29.8.06

Livros que ensinam que as pessoas devem amar mais a si mesmas para ter uma vida mais longa são os livros mais perniciosos que existem, pois quem lê esse tipo de livro é idiota e, afinal, a quem interessa idiotas amando mais a si mesmos e vivendo cada vez mais e mais? Quem deseja narcisistas cretinos praticamente imortais?
Catalogando os machos – utilidade pública para as fêmeas
De Xico Sá.

Tudo bem, bravas fêmeas, os homens são todos iguais, já sabemos.
Alguns, no entanto, são bem mais perigosos que os outros. Em mais um serviço de utilidade pública, este cronista de costumes expõe aqui sua vitrine. Eis alguns tipos, noves fora a categoria metrossexual (já devidamente comentada nesta página) que merecem cuidados especiais:

Homem-bouquet – aquele macho que entende de vinhos finos, abre a garrafa, cheira a rolha, balança na taça, sente o “bouquet” da bebida... O tipinho não perde um programa do Renato Machado no GNT, entra em sites franceses do gênero, reúne os amigos para aporrinhá-los com o tal “bouquet”... Mais uma advertência: o mesmo elemento costuma apreciar também o que ele chama de “um bom jazz”, uma “música de qualidade”... Corra, Lola, corra de criaturas desse naipe.

Homem-hortinha _ Aquele mancebo que, ao receber as moças elegantemente para um jantar, usa o manjericão cultivado na própria hortinha que mantém no quintal ou na área de serviço. Cultivar o próprio manjericão não é exatamente o defeito do rapaz. O problema é que ele passa duas horas a discorrer sobre o cultivo da hortinha, os cuidados, o zelo, uma chatice só, para não dizer outra coisa. Uma amiga, coitada, conheceu um destes exemplares que cultivava até a própria minhoca usado como “fator adubante” da própria hortinha. Corra, Lola, corra, corra mesmo, corra enquanto é tempo!

Homem-do-predinho-antigo _ Aquele sujeito que ou é gay ou é um metrossexual enrustido. E o pior não é habitar um predinho antigo. O que mais dói é quando ele pronuncia, como toda a afetação desse mundo, que mora num “predinho antigo, charmoso”. Você entra lá, leitora do meu coração, e avista logo umas revistas chiques estrangeiras espalhadas pela sala, tipo “ID”, “Wallpaper” e quetais. O cara entende de iluminação indireta, tem cada abajur que só vendo. É um tipo sobretudo do Sudeste, mas também já começa a se espalhar pelo Sul e Nordeste. Fuja Lola, fuja.

Homem-Ômega 3 – Trata-se do camarada-saúde, preocupado em combater os radicais livres e encher o saco da humanidade com as suas receitas, dietas e bulas. Adora um salmãozinho, que ele pronuncia “salmon”, claro, como os mais frescos exemplares da raça. Jamais vai enfrentar um bom chambaril pernambucano ou barreado paranaense. Buchada de bode que é bom, vixe, passa longe. Até se benze, assustado, diante de um belo cozido de domingo. Adora um frango. Noooossa! Voa Lola e não se fala mais disso.

Homem-ONG – O sujeito onegê é o que há. Todo politicamente correto, benza-te Deus. Adora um abaixo-assinado, uma passeata, e está sempre morto de decepcionado com o governo, qualquer governo. Sim, ele acredita na humanidade, na responsabilidade social, no terceiro setor, na arte como redenção dos pobres... Se você reparar, leitora do meu coração, ele quase levita, de tão puro, de tão bom. Dá um “ninja” nele e some, Lola, some que é roubada-mor.

Homem-chorinho – Ele odeia tudo que é do estrangeiro, mesmo que seja um velho e bom rock´n´roll do Lou Reed ou do Elvis _tanto o rei como o Costello. Mas é capaz de passar horas, dias, quinzenas, como se estivesse numa festa igual à do filme “Anjo Exterminador” (de Buñuel), só ouvindo uma “MPB de qualidade” ou “zum de besouro ímã” do gênero. Finja que vai no banheiro, Lola, e dê área.

