15.4.12

O amor antigo (Carlos Drummond de Andrade)


O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mais pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.


11.4.12


Só o desejo inquieto, que não passa,
Faz o encanto da coisa desejada.
E terminamos desdenhando a caça
Pela doida aventura da caçada.


"Da eterna procura", Mário Quintana. 

5.4.12

"Ser analista não é analisar os outros; é, a princípio, continuar a se analisar, continuar a ser analisando - é uma lição de humildade. A outra via seria a enfatuação do analista - caso ele se considere em dia com seu inconsciente. Não se está jamais".
(MILLER, "Coisas de fineza em psicanálise", 2008-2009).
“Os psicanalistas precisam estar isolados, separados do discurso do mestre predominante no exterior de sua Escola. Precisam ser formados numa língua especial”. 
(MILLER, "Coisas de fineza em psicanálise", 2008-2009).

4.4.12


Divórcio (Ricardo Lísias)
Dor e solidão são muito diferentes. Para me sentir realmente sozinho, preciso estar longe do meu país e não compreender nem uma palavra do que dizem. Nas poucas vezes em que senti uma dor muito intensa, estava perto das pessoas com quem convivo. A solidão pode não ser ruim. Uma vez, em uma ruazinha de Bonn, me senti muito sozinho, mas a vontade de chorar veio, estranhamente, da sensação de vitalidade que me invadiu. Estou longe de todos, não entendo nada do que dizem, mas daqui a alguns dias volto para casa. Sinto-me vivo e protegido.
Na última vez em que senti dor, fui descarnado. Se fosse uma tortura física, teria sido mais fácil. Minha pele se separou do resto do corpo. Eu andava lentamente em uma avenida bastante movimentada de São Paulo e estava sem pele. Também compreendia todas as palavras. Ninguém tentou conversar comigo, outra característica da dor violenta. Entrei no metrô e, em um vagão quase cheio, comecei a chorar. Tinha perdido a pele. Todo mundo ali, no vagão do metrô em que entrei descarnado, falava português. Ninguém me olhou, outra característica da dor profunda.
Também me senti sozinho na Polônia e aniquilado quando recebi uma ligação avisando que meu grande amigo André tinha se enforcado. Mas dessa vez a dor não me descarnou porque todos nós conversamos. A gente se abraçou muito no enterro do André.
Agora, nessa dor sem fim, ninguém me olha. Também não posso pedir ajuda porque a dor é tão grande que meus amigos e minha mãe não suportariam. Só poderei abraçá-los quando a dor for menor e tiver recuperado ao menos uma parte da minha pele.
Estou chorando em um vagão quase cheio do metrô de São Paulo e ninguém me olha. Não estou sozinho: fui abandonado. Minha ex-mulher roubou-me a pele depois de um mês de casamento, cheia de indiferença pelo resto do meu corpo e orgulhosa por falar um pouco de francês.
Descobri a crueldade onde eu esperava o amor.
Em Bonn me senti sozinho. Mas aqui está outra diferença da solidão para a dor: eu sabia que, de um jeito ou de outro, encontraria o caminho de volta. Agora, sem pele no metrô quase cheio de São Paulo (devem ser quatro da tarde), estou certo de que vou morrer.

Da Alemanha, arranjei uma passagem para Paris. Comprei um jornal local, sentei no trem e tive vontade de rir. Não sei nada de alemão, o que vou fazer com esse jornal? No entanto, rir de verdade, gargalhar feito um louco foi o que fiz em Paris.
Entrei no Louvre e fui direto à sala da Monalisa. Olhei aquele quadrinho e achei a mulher feia. Fiquei com vontade de rir. Mas quando vi que três ou quatro pessoas filmavam o quadro, aquela gente filmava a Monalisa, eles estavam parados e perplexos filmando um quadro!, morri de rir. Cruzei os corredores do Louvre gargalhando sem controle. Logo eu que não gosto quando as pessoas se descontrolam. Piores são os tipos bem-sucedidos que viajam para o exterior para ir a todos os museus de Paris, Nova York e Londres. Pessoas que viajam para aprender nunca vão saber nada.
Mas isso não é transcendência. Nem museu em Paris é arte. A fila na frente da Notre Dame muito menos. O esplendor não é um clichê. Transcendência é o que o Dusão, um cara que detesto, fez no funeral do meu amigo André. 
Quando meu amigo se enforcou, senti de tudo. Dor, solidão, medo, culpa e arrependimento. Três dias antes bati o telefone para não ouvir mais as loucuras dele. Nessas situações, começam a voltar aqueles filminhos das coisas que fizemos juntos. Estou falando de amor.

