11.10.04

A hora do cansaço
Carlos Drummond de Andrade

As coisas que amamos, as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto. Duram o infinito variável
no limite do nosso poder de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta, numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária, rebaixamos o amor
[ao estado de utilidade.
Do sonho de eterno fica esse gosto acre na boca
ou na mente, sei lá, talvez no ar.

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