28.3.08

Contribuição do Fer:

"O psicanalista é o contrário do burocrata ou do especialista. Ele escuta o desejo, debruçado sobre o coração selvagem da vida e, a partir desse pólo, se esgalha, ampliadamente, em todas as direções."

Hélio Pellegrino

27.3.08

"Dá-me tua mão: vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é a linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia, por mais juntos que estejam, existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria promordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio."
Clarice Lispector (contribuição da latina Carla)

24.3.08

Florbela Espanca

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim? O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beijá-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!...

22.3.08

Voici des fruits, des fleurs, des feuilles et des branches, et puis voici mon coeur, qui ne bat que pour vous.
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Here are fruits, flowers, leaves and branches, and here also my heart which only beats for you alone.
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Hier sind Früchte, Blumen, Blätter und Äste. Und hier noch mein Herz, das nur für Sie schlägt.
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Aquí tienes frutas, flores, hojas y ramas, y además aquí tienes mi corazón, que sólo late por ti.
..
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Paul Verlaine.
(tirado daqui. Ela é ótima.)

21.3.08

Para ser grande, sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
brilha, porque alta vive.


Ricardo Reis, 14-2-1933

17.3.08

Amo essa música. Até hoje só consegui o Mário pra cantar comigo, porque quase ninguém conhece - e isso, confesso, me faz gostar ainda mais dela (e dele!), especialmente em tempos de "fãs do Chico freak show".
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Lola
Chico Buarque
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Sabia
gosto de você chegar assim, arrancando páginas dentro de mim desde o primeiro dia.
Sabia
me apagando filmes geniais, rebobinando séculos, meus velhos carnavais, minha melancolia.
Sabia
que você ia trazer seus instrumentos, invadir minha cabeça onde um dia tocava uma orquestra pra companhia dançar.
Sabia
que ia acontecer você um dia e claro que já não me valeria nada tudo o que eu sabia
um dia.
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Nota de rodapé: em menos de um mês, me caso ao som de Lola. Eu sei que tinha que ser surpresa, mas se eu não aguentei esperar pra mostrar o vestido de noiva pro noivo, ia conseguir esconder a música?

16.3.08

Algumas pessoas vão dizer que me faltou timing pra publicar este post, uma vez que:
a) o fato aconteceu já há uma semana;
b) o jogo que abrigou a cena - o clássico Cruzeiro e Atlético - terminou em zero a zero, com meu time jogando muito mal;
c) o Cruzeiro sofreu a primeira derrota do ano na semana que passou, depois de tomar um gol dos mais imbecis (fato narrado pelo meu futuro marido - atleticano, claro - pelo menos 1.227 vezes, de terça-feira pra cá).
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De qualquer maneira, vi ao vivo o episódio do video abaixo e fiquei esperando ansiosamente encontrá-lo na internet. Quem me deu o caminho das pedras foi o Bruno, companheiro de Mineirão no momento histórico que reproduzo a seguir, apesar dos pesares, porque:
a) o humor da situação vai ser eterno;
b) o Atlético também jogou mal no zero a zero do clássico;
c) o único gol sofrido pelo Cruzeiro não faz da campanha de 2008 menos louvável.
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É o Atlético, obá!
.
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14.3.08

"E agora - agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?! Não esquecer que, por enquanto, é tempo de morangos. Sim".
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Clarice Lispector, "A hora da estrela" (estou empolgada demais com o livro pra variar a fonte neste momento).

12.3.08

(...)
Eles não sabiam como se passeia. Andaram sob a chuva grossa e pararam diante da vitrine de uma loja de ferragem onde estavam expostos atrás do vidro canos, latas, parafusos grandes e pregos. E Macabéa, com medo de que o silêncio já significasse ruptura, disse ao recém-namorado:
- Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?
Da segunda vez em que se encontraram caía uma chuva fininha que ensopava os ossos. Sem nem ao menos se darem as mãos caminhavam na chuva que na cara de Macabéa parecia lágrimas escorrendo.
Da terceira vez que se encontraram – pois não é que estava chovendo? – o rapaz, irritado e perdendo o leve verniz de finura que o padrasto a custo lhe ensinara, disse-lhe:
- Você também só sabe é mesmo chover!
- Desculpe.
Mas ela já o amava tanto que não sabia mais como se livrar dele, estava em desespero de amor.
(...)

Clarice Lispector, “A hora da estrela”.
Tem que ler. Vão por mim.

