundo não é capaz de entender certas coisas. Mas com pessoas cujo afeto desejamos manter, é diferente.

Oscar Wilde