23.11.10

Rita Ritinha Ritona
Dalton Trevisan

Aos 13 anos, Ritinha floriu numa orgia de beleza. Toda graças e prendas. Foi um susto na família. Um espanto entre as amigas. Uma surpresa a cada desconhecido.
À sua passagem, os cãezinhos a passeio presos na coleira davam duplos saltos-mortais de alegria. Nas janelas os vasinhos de violeta batiam palmas para lhe chamar a atenção. As pedras mudavam de lugar na calçada, cada uma disputando o afago do seu pezinho. Os semáforos se acendiam em onda verde, não atrasá-la caminho da escola. Um bando de garças voou lá do Passeio Público para vê-la.
Desde menina dançou balé, estudou inglês, atirou-se do trampolim mais alto na piscina. Tinha seu próprio quarto, com tevê e computador. Cartazes de Paul McCartney e O beijo, de Klimt. Uma foto do selvagem Brando.
Aos 15 anos, de um dia para outro, segundo susto, novo espanto, maior surpresa. No seu corpo aconteceu um milagre da natureza: ó delírio de curvas, doçuras e delícias!
Ao vê-la da primeira vez, você logo suspirava: Ai, Rita, meu amor! De joelho e mãozinha posta. Igual se deslumbrou diante do mar nunca visto - as grandes ondas rebolantes desse mar de olhos verdes, des pen teando ao vento as longas melenas loiras de espuma. E, tocado de tal assombro, gemerá para sempre: Ai, Ritinha, Rita, Ritona!
Para ela, cada dia era uma festa. O telefone da casa nunca mais parava de tocar. Um namorado novo toda semana, às vezes dois ao mesmo tempo. Nunca chegava sozinha e sim num arrastão de amigas, taga relando e rindo - alarido festivo de baitacas em revoada.
Ao seu lado, todas ficavam feias e pálidas. Perturbada com o próprio esplendor, buscou em vão esconder a beleza e exagerava no disfarce. Setenta e sete tipos diversos de brincos. Correntinha no tornozelo. Mil cores de batom para combinar com a roupa. Unhas também coloridas, miniatura em cada uma. Um armário de minissaias.
Nas temporadas de praia, Rita namorou quanto banhista possível. O vizinho tinha gêmeos. Num verão foi um dos irmãos; no seguinte, o outro. Resistir, quem podia? Estrela rósea do mar, em quatro modelos de biquíni. Chapéus, cangas, sandálias. Mil presilhas e elásticos no cabelo. Arsenal devastador para uma jovem matadora de corações.
Foi a todas as festinhas consentidas pelo catolicismo dos pais - e sem permissão a outras tantas. Sob a mansa beleza, não se iluda: uma leoa rondava lá dentro. Às proibições sempre injustas, segundo ela, reagia com violência, aos gritos. Ai de quem a enfrentasse:
- Não pode, mocinha. Papai não deixa. Deus não quer.
Os grandes olhos verdes trovejavam raios. Na seqüência de argumentos, Ritona era fulminante:
- Que é que tem de mais?
Agressiva:
- A vida é uma só.
Vencendo definitiva a discussão:
- Eu não pedi para nascer.
Na celebração dos 16 anos, disputada pelo bando de amigas (do colégio, do inglês, do balé, da igreja, da vizinhança) e pelos ex, atuais e futuros namorados. Rita afirmou o seu direito a tudo: banda ao vivo, o vestido decotado, cabelo e maquiagem de mulher. Valsa com o pai, o avô, o irmão e o amigo mais íntimo. Mil damas de honra, cada uma com uma rosa na mão - ela a rainha única da festa.
Foi a sua última festa.
Pouco depois conheceu o José. Não sei onde nem como. Suponho que em algum evento de jovens ecu mênicos, porque ele é calvinista. As igrejas gostam de promover atividades esportivas e culturais para adolescentes e jovens. Em todo caso, não sei. Só que, ao vê-lo, Rita sentiu no peito doendo fininho sete alfinetes de fogo.