Foi um funeral com gente nova. Muitos de nós estávamos no primeiro emprego. A gente sabia que a vida tinha acabado de mudar e, por isso, não parávamos de nos abraçar.
A gente se abraçava o tempo inteiro também porque precisava conservar a pele. Abraçava meus amigos e minha pele se prendia ao resto do corpo.
Agora, não. Estou descarnado no metrô, ninguém me abraça e a dor é grande. Queria muito estar sozinho em Bonn, ou em uma pracinha na Cracóvia, olhando o letreiro de um ônibus naquele alfabeto estranho e me perguntando: Onde estou?
Aceito ficar sozinho, mas quero minha pele de volta. Solidão é um sentimento que suporto, mas não posso ser descarnado.
Eu e os amigos do André nos abraçávamos para manter a pele. A 1 metro da gente o corpo enforcado do André parecia me dizer: a sua pele está aí. Já não lembro se o abracei, mas até hoje sinto o momento em que segurei, no funeral, as mãos mornas do meu grande amigo enforcado.
Um pouco depois, o Dusão transcendeu. A gente estava se abraçando, ele olhou para o alto e começou a berrar: Senhor Papa, senhor Deus, senhor Buda e todos vocês, Senhores Sagrados, o André se enforcou sim, ele se matou mesmo, mas ele vai para o Céu. O André se matou, mas ele vai para o Céu.
Todos concordamos.
Não me sinto sozinho. A minha pele me abandonou. Perdi o controle da minha vida. Por isso, gosto quando estou comedido: o mundo se fecha e a minha pele não foge. A verdadeira arte é silenciosa, como a literatura. Não há nada de artístico no que estou fazendo no vagão quase cheio do metrô de São Paulo. Estou descontrolado, chorando sem parar.
Pessoas controladas gostam de se fechar em um quarto. Depois que se trancam, a pele perde a tensão. Eu a abraço. Aos poucos vamos nos soltando. Demora, mas contemplo quem me controla. Nós dois nos olhamos e aos poucos o controle diminui. Então por fim a pele explode e nos descontrolamos. Ejaculo.
Agora, porém, estou na rua chorando com o corpo inteiramente descarnado.
Tenho que sair do metrô. Não estou sozinho: minha ex-mulher me descarnou. Nada disso tem ligação com o André. Tem sim: se estivesse vivo, eu telefonaria e, depois de duas frases, meu amigo me interromperia: Ricardo, fica onde você está, vou pegar um táxi para te encontrar. O meu amigo André nunca me abandonou, mas o deixei sozinho no pior momento da vida dele.
Na rua, procurando minha pele e sem ninguém para olhar para mim, começo a me lembrar do André. A lembrança mais forte é a de como ele era bonito. O André era um homem lindo. Eu não me importava de andar ao lado dele: tinha orgulho. Ele é meu grande amigo. As meninas olhavam doidas para ele. Esse cara é meu amigão.
Minha pele está mais perto. Penso em como o André era bonito e finalmente sinto algum calor. Antes de ficar medonho por causa dos remédios, o André era um homem lindo. Minha pele talvez volte.
A gente às vezes ia a uma casa de massagem. O André sempre escolhia a mesma garota. Aline, digamos assim. Para respeitá-lo, nunca quis que ela me massageasse. Minha pele está voltando.
Na terceira ou quarta vez, quando chegamos, a moça da portaria, mal conseguindo disfarçar, pegou o interfone e avisou: Meninas, aquele cara voltou. Aquele cara era o meu amigo André. Acho que elas se ouriçaram. Quem será que o homem lindo vai escolher? Ele escolheu a Aline.
Estou imaginando onde deve estar hoje essa Aline, cinco anos depois, quando perdi a minha pele e o André morreu.
Na rua, sinto-me um pouco melhor. O metrô de São Paulo é limpo, mas nivela todo mundo. Museus fazem isso com a arte. Eu amei o metrô de Paris. Estava apaixonado. Estou sem pele.
Se encontrasse a Aline do André, talvez ela pudesse me falar dele. Faz cinco anos, mas ele era bonito o suficiente para que uma mulher jamais o esquecesse. Qualquer mulher. Concentro-me para segurar os soluços e lembrar o endereço da casa de massagens. Meia década apaga muita coisa, mas não tudo. Tenho medo de que nem uma vida apague tudo.
Na recepção, pergunto se a Aline ainda trabalha aqui. Temos uma Aline. Meu coração dispara. Vou para o quarto e, como ela demora, pego essa folha para escrever. Estou sem chorar há quase uma hora.
A porta se abriu. A Aline me olha através do espelho. Escrevendo aqui? Tenho medo de responder. Como todas, ela aparece com uma roupinha vulgar, mas tem um sorriso ingênuo. Está se aproximando aos poucos. Não me viro e sinto seus dedos e os seios arranhando levemente minhas costas. Como estou sem pele, dói um pouco. Ela percebe e para.
Você trabalha aqui há muito tempo? Uns seis meses, responde. Então não é a Aline do André... Fico com vontade de chorar. Paguei, posso fazer tudo com você? Nem tudo. Ela se deita e me olha. Deito-me ao lado e ela curva o corpo, deixando as costas para mim. Abraço-a e ela ensaia um movimento erótico que, na mesma hora, interrompo.
Fica em silêncio e tenta dormir, peço. Ela me olha espantada através do espelho, e fecha os olhos. Cubro-a com um lençol que tinham deixado ali. Não estou chorando, minha pele não voltou, mas sinto afeto por uma mulher de novo. É uma puta. A mortalha está bem colocada, mas protejo um pouco mais o pescoço da Aline. Ela sorri como minha ex-mulher fazia. Fico olhando-a fingir o sono.
Sempre tem a corrida pra não deixar a gente desistir.



