13.10.07

O cinema faz 100 anos
Millôr Fernandes

(I) Um simples fósforo ilumina uma sala do tamanho do Maracanã.
(II) Todo carro que bate explode imediatamente.
(III) Mesmo dirigindo a 200 numa estrada perfeitamente reta, quem guia vira sempre fortemente o volante pra direita e pra esquerda, ignorando a reta e a direção hidráulica.
(IV) Em qualquer perseguição de automóvel os perseguidores encontram facilmente uma vaga exatamente no local em que os bandidos saltaram.
(V) Numa casa apavorante, as heroínas, devidamente aterrorizadas, sempre vão atrás dos ruídos noturnos vestidas em camisola que lhes deixa à mostra todo o permitido.
(VI) Telas de computador nunca exibem cursores. Dizem logo ENTRE. E em seguida SENHA.
(VII) Ninguém, em cafés, restaurantes, ou em casa, come tudo que tem no prato. Exceção para filmes italianos.
(VIII) Os camponeses medievais sempre têm dentes perfeitos apesar de a odontologia nem ter sido inventada.
(IX) Todas as bombas vêm com numerais bem visíveis, de modo que o mocinho sabe quantos segundos tem para salvar o avião, ou o navio, ou o quarteirão.
(X) Se, num arroubo romântico, uma pessoa resolve dançar na rua, as pessoas em quem ela esbarra não só não lhe dão uma porrada na cara como aderem à sua euforia. E sabem todos os passos da dança.
(XI) Sempre se paga o táxi com qualquer nota, por mais curta ou longa que seja a corrida.
(XII) Sadicamente o departamento de polícia sempre dá a um policial um companheiro de ronda que lhe é frontalmente contrário. Junta mulher feminista com machista, louro nazista com negra psicóloga, garanhão com gay.
(XIII) Mesmo quando estão sozinhos, personagens (árabes, brasileiros, romenos, tchecos) falam inglês entre si.
(XIV) Qualquer porta, por mais sólido que seja o edifício, abre com um pontapé ou ombrada. A não ser que o edifício esteja pegando fogo e dentro haja uma linda criancinha negra.
(XVI) O Jornal da Tevê dá sempre uma notícia que afeta diretamente o personagem da história.
(XVII) Por mais recatado que seja o filme, sempre que há qualquer confusão alguém se encontra com alguém num bar de strip-tease.
(XVIII) Durante uma perseguição, no México, na Itália, em Estocolmo, em Nápoles, há sempre uma procissão ou uma parada que se realiza exatamente naquele momento.
(XIX) O sistema de refrigeração dos edifícios sempre dá passagem mais ou menos fácil para pontos de fuga.
(XX) Todas as camas de casal têm lençóis em L, que cobrem a mulher até os seios e os homens só até a cintura. (Exceto em Don Juan DeMarco. Marlon Brando precisa cobrir seus seios mais do que Faye Dunaway)
(XXI) Em filmes de guerra, o herói não precisa falar alemão pra se passar por alemão. Basta carregar no sotaque.
(XXII) A Torre Eiffel pode ser vista através de qualquer janela de Paris, o Pão de Açúcar de qualquer janela do Rio, o Big Ben de qualquer janela de Londres.
(XXIII) Em delegacias de polícia tem sempre um negro, ou uma mulher chata, mandando em algum setor. E ninguém diz nada racista ou machista (mesmo quando eles estão fora de cena).
(XXIV) Uma pessoa sofrendo de sonambulismo sempre caminha pro precipício ou beiral do edifício de vinte andares.
(XXV) Qualquer laptop de quinhentas pratas é capaz de interromper o sistema de comunicação das hordas invasoras do século XXX.
(XXVI) É facílimo aterrizar um Boeing, desde que alguém na torre dê as instruções corretas.
(XXVII) O batom nunca sai dos lábios, mesmo que a moça mergulhe ou dê uma daquelas do tipo atração fatal.
(XXVIII) Se um assassino paranóico ronda a casa, é fácil a heroína atraí-lo. Basta tirar a roupa e tomar um banho de espuma.
(XXIX) Todo mundo tem álbum de recortes, sobretudo se alguém morreu de morte misteriosa.
(XXX) Quando a moça apaga a luz, o quarto continua perfeitamente visível, só meio azulado.
(XXXI) Heróis nunca são incomodados pelo que fazem, mesmo que destruam toda uma cidade pra agarrar um ladrão de galinha.
(XXXII) Se há um criminoso solto e há uma perseguição na estrada isso sempre coincide com uma nevasca, enchente ou avalanche.
(XXXIII) Desprezando dar uma boa cacetada na cabeça do prisioneiro, megacriminosos preferem matar seus arquiinimigos usando máquinas complicadas com fusos, parafusos, cordames, gases, ou poços sinistros com tubarões famintos, o que dá às vitimas tempo suficiente para escapar.
(XXXIV) Assim que acaba a munição, a pessoa joga a arma fora (aproximadamente 1.500 dólares) e pega outra.

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