10.3.08

Mandado pela Carlita, venezuelana que eu amo:

Manoel de Barros

Há um comportamento de eternidade nos caramujos.
Para subir os barrancos de um rio, eles percorrem um dia inteiro até chegar amanhã.
O próprio anoitecer faz parte de haver beleza nos caramujos.
Eles carregam com paciência o início do mundo.
No geral os caramujos têm uma voz desconformada por dentro.
Talvez porque tenham a boca trôpega.
Suas verdades podem não ser.
Desde quando a infância nos praticava na beira do rio
Nunca mais deixei de saber que esses pequenos moluscos
Ajudam as árvores a crescer.
E achei que esta história só caberia no impossível.
Mas não; ela cabe aqui também.

6.3.08

A palavra
Carlos D. Andrade

Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.

Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.

5.3.08

Comemorando a última vitória do Cruzeiro na Libertadores, resgato um post da época remota em que o Fer ainda escrevia no blog dele:
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Terça-feira, Setembro 19, 2006
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Motivado por inúmeras manifestações de repúdio ao caráter "elitista" dos meus últimos posts, deixo registrada aqui uma discreta comemoração pela vitória de hoje do meu time, Atlético, na Série B do Campeonato Brasileiro.
Nada menos elitista do que a Série B. Quero ver alguém reclamar...
De todas as coisas infinitas que o Fer me deu, uma das melhores é um sobrinho: o Dedé, agora com sete anos, por quem sou completamente, absurdamente, irremediavelmente apaixonada - e devo dizer, orgulhosa, que minha paixão é correspondida.
Abaixo, o registro de uma cena protagonizada por ele há dois anos:
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- Mãe, a gente é rico ou pobre?
- A gente não é pobre não, André...
- Então rico a gente também não é!
- Não, André. A gente não é rico mesmo, mas nós temos tudo que precisamos.
- Tá, mas como faz pra ser rico, mãe? Demora muito?
- Demora sim, André. E tem que trabalhar muito...
- Quanto precisa pra ser rico? Precisa de muito dinheiro? Mais do que tá na minha poupança?
- Precisa de mais sim, Dedé. Mas você não tem que...
- Eu tenho mais 66 centavos em moeda aqui! Serve?
(alguns segundos depois)
- Mãe! Eu tenho pressa de ser rico...
Uma noite sem dormir, ao som de músicas latinas, e eu acordo autêntica revolucionária.
Vai entender...
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Uma valsa pra dançar
Adélia Prado

Américo, eu te amo, Américo. Você tem uma loja de tecidos e uma mulher que você vive querendo não enganar, um filho tão bonitinho, Américo, as mãos macias de medir tecido, de apalpar meu pescoço com intenções de quem vai assassinar. Você é um colosso, Américo, tem tudo pra me agradar. Sua inteligência sem escolas é tão ignorante que eu me arrepio dos seus mundos novos. Dentes afiados, uma saúde enxuta você tem, não vai me pedir um chá. Quando eu te peço um metro de voal, você retruca pra espichar a conversa: "leva também um metro de amorim." Você fala amorim, de sabido ou de bobo, Américo? Antigamente se um homem falasse errado, descartava na hora. Hoje, não. Quero vinho de todos os barris. Você é pai extremoso, exemplar marido caseiro. Tens um livro, não tens? Uma coleção de marcas de cigarro e o retrato da sua mãe. Você fecha a loja aos domingos e feriados, incrível Américo, você não quer ficar rico, como te resistir? Sua mulher me pede açúcar emprestado, eu peço a ela é licença pra ver o álbum de retratos: você segurando seu filho, você pondo comida pra passarinho, brincando com o cachorro. Se você ficar quieto e parar de me espreitar desse modo invisível, eu pinto você, seus olhos bonitos de homem, mais que os de uma mulher, bonitos. Você é meu amor delicado, por você faço doce de leite, corto em pequenos losangos, ponho minha blusa bordada e fico no banco da praça te esperando no seu caminho, quando "cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor", pra te entregar o coração.Você passa e eu digo: boa-tarde, Américo.

3.3.08



Minha irmã me deu um post. Aliás, minha irmã me deu O post.


Te amo, Ana. Mesmo sendo você a irmã loira, de olhos azuis. Tudo bem. Eu não guardo mágoas por isso, ok?

1.3.08

Camões

Transforma-se o amador na coisa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está ligada.
Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma,
Está no pensamento como idéia;
O vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.