A corrida (Ricardo Lísias)
As duas primeiras semanas de agosto do ano passado foram as piores da minha vida. Depois de apenas quatro meses, enquanto ainda estava tentando achar o lugar do interruptor e entender o que é ser um marido, fui obrigado a terminar meu primeiro casamento.
A situação era quase inverossímil e parecia um dos meus textos. Achei que tinha enlouquecido: estou vivendo um conto, repeti enquanto ligava o computador para mandar um e-mail agredindo minha ex-mulher.
Logo depois, enviava outro com uma declaração de amor. O terceiro ia para o advogado que ela tinha contratado. O último da manhã era mais calmo. Depois, tomava água e, da cama mesmo, olhava para o telhado do galpão onde vim morar. Como não tínhamos lugar para guardar meus livros, aluguei os fundos de uma casa. Eu morria de orgulho ao mencionar o “escritório”. Hoje, tenho vergonha de quase tudo isso, mas me afeiçoei ao cafofo.
Na primeira semana, não dormi. De vez em quando, chegava àquele estado de sonolência em que vivem as pessoas muito ansiosas. No terceiro dia, eu me vi morto. Enxerguei meu corpo deitado e percebi que não respirava mais. A morte é uma condição que a gente vive acordado.
Em 13 de agosto, uma semana depois de ter ido embora, furioso com a situação e pensando em quebrar tudo, saí para andar. Decidi que, se tivesse enlouquecido, nunca mais olharia para os meus amigos.
Acho que eram duas da manhã. Com certeza fazia muito calor, apesar do inverno. O cafofo fica bem perto da avenida Indianópolis. Cruzei-a duas vezes. Não vi nenhum carro popular pegando os travestis. De madrugada são os importados que rodam por lá. A elite brasileira faz tudo escondido. Normalmente, enquanto os outros dormem.
Deve ser ótimo levar a Ramona para casa. Mas só os covardes se escondem. Ela é linda, apesar dos seios meio tortos. A operação foi no Brasil, contou-me, mas bom mesmo é ir para a Europa. Ramona não gosta de clichês: nunca foi travesti na Itália. Madri é incomparavelmente melhor. Conversamos umas três vezes naqueles dias. Na última, ela me mandou embora. Vai para casa, bobo.
Depois da primeira noite de caminhada, dormi de verdade. Acordei uma hora depois, com uma descoberta: o segredo é ficar cansado. Consegui também acertar um pouco a respiração. A falta de ar ainda duraria algumas semanas.
Comecei a andar na avenida Indianópolis logo depois da meia-noite. Fiz na imaginação uma espécie de antropologia dos travestis. Não se preocupe, leitor: não anotei nenhuma placa. A cultura brasileira detesta o radicalismo. Pessoas simpáticas demais são falsas.
Fui aumentando o ritmo. Com isso, em pouco mais de uma semana dormia por duas horas. Em alguns dias teria coragem para contar tudo para a minha mãe. Eu sei, é inacreditável, mas é exatamente isso, mãe.
Eu também precisava retomar o equilíbrio para planejar um curso de contos. Faltavam quinze dias para a primeira aula. E tinha que concluir um romance. Um pouco antes de casar, garantira para o editor que terminaria O Céu dos Suicidas em novembro. Agora sequer consigo apontar o lápis direito. Escrevo à mão.
Reli “Os Mortos”, de James Joyce, antes de sair de casa no início da segunda semana de caminhada. Seria esse o primeiro conto do curso. Logo na esquina, vi a Ramona curvada na janela de um carro importado. Por algum motivo, talvez o preço, ela não entrou. A elite brasileira esconde-se, mas é muito zelosa dopróprio dinheiro.
Faço mil concessões, mas não aceito ficar na fila em Nova York para comprar o ingresso da Broadway. Pior do que isso, só mesmo a off-Broadway. Na porta do Metropolitan, você só vai ouvir português. Nunca vou entrar na Notre Dame.
Com uns vinte dias, as caminhadas deixaram de fazer efeito. Acontece com naturalidade: comecei então a correr. Se não fizesse isso, iria me ver morto de novo.
Primeiro você anda e se cansa. Então, caminha bem mais rápido e consegue dormir. Portanto, se correr, coloca a cabeça no lugar de novo. O que existe de bom em tudo isso é o raciocínio lógico. Eu não tinha a menor chance de acreditar em outra coisa: essa era a minha salvação.
O Festival de Cannes é só uma feira. Ramona é a nossa estrela mais representativa. Declararam que, por causa da tradição humanista, Lars von Trier é persona non grataHaroun, um dos membros do júri do varejão que sentenciou Trier, participou de uma guerra na África e é um cineasta humanista. Ele tem dois filhos e uma esposa em Paris.
Na primeira vez, consegui correr por mais ou menos quatro quadras da avenida Indianópolis. No final, sem nenhum preparo, fiquei exausto. De volta ao cafofo, dormi e acho que até ronquei.
Foi desse jeito que comecei a correr: lutando para adormecer de novo depois de sentir a maior tristeza do mundo, sem aceitar que tinham me enlouquecido, procurando a minha pele e respirando devagar para achar o fôlego.

