8.1.06

:: Hoje ::
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Desencontro Marcado (Aldir Blanc): É, não vem, / não vou. / Deixa pra lá, / depois se vê. / Você queima / e eu não ponho / a mão no fogo por você.
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A Hora do Cansaço (Carlos Drummond de Andrade): As coisas que amamos, as pessoas que amamos são eternas até certo ponto. Duram o infinito variável no limite do nosso poder de aspirar a eternidade. Pensá-las é pensar que não acabam nunca, dar-lhes moldura de granito. De outra matéria se tornam, absoluta, numa outra (maior) realidade. Começam a esmaecer quando nos cansamos, e todos nos cansamos, por um outro itinerário, de aspirar a resina do eterno. Já não pretendemos que sejam imperecíveis. Restituímos cada ser e coisa à condição precária, rebaixamos o amor ao estado de utilidade. Do sonho de eterno fica esse gosto acre na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.
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A despedida do amor (Martha Medeiros): (...) É uma dor mais amena, quase imperceptível. Talvez, por isso, costuma durar mais do que a dor-de-cotovelo propriamente dita. É uma dor que nos confunde. Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é outra. A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos, que nos colocava dentro das estatísticas: eu amo, logo existo. Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente.
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Carta de navegação de um caso que acaba (Carlos Heitor Cony): (...) Nada. Deste meu nada, receba este amontoado de pranto que foi o meu amor. E por toda a vida, toma a minha vida.
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Tolerância pro amor (Martha Medeiros): (...) Até onde podemos ir? Até o limite do suportável. Um belo dia, depois de inúmeras repetições do mesmo erro, a gente desiste. Com tristeza pela perda, mas com alegria pela descoberta, diz pra si mesmo: “cheguei até aqui”. E, então, a vida muda.
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(Pablo Neruda): Já não se encantarão meus olhos em teus olhos, já não se achará doce minha dor a teu lado. / Mas por onde eu caminhe levarei teu olhar e para onde tu fores levarás minha dor. / Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos um desvio na rota por onde amor passou. / Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame, do que corte em teu horto aquilo que eu plantei. / Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste. / Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou. / ...Desde teu coração diz adeus um menino. E eu lhe digo adeus.


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