Ele foi a sua ruína. Quando começou, ninguém se apercebeu - apenas mais um de uma longa lista. Após dois, três meses, começaram a ficar impressionados. Tomara juízo afinal e assentava a cabecinha naquela sucessão frenética de casos?
Passado meio ano, a família decidiu reparar no rapaz e descobrir o que a filha via nele. Até então, o José aparecia uma e outra vez em algum aniversário. Mais não fazia que cumprimentar de longe. Quieto no seu canto, com ninguém falava. Opinião unânime: bonito não era. Nem interessante ou divertido. Porte atlético? Nunquinha: magrelo e esquálido. Ao aparecer de calção na praia, verificaram que as pernas, além de cabeludas, eram cambaias. Quais podiam ser os seus atrativos secretos?
A essa ausência deles, Ritinha respondia com olhos submissos e alumbrados - bem suspeitaram fosse presa de algum feitiço. Era a mesma rebelde que despedia os pretendentes com enfado e arrogância? Até a vez dele fo ra tão louca, festeira, prepotente. E a família acei tou aliviada aquele namoro exclusivo. Por isso custaram a notar as pequenas mudanças no seu com portamento.
A maquiagem foi aos poucos sumindo, ao José não agradava. Batom vermelho-fogo nunca mais. As saias aumentaram, agora mais compridas que as da mãe, abaixo do joelho. Salto alto nem pensar, ficava um tantinho maior que ele. Das amigas foi se afastando, uma a uma. Para o José, esta era muito exibida. Aquela, má companhia. Uma terceira, invejosa.
Às festas só podia ir com ele. E como ele não era de festa... As bijuterias, correntinhas, brincos, deu à irmã caçula. E, para consternação da família, surgiu na praia - oh, não - de maiô preto inteiriço. (Lá de longe eis que vinham as pequenas ondas, uma atropelando a outra, na ânsia de ser a primeira a beijar em flores de espuma os seus róseos pezinhos.)
Desgosto da mãe: começou a freqüentar o culto cal vinista. Desespero do pai: desistiu do inglês. Na reunião urgente da família, Ritona se defendeu com a antiga ferocidade. Os pobres pais reconheceram desiludidos que tudo era inútil: proibição de sair, mesada reduzida, ameaça, sermão e lágrimas. Uma só concessão ela fez: concluir a graduação do inglês.
Já que ela não saía, o José passou a freqüentar diariamente a casa. Quanto ao inglês, estudavam juntos - e o que podiam agora os pais alegar? No caso de festa muito especial (um grupo do colégio, uma amiga, um clube), o distinto se recusava a ir. A guerreira adormecida se insurgia, pronta a desafiá-lo. No início conciliadora, pedia e suplicava. Afinal:
- Então vou sozinha.
- Pode ir - ele não discutia. - Só que está acabado. Entre nós tudo acabou.
Covardemente, a leoa já lambia a mão com o chicote.
Às vezes iam ao cinema. Ele esperando na sala. Ela chegava lindíssima, a cabeleira de fogo e mel, o vestido vermelho novo - os seios de cornucópia à vista com todos os frutos da terra.
- Ah, não. Esta saia é muito curta.
- Com você assim eu não saio.
- E esse cabelo? Não tem escova?
Nunca um elogio. Ritinha voltava chorando ao quarto. Calada, trocava de roupa. E acabavam não saindo.
Passados um, dois anos, a família odiava o nosso maniqueísta da saia curta, o discípulo fariseu de Cal vino, o capeta de bigodinho que roubava da garota o riso, a luz, o verde dos olhos. Então era tarde: ela fez 18 anos. Agora maior e senhora do seu destino.
José vem todo dia jantar na casa. Filho único de uma viúva de militar, da qual tem vergonha e mantém escondida. Rita enfeita o seu lugar à mesa: todos os quitutes ao alcance da mão. Ai, o patê de salmão que o tipo gosta. O presunto cru que o fulano gosta. O queijo fresco que o tal gosta.