Depois de uma semana, completei vinte minutos correndo sem nenhum intervalo. Com isso consegui mais ou menos três horas de sono. Continuava nervoso, mas já não enviava e-mails para minha ex-mulher. Nem agressão e muito menos amor.
Comprei um cronômetro e resolvi aumentar dois minutos por dia. Com meia hora de corrida pela madrugada, dormia bem, mas ainda não era capaz de preparar as aulas e, menos ainda, retomar o romance.
Precisava regularizar meus horários. Fiquei um dia sem correr, o que me causou outra noite acordado. Na manhã seguinte, completei 24 minutos no Ibirapuera. Depois de uma tarde agitada e bem mais alegre, fiz um plano antes de dormir: em um dia, uma corrida pesada; no outro, caminhada longa, mas em ritmo leve.
Meu mundo estava voltando a se organizar.
Correr quarenta minutos no Ibirapuera foi um desafio. Eu precisava sentir cada parte do meu corpo. No começo do treinamento, só pensava nisso: respirava fundo e concluía que estava vivo. Só quero morrer mais uma vez. O casamento não foi para sempre, como a gente tinha combinado (e eu acreditado), mas a minha próxima morte vai ser.
Quando as costas começam a doer, é preciso curvar o tronco para a frente. Se as coxas reclamam, chegou a hora de diminuir o ritmo. Os dedos do pé devem estar folgados, mas o tênis, bem apertado.
Logo depois de esquematizar essas ideias sobre a corrida, preparei a primeira aula. A estratégia estava clara para mim: o resto do dia existiria em paralelo ao treinamento.
Mesmo assim não foi fácil. Eu tinha receio de os alunos perceberem minha fragilidade psicológica. E depois iria almoçar com a minha mãe... Mas se tive coragem para começar a correr (inventar meu próprio treino fez parte da técnica de superação), talvez conseguisse contar tudo. 
Eu sei, é inacreditável, mas é exatamente isso, mãe.
No grupo de alunos, havia alguns casais. Um deles sentou-se bem na minha frente. A moça sorria compenetrada e o rapaz carregava um exemplar de Infinite Jest. Na mesma hora, lembrei-me de que David Foster Wallace se enforcou mais ou menos na mesma época que o meu grande amigo André.
Antes de começar a falar, então, fiz outra promessa para mim mesmo: se conseguir terminar a aula de hoje e depois contar tudo para minha mãe sem chorar, corro a São Silvestre.

