2.7.05

O que é triste pode ser bonito. E Lya Luft pode ser legal.

O lado fatal
Lya Luft

I
Quando meu amado morreu, não pude acreditar:
andei pelo quarto sozinha repetindo baixo: "Não acredito, não acredito”.
Beijei sua boca ainda morna, acarinhei seu cabelo crespo, tirei sua pesada aliança de prata com meu nome e botei no dedo.
Ficou larga demais, mas mesmo assim eu uso.
Muita gente veio e se foi.
Olharam, me abraçaram, choraram, todos com ar de incrédula orfandade.
Aquele de quem hoje falam e escrevem (ou aos poucos vão-se esquecendo) é muito menos do que este, deitado em meu coração, meu amante e meu menino ainda.

II
Deus (ou foi a Morte?) golpeou com sua pesada foice o coração do meu amado (não se vê a ferida, mas rasgou o meu também).
Ele abriu os olhos, com ar deslumbrado, disse bem alto meu nome no quarto de hospital, e partiu. Quando se foram também os médicos e suas máquinas inúteis, ficamos sós: a Morte (ou foi Deus?), o meu amado e eu.
Enterrei o rosto na curva do seu ombro como sempre fazia, disse as palavras de amor que costumávamos trocar.
O silêncio dele era absoluto: seu coração emudecido e o meu, varados por essa dourada foice.
Por onde vou deixo o rastro de um sangue denso e triste que não estancará jamais.

(...)

IV
O meu amado tinha coisas de menino: dormia abraçado a mim feito criança, gostava de doce e de ganhar camisas novas de presente.
Usava a água-de-colônia que lhe dei e ria: "Pareço uma Paulina Bonaparte."
Olhava-me tão agradecido ao menor cuidado como limpar seus óculos ou trazer-lhe água, que era como se nunca tivesse tido infância.
(Gostava de rir, embora chorasse algumas vezes a meu lado.)
Abria as portas grandes da varanda de nosso quarto sobre as florestas da Gávea, e de tudo se admirava: "Espantoso! Qual o sentido disso?”.
Quando eu não estava em casa, ficava aflito: telefonava para conferir se eu voltara ao nosso cotidiano: "Sabendo que você está aí, meu mundo fica em ordem."
O meu amado tinha coisas de menino: mas seus olhos eram sábios de entenderem quase toda a miséria deste mundo.

(...)

VIII
(...)
Não conseguia sentar-se mais que meia hora para escrever: vinha ao meu escritório, usava de pretextos para me distrair, dava um beijo, fazia confidências, comentava assuntos do dia.
Quando me via triste, dizia entre compassivo e magoado: "Você hoje está numa melancolia profunda?"
Certa vez discutimos, e ele deixou sobre minha máquina de escrever um bilhetinho: "Hélio Pellegrino ama Lya Luft."
Nunca tivemos mais que vinte anos.

IX
Outro dia sentei-me na beira da cama para aparar as unhas que sempre trago bem rentes.
(Minhas duas mãos pareciam tão solitárias.)
Dei-me conta de que nunca mais ele sentará a meu lado dizendo: "Gosto de ver você fazendo essas coisas bem cotidianas."
Era a primeira vez que cuidava de minhas mãos depois que ele se fora.
Então deitei-me no chão e chorei amargamente por duas horas, sabendo que mesmo que chorasse dois anos ou dois séculos ele não voltaria mais.
(...)

XII
O meu amado era mineiro: mas dos visionários.
Levava-me à sua terra, onde, ébrios de tanta luz e tanto céu, percorríamos a sua juventude: eu integrada nessa vida inteira.
Ouro Preto revisitada muitas vezes, a Serra da Piedade onde escutávamos a paisagem vasta.
Belo Horizonte, e todas as esquinas de antigos ardores: seu coração se abria em confissões noite adentro.
O meu amado era de Minas. Da banda dos visionários: capaz de morrer sem abdicar dos sonhos
(...)

XVI
Não digam que isso passa, não digam que a vida continua, que o tempo ajuda, que afinal tenho filhos e amigos e um trabalho a fazer.
Não me consolem dizendo que ele morreu cedo mas morreu bem (quem não quereria uma morte como essa?)
Não digam que tenho livros a escrever e viagens a realizar.
Não digam nada.
Vejo bem que o sol continua nascendo nesta cidade de Porto Alegre, onde vim lamber minha ferida escancarada.
Mas não me consolem: da minha dor sei eu.