25.8.06

A amabilidade daqueles que querem te fuder
Jô Hallack

Não são nem nove da manhã , camisolinha e remelas nos olhos. O telefone toca. Do outro lado da linha, ela é amável, uma simpatia só, quase amor, um anjo.- Olá! Bom dia! Dona Giovana? É que você atrasou 3 dias e 15 segundos no pagamento da primeira parcela da renovação do seu seguro de carro.Eu o que? Me arrasto pela casa tentando alcançar o pote de café. E ela, mais doce que um suspiro:- Mas não tem problema! Só que agora você terá que ir fazer uma nova vistoria!
Um segundo de silêncio enquanto tento digerir esta informação. Nova vistoria? O que isso significa? Como assim? Como? O quê? Dentro do meu cérebro, uma ajudante do mágico segura um cartaz onde se lê: "você se fudeu".
Não! Não posso. Tenho trabalho, meu chefe não me deixa faltar, vou tirar meu pai da forca, levar as crianças na creche. Tenho hora no dentista. Vou passar o dia inteiro catando coquinhos. Não posso ficar nem mais um minuto com você. Juro que pago logo que o banco abrir! Ela, do outro lado, irredutível. Imploro. Imploro o perdão simpaticamente. Me humilho. Digo que mereço 100 chibatadas. Multa. Qualquer coisa para não ir fazer a vistoria. E ela, fofa, muito fofa, mais fofa que todas as fofoletes do mundo reunidas num simpósio da fofura mundial.- Ah! Agora não dá. Sem a vistoria não poderemos renovar o seguro do seu carro! Sim, seu carro, que está a partir de hoje sem cobertura.
Sim, essa piranha safada se fazendo de amiga quer mesmo me fuder. É isso mesmo. Começo a me transformar, neste instante, no monstro de Lockness, num minotauro, num chupacabra de pijaminha, num meteoro chinês a soltar fogo pelas ventas, numa besta demônia. Grito. Choro. Esperneio. Bato o telefone na cara da querida.
Apenas um gesto dramático idiota e inútil: eu me ferrei. E esta vaca ordinária ainda vem com educação. É essa gente que sempre gosta de nos fuder. Corretor de seguro, representante de plano de saúde, gerente de banco, são eles que nos tratam com mais amabilidade. Gerente de banco, agora, é "parceiro de relacionamentos". Sim, gerente de banco, a entidade lucrativa criadora do juro do cheque especial! Parceiro de relacionamentos? Isso também inclui sexo? Ir ao cinema aos domingos?
Pois da próxima vez, exijo menos cinismo. “Sua idiota, você se esqueceu de pagar o boleto do seguro, otária, moradora do Rio de Janeiro, cidade que tem um roubo de carro a cada minuto. É mané, agora se fudeu. Vai para a vistoria, palhaça!”. Isso seria mais justo. E uma lagriminha de puro ódio da montanha começa a escorrer enquanto eu procuro a minha calça jeans.

20.8.06

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma bênção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."
Clarice Lispector

16.8.06

Vem, Mulher...
Por Paulo Castro

Vem mulher, vem logo, me liga, diz que tá chegando, que precisa de mim, apesar do sangue, sabe que não me importo, que o mundo é cheio de sangue e burrice, o teu é sagrado, é único, é até mesmo saboroso, que não provo pelo seu pudor, que idiotas consideram como birra...

Vem com tudo, com o tesão em letra, meu poema em lata, onde, ontem eu disse tudo que sentia sobre você naquela entrevista, vi o resultado: antes do que imaginávamos, você virou tese de mestrado...

Vem com sede ao pote, vem à sede do teu partido alto, se tivermos que fugir, vamos pra praia, que sem querer, digitei antes, pária, bem nosso caso, como quando cometo atos falhos, falos podem pouco, com a palavra tu...

Vem mulher pra minha literatura bem pobre, para nosso segurar a corda, lado com lado, puxando, caindo no chão, daí já viu, vontade de voltar a fita, mas não há muito sentido nisso, se cada vez vivemos de maneira melhor, numa didática de troca e fluidos envolvidos...

Vem mulher ser reticência na vida, pois sabe que o número três me é importante, em rituais neuróticos e número de gozos, veja bem, se somar, temos seus dez, deus, treze, cabala predileta...

Vem mulher que não te nego fogo, nêgo louco, Paulo pira, se você assim quiser, sei que tenho essa gripe agora, mas veja bem como tudo tem seu tempo exato pra acontecer & como o tempo mesmo foi feito para ser transgredido em eclesiastes de corvos malemancos...

Vem mulher, fazer-me mulher, tua lésbica, só tua lésbica, lembra quando disse, “beija minha boca como se fosse a bucetinha querida, me lambe, que lambo tu, não erro ao digitar, pra você não fugir, sei onde gosta, me fareja e sabe bem do poder do meu nariz"...

Vem mulher, corrigir a vírgula do meu texto pra revista, depois diz que foi um erro bobo de coordenadas, subordinadas, essas coisas de que não entendo e você é bamba, como que para não me ofender, você que me deixa roxos, isso é verdadeiramente engraçado...

Vem mulher, ver como eu ouço músicas, leio livros, sempre em busca de metáforas, metonímias, outras figuras, sou teu álbum de figurinhas que você nunca comprou na saída do colégio, cola com lambida, velcro, lycra, carta...

Vem mulher, escrever outro relatório em que não nos percamos com nossas idéias de riso absoluto, vamos colocar a culpa no papel, no tapa da pantera, me explica, o que foi aquilo, poucas vezes ri tanto, poucas vezes ficou tanto tempo duro, até que fiquei bastante constrangido, se você bem notou, até água mineral virou champanha na nossa propaganda de James Bond e garota rica, maquilagem borrada...

Vem mulher, vamos mostrar nossas fotos de moda, apenas pra nossos olhos, e mostro a que te fiz em segredo, trancado dentro do consultório, de noite, deserto, por certo, caminho e alvo no teu coração que avança, lado esquerdo, sua tatuagem a de beijar a minha, lado direito...

Vem mulher me fazer personagem, me dar esporro, te dou esporas, não seja esposa, assopro esporos pra dentro do teu útero, que já toquei, perfeitinho, durinho, um dedo cabendo, pro nosso filho nascer no colo flor, vem me fazer verdade, vontade, potência, vem te fazer hóstia, compra uma casa no mesmo bairro que a minha, cada uma dos nossos jeitos, mas com um espaço como o segundo andar daquele esquema que a gente se meteu...

Ou

Vamos assistir ao show Los Hermanos que minha filha me deu?