No começo de outubro esquematizei meu treinamento para a prova mais famosa do Brasil. Quando atingisse, sem nenhum intervalo, uma hora e meia no Ibirapuera, começaria então a correr em subidas. Não sei de onde tirei isso. Minha respiração já tinha quase se normalizado e aos poucos eu aumentava as horas de sono. Devo ter retomado a confiança.
A mesma coisa funciona para escrever um romance. Cada um tem o seu plano, mas sem um nunca o livro vai ficar pronto. Gente inconsequente vive mergulhada na vulgaridade. Talvez entre na Notre Dame ou no hotel onde estão os jurados do Festival de Cannes, mas da arte nunca vai se aproximar.
A literatura é o mundo da consequência. A gente escreve um capítulo por vez, e o próximo vai sempre se referir ao anterior. Você só termina a corrida se pensar em cada um dos quilômetros.
Como já tinha acostumado meu corpo ao treino e o curso de contos estava indo bem, faltava apenas voltar ao romance para recolocar minha vida no lugar. Respirar tinha ficado fácil.
Criei um método: antes de ir ao parque, por volta das sete da manhã, lia o que tinha rascunhado no dia anterior. Durante o treino, pensava no texto, cortava trechos na cabeça, invertia frases e desenvolvia algumas ideias. Nem reparei que estava correndo cada vez mais rápido.
Eu carregava um pedaço de papel que deixava na bicicleta com o lápis. Assim que terminava o treino, corria para anotar tudo o que lembrava. Quando me acostumei a correr uma hora e quinze, acabei o romance.
O André também gostava de esportes. Camarada, o livro sai em dois meses e estou bem de novo. Não cuidei de você direito, mas eu não sabia o que fazer.