XVII
O meu amado era um homem impaciente: brigava no trânsito, detestava filas, batia portas com força quando perdia suas coisas.
Certa vez rachou um telefone que não dava linha; reclamava de ir ao dentista.
Mas quando um dia chorei porque ele falava aos gritos, andou-me rosas vermelhas que espalhei pela casa toda. Ainda hoje elas florescem para onde quer que eu me volte.

(...)

XXIV
Os amigos dizem que preciso reagir, e reajo.
Não me matei ainda, e provavelmente vou resistir.
Só pela teimosia dos que não acreditam, reajo;
penteio os cabelos, passo pó no rosto, pois os amigos dizem que a vida continua.

Eu, tudo o que queria era trocar o tempo que me resta e pesa tanto por um instante em que pudéssemos repetir (embora não seja preciso, porque ele e eu sabemos) os momentos de amor, e os silêncios de nosso mútuo e pleno entendimento.

XXVI
O meu amado morreu belo como um guerreiro, mas eu não estava preparada.
Morreu iluminado, sem dor, pronunciando meu nome, mas eu não estava preparada.
O meu amado morreu a sua morte toda, a que vinha morrendo desde o nascimento como todos nós.
Morreu nos anos de ternura e relativa paz, morreu pleno de paixão e deixou-me o legado de sua indignação.
Morreu como todos quereriam morrer:
mas eu não estou preparada.

(...)

XXIX
O meu amado era velho e moço, ríspido e cândido, apaixonado e solitário, e compreendeu minha atormentada alma como ninguém.
Achava graça em mim algumas vezes. Mas quando eu lhe dizia sentir medo sem razão no meio da noite (com certeza antecipando a separação que sobrevinha), ele me abraçava calado e sombrio, dizendo: "É para se ter medo mesmo."
Não pronunciávamos então a palavra temida que talvez nos espreitasse nos cantos do quarto.
Só nessas ocasiões ele não me explicava nada.

(...)

XXXV
"Hélio Pellegrino deve estar fazendo comício no céu, andando de braço dado com Freud e discutindo com Marx", disse-me uma amiga.
(Eu sinto-o aninhado, frágil e brilhante, sozinho e amigo, nisto que me sobrou de coração.)

(...)

XXXIX
O meu amado, das muitas coisas que sabia, ensinou-me algumas: conheço mais a mim e aos outros, aprendi a amar melhor a todos e entendi que a morte pode ser também um sonho.
Mas não se iludam: esta que agora escreve, fuma, dirige seu carro e tantas vezes quer morrer, não é a de antes: paixão e morte me derrubaram e caminham sobre mim com suas grandes patas quando ninguém percebe.

XL
Estranho também esse amor, com hora marcada para a mutilação da morte, o minuto acertado, e o fim consultando o relógio para nos golpear.
Estranho esse amor de agora, com meu amado atrás de um espelho baço onde às vezes penso divisar seu vulto como num aquário.
Enrolado em silêncio, mais que nunca o meu amor comanda a minha vida.

XLI
Ainda não acreditei na tua morte.
Visito tua sepultura ao sol do Rio de Janeiro, onde fomos felizes e infelizes e nos amamos tanto.
Mas não acredito. Ponho a mão na pedra que esconde alguma coisa que restou de ti; mesmo assim não acredito.
Deixo flores na laje, saio a andar entre sepulturas anônimas e conhecidas, sozinha ao sol da cidade onde já não moro.
Imagino que deves ter morrido de verdade ou não me deixarias andar ali tão só.
(Quando acreditar em tua morte inteiramente, o que fará meu coração desnorteado?)

(...)

XLIII
Não falem alto comigo: andem sempre na ponta dos pés.
Principalmente, não me toquem.
Finjam que não vêem se tenho um jeito absorto, se nem entendo as perguntas com a rapidez de antigamente, se pareço fatigada e sem graça como nunca fui.
Façam silêncio ao meu redor.
Não me interessa nada o cotidiano nem o místico. Não quero discutir os preços do mercado nem os grandes mistérios da eternidade.
Levo meu amado no peito como quem carrega nos braços para sempre uma criança morta.

XLIV
(...)

Amado meu, vivo em mim para sempre, apesar da ruga a mais e do olhar mais triste, devo-te isto: voltar a amar a vida como agora amas, inteiramente, a tua morte.

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