A família mal o tolera. Às vezes retiram-se antes dele chegar. Ao distinto (evitam pronunciar o seu nome) é indiferente, serve-se com o apetite de sempre. Não conversa. Você só escuta a voz amorosa de Ritinha:
- Hoje na aula de Anatomia...
- Estou pensando se você...
- Que tal o tempero, amor?
- Aceita mais um pouquinho de...
Foi então que aconteceu. No seu monólogo se referiu quem sabe a algum novo passo de dança. Ele acabou de comer, cruzou os talheres e decidiu o fim do balé. A moça não podia acreditar:
- É o que faço desde pequena!
- Bem por isso. Já foi bastante.
- O que mais adoro!
- Mais que a mim?
- Não... não...
Agora é demais. O tirano se desmanda no seu poder absoluto. Uma tragédia para ela. Um escândalo para a família, que exulta: chegou a hora da verdade. Sem falar, Rita se recolhe ao quarto - todos à espera do rugido da leoa.
Dois, três dias ele não voltou. A guria chorando trancada no quarto. Ao anunciar enfim que desiste do balé, duramente criticada.
- Quem acha esse tipinho que é?
Ela, uma rainha de Sabá. Ele, um caniço de pernas tortas. Tudo a moça ouve, cabecinha baixa, sem sorrir.
À noite, quem estava lá, se deliciando com o patê e o presunto? Entre beijos gulosos de uma canarinha à sua volta trinando feliz. O amor, essa coisa, sabe como é.
O pai resolve, em desespero, enfrentar o carinha: aos 20 anos, sem emprego fixo, é dependente da mãe, da qual ganha uma pequena mesada.
- Olhe aqui, mocinho. Veja esta casa. Veja a vida que tem a Rita. Acha que pode lhe oferecer as mesmas regalias?
- A gente não precisa de dinheiro. A gente se ama. É isso que importa pra gente.
- Só que o amor não paga as contas.
- O senhor diz isso porque vive no luxo.
- Ah, é? Luxo que você bem desfruta.
- É só falar. A gente não pisa mais aqui, não.
Interrompidos por um grito de súplica e dor:
- Pai!
O velho baixa o tom da voz:
- Não foi o que eu... Mas pense no teu futuro, moço.
Na primeira oportunidade, em breve ausência da moça, torna ao ataque:
- Você não é marido para a minha filha.
- Quem tem de dizer é só ela. Mais ninguém.
A mãe receia que as discussões provoquem a antecipação do casamento. Sua esperança é de Rita se interessar, nos dois anos finais de faculdade, por algum colega ou médico do hospital. Pouco importa católico ou luterano - basta não seja o abominável fulaninho.
Para aflição geral não é que a garota fala em casar? E, duplo desgosto, na Igreja Calvinista. A família se une em vã tentativa de dissuadi-la. Nenhum de nós o aprecia. Os que não odeiam, mal o toleram.
José continua impávido no seu silêncio. Toda noite, senta-se à mesa e come até se fartar. Ainda esquá lido e magro. Na falta do balé, quem engorda é a nossa Ritinha. Mais linda nas curvas mais sinuosas. Um tantinho triste. E nela mesmo a tristeza lhe assenta bem.
Os viajantes de longes terras, ao falarem da nossa cidade anos depois, se lembrarão apenas - ó alegria para sempre! - da garota sem nome, entrevista por alguns instantes, caminhando por entre as nuvens, no seu vestidinho branco de verão.
Se você lhe pergunta:
- Rita, meu amor, vamos ao cinema?
Ou:
- À casa da Paula?
Ou ainda:
- Às compras no shopping?
A cada vez, Rita, Ritinha, Ritona se agita. Pessegueiro em flor pipilante de pintassilgos. Oh, não, olha para o tipo... Que simplesmente franze a testa.
Ela deixa a tua pergunta sem resposta. Faz um gesto indiferente. E, diante da janela, se põe a falar do sol que brilha ou da chuva que cai.

Um comentário:

Romina Ferreira disse...

Dri,

Qyue delícia de texto. E eu que conheço várias Ritas...affff...vai entender este tal do amor? Beijo querida.