Pouco depois de me inscrever para a São Silvestre, fui ameaçado. Uma amiga da minha ex-mulher, uma repórter de tevê (acho que hoje aposentada), começou a gritar no telefone que, se eu não parasse de escrever, a imprensa iria me destruir. Como se fosse pouco, enfrentaria as garras da Justiça. Por fim, a ameaça suprema: “Você está lidando com jornalistas, estamos te monitorando.”
Àquela altura, já havia percebido que só retomaria meu equilíbrio se, além de correr, tentasse elaborar ficcionalmente o que tinha sofrido. O esquema da corrida espelhava o dos textos. O primeiro saiu aqui mesmo na piauíem novembro passado. O segundo, Meus Três Marcelos, estava circulando em uma edição caseira que eu tinha feito para presentear meus alunos. Uma editora fez uma edição artesanal e muito caprichada em janeiro.
Estive perto de enlouquecer quando achei que estava vivendo um texto que eu assinaria. Senti uma pressão enorme na cabeça e passei alguns minutos sem respirar. Caí no chão do cafofo e tudo parecia rodar. Minha vista escureceu. Preciso escrever sobre isso para não acontecer de novo. Tenho que correr para recuperar o fôlego. A minha pele pode ter sido roubada, mas minha literatura não vão tirar. Já morri uma vez.
No dia seguinte à ameaça, nervoso, corri exatamente uma hora e 56 minutos no Ibirapuera. Terminei o treino maravilhado. Não consegui repetir a mesma façanha quando estava bem mais calmo. Mesmo assim, a confiança de ter corrido ao menos uma vez todo esse tempo me animou.
No começo de dezembro, sentindo-me de novo mais ou menos são – ou seja, normal –, meu rendimento não passava de uma hora e dez minutos. Comecei a ter receio de não terminar a corrida. Fechar 2011 com outra decepção seria péssimo.
Faltava-me o que pensar durante o treino. Meu corpo tinha se acostumado e já não desanimava no início. Depois de 3 quilômetros, a vontade de parar é tentadora. Como exige muita força de vontade, a corrida devolve a confiança. O livroestava começando a ser produzido pela editora e o curso tinha acabado bem. Minha cabeça parecia organizada e eu me sentia tranquilo e forte. Mesmo assim, depois de uma hora e dez minutos meu corpo travava.
Resolvi passar de uma vez por todas para a subida. Todo mundo diz que esse é o trecho mais difícil da São Silvestre. Caso não conseguisse terminar, ao menos percorreria boa parte do caminho. Se desse errado, ficaria muito frustrado.
No começo, minhas coxas doíam, provavelmente porque a inclinação exige um ritmo menor, o que força muito as passadas. As ruas terminavam sem exceção na movimentada avenida Jabaquara. Quando percebi que não ouvia mais os barulhos dos carros, dei um enorme sorriso: de novo estava conseguindo viver dentro de mim.
Mas era preciso pensar em algo enquanto treinava. Esse é outro ganho que a corrida oferece: se encher a cabeça com alguma coisa, a gente rende mais. Resolvi esboçar um romance novo. Vou escrevê-lo agora em 2012. Depois de cada sessão de treinamento, redigia umas cinco páginas de rascunhos e ideias.
Nos últimos dez dias do ano passado, subi e desci correndo algumas ladeiras todas as manhãs. Posso garantir: é exatamente como criar um romance. Persistência, confiança, técnica, coragem, convívio consigo mesmo e autoconhecimento.
Em 29 de dezembro, tomado por uma imensa esperança, encerrei o treinamento que tinha inventado para a Corrida Internacional de São Silvestre de 2011.

Para os amadores, a largada da São Silvestre é um caos. Além da quantidade enorme de gente, o pessoal fantasiado só atrapalha. A gente cruza toda hora com um recalcado vestido de noiva, dois Batmans, um monte de Super-Homem e patetas carregando faixas falando de tudo. Deus nos proteja faz muito sentido naquele contexto.
Caminhei praticamente por toda a avenida Paulista. No pequeno trecho da Doutor Arnaldo, comecei por fim a correr. Atingi um bom ritmo apenas no contorno do estádio do Pacaembu. No início do Centro velho, percebi que tinha me estabilizado: as pessoas ao redor eram as mesmas há algum tempo.
Com exceção de certas dores localizadas, que vencia alternando levemente minha postura, meu corpo parecia bem. Comecei a pensar em tudo o que tinha acontecido. Senti alguma raiva, mas atrás do Teatro Municipal estava comovido: se o André não tivesse se matado, com certeza estaria correndo ao meu lado.
Fechei os olhos sentindo a chuva que começava a apertar. Vou terminar essa corrida. Nada vai me fazer desistir.
Um pouco antes da Brigadeiro Luís Antônio, correu o rumor de que o brasileiro Marílson não ganharia a prova. Alguém gritou que precisávamos nos concentrar porque a subida estava chegando. Então são esses os meus novos amigos?
Quando entrei na Brigadeiro, meu corpo sentia algum cansaço. Um senhor que acenava para a gente parecia meu avô. Por algum motivo, lembrei dos três dias em que mais chorei na minha vida: quando meu irmão mudou-se para a Austrália, quando me ligaram dizendo que o André tinha se enforcado e, cinco meses atrás, quando fui embora de casa.
Diminuí um pouco o ritmo para enxugar as lágrimas e chequei meu corpo, tentando me concentrar para sentir o pé, as pernas e as costas. Estava tudo bem. Respirei fundo e subi a Brigadeiro com toda a força que tinha juntado para preparar minhas aulas e terminar O Céu dos Suicidas. Não fiquei louco. Vou acabar essa corrida.
Estranhamente, não pensei nos dias mais felizes da minha vida. Talvez fosse fazer isso no final da subida. Mas não dá: quando a Brigadeiro acaba, os corredores todos gritam a mesma palavra: “Conseguimos!” Emociona.
Agora só falta a descida. Tranquilo. Eu e meus novos amigos tínhamos conseguido concluir a São Silvestre.
Quando um corredor profissional toma a dianteira e se distancia dos outros, o locutor da televisão diz que ele está “absoluto na corrida”. Durante a infância e a adolescência, ouvi essa frase inúmeras vezes vendo a São Silvestre.
Atravessei a linha de chegada debaixo de um temporal enorme. Concluí a prova em 1 hora, 25 minutos e 32 segundos. Minha classificação é a de número 5 392. Fiquei satisfeito, claro, mas senti algo inédito. Não sei como descrever. Eu estava absoluto em mim mesmo.

