28.3.07

A Frase
L. F. Veríssimo

O melhor texto de publicidade que eu já vi era assim: uma foto colorida de uma garrafa de uísque Chivas Regal e, embaixo, uma única frase: "O Chivas Regal dos uísques”.
O anúncio é americano. Em algum anuário de propaganda, desses que a gente folheia nas agências em busca de idéias originais na esperança de que o cliente não tenha o mesmo anuário, deve aparecer o nome do autor do texto.
No dia em que eu descobrir quem é, mando um telegrama com uma única palavra. Um palavrão. Que tanto pode expressar surpresa quanto admiração, inveja, submissão ou raiva. No meu caso, significará tudo ao mesmo tempo. "Palavrão PT Segue carta explosiva PT Abraços."
Duvido que o autor da frase receba o telegrama. O cara que escreveu um anúncio assim não recebe mais telegramas. Não atende nem mais a porta. Não se mexe da cadeira. Não lê mais nada, não vê televisão e fala somente o indispensável. Passa o dia sentado, de pernas cruzadas, com o olhar perdido. Alimenta-se de coisas vagamente brancas e bebe champanhe Brut em copos de tulipa. Com um leve sorriso nos cantos da boca.
Foi o sorriso que finalmente levou sua mulher a pedir divórcio. Ela agüentou tudo. O silêncio, a indiferença, as pernas cruzadas, tudo. Mas o sorriso foi demais.
"Bob (digamos que o nome dele seja Bob), você não vai mais trabalhar?"
Sorriso.
"Nunca mais, Bob? Há uma semana que você não sai dessa cadeira."
Sorriso.
"Bob, o Bill disse que no seu lugar na agência está garantido, quando você quiser voltar. Mas eles não podem continuar pagando se você não voltar."
Sorriso.
"As crianças precisam de sapatos novos. O aluguel do apartamento está atrasado. Meu analista também. Nosso saldo no banco se foi com a última caixa de Champanhe que você mandou buscar."
Sorriso.
"Sabe o que estão dizendo na agência, Bob? Que o seu texto para Chivas Regal foi pura sorte. Que foi genial, mas você não faz dois iguais àquele. Você precisa ir lá mostrar para eles, Bob. Faça alguma coisa, Bob!"
Bob fez alguma coisa, descruzou as pernas e cruzou outra vez. Sorrindo.
A mulher tratou do divórcio sozinha. Na hora das despedidas ele inclinou-se levemente na poltrona para beijar as crianças mas não disse uma palavra. Continua sentado lá até hoje.
Levanta-se para ir ao banheiro, trocar de roupa e telefonar para fornecedores de enlatados e champanhe. Os que ainda lhe dão crédito. O resto do tempo fica sentado, as pernas cruzadas, o olhar perdido e o sorriso.
Uma faxineira vem uma vez por semana, limpa o apartamento (há pouco para se limpar, ele não toca em nada.) e vai embora. Abanando a cabeça. Pobre Senhor Bob. Um moço tão bom.
Os amigos preocupam-se com ele. A agência lhe faz ofertas astronômicas para voltar. Ele responde a todos com monossílabos e vagos gestos com o copo de tulipa. E todos vão embora, abanando a cabeça.
Contam que a mesma coisa aconteceu ao 1º homem que escalou o Everest. Para começar, quando chegou ao topo, no cume da montanha mais alta da Terra, ele tirou um banquinho da sua mochila, colocou o banquinho exatamente no pico do Everest e subiu em cima do banquinho! O guia nativo que o acompanhava, não entendeu nada. Se entendesse, estaria entendendo o homem branco e toda a história do Ocidente. De volta a civilização o homem que conquistou o Everest passou meses sem falar com ninguém e sem olhar fixamente para nada. Se tinha mulher e filhos, esqueceu. E tinha um leve sorriso nos cantos da boca.
Você precisa entender que quem escreve para a publicidade está sempre atrás da frase definitiva. Não importa se for sobre um uísque de luxo ou uma liquidação de varejo, importa é a frase. Ela precisa dizer tudo que há para dizer sobre qualquer coisa, num decassílabo ou menos, Tão perfeita que nada pode segui-la, salvo o silêncio e a reclusão. Você atingiu seu próprio pico.
Bob tem duas coisas a fazer, depois de passada a euforia das alturas. Uma é voltar para a agência, mas com outro status. Por um salário mais alto, apenas perambulará pelas salas para ser apontado a novatos e visitantes como autor da frase. Aquela.
"Você quer dizer.... A frase?"
"A Frase"
Outra é começar de novo em um novo ramo. Como uma banca de chuchu na feira, por exemplo. Ele não precisa conquistar mais nada, é o único homem realizado do século.
Mas por enquanto Bob só olha para as paredes. De vez em quando, diz baixinho:
"O Chivas Regal dos uísques...".
E aí atira a cabeça para trás e dá uma gargalhada. Depois descruza e recruza as pernas e bebe mais um gole de champanhe.

4 comentários:

Bruno disse...

Linda, inteligentíssima, um charme, engraçadÍSSIMA, espirituosa... inacreditável e inabalável. Tem que ser segura mesmo porque ninguém te ameaça. O mais legal é que não sabe o quanto é sensacional.
Sorte de quem te tem. E pra quem queria ter, pega a senha e entra na fila (bota fila nisso... desde adolescente a maior destruidora de corações masculinos...).
Te amo, Driquinha. Tô com saudade. Adorei o blog.

Gravatai Merengue disse...

Eu acho esse texto bem legal!

Bruno Kim disse...

Obrigado por compartilhar essa crônica. O Luís é sempre muito bom, mas essa é excelente, e ficou impregnada na minha mente por anos!

E, realmente, a frase é muito boa. De vez em quando uso em outros contextos, e sempre impressiona. Sou como esses publicitários sem inspiração, esperando que os outros não tenham lido a crônica também :)

Gabriel OLIVEIRA disse...

Descobri o nome do autor, é Bill Harris! Imagino se o Veríssimo descobriu também...