16.10.08

Poética
Manuel Bandeira
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Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
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Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
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Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
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Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
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- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

2 comentários:

Carol disse...

Sabe quando a gente tá perto do mar e vem, de repente, aquela brisa que festeja com os nossos cabelos e faz cócegas na alma?

Foi isso que beu senti quando li esta poesia.

Beijos! :D

Carol disse...

Aí depois de uma hora a louca aqui volta porque esqueceu de agradecer.

Não é todo dia se sente coisas assim!

Muito obrigada, Dri!

:)