29.1.07

Que haja amor à fraqueza, está aí sem dúvida a essência do amor. Como já disse, o amor é dar o que não se tem, ou seja, aquilo que poderia reparar essa fraqueza original.
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(LACAN, 1992 [1969], p. 49)

27.1.07

O último carinho do mundo
De Tati Bernardi.

O amor com hora para acabar é o único que me interessa, é o único que sei amar, é até onde posso ir.
(...)
Por isso, antes de dormir hoje, imagine que, no meio da noite, aquele cara de todos os dias, que já lhe causou alguma emoção mas agora se concentra apenas em roncar, vai se levantar de farda e marchar para uma inexistência de honra e se perder num tempo distante.
(...)
De qualquer maneira, o jogo é esse: por um segundo, toque a pele dele como se fosse a última vez. Olhe com carinho dobrado aquela esquininha entre a coxa e o saco, repare como é perfeito o diâmetro lisinho e virgem entre o cabelo e a orelha e concentre-se com a maior dor do mundo, a dor do presente que nunca mais voltará, no quentinho ingênuo da sua nuca.
(...)
Você tem uma piedade melancólica que disfarça seu medo quando as fotos antigas te encaram e lembram: vai acabar, minha amiga, uma hora vai acabar mesmo você sendo tão legal em só levar a vida e carregar uma alma eterna. Essa porra toda, boa ou não, vai acabar.
E você, fechadinha no seu mundo seguro de rotinas e roteiros estipulados, esquece da fragilidade das horas, esquece do fim de cada segundo a cada segundo, você ignora o encantamento de agora porque pensa que agora faz parte de uma longa vida igual que ocorrerá de agoras em agoras, sem que isso seja percebido.
(...)
Amanhã pela manhã ele já terá ido embora, sua calça não estará mais do avesso, seu tênis não estará mais tão longe do seu par que se perdeu atrás da porta, suas moedinhas não estarão mais acumuladas em cantinhos inúteis, seus detalhes não serão mais pequenos detalhes deste mundo.
Amanhã pela manhã o lado dele da cama será tão limpo e liso quanto a sua vida chata e vazia, o bafo matinal dele deixará espaço no ar para um nada que seca do nariz até a alma, a mania dele de abrir os olhos ainda fraco para encarar a vida naquelas primeiras frestas de sol deixará espaço para que o sol te cegue e te enfraqueça sem nenhum pára-raio.
Importa tanto que vez ou outra ele solte uma gíria qualquer e se perca, autista, desfocando de você? Importa que ele não saiba quem é Jamie Cullum e John Fante?
(...)
Ame, não sempre porque se fôssemos sempre poetas não teríamos racionalidade para construir alturas mais próximas do céu, sem saber se você terá coração na próxima batida.
(...)
Este carinho é o último e tente enxergar como é eterno e perfeito mesmo tendo a falha fatal da interrupção.
Eu só sei te amar hoje, se eu tiver que te amar hoje para sempre eu vou me soterrar tanto que ficaremos sem o carinho de agora.
Este é o último carinho para sempre e, mesmo você não me completando, não dizendo o que eu quero ouvir, não ficando até tarde comigo quando sou engolida pelo silêncio e pelas marteladas do meu cérebro, eu te amo como se este fosse o único carinho. E então amo como se fosse o último amor e então amo para sempre.
Conta uma mentira, menino. Gosto quando você vem e enche minha vida de mentiras.
Marlene dos Santos

21.1.07

Adoro pau mole.
Assim mesmo.
Não bebo mate
não gosto de água de coco
não ando de bicicleta
não vi ET
e a-d-o-r-o pau mole.

Adoro pau mole
pelo que ele expõe de vulnerável e pelo que encerra de possibilidade.

Adoro pau mole
porque tocar um pressupõe a existência de uma intimidade e uma liberdade
que eu prezo e quero, sempre.

Porque ele é ícone do pós-sexo
(que é intrínseca e automaticamente - ainda que talvez um pouco antecipadamente)
sempre um pré-sexo também.

Um pau mole é uma promessa de felicidade sussurrada baixinho ao pé do ouvido.

É dentro dele,
em toda a sua moleza sacudinte de massa de modelar,
que mora o pau duro e firme com que meu homem me come.

Mari Rezende

15.1.07

Em noites
De dias frios,
Ligo seus pontos
Pra passar as horas
Sem o seu cobertor;
Sem a brisa morna
De sua boca em mim.

Luís Vilela

9.1.07

É isso. Não podia ser mais sensível, mais real. E não me perguntem o motivo, mas essa sou eu.
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Flashdance
Jô Hallack
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Quando vocês vão embora cuidar das suas vidas, a gente finge que vai cuidar das nossas também.
Não é verdade.
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Quando vocês vão embora cuidar da vida, a gente fica na sala dançando de calcinha. Uma coisa assim meio jazz. Meio fiz-balé-moderno-aos-15. Meio assim sempre-sonhei-ser-chacrete. Um pás de bourré, joga o cabelão para trás, de calcinha e camiseta, meia não que no chão da sala escorrega. Uma coisa Índia Potira, a chacrete que caiu na contravenção.
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É isso que a gente fica fazendo quando vocês vão embora cuidar da vida. Quando vocês vão embora cuidar da vida a gente brinca de dançarina de boate da Prado Junior. Depois faz um Lago dos Cisnes rápido e dubla a Shakira. Grand Battement, estica essa perna menina, todas as aulas de balé clássico que fizemos na infância, a mãe levando a gente pela mão para a primeira lição, malha preta e meia cor-de-rosa, professora tocando piano, o coração acelerado e o medo. Depois rebola até o chão. Fecha a cortina que aquele vizinho da frente é voyeur.
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E aquela gotinha de suor começa a escorrer pelo caminhozinho que a gente tem nas costas e que vai dar bem ali debaixo das nossas calcinhas. Aí a gente coloca uma roupa, deixa o dinheiro da diarista, bota o jornal para dentro e sai. Enquanto vocês estão por aí querendo conquistar o mundo, 24 territórios, a Oceania, a África e todas as outras moças.
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É isso que a gente quer.
E, às vezes, um Fred Astaire.