A corrida me devolveu a confiança, a respiração regular, o sono e a capacidade de fazer planos. Mas continuei fazendo algumas opções absurdas. Cruzei a linha de chegada da São Silvestre destruído. Nas primeiras horas, estava tão feliz que não sentia nada. Depois do Réveillon, porém, minhas pernas ficaram tão pesadas que eu não conseguia dar dois passos sem ter que parar e respirar bem fundo.
Como imaginava que ficaria desse jeito, marquei uma longa viagem para o dia seguinte. Fazia dez anos que eu não visitava meu irmão na Austrália e estava morrendo de vontade de conhecer meus sobrinhos. Emily tem hoje 8 anos e Erich, 4. O raciocínio era óbvio: como estaria destruído, dormiria facilmente no voo de quase catorze horas entre Buenos Aires e Sydney...
Um mero absurdo. Sempre que tentava pegar no sono, meu corpo reclamava. As pernas não ficavam bem em nenhuma posição, as costas custavam a se acostumar ao banco e dos meus pés eu já tinha desistido. Fiquei acordado a viagem inteira.
Ainda assim, o prazer de ter concluído a São Silvestre no 5 392º lugar valia mais que o desconforto. Inventei outro desafio: a Meia Maratona de São Paulo, agora no começo de março. Talvez em 2013 eu tenha coragem de encarar a famosa Maratona de Nova Iorque.
Não quero mais sofrer tanto. Vou morrer só mais uma vez.
Uma semana depois da São Silvestre, recuperado, comecei os treinamentos para a Meia Maratona. Aqui em Sydney, onde estou escrevendo, muita gente corre em espaços públicos. Uma parte de inúmeras ruas é reservada para ciclistas e corredores.
Tracei na internet um percurso que sai da casa do meu irmão, cruza uma pequena praça com aranhas do tamanho da minha mão, vai até um centro municipal de prática esportiva, vira à esquerda em uma grande avenida e retorna à rua dele.
Quando terminei a primeira volta, resolvi fazer uma brincadeira com meus sobrinhos (que adoram bagunça) e entrei correndo em casa. Emily, quase uma moça, se espantou, mas Erich veio atrás na mesma hora. Cruzamos o corredor e demos um giro pelo quarto dele. Na saída, a irmã veio junto e nós três fizemos a volta olímpica pelo quintal. As crianças adoraram.
No final do treino, entrei em casa e os dois tinham feito um pódio com uma cadeira. Emily me trouxe algumas flores e Erich entregou a medalha que tinha acabado de fazer com papelão e barbante. Durante a cerimônia, cantaram um hino que até agora não sei qual é. Mas percebi que sentiam orgulho de mim.
Foi a maior alegria da minha vida.