2.9.05

O amor e seus contratos
Carlos Drummond de Andrade

Tanto nas juras mais vivas como nos beijos mais longos
em que perduram salivas de outras paixões ainda ativas,
sopro de angolas e congos, eu sinto a turva incerteza
(ai, ouro de tredas lavras) da enovelada surpresa
que põe tanto de estranheza nos contratos que tu lavras.

Por mais que no teu falar brilhe a promessa incessante
até o mundo acabar e mesmo depois - diamante
de mil prismas incendidos, amarga-me o pensamento
de serem pactos fingidos e nos seus subentendidos
não vi, amor, valimento. Experiência de escrituras,
eu tenho. De que me serve? Após sofridas leituras
de emendas e rasuras, no peito a dúvida ferve,
se nos mais doutos cartórios de Londres, Londrina, Lavras
para assuntos amatórios, teus itens são ilusórios,
só palavras e palavras.

As nulidades tamanhas que te invalidam o trato
não sei se provêm de manhas ou de vistas mais estranhas.
Serão talvez teu retrato gravado em vento ou em sonho
como aéreo documento que nunca mais recomponho.
São todas - digo tristonho - feitas de sonho e de vento.

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