11.11.07

Um dos mais lindos do mundo:

Álvaro de Campos

Quando eu não te tinha
Amava a natureza como um monge calmo a Cristo...
Agora amo a natureza como um monge calmo a Virgem Maria...
Religiosamente, a meu modo, como antes,
Mas de outra maneira, mais comovida e mais próxima...
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor...
Tu não me tiraste a natureza...
Tu mudaste a Natureza...
Trouxeste a Natureza para o pé de mim.
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Porque tu me escolhestes para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as coisas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou...

Um comentário:

Gravata disse...

Talvez seja atrevimento hermenêutico de minha parte, mas fica a impressão de que Fernando Pessoa começa falando da natureza-natureza de depois vai para a natureza humana.

Principalmente quando fala em "mudar a natureza".

Poema bem foda esse!